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22 de agosto de 2011

O que o Deus fez por nós

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou.” Rm 8:29-30

Você já parou para pensar o que Deus fez por você? Não apenas durante sua vida, mas desde muito antes de você nascer? E você crê que Ele tem determinado um futuro glorioso para você, e que esse futuro é certo? Vamos analisar algumas coisas que Deus fez, faz e fará por nós.

Deus nos elegeu. Quando o texto se refere aos que “dantes conheceu” não está declarando simplesmente que Deus tomou conhecimento da nossa existência na eternidade. Tampouco está dizendo que Deus anteviu alguma característica em nós que Lhe atraísse, nem algo que iriamos fazer ou como reagiríamos diante da oferta do evangelho. O verbo conhecer na Bíblia tem caráter relacional e até íntimo. "O Senhor conhece quem lhe pertence" (2Tm 2:19). Jesus disse “conheço as minhas ovelhas; e elas me conhecem” (Jo 10:14). Sendo assim, o “dantes conheceu” implica uma escolha prévia, soberana e graciosa, devido unicamente ao especial amor de Deus por nós.

Deus nos predestinou. Predestinar é destinar de antemão. Significa que Deus já tem determinado um futuro especial para nós na eternidade. Muitas pessoas não gostam da palavra predestinação, evitam-na e até a combatem. Porém essa palavra nunca é apresentada de forma negativa na Bíblia e não temos nenhum motivo para rejeitá-la, uma vez que Deus é o agente da predestinação. Ora, se cremos que tudo o que Deus faz é bom e se a Bíblia diz que Deus predestina, então devemos amar a doutrina expressa por essa palavra. Pois foi “em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade” (Ef 1:5).

Deus nos chamou. Não significa que Deus apenas nos convidou e esperou passivamente que escolhêssemos aceitar ao seu chamado. Nem mesmo que o Espírito Santo se esforçou para nos persuadir das vantagens da aceitação do evangelho comparadas com as sérias consequências da rejeição, apelando ao nosso bom senso para uma decisão sensata. Nas cartas de Paulo, a chamada de Deus é sempre eficaz. Significa que somos renovados em nosso coração, mente e vontade, pois de outro modo não poderíamos ir, desse modo, não podemos não ir. Esses dois fatos são sintetizados por Jesus quando diz “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:44).

Deus nos justificou. O maior dilema da humanidade é “como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9:2) ou “como seria puro aquele que nasce de mulher?” (Jó 25:4). Não pecar é a resposta mais óbvia, porém a Bíblia retira qualquer esperança nesse sentido quando declara, a priori, que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23) e que por isso “não há um justo, nem um sequer” (Rm 3:10). Inútil seria tentar fazer algo que compensasse isso, pois “todas as nossas justiças como trapo da imundícia” (Is 64:6). Apesar disso, a Bíblia diz que Deus nos justificou! Como? Não buscando em nós justiça pessoal, mas justiça alheia, mais especificamente “a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Fp 3:9). Deus castigou nosso pecado em Jesus e mediate a fé somos declarados justos diante dEle!

Deus nos glorificou. Causa estranheza a Bíblia declarar que fomos glorificados, quando ainda não experimentamos essa realidade. O que Deus está afirmando ao usar esse tempo verbal é que a nossa participação da glória de Cristo é certa. "Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" (Fp 1:6). Se fomos chamados e justificados, então é certo que seremos glorificados, assim como é fato que fomos eleitos e predestinados. Todos esses eventos estão postos em cadeia, de modo que nenhum elo pode ser quebrado. Não é possível negar a eleição ou a predestinação sem destruir a chamada e a justificação e tornar incerta a glorificação.

Conclusão. Paulo não estava defendendo as doutrinas da eleição, predestinação, chamada, justificação e glorificação nesses versículos. Ele as tinha como certas e supunha serem aceitas por seus leitores. Ele estava utilizando essas doutrinas para justificar aos seus leitores o fato de que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8:29). O que ele estava ensinando é que uma vez que Deus já assegurou nosso bem da eternidade passada à eternidade futura, então “aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm 8:18). Que estas palavras sirvam para lhe dar a certeza de que o mesmo Deus que agiu para seu bem na eternidade passada e agirá na eternidade futura também cuidará de ti em meio as aflições presentes, para Sua eterna glória!

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

7 de junho de 2011

Depravação: total, antiga e profunda

O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal. (Gn 6:5)
O texto bíblico apresenta o triste diagnóstico da humanidade nos dias de Noé. O pecado havia tomado proporções tais que “o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra; e isso cortou-lhe o coração” (Gn 6:6). A iniquidade se multiplicara grandemente. Porém, a maldade manifesta nada mais era que a consequência de algo que estava no íntimo de cada indivíduo, a depravação total, a qual afeta a todos os descendente de Adão. Do verso em destaque podemos aprender que:

A depravação humana é antiga, tanto historicamente quanto na experiência individual. Gênesis é o primeiro livro da Bíblia e apresenta os primórdios da humanidade. E nessa época já descrevia a situação do homem como sendo afetada drasticamente pelo pecado. Outro livro, talvez mais antigo que Gênesis avalia o homem dizendo “que é impuro e corrupto, e que bebe iniqüidade como água” (Jó 15:16). Desde que nossos primeiros pais pecaram, nossa natureza foi corrompida e sempre nos inclinamos para o que é contrário à vontade de Deus. Na história individual, não é diferente. A depravação se manifesta precocemente: “o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância” (Gn 8:21). O que Davi diz do ímpio pode ser dito dos homens em geral: “erram o caminho desde o ventre; desviam-se os mentirosos desde que nascem” (Sl 58:3).

A depravação humana é total. A totalidade da depravação é explicitada pelos termos “toda” e “sempre” e “somente”. Sempre refere-se ao tempo, o homem pensa o mal o dia todo.Todo inclui todos os desígnios de seu coração como sendo maus. E somente exclui qualquer capacidade de que ele outra coisa senão pecar. Depois de passar em revista todos os homens, Deus conclui que “todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14:3). Nenhum filho de Adão escapa dessa avaliação negativa, Paulo demonstra “que tanto judeus quanto gentios estão debaixo do pecado” (Rm 3:9).

A depravação humana é profunda. O texto descreve a maldade dos contemporâneos de Noé como incluindo casamentos mistos e violência. Mas isso era a ponta do iceberg. A depravação lança suas raízes no mais íntimo das pessoas. Os pensamentos de seu coração é que eram maus e determinavam o comportamento iníquo. O coração representa a essência do homem e dele é que procedem as atitudes e comportamento humanos. O problema consiste em que “o coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável” (Jr 17:9) e é dele que “saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt 15:19). Sendo o coração a sede da depravação, todas as faculdades do homem são por ela afetadas, de modo que nenhum aspecto da natureza humana foge da corrupção que a assola.

Sendo afeta a todos os homens, de todos os tempos e idades, a depravação torna o evangelho necessário, pois somente ele “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego” (Rm 1:16). Uma reforma exterior ou uma mudança de atitude é ineficaz, além de impossível. “Será que o etíope pode mudar a sua pele? Ou o leopardo as suas pintas? Assim também vocês são incapazes de fazer o bem, vocês que estão acostumados a praticar o mal” (Jr 13:23). É preciso mais que auto-determinação. É necessária uma transformação que comece no interior, no coração.

Porém, essa mesma depravação que requer um poder atuante para que o homem seja tirado dela é, ela própria, um obstáculo à aceitação do evangelho. Pois a pregação precisa ser ouvida, entendida e recebida no coração. Mas o homem, a priori odeia o conteúdo e rejeita a loucura da pregação. Seus coração está indisposto às coisas espirituais, seu ouvidos surdos para os convites do evangelho, seus olhos cegos para perceber sua triste realidade e suas mãos travadas para que não possa estendê-la a Deus. Estando o homem neste estado, ou Deus faz tudo o necessário para salvá-lo ou ele não se salvará de modo algum.

E é isso que Deus faz. “Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês” (Ez 36:26) é a promessa feita. Essa renovação do coração é imprescindível, pois “com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação” (Rm 10:10). Essa renovação do coração também é chamada de novo nascimento e “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” (Jo 3:3). Mas o novo nascimento é operado exclusivamente por Deus, sem o concurso da vontade humana, pois os nascidos de novo “não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus” (Jo 1:13).

Temos assim que a depravação é total por abranger todas as faculdades, de pessoas e em todas as épocas. Sua sede está no coração do homem e por isso ele é incompletamente incapaz de se livrar dela e fazer o bem aceitável diante de Deus. O único remédio para o homem é nascer de novo e isto somente é possível pelo poder de Deus, cuja operação é pela graça e antecede qualquer ato da vontade humana. Assim, toda glória pela transformação de um depravado num santo é devida unicamente a Deus!

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

7 de junho de 2010

Guardados!

“Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste…”  Jo 17:11

A eterna segurança dos salvos é uma doutrina firmemente estabelecida na Bíblia, sendo a oração do Senhor mais um fundamento na qual está assentada. Considero, porém, este argumento o principal de todos, bastando para nos dar toda confiança necessária a uma vida de alegria e gratidão a Deus.

É reconhecido que Deus responde orações, apesar de que a revelação demonstre e nossa experiência ateste que nem sempre Deus nos atende. Isto porque não sabemos pedir como convém, porque pedirmos sem fé ou, ainda, porque pedimos para gastar em nossas próprias paixões. Mas nenhuma dessas situações se aplica a Jesus, que tendo comunhão íntima com o Pai, conhecia-lhe a vontade e sabia de Seu poder, além de nada desejar para proveito próprio. Por isso, podia dizer “eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste” (Jo 11:42).

Seria absurdo pensar que Deus não ouvisse nem respondesse uma oração feita por Seu Filho amado. Se Deus deixou de atender uma só oração de Jesus, que esperança teremos que Ele respondesse às nossas, eivadas que são de imperfeições? Mas não precisamos nos estender neste ponto, consideremos apenas mais o seguinte fato: Jesus introduz sua intercessão pelos crentes pedindo “glorifica a teu Filho” (Jo 17:1). Afirmando “eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” (Jo 17:4) podia pedir, com certeza de ser atendido, “agora glorifica-me tu, ó Pai” (Jo 17:5). Assim como o Pai havia sido glorificado pelo que Jesus fez, o Filho seria glorificado pelo que o Pai faria, em resposta à Sua oração.

Por quem Jesus orou?

A cláusula que destacamos indica que os objetos da intercessão do Senhor são “aqueles que me deste”. Quem são estes? Não se trata de toda a humanidade, pois Jesus declarara anteriormente, na mesma oração, “não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste” (Jo 17:9). A referência é “aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste” (Jo 17:9). Portanto, aqueles por quem Jesus pede “não são do mundo” (Jo 17:14, 16) e embora estejam nele.

Se não devemos ampliar os que o Pai deu a Cristo para abarcar toda a humanidade, tampouco devemos restringir a ponto de considerar somente os doze apóstolos. Ao dizer “estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse” (Jo 17:12), a referência é evidentemente aos primeiros discípulos. Porém, Jesus amplia os beneficiários de Sua oração ao orar “e não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim” (Jo 17:20). Isto certamente inclui todos aqueles que em qualquer tempo e em todo lugar crêem no Senhor Jesus Cristo. Se você crê nEle como eu creio, então ambos fomos contemplatados nessa oração.

O que ele pediu?

Seguros de que a oração do Senhor foi ouvida e está sendo atendida pelo Pai, e sabendo que foi feita em nosso favor, vale dizer, aos eleitos e chamados à fé, consideremos o conteúdo dessa oração, o que certamente aumentará nossa confiança e gratidão a Deus.

Já vimos que o núcleo da oração do Senhor por nós foi “Pai santo, guarda em teu nome”. O nome de alguém é mais do que apenas a forma de chamá-lo. Expressa a personalidade, a essência do seu ser. No caso de Deus, o Nome sintetiza a essência do Seu ser, todas as Suas perfeições e principalmente a Sua fidelidade. Com este pedido, Jesus estava empenhando todo o caráter de Deus no cuidado dos crentes. Deus não pode deixar de guardar um dos que pertencem a Jesus sem negar-se a Si mesmo.

Este ponto é ainda mais acentuado pela expressão “Pai santo” usada por Jesus. A santidade de Deus expressa sua singularidade e sua suprema separação de toda a Criação, no sentido de ninguém se iguala ou se compara a Ele. Portanto, mesmo que qualque outro ser do Universo viesse a se descuidar de algo sob sua proteção, isso jamais aconteceria com o Deus Inigualável. Portanto, se há alguém capaz de guardar a todos os que pertencem a Jesus, esse alguém é o Pai e uma vez que Ele jure por Seu nome, ninguém em todo o Universo o impedirá de fazer isso isso.

O que está incluído neste cuidado, descobrimos observando o que mais Jesus pede. Pede que enquanto os crentes estiverem neste mundo “que os livres do mal” (Jo 17:15). Mal, aqui, é melhor traduzido como Maligno, o Diabo. Isto significa que não importa o que Satanás venha engendrar ou tentar realizar contra os eleitos, “fiel é o Senhor, que vos… guardará do maligno” (2Ts 3:3) e portanto “o maligno não lhe toca” (1Jo 5:18).

O cuidado do Senhor não se restringe, porém, a este mundo, pois Jesus pede que os crentes sejam guardados “para que vejam a minha glória” (Jo 17:24), ou seja, até que sejam introduzidos na presença do Senhor, para que “onde eu estiver, também eles estejam comigo” (Jo 17:24). Este é o desejo de Jesus para cada um dos que o Pai lhe deu e os quais Ele adquiriu na cruz. Contudo, como disse um notável puritano, Deus não levará para o céu ninguém que não tenha santificado na terra. De fato, para que um crente alcance a glória, duas coisas são necessárias no mundo: “segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14).

Jesus não iria pedir ao Pai que ignorasse isso, então incluiu unidade e santidade em sua oração. Especificamente, ele roga “santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17). Tal santificação ocorre pela ação do Espírito Santo, ao aplicar a Palavra transformadora à vida de cada crente, em edificação mútua na igreja. E essa comunhão é objeto de petição específica de Jesus, “para que todos sejam um” (Jo 17:21) e “para que eles sejam perfeitos em unidade” (Jo 17:23). Assim, a oração de Jesus por nós é completa, tornando certa a nossa introdução na glória por assegurar tudo o que precisamos nesta vida para chegar até lá.

O que nos resta?

O oração do Senhor deve nos encher de alegria, mas de forma alguma serve para levar à inércia espiritual. Ser guardados do maligno não significa que não precisamos vigiar, pois o estar alerta é o meio que Deus usa para nos preservar em segurança. A unidade como promessa não exclui a unidade como dever, pela prática do perdão e mútua exortação. E a santificação é uma obra de cooperação entre o crente e o Espírito, ainda que imperfeita no que nos cabe é certa pela obra dAquele que é é fiel em nós.

Sendo assim, enquanto louvamos a Deus pela Sua infalível proteção, nos entreguemos, não apenas aos Seus cuidados, mas ao Seu serviço, andando nas boas obras que Ele preparou para que andássemos nelas, até que se cumpra o desejo do coração de Jesus.

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

18 de janeiro de 2010

Deus é amor

Deus é a soma de Seus atributos. Negar ou diminuir a importância de qualquer de suas perfeições é fazê-lo menos Deus do que Ele realmente é. De igual modo, dar proeminência a um atributo, destacando-o dos demais, é apresentar uma idéia deformada da divindade. Qualquer proposição que comece com "o principal atributo de Deus é..." é enganoso e tende a desembocar numa heresia qualquer. Os atributos de Deus estão em plena harmonia, um não faz sombra a outro.

Estas considerações são necessárias quando alguém se propõe a falar do amor de Deus. Pois é fato que alguns, ante os requisitos de Sua santidade e justiça, podem querer suplantá-los com uma dose extra do amor divino. Por outro lado, os convictos de Sua soberania na salvação correm o risco de atenuar a dimensão do amor divino. Devemos afirmar, contudo, que Deus não é nem mais e nem menos amoroso que santo e justo! Ele é tanto amor, como espírito e luz.

O amor de Deus significa que Ele se doa aos outros - na linguagem teológica se diz que o amor de Deus é sua auto-comunicação aos homens. Nele estão incluídos complacência, deleite, desejo de posse e comunhão com seus amados. Porque ama, Deus entrega-se para e pelos objetos do seu amor.

As características do amor de Deus

O amor é uma daquelas palavras difíceis de definir e, por isso mesmo, geralmente mal compreendida. Se isso é verdade em se tratando do amor entre os homens, quanto mais então quando se trata do amor de Deus. É comum a idéia do amor de Deus como indulgência ou fraqueza. Para muitos, um Deus de amor é igual a um avô assistindo as travessuras de seus netos, maneando a cabeça enquanto diz "essas crianças...". Claro que não é assim que a Bíblia revela o Deus de amor.

Deus ama eterna e livremente. O amor de Deus não depende de nós, não é despertado por nós, mas flui livre e puro das profundezas do ser divino. Quando não havia nenhuma criatura para amar, as pessoas da Trindade amavam-se mutuamente. Jesus orou ao Pai dizendo "porque tu me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17:24) e fazia questão de "que o mundo saiba que eu amo o Pai" (Jo 14:31). Além disso, o seu amor pelas criaturas precede qualquer feito realizado por elas que justificasse serem amadas. "Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4:10). Já no Antigo Testamento Deus dizia "com amor eterno te amei; também com amável misericórdia te atraí" (Jr 31:3).

Deus ama de forma imutável. O amor de Deus não sofre variação, não aumenta nem diminui, não aparece nem desaparece. Não há nada que alguém possa fazer para Deus amá-lo mais, e nada que um filho Seu faça O levará a amá-lo menos. O amor de Deus não está sujeito ao tempo ou ao espaço, mas vem da eternidade para o coração dos filhos de Deus. O amor de Deus é absolutamente digno de confiança, mesmo na morte podemos desfrutar do cuidado amoroso do Pai. De Jesus é dito que "como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13:1).

Deus ama infinitamente. Seu Deus infinito e sendo Deus amor, decorre que Seu amor é infinito. João diz que "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito" (Jo 3:16). Paulo declara que "Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5:10). A linguagem humana falha em tentar expressar a dimensão do amor de Deus, pelo que os autores inspirados recorrem a expressões como "de tal maneira", "Deus prova" e "seu muito amor com que nos amou" (Ef 2:4).

Deus ama de forma onipotente. Não existe força no céu, na terra ou no inferno capaz de quebrar o amor de Deus por nós. A Carta aos Romanos nos dá a certeza de que "nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8:38-39). O poder de Deus está a serviço de Seu amor e nada pode tirar dEle aqueles a quem ama.

O amor de Deus está intimamente relacionado com Sua misericórdia e graça. O amor de Deus se manifesta em misericórdia quando Ele não nos dá o que merecemos. É pelo amor de Deus que alguns não são condenados. E se manifesta em graça quando nos dá aquilo que não merecemos, pois é pelo amor de Deus que somos salvos. Portanto, o sermos livrados do inferno e o sermos conduzidos à glória, devem-se ao fato de que Deus é amor.

O amor de Deus é consistente com a eleição

Tendo feito a afirmação de que somos salvos pelo amor de Deus, ouvimos a objeção de que as doutrinas da graça, conforme entendidas pelos calvinistas, são inconsistentes com o amor de Deus. Porém, a verdade ensinada nas Escrituras prova ser esta objeção destituída de fundamento.

A Bíblia diz "eu amei a Jacó, mas rejeitei a Esaú" (Ml 1:2,3). Paulo menciona que essas palavras foram proferidas antes do nascimento dos gêmeos, exatamente para que "o propósito de Deus conforme a eleição prevalecesse" (Rm 9:11-13). Deus não teve afeição por Jacó porque este tinha alguma atração, Ele teve afeição porque amou (Dt 7:7-10). Deus o amou porque o amou e o escolheu porque o amou, não dá para ir além disso.

Noutra carta os crentes são chamados de "eleitos de Deus, santos e amados" (Cl 3:12). Não deve restar dúvidas de que é Deus quem elege, a referência bíblica é aos "eleitos de Deus" (Tt 1:1), como quando a Escritura diz "sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus" (1Ts 1:4). Sendo o agente da eleição o mesmo Deus de amor, não há nenhuma inconsistência entre amor e eleição, pelo contrário, esta decorre daquele. Por isso Paulo dizia "devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação" (1Ts 2:13). O mesmo pode ser dito sobre a predestinação, pois as Escrituras registram que Deus "em amor nos predestinou para ele" (Ef 1:4-5). Deus não elege e predestina apesar do Seu amor, Ele elege e predestina por causa do Seu amor.

Porque Deus é amor, devemos amar

O amor é uma qualidade que Deus comunica a nós. Nós O amamos e amamos o próximo porque Ele nos amou primeiro. Aliás, somente quando observamos a atividade de amar é que descobrimos como amar. Pois não descobrimos Deus através de nossas experiência com o amor, descobrimos o amor através de nossa experiência com o amor. Só somos capazes de amar verdadeiramente quando nosso amor é reflexo do amor de Deus em nós. E a prova de que o conhecemos é quando amamos seguindo Seu exemplo.

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras (quase todas).

30 de novembro de 2009

E Asafe quase caiu – Sl 73

"Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória"

Asafe era diretor de música nos dias de Davi e Salomão. Crente no Senhor, compôs 12 hinos que passaram a fazer parte dos Salmos. Da sua experiência com o Senhor, podia dizer "com efeito, Deus é bom" (v.1). Porém, durante uma fase de sua caminhada com o Senhor, enfrentou uma crise espiritual muito grande, a ponto de declarar "quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos" (v.2). Como Asafe, você pode estar vivendo momentos de dúvidas e quem sabe até tenha pensado em se afastar dos caminhos do Senhor. Vendo o que levou esse levita à beira do precipício e como ele saiu de sua crise espiritual, você descobrirá que mesmo em meio a lutas, vale a pena servir ao Senhor.

Comecemos com os motivos que quase levaram Asafe à descrença.

I. ASAFE OLHOU PARA O HOMEM

O erro de Asafe foi deixar de olhar para o Senhor para analisar o que acontecia com as pessoas à sua volta. Ao fixar os olhos na experiência dos homens, tirou conclusões que o levaram para muito perto da apostasia.

1. Asafe invejou os descrentes, (v.3-12)

O próprio Asafe confessa que "invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos" (v.3). O que ele viu nos seus dias é a mesma coisa que você vê ao reparar no estilo de vida dos descrentes de hoje. Os descrentes viviam sem preocupações com doenças, "o seu corpo é sadio e nédio" (v.4). Além disso, "não são afligidos" (v.5). A conseqüência dessa vida despreocupada é "a soberba que os cinge como um colar, e a violência que os envolve como manto" (v.6). Chegam a blasfemar, "contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra" (v.9). Asafe também notou que os descrentes geralmente são pessoas populares. Quanto mais ímpios forem, mais "o seu povo se volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos" (v.10). Ao invés de serem castigados, os descrentes, estão "sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas" (v.12). Isso deixava Asafe arrasado.

Mas então, ele volta sua atenção para os crentes. E o que ele percebeu, não o fez sentir-se melhor.

2. Asafe lamentou a sorte dos crentes (v.13-14)

Olhando para si mesmo, ele concluiu tristemente que "inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência" (v.13). A sua avaliação era de que a santidade não compensava, pois apesar de manter-se fiel "de contínuo sou afligido e cada manhã, castigado" (v.14). Talvez você tenha chegado à mesma conclusão de Asafe, de que enquanto os descrentes prosperam no mundo, os crentes vivem uma vida de aflição. Quem sabe você concorda que quanto mais se consagra, mais dificuldades enfrenta.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que você e Asafe não estão sozinhos. Cada um em seu tempo, tanto Jó, Davi, Isaías, Jeremias, Habacuque, Paulo como muitos outros observaram que poucos ricos serviam a Deus e no entanto pareciam prosperar cada vez mais. Enquanto que os crentes eram, nas palavras de Paulo, a "escória do mundo". Cada uma dessas pessoas reagiram a seu modo diante disso. A reação de Asafe quase o levou para longe da fé. E a sua? Qual a sua reação diante da prosperidade dos descrentes e do seu sofrimento?

II. ASAFE TORNOU-SE AMARGURADO

A reação de Asafe, como dissemos, quase o levou para fora do arraial da fé. Ele se tornou um crente amargurado com o que via à sua volta e dentro de si.

1. Não conseguia compreender, (v.16)

Primeiro, ele não conseguia compreender como as pessoas descrentes viviam melhores que os crentes. Nas suas palavras, "em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim" (v.16). Quanto mais pensava sobre o assunto, mais angustiado ficava. Como poderia um Deus justo deixar impune o perverso e diariamente submeter os crentes a uma disciplina rígida? Isso não entrava na cabeça de Asafe.

2. Não conseguia falar (v.15)

Como um líder na congregação, Asafe não podia compartilhar suas dúvidas com seus companheiros, pois poderia semear a dúvida em seus corações. Aquilo que esmagava o seu coração não podia ser divido com outros, que poderiam desviar-se. Asafe até pensava em se abrir com alguém, mas então pensava que isso seria trair a fé de seus irmãos. Dizia ele, "se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos" (v.15). É bom destacar que a atitude de Asafe foi louvável, pois visava poupar a fé de irmãos mais fracos. Porém, ao se calar, foi cada vez mais consumido pela dúvida.

3. Não conseguia aceitar (v.21-22)

Asafe não conseguia aceitar em seu coração essa situação. A amargura invadiu a sua alma. Mais tarde ele descreveria a sua situação nas seguintes palavras "quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença" (v.21-22). Você já veio alguma vez ao culto e de tão angustiado não conseguiu sentir a presença de Deus? Ao invés de prestar atenção ao que era ministrado, ficava remoendo sua situação? Então você entende como Asafe se sentia. Ele estava se tornando insensível às coisas de Deus.

Mas então aconteceu algo que o tirou da situação em que se encontrava. Preste atenção, pois é isso que precisa acontecer com você, para que todas as dúvidas se dissipem e você possa se regozijar na presença de Deus.

III. ASAFE ENTROU NA PRESENÇA DE DEUS

Até quando durou a crise espiritual de Asafe? Ele nos responde: "até que entrei no santuário de Deus" (v.17). Como ministro do louvor, é certo que ele estava sempre no templo. Porém, dessa vez, ele realmente se colocou diante de Deus. Ao invés de ficar olhando para o estilo de vida dos ímpios, olhou para o Senhor. Ao invés de procurar uma explicação racional para seu sofrimento dentro de si, voltou sua atenção para o seu Deus, e então as coisas se desanuviaram. Não é comparando a vida do descrente com a vida do crente que você encontrará as explicações que procura, mas colocando-se aos pés do Senhor, para aprender de Suas palavras.

1. Compreendeu o fim dos descrentes, (v.17-20; 27)

Após entrar no santuário, Asafe disse "atinei com o fim deles" (.v17), referindo-se aos descrentes. Até então, Asafe tinha reparado apenas na situação presente dos ímpios, mas agora o Senhor lhe mostrava o fim deles. Aparentemente seguros, na verdade os ímpios viviam sob um perigo mortal, pois "Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição" (v.18). Deus não os deixará impunes em sua iniquidade, mas "ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!" (v.19). Embora a sua prosperidade pareça nunca acabar "como ao sonho, quando se acorda, assim, ó Senhor, ao despertares, desprezarás a imagem deles" (v.20). Deus não esqueceu nem relevou a maldade dos ímpios, mas os está reservando para o dia do juízo, quando então terão a retribuição de sua maldade. Asafe comprendeu então que a longanimidade do Senhor não deve ser confundida com injustiça, pois "os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo" (v.27)

2. Descobriu a segurança dos crentes, (v.23-26; 28)

Porém, a maior descoberta de Asafe não foi saber como os ímpios acabam, mas como os justos permanecem para sempre. Ele lembrou-se de algo que só o crente pode dizer: "todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita" (v.23). Em meio ao sofrimento, o crente não está sozinho nem desamparado. Na estrada íngrime da fé, só o crente pode dizer "Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória" (.24). Ao pensar nessas verdades, Asafe só podia exclamar "quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra" (v.25). Ah! meu irmão, Deus te basta! O Senhor te é suficiente! Se você tem Deus no céu e se deleita dele na terra, então nem a maior prosperidade dos ímpios nem o maior sofrimento irá te tirar a alegria da salvação! O segredo que Asafe descobriu é que "ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (v.26).

O que é melhor, possuir todas as riquezas do mundo ou viver na presença de Deus? Depois de encontrar-se com Deus no santuário, Asafe não teve mais dúvidas: "quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Senhor Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos" (v.28). Você trocaria uma vida na presença de Deus e uma eternidade na glória por prosperidade material na terra e uma eternidade no inferno? Tenho certeza que não, logo, não há motivo para você duvidar da bondade de Deus e menos ainda para invejar a sorte dos que seguem a maldade.

CONCLUSÃO

Agora eu preciso falar de uma coisa muito séria. O que Asafe fez foi muito grave, pois quase o mergulhou na descrença. Mas foi ainda mais grave porque colocou em dúvida a bondade e a justiça de Deus. Se você, como ele, pensa que Deus age de forma errada ao permitir que os ímpios prosperem enquanto os crentes são afligidos, também pecou contra o Pai. Por isso, precisa pedir perdão ao Senhor. Faça isso agora. E na mesma oração, confesse a Deus que Ele é teu socorro no céu e alegria na terra, e que tendo Ele em sua vida, nada lhe fará falta. Oremos a Deus.

Soli Deo Gloria

(Sermão pregado na Igreja O Brasil Para Cristo)

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.