6 de janeiro de 2013

Homilia 3

Não é bem um esboço, mas uma "transcrição" (um texto corrido que eu usei de base para um esboço). E é bom retomar a série depois de tanto tempo com uma mensagem que foi dada hoje, também depois de muito tempo sem ministrar (sei lá, acho que faz mais de dez anos). Quem me acompanha no blog e e outros lugares reconhecerá temas que me são caros e soibre os quais Deus tem enchido meu coração, assim como trechos de postagens. É uma pregação temática, obviamente, já que não sou um "pregador regular". E o texto base pode aparecer apenas como um "pretexto". Mas não o conteúdo.

A mensagem foi ministrada em 06/01/2013 na Igreja Presbiteriana de Canela. Espero que seja apenas a primeira...

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VIDA ABUNDANTE

Texto base: João 10.10 

O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

Tema: vida em abundância. Abundância é, em grego, perissos, que pode ser traduzido também por excelente, ou mais excelente. É sobre viver esta vida em excelência, uma vida abundante, que quero meditar com vocês esta noite.

Contexto: Jesus é o Bom Pastor. Ele é quem dá a vida por suas ovelhas, para que estas tenham vida. Não uma vida qualquer, uma vida comum, mas uma vida que um pastor deseja às suas ovelhas. Dito de outra forma, uma vida que um Deus, e não um deus qualquer, mas o Deus Vivo, o Todo Poderoso que, entre outras coisas, é Todo Amor e cuida dos Seus conforme Seu Amor.

1. Felicidade

Um primeiro aspecto de uma vida abundante é a felicidade.

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" (Mt 5.4).

O cristianismo é cheio de paradoxos. Este é apenas um deles: felizes os que se entristecem. A felicidade não existe sem choro. E como é isto?

À noite todos os gatos são pardos. É um dito popular. Já ouviram? Pois é, de fato, vivemos todos em trevas. E na escuridão em que vivemos, olhamos aos nossos semelhantes e os consideramos todos iguais. E nós os vemos pardos. Por isso nos consideramos melhores que eles. Enquanto eles fazem isso ou aquilo, e quase tudo errado, nós fazemos assim e assado, quase tudo certo. Somos bons e, embora esteja escuro e não possamos nos ver claramente, sabemos de alguma forma que não somos pardos.

Mas então, um dia, uma Luz se aproximou de nós. Primeiro fugimos dela, porque ofuscava sobremaneira nossos olhos. Mas a Luz se nos apresentou de tal maneira, que se tornou irresistível para nós. Começamos a ver esta Luz e por Ela. Pois ela iluminava tudo ao redor e então pudemos olhar aos nossos semelhantes como eles são. E eles de fato são pardos. Mas não porque esta é sua cor natural, mas que eles estão sujos de lama. Não até o pescoço, mas tão cheios de lama por todo o corpo que até o branco dos olhos parece encardido. Mas a Luz ilumina a nós mesmos, e de um modo que voltamos o olhar mais a nós que a eles. E vemos que nós somos tão sujos e tão pardos, ou mais, que  os outros gatos. Vemos que esta sujeira está impregnada em nós de tal forma que não podemos nos livrar dela.

E choramos. Choramos copiosamente. Choramos com uma dor que é impossível expressar a quem nunca a sentiu. 

Mas a Luz que nos ilumina é o mesmo Bom Pastor que ama e cuida das ovelhas e quer o melhor para elas. E Ele as limpa. Ele faz dos gatos pardos gatos brancos como a neve. Purificados de toda impureza.

A tristeza que nos dói tanto é a mesma que nos dá uma alegria indizível!

Assim é quando da conversão, mas assim é também para a santificação. A vida que vivemos tem seus altos e baixos. E a cada pecado cometido há a tristeza do arrependimento e a alegria do perdão. Por isso, se você peca e não se entristece, cuidado. Pode bem ser que você viva uma outra religião e não a do Cristo.

Eu falei em paradoxos. E o paradoxo de uma vida abundante em felicidade é este: que felicidade não implica em ausência de tristeza. Ao contrário, felizes são os que choram, pois eles conhecem a consolação de seu Deus.

O primeiro aspecto de uma vida abundante: felicidade.

2. Gratidão

Um segundo aspecto da vida abundante é a gratidão. E eu quero mencionar esta gratidão de forma qualitativa e de uma forma quantitativa.

Qualitativa. 

Se vimos que nossa felicidade vem de uma tristeza profunda, uma tristeza por nós e uma felicidade por Deus, então percebemos que nossa felicidade não depende de circunstâncias. Seja o que for que nos sobrevenha, sabemos que tudo coopera para nosso bem (Rm 8.28). Então podemos ser gratos por qualquer coisa que recebamos, boa ou ruim.

Quando a calamidade veio a Jó, e ele perdeu tudo, bens e filhos, ele ainda orou em gratidão a Deus dizendo que nú veio ao mundo e nú voltará à terra. Em outro trecho, quando sua esposa sugere que ele amaldiçoe Deus e morra, ele responde que ela falava como uma doida. Diz ele: Se recebemos com gratidão o bem de Deus não saberemos também receber o mal? (Jó 1.21 e 2.10)

Não importa se bem ou mal, somos gratos pelo que Deus nos dá. E, se mal, ora, não deixamos de ficar tristes. Lamentamos sim. Mas lamentamos em tristeza que não abala nossa felicidade e gratidão.

Habacuque sabia da angústia que viria e não deixou de se entristecer por isso. Mas é assim que ele sofre: "Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente (Hc 3.17-19)."

Não importa o que temos, somos gratos a Deus pelo que nos deu.

Quantitativa.

Há quem não creia em milagres. Ao cristão não é necessário argumentar para provar que milagres acontecem. Mas temos ouvido muito que precisamos disso e daquilo, sempre com ares grandiosos. Por que?

Como classificar o tamanho ou a grandiosidade de um milagre? Que é mais difícil? Um paralítico andar ou perdoar pecados? (Mt 9.1-8) Ou é mais difícil que o mar se abra do que as coisas simplesmente existam?

Eu não sei. Acho estúpido que se questione tal coisa. Mas se é para eleger um milagre que seja o maior de todos, talvez pudéssemos falar da própria criação, talvez da encarnação. O eterno no tempo, mais um paradoxo e algo acima do nosso entendimento. Mas eu elegeria a minha salvação. Pois eu sei do meu pecado e da total impossibilidade da minha imundície ser conciliada com a pureza do Santo. Mas Ele não só Se reconciliou comigo como ainda me chamou a viver em comunhão com Ele eternamente.

Esta é a maior dádiva que alguém pode receber. E, tendo recebido esta, qualquer coisa que venha depois, quer seja mesmo um milagre, quer seja algo absolutamente comum, será com gratidão recebida.

Pois nem tudo é milagre, mas tudo é espiritual. Entender isso é a chave para ser grato e repetir com Paulo: "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1.21).

Não importa quanto temos, somos gratos pelo que recebemos.

O segundo aspecto de uma vida abundante é a gratidão.

3. Prazer 

Se somos felizes acima do que nos acontece, e se somos gratos sem importar o que ou quanto nos sobrevenha, então podemos ter prazer em tudo o que vivemos.

A primeira pergunta do Catecismo de Westminster é: "Qual é o fim supremo e principal do homem?" A resposta é mais eloquente do que tudo que eu disse até aqui: "O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lO para sempre".

Tudo é espiritual e se entendemos isso, tudo o que fizermos, desde as menores até as maiores coisas serão feitas pensando na glória de Deus. E glorificar a Deus, não importa o que façamos, é um prazer indescritível, pois é para a eternidade.

Um escarnecedor certa vez tentou me ridicularizar quando eu afirmei que tudo o que ocorre e tudo o que faço é para a glória de Deus. Ele usou termos piores, mas em essência ele me perguntou se ir ao banheiro fazer necessidades daria alguma glória a Deus. E como a sexualidade humana é uma área de intensos conflitos morais, ele me desafiou: quando você faz sexo, você está mesmo preocupado com a glória de Deus?

Para a primeira questão eu afirmo que todo uso correto do meu corpo glorifica seu Criador. Toda a atividade de manutenção deste templo do Espírito Santo é digna e O dignifica.

Para a segunda, ah, eu tenho prazer até mesmo em responder. Pois fazer amor com minha esposa é culto! É um prazer em nossos corpos sim, mas é também um prazer para nossa alma. É um prazer nos unirmos como é um prazer sermos um em Cristo.

E embora minha esposa fique ali toda vermelhinha, é mesmo bom ter este exemplo por ilustração. Porque somos um casal, unidos por Deus e estamos sob Sua benção.

Tudo o que fazemos é para Sua glória, mas só o glorificaremos se estivermos de acordo com Sua vontade. O sexo é uma dádiva de Deus, mas não se for de qualquer jeito e a qualquer custo. E isto, obviamente, vale não apenas para a atividade sexual, mas para toda a atividade humana.

Deus é muitas vezes pintado como um "grande estraga prazes cósmico". O cristianismo é muitas vezes pintado, até por alguns que se dizem seus membros, como um "não pode". Um cristão não pode isso, um cristão não pode aquilo. Mas o cristianismo é uma religião de alegria, de gratidão, e de gozo.

Tudo nos é lícito. Mas nem tudo convém. (I Co 10.23) É ao conhecer a Deus e nos conformar ao Seu Espírito que abandonamos aquilo que não nos convém com a mesma alegria, gratidão e prazer com que fazemos o que é lícito.

O terceiro aspecto de uma vida abundante é o prazer.

Conclusão

Conhecem a expressão carpe diem? Significa: aproveite o dia. É uma expressão muitas vezes usada por aí com um sentido bem antropocêntrico e bem hedonista (com vistas ao próprio prazer). Não queremos isso.

Mas o cristão é sim chamado a aproveitar o dia. Seja lá qual for a atividade que você tenha, um trabalho, uma viagem, um programa em família, namorar, malhar, jantar, cuidar do cachorro, sei lá... Não importa o que você esteja a fazer...

Aproveite o dia feliz!

Aproveite o dia grato!

Aproveite o dia com prazer!

Para a glória do seu Deus. 

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