O calvinista Maurício de Nassau promoveu algo semelhante no Brasil colonial. A região sobre a qual dominou era marcada pela convivência pacífica de judeus, protestantes, católicos e índios.
O calvinismo soube lidar adequadamente com as correntes luterana, anglicana, e anabatista, que divergiam dele em maiores ou menores pontos. Certamente teceu críticas (muitas delas duras) a estas correntes, mas ainda preservando a liberdade que cabia aos seguidores de tais correntes.
Carrancudo? As caricaturas sobre os puritanos em si são engraçadas, e provavelmente os fariam rir. Qualquer pesquisa mais séria sobre o puritanismo, ou sobre o calvinismo como um todo, demonstrará que, na busca pela fidelidade às Escrituras, também procuravam obedecer as recomendações bíblicas para vivermos com alegria. Os puritanos não possuíam a mentalidade contemporânea de entretenimento – eles tinham um modelo mais profundo de felicidade. Havia prazer na família, no casamento, no trabalho, em Deus, ou seja, em todas as áreas da vida.Alguns dos calvinistas conhecidos utilizavam constantemente o humor como recurso (cf. Spurgeon), e outros continuam a utilizá-lo hoje (cf. Mark Driscoll). Há reformados cujo assunto principal parece ser uma vida de prazer e alegria em Deus (Jonathan Edwards e John Piper), e o sorriso é marcante em seus lábios. Não, definitivamente não são carrancudos.
Que tal elitista? Ontem mesmo ouvi esta objeção. Precisamos fazer ressalva de que os calvinistas não são um grupo de robôs que reagem exatamente da mesma maneira a todos os fenômenos. Em maior ou menor grau, é possível haver algum calvinista considerado intolerante por aí, como pode haver algum rabugento, e, finalmente, um elitista. Mas, no geral, a História nos mostra que não é assim.
O pensamento reformado alcançou as mais variadas esferas. Nobres e camponeses, Intelectuais e analfabetos, todos se alegravam com a verdade da Escritura ensinada por esta perspectiva. Uma das ênfases, aliás, era a compreensão popular do que se queria dizer – isso explica o fim das missas em latim – para tanto, era preciso falar com clareza. Calvino se preocupava com os pobres, e chegou a afirmar que Deus abençoa os ricos para que eles possam abençoar os necessitados.
O mesmo acontece hoje. As comunidades reformadas em alguns lugares parecem estar restritas a bairros mais elitizados, mas isso não se dá pela preferência pelos ricos. Em outros lugares, as comunidades reformadas têm maior alcance entre os pobres. Existem vários aspectos a serem analisados nessas situações, como a capacidade da igreja comunicar o evangelho ao bairro, a obra soberana do Espírito Santo, a “competição” de outras igrejas que massificam o discurso e prometem bençãos para conquistar os fiéis, etc.
Novamente, pela fidelidade à Bíblia, os calvinistas não esquecem a recomendação dada a Paulo, de que nunca deveria se esquecer dos pobres (cf. Gl.2)
O calvinista não é carrancudo, nem intolerante, nem elitista. O que existe é uma caricatura dele rolando solta por aí.
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Sobre a tolerância calvinista:
BIELÉR, André. A força oculta dos protestantes. São Paulo: Cultura Cristã. p.1999.
____________. O pensamento social e econômico de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990. p.176-180.
MARSDEN, George M. Origens "cristãs” da América: a Nova Inglaterra puritana como um caso de estudo. In: REID, W. Stanford (org.). Calvino e sua influência no mundo ocidental. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990. p.297-324.
SILVESTRE, Armando. Calvino: o potencial revolucionário de um pensamento. São Paulo: Vida, 2009. p. 171-173.
Sobre a alegria calvinista:
PIPER, John. Teologia da Alegria: a plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd publicações, 2001.
_________. O legado da alegria soberana: a graça triunfante de Deus na vida de Agostinho, Lutero e Calvino. São Paulo: Shedd publicações, 2005.
PACKER, J. I. Entre os gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã. São José dos Campos: Fiel, 1996.
Sobre a pluralidade não elitista dos reformados:
BIELÉR, André. A força oculta dos protestantes. São Paulo: Cultura Cristã. p.1999.
____________. O pensamento social e econômico de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990. p.221-230; 409-485.

