12 de novembro de 2009

Que é o calvinismo? [1]

1. O calvinismo não é um pensamento intolerante, carrancudo, e elitista

Enquanto aprendemos no ensino médio que o pensamento reformado exclui os pobres, é intolerante com quem pensa diferente, e promove a cara fechada dos rabugentos, a História nos mostra evidências bastante diferentes.

Tomemos a intolerância por exemplo: enquanto outros sistemas perseguiam sem piedade os divergentes, o calvinismo respeitou as diferenças de visões, promovendo a verdadeira liberdade civil. Em Genebra, Calvino lidava constantemente com aqueles que pensavam diferente dele, e agia com verdadeiro espírito tolerante e pacificador. A História mostra que, mesmo no caso de Serveto – alguém queimado em Genebra sob a acusação de heresia – Calvino tomou várias medidas para levá-lo ao arrependimento, e não consentiu com sua morte brutal.

Os puritanos, que saíram da Inglaterra para as colônias, fundaram o país reconhecido pela liberdade e tolerância, o lugar onde pessoas dos mais variados credos poderiam se encontrar.

O calvinista Maurício de Nassau promoveu algo semelhante no Brasil colonial. A região sobre a qual dominou era marcada pela convivência pacífica de judeus, protestantes, católicos e índios.

O calvinismo soube lidar adequadamente com as correntes luterana, anglicana, e anabatista, que divergiam dele em maiores ou menores pontos. Certamente teceu críticas (muitas delas duras) a estas correntes, mas ainda preservando a liberdade que cabia aos seguidores de tais correntes.

Várias são as pesquisas que demonstram a contribuição calvinistas para os governos constitucionais e as garantias de liberdades civis. O calvinismo, com a visão bíblica do papel do Estado, promoveu o respeito e a tolerância para o homem criado à imagem de Deus.
Ainda hoje os calvinistas seguem o modelo escriturístico de respeito e amor ao próximo. Eles condenam o erro, seguindo o padrão absoluto da Escritura, mas sabem agir com tolerância e amor.

Carrancudo? As caricaturas sobre os puritanos em si são engraçadas, e provavelmente os fariam rir. Qualquer pesquisa mais séria sobre o puritanismo, ou sobre o calvinismo como um todo, demonstrará que, na busca pela fidelidade às Escrituras, também procuravam obedecer as recomendações bíblicas para vivermos com alegria. Os puritanos não possuíam a mentalidade contemporânea de entretenimento – eles tinham um modelo mais profundo de felicidade. Havia prazer na família, no casamento, no trabalho, em Deus, ou seja, em todas as áreas da vida.
Alguns dos calvinistas conhecidos utilizavam constantemente o humor como recurso (cf. Spurgeon), e outros continuam a utilizá-lo hoje (cf. Mark Driscoll). Há reformados cujo assunto principal parece ser uma vida de prazer e alegria em Deus (Jonathan Edwards e John Piper), e o sorriso é marcante em seus lábios. Não, definitivamente não são carrancudos.

Que tal elitista? Ontem mesmo ouvi esta objeção. Precisamos fazer ressalva de que os calvinistas não são um grupo de robôs que reagem exatamente da mesma maneira a todos os fenômenos. Em maior ou menor grau, é possível haver algum calvinista considerado intolerante por aí, como pode haver algum rabugento, e, finalmente, um elitista. Mas, no geral, a História nos mostra que não é assim.

O pensamento reformado alcançou as mais variadas esferas. Nobres e camponeses, Intelectuais e analfabetos, todos se alegravam com a verdade da Escritura ensinada por esta perspectiva. Uma das ênfases, aliás, era a compreensão popular do que se queria dizer – isso explica o fim das missas em latim – para tanto, era preciso falar com clareza. Calvino se preocupava com os pobres, e chegou a afirmar que Deus abençoa os ricos para que eles possam abençoar os necessitados.

O mesmo acontece hoje. As comunidades reformadas em alguns lugares parecem estar restritas a bairros mais elitizados, mas isso não se dá pela preferência pelos ricos. Em outros lugares, as comunidades reformadas têm maior alcance entre os pobres. Existem vários aspectos a serem analisados nessas situações, como a capacidade da igreja comunicar o evangelho ao bairro, a obra soberana do Espírito Santo, a “competição” de outras igrejas que massificam o discurso e prometem bençãos para conquistar os fiéis, etc.

Novamente, pela fidelidade à Bíblia, os calvinistas não esquecem a recomendação dada a Paulo, de que nunca deveria se esquecer dos pobres (cf. Gl.2)

O calvinista não é carrancudo, nem intolerante, nem elitista. O que existe é uma caricatura dele rolando solta por aí.

* * *

Quer ler mais sobre esta proposição específica?

Sobre a tolerância calvinista:
BIELÉR, André. A força oculta dos protestantes. São Paulo: Cultura Cristã. p.1999.
____________. O pensamento social e econômico de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990. p.176-180.
MARSDEN, George M. Origens "cristãs” da América: a Nova Inglaterra puritana como um caso de estudo. In: REID, W. Stanford (org.). Calvino e sua influência no mundo ocidental. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990. p.297-324.
SILVESTRE, Armando. Calvino: o potencial revolucionário de um pensamento. São Paulo: Vida, 2009. p. 171-173.

Sobre a alegria calvinista:
PIPER, John. Teologia da Alegria: a plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd publicações, 2001.
_________. O legado da alegria soberana: a graça triunfante de Deus na vida de Agostinho, Lutero e Calvino. São Paulo: Shedd publicações, 2005.
PACKER, J. I. Entre os gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã. São José dos Campos: Fiel, 1996.

Sobre a pluralidade não elitista dos reformados:
BIELÉR, André. A força oculta dos protestantes. São Paulo: Cultura Cristã. p.1999.
____________. O pensamento social e econômico de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990. p.221-230; 409-485.

10 de novembro de 2009

A Bíblia e a Predestinação [0]: A importância da discussão

Qual a diferença entre acreditar na predestinação ou no livre-arbítrio? Muitas pessoas acreditam que não há diferença prática e que debater o assunto é uma especulação intelectual estéril, fútil e que desvia os cristãos de seus deveres de fé. Eu mesmo ouvi isso de professores de Teologia e colegas de seminário.

Nada poderia estar mais distante da verdade. Quer nos posicionemos de modo consciente ou não, acreditar na predestinação dos salvos ou na salvação pelo livre-arbítrio influencia a nossa evangelização, a nossa maneira de encarar as dificuldades da vida, de orar e até mesmo nossa concepção sobre Deus e o homem.

Se os assuntos mais importantes da Teologia Cristã, aqueles que definem se uma igreja é ou não ortodoxa, são a teologia própria (estudo de Deus e Seus atributos) e a soteriologia (doutrinas da salvação), então a predestinação se reveste de uma importância enorme.

Sim, porque a predestinação é domínio da teologia propriamente dita, em seu sentido mais estrito. Se Deus predestina ou não pessoas à salvação ou ao inferno, isso afeta a forma como vemos o amor e a justiça divina. Mais importante: afeta como enxergamos a soberania de Deus e o uso de Sua onipotência. Deus exerce todo o Seu poder sobre a vontade dos homens (calvinismo) ou restringe essa ação para resguardar a liberdade humana (arminianismo)?

Por outro lado, se a predestinação existe, a soteriologia também se defronta com questões difíceis. Cristo morreu apenas pelos seus escolhidos (calvinismo) ou por todos os homens em geral (arminianismo)? A salvação individual é decidida antes dos tempos (calvinismo) ou no momento em que o ser humano se defronta com Deus (teísmo aberto, uma espécie de hiperarminianismo)? Se a predestinação existe, o predestinado não perde a salvação (calvinismo) ou pode perdê-la (arminianismo)?

Todas essas questões influenciam profundamente o dia-a-dia. Devido às fortes convicções na predestinação, homens como Jonathan Edwards e Charles Spurgeon não se preocuparam muito em agradar a ouvintes e concentraram seus ministérios na pregação da Palavra. Por outro lado, hoje em dia, igrejas que acreditam no livre-arbítrio têm se concentrado em pregar de modo agradável aos ouvintes, apostando em mensagens motivacionais, ambientes agradáveis e sermões que não espantem as pessoas.

Quando um filho deixa a igreja, a mãe precisará buscar consolo, ou na idéia de que Deus é Senhor de todas as coisas ou na de que a liberdade humana poderá trazer de volta o rejeitado. O adolescente vai entrar na faculdade crendo no Deus que escreveu todos os seus dias antes que existissem ou acreditando que sua vida é um livro aberto, de final indefinido, aguardando que ele decida como a história vai terminar.

Espero que os exemplos acima mostrem a importância da discussão. Queria deixar aqui duas definições minhas para começar o debate:
Livre-arbítrio é a crença de que o homem é livre para se submeter ou rejeitar a Deus, sem qualquer tipo de ação divina sobre Sua vontade. Se ele será salvo ou não, a decisão final pertence a ele, que escolherá entre servir a Deus ou rejeitá-Lo. É o ponto de vista defendido no arminianismo.

Predestinação é a doutrina de que Deus escolheu, antes do início dos tempos, aqueles que seriam salvos. Deus age diretamente sobre a vontade de Seus escolhidos para levá-los a salvação. A decisão final sobre a redenção humana é de Deus, que decide quem Ele vai ou não salvar. É o ponto de vista defendido no calvinismo.
Qual o critério que pretendo usar? A Bíblia. E aqui, quero fazer um apelo. O critério último pelo qual devemos escolher a predestinação ou o livre-arbítrio não deve ser:

- A fé de quem nos levou a Cristo;
- A confissão de fé de nossa igreja ou a opinião de teólogos;
- Os conceitos de bem e mal definidos na sociedade secular;
- Aquilo que nossa razão considera bom ou mau.

Apenas a Palavra de Deus deve prevalecer. É Deus quem diz o que é bom ou mau, não nós. Se nos atermos a isso, então será possível entender o que a Bíblia fala sobre o assunto.

Afinal, se as grandes correntes da cristandade chegaram a um acordo sobre a doutrina da Trindade, que é muito mais difícil e complexa, creio que é sim possível descobrir se a Bíblia é favorável ou não à predestinação. E este deve ser o assunto de meus próximos posts no 5 Calvinistas. A série começa aqui.

5 de novembro de 2009

QUE É O CALVINISMO? [0]

Você talvez tenha aparecido neste blog a partir de contatos já estabelecidos com o pensamento reformado (neste texto, calvinista será usado como sinônimo de reformado), mas é possível que você tenha “caído de paraquedas” aqui, vindo de alguma busca no google, ou um link sobre o qual achou legal clicar.

Assim, ao perceber o nome, pode ter estranhado um pouco. 5 calv... o quê?

Existe ainda a possibilidade de, na tentativa de entender o que é isso, você tenha pesquisado em algum livro de história do ensino médio, ou mesmo na internet, encontrando afirmações bizarras sobre João Calvino ser um “ditador” em Genebra , ou sobre os calvinistas ingleses – os puritanos – serem intolerantes e carrancudos, ou sobre a crença de que apenas os ricos foram eleitos para a salvação, enquanto os pobres devem ir para o inferno.

Nenhum desses exemplos, comuns por aí, diz a verdade sobre o calvinismo. É assim que vamos, em 5 proposições (para fazer jus aos 5 calvinistas), dar algumas dicas sobre o que não é, e sobre o que é o calvinismo.

Fiquem ligados nos próximos posts! Ou como diriam os filmes e seriados: continua... (to be continued...)

4 de novembro de 2009

Cristo: Ponto de convergência, ponto de divergência


Convergência: ato ou efeito de convergir; disposição de dois ou mais elementos lineares que se dirigem para ou se encontram no mesmo ponto; tendência para aproximação ou união em torno de um assunto ou de um fim comum; confluência, concorrência.

Divergência: afastamento progressivo; diferença de opinião; desentendimento, discordância; qualidade daquilo que diverge, que tem limites infinitos.

Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.


Para muitas pessoas ao redor do mundo Jesus foi uma figura extremamente controversa. Muitos o enxergam como um revolucionário, ao passo que outros, como um pacifista, um apaziguador. Para uns, aquele que agrega; para outros, aquele que segrega. Mas o fato é que as Escrituras o apresentam das duas formas, tanto como um ponto de convergência quanto como um ponto de divergência. Jesus, real e finalmente, trouxe a lume o que o pregador de Eclesiastes quis dizer com “tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de rasgar e tempo de coser” (Ec 3. 3,7). Esse é um dos paradoxos mais notáveis da fé cristã.

De fato, a Bíblia nos apresenta Jesus como sendo o ponto de convergência da fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos (cf. Jd 3). Essa fé reúne todos os eleitos, e apenas estes, em um único rebanho, sob a regência de um único Pastor (cf. Jo 10). Em torno do Cristo Ressurreto, o povo redimido se reúne para uma adoração solene, onde tudo é mono. O louvor é uníssono. A fé ensinada, entoada e proclamada é uma só. E o Objeto dessa mesma fé e de todo o nosso louvor também é um só. Como bem diz um famoso hino cristão, “um só rebanho, um só Pastor; uma só fé em um só Salvador”. Essa reunião em torno do Supremo Pastor só foi (e continua sendo) possível graças à promessa que o Deus dos Antigos, “que não pode mentir” (Tt 1.2), fez a Abraão: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). Essa promessa apontava claramente para uma grande convergência de povos das mais variadas culturas, que se reuniriam em torno dAquele que foi “designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.4). O próprio Evangelho, “o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras” (Rm 1.2), teve seu cumprimento cabal na pessoa e obra de Jesus, o centro convergente de toda a Escritura vetero e neotestamentária (Rm 1.3. cf. Hb 1.1-2). Isso significa que o centro Bíblia não é aquela “folhinha branca” entre Malaquias e Mateus, muito menos a fé de Abraão ou a mansidão de Moisés, menos ainda Zaqueu ou Lázaro (para bom entendedor…) – o centro das Escrituras é o Descendente de Davi, Jesus, o Cristo (Rm 1.3)! Ele, sim, foi quem comprou para Deus “os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9) com seu precioso sangue vertido na cruz do calvário, fazendo com que a salvação se estendesse para fora dos portões de Israel, a todos aqueles que creem. Como bem diz outro hino cristão famoso, “de todas as tribos, povos e raças, muitos virão Te louvar”. Além desse tipo de convergência “soteriológica”, digamos, segundo o apóstolo Paulo haverá também uma espécie de “convergência cósmica”, onde “todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” encontrar-se-ão em Cristo “na dispensação da plenitude dos tempos” (Ef 1.10). Calvino entende essa passagem como sendo a restauração escatológica de todas as coisas em Cristo (cf. Rm 8.18-22), uma vez que a Queda simplesmente “despedaçou” a humanidade decaída juntamente com toda a criação. Ainda segundo o reformador, é somente em Cristo que encontramos conserto para os cacos. Tanto em relação à humanidade quanto ao restante da criação, Cristo se apresenta como o elemento convergente. De fato, é como se ele fosse uma espécie de redemoinho, que traz para dentro de si tudo o que estiver em sua órbita.

Mas não nos enganemos quanto a essa “órbita”, pois nela não se encontra o mundo inteiro (Universalismo, Expiação Geral), e sim, apenas o povo escolhido de Deus (cf. Mt 1.21). Não nos enganemos também pensando que Cristo é sempre esse redemoinho convergente que traz tudo o que está em sua órbita para dentro de si mesmo. Ele também é um vulcão, que repele e destroi todo elemento desconhecido que o circula. Essa realidade pode se tornar dura demais para quem pensa que Jesus é apenas um “ponto de convergência”, um “carinha legal”, mas o seu próprio ministério mostra como ele divergia duramente dos inimigos da cruz. Isso acontecia porque a Bíblia apresenta-nos alguém que seria uma grande “pedra de tropeço” em Sião (Is 28.16), e tanto Paulo (em Rm 9.32,33) quanto Pedro (em 1Pe 2.4-8) identificam essa pedra justamente com Cristo. Para Paulo, Jesus é a “pedra de tropeço” (ponto de divergência) para todo aquele que pensa que poderá ser salvo pelas obras, quer seja judeu, quer seja gentio. O apóstolo argumenta no contexto da aludida passagem que a fé salvífica pertence somente àqueles que foram eleitos. Decerto, os judeus se consideravam o povo da Aliança e, por conseguinte, herdeiros automáticos da salvação. Mas Paulo derruba essa empáfia dizendo que “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos” (Rm 9.6,7). Para o apóstolo somente “os filhos da promessa” é quem são os verdadeiros herdeiros (Rm 9.8). Os judeus incrédulos pensavam que estavam caminhando bem, até se depararem com a Pedra que estava no meio dos seus caminhos. Seguindo o mesmo raciocínio, mas com uma ênfase diferente, Pedro argumenta que nossos sacrifícios são agradáveis a Deus única e exclusivamente por intermédio de Cristo, “a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa” (1Pe 2.4,5). Alinhando seu pensamento ao de Paulo, Pedro ainda diz que Cristo é a “pedra angular” que os construtores da auto-justificação rejeitaram e na qual tropeçaram, de acordo com o fim para o qual vieram a este mundo (1Pe 2.7,8). Esse tropeço deliberado simplesmente fere aquilo que é considerado o coração do evangelho, a doutrina da justificação pela fé somente, que, segundo Lutero, é o “artigo de fé mediante o qual a Igreja permanece de pé ou cai”. Certamente, todo aquele que tropeça nessa verdade, pensando que poderá se auto-justificar diante de Deus mediante obras, cairá terrível e irremediavelmente no Juízo Final.

O brado de Solus Christus dos reformadores não foi sem propósito. Ele indica que somente Cristo é digno de louvor; que somente Cristo é o Mediador; que somente Cristo é o Salvador; que somente Cristo é o cerne da História da Redenção; e que, por isso, somente Cristo é a chave hermenêutica para se compreender as Escrituras. A Igreja Romana viola essa verdade ao apresentar outros “centros” (pontos de convergência) contíguos a Cristo. As grandes religiões do mundo erram por não reconhecerem que há um só Deus e Senhor de tudo e de todos. Os falsos evangelhos espalhados por aí também traem as Escrituras quando apresentam outras prioridades (prosperidades) que não seja Cristo. Todas as outras doutrinas e filosofias humanas andam bem, até encontrarem Cristo, a “pedra de tropeço”, pelo caminho. Qualquer tentativa de deslocar a Cristo do centro que só a Ele pertence constitiu-se em total divergência da Verdade. Como disse Calvino, “desviar-se de Cristo, ainda que seja apenas por um passo, significa privar-se alguém do evangelho”. Para quem é alvo da convergência de Cristo, ou seja, quem está na sua órbita de salvação (os eleitos), novos céus e nova terra o espera. Mas para quem é alvo da sua divergência (os “intrusos” na órbita – o joio), apenas parafraseio o puritano Richard Sibbes: “de que adiantaria você ter todas as criaturas a seu favor se o próprio Cristo* é o seu divergente**”?

Soli Deo Gloria!
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*No original, “Deus”; ** “inimigo”.

3 de novembro de 2009

A salvação de Deus

A verdade bíblica é que "ao Senhor pertence a salvação!" (Jn 2:9). Embora todos concordemos prontamente com essa afirmação, não paramos para pensar nas suas implicações. A primeira delas é que sendo a salvação do Senhor, ela não é do homem por direito. Ninguém pode reinvidicar ser salvo. Sendo do Senhor a salvação, Ele a dá a quem quiser nas bases que decidir, não cabendo ao homem qualquer questionamento. Deus é o Soberano da salvação.

A segunda implicação é que é o Senhor quem salva. Como a salvação pertence ao Senhor, se Ele não salvar, ninguém é salvo. Pertencendo ao Senhor, a salvação só pode ser obtida como dom, nunca como aquisição ou conquista. Sabemos que o homem não pode saquear o céu e obter para si o que o Senhor não quer lhe dar. Tal idéia é tão absurda que podemos descartá-la sem mais delongas. O homem também não pode obter a salvação mediante preço. Todo bem que o homem pudesse oferecer em troca dela já pertence ao Senhor. E boas obras religiosas ou filantrópicas são pobres demais para servir como moeda de troca. Então, só resta uma forma para o homem se apropriar da salvação: recebê-la gratuitamente de Deus.

A terceira é que Ele efetivamente salva. A Deus pertence não apenas os meios que tornam a salvação possível, mas a salvação em si. Hoje se fala da salvação em termos de possibilidade, mas este não é o discurso bíblico. A Bíblia apresenta Deus como um Senhor que efetivamente salva. De Jesus foi dito "ele salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1:21), de fato, "o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Mt 19:10). Não se trata apenas de tornar a salvação possível, mas de salvar de fato. Paulo deixa claro que "fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores" (1Tm 1:15).

A quarta é que Ele salva completamente. Jesus "pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus" (Hb 7:25). Assim, a salvação do Senhor é completa tanto no que abrange quanto no tempo que perdura. Ele salva todo o nosso ser, de um modo que nosso "espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo" (1Ts 5:23). Tendo Deus prometido que seu povo "será salvo pelo Senhor com salvação eterna" (Is 45:17), Jesus "tornou-se o Autor da salvação eterna" (Hb 5:9) e Paulo pode testemunhar "por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com eterna glória" (2Tm 2:10).

Glória a Deus, por tão grande salvação!