Pretendo, por ora, dar mais atenção ao primeiro fenômeno. Não há dúvidas que existem as igrejas reformadas que abandonaram a tradição, e perderam muito do que as definia. Há igrejas herdeiras da reforma que hoje são o pentecostalismo clássico em flor. Há igrejas que nasceram da fé calvinista e hoje bebem nas cisternas rotas de movimentos de crescimento de igreja e técnicas contemporâneas da busca de “relevância”. Há, ainda, os supostos reformados que deixaram o modelo puritano de vida com Deus, e abraçaram a espiritualidade medieval, talvez tentando colocar Calvino de mãos dadas com Teresa d'Ávila ou São João da Cruz. Sim, estes exemplares estão entre nós, mas pela maior facilidade de identificá-los, creio que não produzem tanta confusão quanto o outro exemplo.
Muitas são as igrejas que caminhavam bem no sentido de manter a perspectiva reformada com a tradição. No entanto, pouco a pouco, a tradição foi ganhando lugar, e a reforma, perdendo. A centralidade da cruz foi cedendo espaço para uma liturgia organizada, uma música constante, usos e costumes semelhantes, a comodidade de uma igreja na qual tudo permanece intacto.
Para estas comunidades, ainda resta o nome “reformado” - eles ainda conseguem falar os cinco pontos do calvinismo e mencionar alguma coisa sobre a predestinção. Mas não trabalham em termos de uma cosmovisão reformada. Rejeitaram o Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est (Igreja Reformada e sempre se reformando), e simplesmente se tornaram uma comunidade parada no meio da cidade. Confundiram a estética do conservadorismo com o conteúdo nele proposto, e ficaram apenas com a “carcaça”.
Nessas igrejas se percebe uma pregação vazia – como sempre, e isso conforta os membros –, disposições fracas na interação com a cultura, manutenção da membresia mais por meio da troca de favores do que pelo pastoreio efetivo, vidas sem paixão: por Deus, Pela Palavra, pelos perdidos...
Muitos reformados, pelo simples fato de tais igrejas não terem aderido ao pentecostalismo, não observam o perigo deste desvio para a igreja. O moralismo do púlpito, que há muito esqueceu o evangelho, vai matando em doses homeopáticas as ovelhas. Pior, transformando os cadáveres em réplicas nefastas a reproduzir tal mentalidade.
Com isso os pais vão perdendo seus filhos para a cultura. Lá a pressão é menor, e existe uma sensação de amor mais real. Os que ficam, trabalham a partir de uma dicotomia de vida que os faz agir de um modo na igreja, e de outro completamente diverso na cultura (trabalho, escola, faculdade, etc.).
As crianças são ensinadas, mas não educadas. Não conseguem articular as diferenças entre uma igreja parada e uma realidade dinâmica. E seguem criando problemas para os professores de escola dominical.
A igreja pode ostentar um grande prédio, vários anos nas costas, e um orçamento consideravelmente bom. Mas ali está um cemitério do Evangelho. Nada há de perspectiva reformada, realmente. Apenas os restos do que um dia foi uma comunidade viva.
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Allen Porto é blogueiro do BJC, e passa muito tempo sem escrever por aqui.
Aguardando a continuação...o post que, espero, vai tratar do outro fenômeno. :-)
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