18 de novembro de 2011

O simples e irrefutável argumento de Cheung

O texto que segue já foi publicado no RVJ. Como sempre, tudo o que se refere ao autor traz polêmica. Polêmica por parte de seus fãs brasileiros, é claro.

Eu recebi muitas críticas deles. A maior parte procura ou uma justificação moral de Cheung ou uma acusação moral contra mim. Algumas são mesmo agressivas, mostrando que os alunos procuram imitar seu mestre. Algumas poucas se atém ao texto ou, especificamente neste caso, ao argumento criticado. Mesmo assim, rápido perdem o foco.

Talvez, a única crítica interessante que recebi, embora ainda envolta em acusações morais, seja a de que não propus prova dos três primeiros parágrafos. Bem, nunca foi minha intenção propor prova disso, mas a crítica procede. Pelo que, mantendo meu desinteresse pela prova, sugiro a leitura de um texto que me foi sugerido por outrem: I'm The Best Around, Nothing's Ever Gonna Bring Me Down, cujo autor procura tal demonstração. De resto, mantenho que Cheung se posta por "além de um excelente teólogo, com ares proféticos, um exímio filósofo de raciocínio isento de falhas". Como dizem seus próprios fãs, seus textos falam por si.

Também mantenho que minhas críticas são pontuais. Já questionei seu conhecimento filosófico em duas oportunidades, quanto ao pensamento sobre o mal de Agostinho e quanto a sua metafísica. No primeiro caso por equívoco, no segundo por simplismo (o que é bem diferente de simplicidade). Agora critico seu raciocínio lógico.

Mas deveríamos gastar nosso precioso tempo com Cheung? Fosse outro o caso, eu diria que não. Mas a cegueira que se impõem seus fãs me força a dizer que sim. Se bem que eu saiba que a reação padrão seja a de oposição a mim, pura e simplesmente porque critico seu ídolo, há da haver alguém que perceba: "Opa, Cheung não possui argumentos isentos de críticas, e ele deve passar por seu próprio crivo". Esperança de tolo, talvez. Mas, talvez tolamente, confesso-me este tipo de tolo.

Segue, finalmente, o texto...

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As pessoas pensam que tenho "birra" de Cheung. Fosse algo gratuito, eu aceitaria a pecha. Mas não é. Meu ponto contra ele é que ele se coloca como, além de um excelente teólogo, com ares proféticos, um exímio filósofo de raciocínio isento de falhas.

Ele enche o texto dele de silogismos, acreditando que com isso faz argumentos irrefutáveis numa lógica perfeita. Pois bem, se concordo com Cheung quanto aos pontos teológicos todos que li até agora, critico fortemente estes silogismos. Na verdade, critico mais que os silogismos, critico seu uso falho da lógica e questiono seu conhecimento filosófico.

Nada disso seria de se criticar se ele mesmo não se colocasse numa condição de excelência. E se seus leitores não o pusessem em altivo pedestal. Qualquer um pode errar, exceto se arroga infalibilidade. Qualquer um pode ignorar, exceto se aquilo que ignora quer ensinar. Infelizmente, Cheung não é inocente nestes quesitos. E tanto mais prejudicial ele se torna quanto mais seus leitores aceitam o que diz.

Minha mais recente "briga" com ele diz respeito ao texto Cessacionismo e o Falar em Línguas, um texto em "quatro atos" contra o cessacionismo. E é uma briga puramente lógica, mais especificamente num argumento dito simples e pretensiosamente definitivo.

Mas, antes, e apenas para exemplificar a falta de rigor de Cheung, vejam uma clara contradição em seu texto em seu segundo "ato":

Quando diz respeito à continuação dos milagres, quer ocorram a uma pessoa ou por meio de uma pessoa, a doutrina da soberania de Deus resolve o assunto.

Todavia, devemos reconhecer que a questão não é resolvida afirmando-se a mera doutrina da soberania de Deus, visto que ela tem a ver com como ele usa essa soberania com relação aos dons espirituais, e o que ele revelou na Escritura sobre isso.

Afinal, a soberania divina resolve ou não resolve o assunto/questão? É claro que o contexto poderia redimir, pelo menos parcialmente, a contradição, pois Cheung está a acrescentar variáveis. Digo "parcialmente" porque, embora o texto de fato venha num crescente quanto ao assunto, a contradição permanece, não é eliminada. E digo "poderia redimir" porque é um erro perdoável. Mas não. É um erro menor em todo contexto, mas imperdoável falta de rigor para quem se posta por logicamente infalível e irrefutável.

Mas vamos ao trecho foco da contenda:

Deixe-me aplicar primeiro meu argumento simples contra o cessacionismo ao caso do falar em línguas. Paulo escreve: “Não proíbam o falar em línguas” (1 Coríntios 14.39, NVI). Mas se todos os dons espirituais cessaram, então as línguas cessaram. E se as línguas cessaram, então todas as alegações de falar em línguas hoje são falsas. Se todas as alegações de falar em línguas hoje são falsas, estão devemos proibir o falar em línguas. Em outras palavras, se o cessacionismo é correto, então estamos obrigados a fazer exatamente o oposto do que Paulo ordena nesse versículo sobre a base que a situação mudou, de forma que a mesma preocupação apostólica requereria que proibíssemos todo o falar em línguas.

Contudo, transformar “Não proíbam o falar em línguas” em “Sempre proíbam o falar em línguas” requereria um argumento bíblico que fosse igualmente explícito, ou se este deve vir por dedução ou inferência, que seja um raciocínio perfeito, infalível, sem qualquer possibilidade de erro ou lugar para crítica. De outra forma, ninguém tem autoridade para dizer que o falar em línguas cessou, e ainda menos para proibir o falar em línguas.

Deve-se notar que Cheung não chama outros textos bíblicos para seu argumento, exceto Mt 5.19 no paragráfo seguinte como um autorizador da ordem em I Co 14.39. O que Cheung pretende com tal "argumento simples" é com ele somente ter prova contra o cessacionismo. Não que não deva ter outros argumentos. Cheung não seria assim tão estúpido. Provavelmente o conjunto de seus argumentos será convincente. Eu provavelmente concordarei com ele ao fim, dado que sou continuísta (quase cessacionista, em espelho a Calvino, como costumo brincar). Mas terá este argumento sozinho alguma força? Afirmo antecipadamente que não.

Há pelo menos dois grandes erros no argumento, um non sequitur e uma petição de princípio, além de não ser mais que uma tautologia.

O non sequitur

Se todas as alegações de falar em línguas hoje são falsas, estão devemos proibir o falar em línguas.

Se o cessacionismo é correto, então estamos obrigados a fazer exatamente o oposto do que Paulo ordena nesse versículo sobre a base que a situação mudou, de forma que a mesma preocupação apostólica requereria que proibíssemos todo o falar em línguas.

Em resumo, ele diz: "Se o cessacionismo é correto e as alegações falsas, estamos obrigados a proibir o uso de um dom". (Dons "extraordinários", leia-se. Mas dado que eu mesmo discordo de algo aqui e este algo não está em discussão, eu me dou o direito de mencionar "dom", simplesmente.)

Colocando a coisa da forma mais simples possível, se o cessacionismo é correto, não há dom para se usar, pelo que proibir o uso do que não há é uma bobagem.

O ponto é que o proibir não é uma necessidade que se segue do cessacionismo estar correto ou das falsas alegações. "Devemos fazer o oposto do que diz o versículo", diz Cheung. Mas, ora, por qual razão? Pode-se simplesmente ignorar o falso uso do dom, por exemplo.

Ele dirá também que, por ser um uso antiblíbico, então devemos proibi-lo. Ora, isto carece de uma prova que não é demonstrada e, ao contrário, é uma pressuposição deveras questionável, facilmente compreensível apenas por seus rompantes pseudo-proféticos. (E que, fugindo ao ponto, remete-me ao debate teonomista...)

Em todo caso, estas pressuposições são abundantes em Cheung e isto nos leva ao próximo ponto.

A petição de princípio

Aqui chamo a ajuda do diálogo travado com meu amigo e querido confrade Clóvis no seu Cinco Solas. Diz ele:

O argumento de Cheung ficaria assim (assumindo a cessação dos dons):

1. Se o dom de línguas cessou, então
2. falar em línguas é antibíblico, logo
3. o cristão deve proibir falar em línguas.

Porém, proibir falar em línguas conflita com o que Paulo demandou: "não proíbam falar em línguas".

Ao que eu respondo:

Você esqueceu de dizer: "assumindo também que a proibição paulina é para todos os tempos". Não percebe que isto torna o pensamento circular? "Vou provar que a ordem paulina é para todos os tempos: assumamos que a ordem paulina é para todos os tempos..."

Mais precisamente, o argumento cheunguiano diz: "os dons são para todos os tempos e o cessacionismo falso, então os dons são para todos os tempos e o cessacionismo falso". Mas, bem, devo eu explicar a razão destas minhas simplificações...

O que se quer, pelo argumento, é mostrar a contradição interna do cessacionismo que o faz falso. Porém, para mostrar isso, admite-se que que a ordem paulina é para todos os tempos. Isto porque, obviamente, admite-se também que dons não cessaram. Então admitindo-se que os dons não cessaram, afirma-se que o cessacionismo é falso, ou seja, que os dons não cessaram. Ora, esta é a petição de princípio, "uma falácia não formal em que se tenta provar uma conclusão com base em premissas que já a pressupõem como verdadeira".

Mas, ora, é justo isto que os cessacionistas contestam, isto é, consideram a premissa pressuposta falsa! É impressionante que, nas discussões, as pessoas assumam que isto é um pressuposto do argumento e continuem a considerar o argumento bom.

A tautologia

Agora vejamos: diz o argumento algo novo? Aceitemos o raciocínio, desconsiderando a premissa contestada e esquecendo os saltos lógicos... Que diz o argumento?

Diz ele que, dada uma ordem, se você a desobedece, então você a desobedece. Claro, implicitamente: então você está em pecado por desobedecer ao que dizem as Escrituras. Esta é a contradição com que se pretende falsificar o cessacionismo.

Mas, ora, quanto ao argumento, nada mais óbvio. Dadas as concessões acima, o argumento é verdadeiro, tal como dizer que um quadrado tem quatro lados. Mas em nada ajuda a resolver a questão. E a questão é se dons cessaram. Isto é, o cerne da discussão está fora do argumento.

Então o cessacionista poderá dar de ombros e dizer: "É claro, dada uma ordem, a desobediência é pecado. Mas esta ordem não é para mim, pois dons cessaram."

Então se diz que o cessacionista terá que explicar a validade ou aplicabilidade do versículo e sua ordem. Deste e de outros tantos. Bem, não tenho dúvidas que o cessacionista encontrará seus argumentos, por um lado, e que eu não concordarei com eles, por outro. Mas isto já é uma discussão que foge por completo do âmbito do argumento apresentado, pelo que ela não serve para dar-lhe força por si. Ainda mais por como ele foi usado. Por Cheung e alhures.

À guisa de conclusão

Então alguém me perguntará se o texto de Cheung é assim tão ruim. Não, não é. Não é nenhum primor, mas ruim também não é. Ruim é este argumento em meio ao texto. Ruim é a arrogante megalomania lógico-teo-filosófica dele. Ruins são os chatíssimos rompantes condenatórios de um pretenso profeta.

Mas sempre se pode encontrar o que se aproveite. No entanto, seus textos, pelos resultados mostrados por seus leitores, ainda têm feito mais mal que bem para suas mentes. O que é realmente uma pena.

SDG!

2 comentários:

  1. irmão ja fui um assiduo leitor e defensor das ideias de cheung, no entanto ao observar a vida prática de seus leitores, e a minha própia percebi o que o irmão diz que traz mais mal que bem;pensei que alguns amigos,irmãos também se dariam conta disso fazer o que oro para que Deus os ilumine para que lembrem-se que só a biblia é infalivel. SOLA SCRIPTURA

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  2. Caro Luilton,
    Suas palavras me chegam como um alento.
    E é bom prestarmos atenção ao que diz: olhemos para nós mesmos. E acrescento: ao olhar, voltemo-nos a Deus. E volto a você: a Palavra somente é infalível!
    Obrigado pelo comentário.
    NEle,
    Roberto

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