9 de fevereiro de 2010

"NÃO VÁ LÁ"!

Caros amigos,
Para não ficar mais uma terça sem postar, lá vai mais uma postagem antiga do Optica Reformata (levem em consideração a época em que escrevi - agosto/09 - para uma melhor compreensão do texto). Estou mesmo sem tempo de acesso à internet. Isso explica a minha ausência da blogosfera. Mas, espero estar de volta logo, em breve.


O Monte Mulanje foi a última parada que o economista brasileiro Gabriel Buchmann resolveu fazer após ter percorrido vinte e seis países em apenas um ano, com o objetivo de colher o máximo de informações e experiências possíveis para o seu doutorado em políticas públicas que iniciaria em setembro, nos Estados Unidos. Por ter 64% de sua população analfabeta e por elencar o rol dos vinte países mais pobres do mundo, Malauí, país do sudoeste africano, era o cenário ideal para o tipo de dados que Gabriel almejava coletar, especificamente a vila Mulanje, ao pé da montanha homônima. Ela era “um retrato da pobreza que Gabriel procurava”[1]. Acompanhado de um guia local, o brasileiro, que já havia escalado o Everest e o Kilimanjaro, decidiu subir até ao cume do monte, a três mil metros de altitude, pretendendo voltar no mesmo dia. O guia local, apesar de ter achado a empreitada uma tarefa bastante difícil, acatou a ideia. Num dado momento da subida, Gabriel abriu mão do guia, alegando que este estava indo “devagar demais”, e decidiu ir sozinho ao topo do Mulanje. O guia disse a Gabriel que era forte o suficiente para suportar a dificuldade da escalada, mas o brasileiro, após ter dito ao guia que ia por conta própria, dispensou-o, pois tinha pressa. Após ter pernoitado no Abrigo Chisepo, a mil metros abaixo do pico, Gabriel saiu cedo, de bermuda e blusa de mangas curtas, rumo ao alto da montanha. Seriam sete horas intensas de caminhada numa subida bastante íngreme. Era uma sexta-feira, 17 de julho, e o destino final seria o Pico Saptiwa, nome que significa “não vá lá”, em Chichewa, língua falada pelos nativos. O próprio nome do pico parecia ser um presságio, um aviso. Gabriel conseguiu chegar ao topo. Porém, quando ele descia o pico, teve uma surpresa nada agradável. Uma densa neblina tomou conta do alto da montanha. Gabriel se perdeu no caminho de volta, pois a neblina limitava sua visão a apenas dez metros à frente. Depois de alguns dias, foi dado como desaparecido. Uma experiente equipe de resgate, formada por seis canadenses e um argentino, comandou as operações de busca ao economista brasileiro. Cerca de sessenta pessoas vasculharam o Monte Mulanje por mais de duas semanas, sem encontrar nenhum vestígio do economista. Foi então que, no dia 1 de agosto, num despretensioso sábado, dois nativos que estavam na montanha colhendo folhas e madeira para construir casas encontraram o corpo do brasileiro. Gabriel Buchmann, de apenas vinte e oito anos, foi encontrado sem vida, debaixo de um ninho que ele mesmo construíra por entre a grama alta da montanha para se proteger de um frio que se aproximava do zero grau. Mesmo levando consigo agasalhos de lã, calças, gorro, cachecol e demais artefatos para o frio e conhecendo as técnicas de montanhismo, o corpo do brasileiro não resistiu à hipotermia. Pela posição em que Gabriel foi encontrado presume-se que ele morreu dormindo, sem sentir dor, apenas frio, muito frio. Há quem diga que, se Gabriel tivesse atentado para as recomendações do guia e para o significado nome do pico Saptiwa - “NÃO VÁ LÁ”, talvez ainda estivesse vivo para contar histórias e concluir o seu doutorado.

Não pretendo, aqui, entrar no mérito desta última questão. Particularmente, creio irrestritamente na soberania de Deus e que tudo, absolutamente tudo o que acontece, passa pelo planejamento e pelo crivo da Divina Providência, de modo que Deus não apenas é Sabedor (Onisciente) de todas as coisas, mas também o Ordenador (Senhor) de todas elas. Mas, como disse há pouco, não é sobre isso que eu quero dissertar (fica para uma próxima). Tampouco pretendo endossar alguma superstição pelo significado do nome do pico. Certamente, muitos já foram lá e não morreram. Quero apenas aproveitar o que aconteceu com Gabriel para ilustrar o perigo que um cristão professo corre ao não dar ouvidos ao seu “guia espiritual” (cf. Hb 13.7), quando este solenemente o alerta: “Não vá lá”!

Muitos são os casos de pessoas que estão dentro das igrejas e que se enfiam em apuros espirituais por não ouvirem seus pastores. Correm atrás das “novidades teológicas”, muitas das quais não passam de ventos de doutrinas, que as agitam de um lado para o outro. Ignoram o alerta dos seus guias de que naquela trilha que estão seguindo há uma densa neblina que obstruirá suas visões e lhes congelarão a alma. “Saptiwa, Saptiwa”, mas eles preferem ir. Por exemplo, conheço pessoas que de tanto flertarem com as falácias do Liberalismo Teológico, hoje não conseguem mais se livrar delas. O flerte virou namoro, evoluiu para noivado e acabou culminando em um casamento indissolúvel. Seus corações estão frios e vazios. Não há mais nenhum vestígio de fé. Muitos que antes eram conservadores hoje negam doutrinas fundamentais do Cristianismo, como a encarnação, a divindade e a historicidade de Cristo e a infalibilidade e inerrância das Escrituras. Muitos fazem declarações ousadas e firmes de sua própria incredulidade, revezando-se entre os púlpitos de suas congregações e as salas de aula dos seminários nos quais lecionam. No afã de alcançarem os mais altos “picos teológicos”, ultrapassaram a sã doutrina e racionalizaram a fé. Atentaram demais para a letra e se esqueceram da piedade, da devoção. Como diria Jorge Camargo, na sua belíssima música Letra Morta, “está no livro, está no templo, mas não está no coração; está no grego, está no hebraico, mas não se fez encarnação”. Por outro lado, há o tipo “liberal pós-moderno” (neoliberal), que é aquele que acredita em tudo e ao mesmo tempo em nada. Ele é inclusivo, absorve tudo o que puder, mesmo que sejam conceitos totalmente antagônicos. É defensor de uma fé líquida, e não sólida; instável, e não estável. Não traça limites entre a ortodoxia e a heresia. Para os tais defender a verdade é arrogância, e crer na exclusividade do Cristianismo é intransigência fundamentalista. Sua descrença se esconde sob a capa da piedade. Em minha opinião, esse é o tipo mais perigoso, pois arrebanha outros atrás de si com seus discursos “piedosos”. Fala em comunhão com Deus, em nome da “espiritualidade”. Busca uma transcendência sem Bíblia, e uma relevância sem doutrina. Dissemina seus ensinos por meio de livros, internet e todo tipo de mídia disponível, tendo como principais focos de ataque a natureza da igreja e a natureza de Deus, mudando a verdade de Deus em mentira (Rm 1.25), tudo sob a tutela do relativismo, pluralismo e inclusivismo pós-modernos. E o mais lamentável é que para tudo isso há um público bastante amplo, que muitas das vezes está dentro das igrejas questionando aquele “pobre e ignorante” pastor que ainda teima em crer na exclusividade do Evangelho como sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Essa pessoas estão deixando o Senhor, o “manancial de águas vivas”, e cavando “cisternas rotas, que não retem as águas” (Jr 2.13); estão trocando o Soberano Deus, Criador dos céus e da terra, por uma divindade pocket, que caiba nos seus bolsos. Enveredaram-se por caminhos de morte, ao desdenharem dos constantes avisos para não irem lá.

Sei que em parte isso se explica pela decadência dos púlpitos. Muitos pastores estão tão preocupados em reforçar as cercas que acabam se esquecendo de melhorar o pasto. Há uma frenética “caça às bruxas”, enquanto que a pregação expositiva tem sido relegada a segundo plano. Esperam firmeza de suas ovelhas sem lhes dar alimento sólido. Sendo assim, o “Saptiwa” de nada servirá se o rebanho não for suprido com pastos verdejantes, nos quais as ovelhas devem encontrar prazer e descanso para suas almas. É preciso atentar para a segurança do rebanho sem, contudo, esquecer-se de alimentá-lo.

O escritor aos Hebreus nos adverte: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (Hb 13.7). Essa advertência não está aí à toa. O guia é alguém que nos orienta sobre o caminho mais seguro, e suas vidas devem nos servir de referência. Com humildade e obediência devemos nos submeter àqueles que foram ordenados por Deus para serem nossos guias espirituais. E que nossos ouvidos estejam sempre atentos quando eles insistentemente nos alertarem: “Saptiwa, Saptiwa, Saptiwa”...


Soli Deo Gloria!

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[1] Site do Fantástico.

8 de fevereiro de 2010

O Revelado

Mostre-Se: Tu és Deus! Diga apenas uma palavra, meu Senhor! Uma única. E sei que tudo virará de ponta cabeça. Por Sua voz todo sofrimento desaparecerá. Por uma única palavra Sua eu crerei e serei salvo!
Louvado seja o Deus que fala, que Se revela, que chama. Para sempre minha alma engrandeça Aquele que por uma Palavra me fez crer. Aquele que faz todas as coisas novas. Aquele que enxugará todas as minhas lágrimas! Louvado seja o Deus Triúno!

O que segue é um apanhado de reflexões a propósito da auto-revelação de Deus. Reflexões feitas durante e após um período de estudos sobre Calvino. Assim, elas refletem um pouco do pensamento do reformador, mas são, principalmente, minhas próprias impressões. 
Tudo está intimamente relacionado, mas não há uma ordem lógica ou uma conexão direta entre os parágrafos. Não é um arrazoado, mas uma apresentação das ideias apreendidas. 
O leitor atento poderá perceber um duplo intento deste registro dos meus estudos. Por um lado, eu quero sempre poder lembrar daquilo que me acompanhou durante todo o tempo em que estava a estudar. Por outro, que aquilo que me acompanhou é o enlevo em louvor: eu quero demonstrar, usando-me por exemplo, que um bom estudo teológico nos faz cair de joelhos em adoração!

A revelação geral revela Deus como o Criador
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo (Sl 19.1-4a).
O Deus das Escrituras é o Deus que Se revela. Toda a história da ordem criada é uma história da revelação de Seu Criador: “os céus proclamam a glória de Deus e por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo”. Conhecer Deus é conhecer Sua glória e Sua glória são Seus atributos. Se a criação, e o homem em especial, é para Sua glória, o conhecimento de Seus atributos que leva ao louvor e à adoração é o fim de todo ser!
Quando da criação, o homem não tinha o que lhe vendar os olhos. Ele podia ver Deus na criação, embora isso não fosse necessário para que O conhecesse. Pois ele O conhecia. Ele adorava Seu Criador. Mas há muito o homem não pode mais reconhecer Deus em Suas obras: voluntariamente caminha cego por este mundo. A revelação geral não pode levar ao conhecimento de Deus, mesmo que declare Sua existência. É necessário que a própria revelação especial diga que a geral declara Sua existência para que o percebamos. É necessário que Deus nos desvende os olhos para que enxerguemos!
Isto é evidente após a queda, certamente. Porém mesmo antes da queda Deus se revelou proposicionalmente: Sua vontade (ordem) foi dada por revelação especial. “E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16-17). Desde o princípio Deus está a nos declarar que necessitamos que Ele Se revele para que O conheçamos mais profundamente. Conhecê-lO como Criador nos revela muito sobre Ele. Mas há mais a conhecer e pelo que adorá-lO!

A revelação especial revela Deus como o Redentor
A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos. O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre; os juízos do SENHOR são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa. Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão. (Sl 19.7-13).
Se a revelação geral não é suficiente por nossa cegueira voluntária, e se não temos condições de curar a própria vista, Deus mesmo prescreve o tratamento para a cura. E esta cura nunca envolve um aplacar Sua ira por méritos que não temos. Nem uma receita dada por nós. Deus mesmo prescreve a receita e a cura em Si mesmo! É maravilhoso que no momento mesmo em que o homem se cegou Deus faz sua prescrição (Gn 3.15) e inicia a Se revelar, até culminar com o ápice de Sua auto-revalação na encarnação em Cristo Jesus! Oh, mistério terrível e maravilhoso que Deus tenha se feito homem, que o Eterno tenha se feito no tempo, que o Absoluto tenha assumido todas as nossas contingências! E que por isso sejamos redimidos e vejamos!
Deus Se revela proposicionalmente. Seu Espírito é quem fala por meio de quem Ele inspira. O texto bíblico é, portanto, o testemunho do Espírito Santo a nos revelar as profundezas de Deus e o que importa para que sejamos salvos e Lhe rendamos glória! Assim, a autoridade bíblica não é dependente da Igreja, mas de Deus. Ela é confirmada pelo testemunho do Espírito Santo, sendo esta a mais forte evidência da autoridade das Escrituras.
Deus é “o totalmente outro”. Ele é o Insondável. Mesmo assim Ele Se revela, Se nos dá a conhecer. E o que conhecemos dEle é a Verdade. Verdade que, embora nunca possa desvelar plenamente a essência de Deus, ainda é a Verdade de Sua essência. Além da limitação inerente à diferença ontológica entre Criador e criação, e também justamente por conta dela, a própria linguagem humana não é suficiente para se expressar sobre Deus. De fato, a linguagem é limitada até mesmo para a comunicação entre nós, que se dirá quanto a comunicar quem Deus é. Assim, reafirmamos que aquilo que está revelado é a Verdade de Deus, mas numa “linguagem de acomodação” de forma que O possamos entender.
O louvor ao Revelado
As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu! (Sl 19.14).
E isto não é mesmo algo para se maravilhar? Que O busquemos e busquemos e sempre haja mais a buscar! Que Sua essência não seja atingida por nós! Estudar os atributos de Deus, sistematicamente, lendo a Palavra, é algo fascinante! Ele Se revela. E tanto quanto possamos apreender Ele está lá a Se fazer conhecido. Mas quando descobrimos algo profundo, e achamos que nada pode ser mais profundo, eis que Ele descortina ainda mais um nível! Eis que Ele Se nos mostra ainda mais o Insondável. E vemos que mergulhar em Seus mistérios é mesmo algo para uma eternidade diante da Presença! Louvado seja o Deus que nos chamou para esta vida eterna com Ele! E eis que não cessaremos de cantar o que já começamos aqui: Santo, Santo, Santo é o Senhor! Glórias a Ele!
SOLI DEO GLORIA!

4 de fevereiro de 2010

A leitura da Bíblia na atualidade

Originalmente publicado aqui.


A Bíblia é muito divulgada e pouco lida. Quem deseja parecer mais "crente", levanta o grande volume da capa preta e proclama em alta voz os benefícios da leitura, ou, menos, apenas adverte severamente os que não a lêem, pronunciando imprecações sobre os biblicamente iletrados.

Ao mesmo tempo, tais advertências em muitas ocasiões não passam de retórica vazia e desequilibrada. (1) Vazia porque às vezes o próprio sujeito não tem contato com a Palavra de Deus. Lembro com um sorriso no rosto do adolescente que me ouviu pregar e depois da mensagem veio com a maior cara de curioso, analisou a Bíblia que eu tinha em mãos, e soltou a pergunta fatal: "Você já leu isso tudo?". Era espantoso para ele que alguém já tivesse lido toda a Escritura.

(2) Desequilibrada porque o infeliz não está preocupado com a leitura da Bíblia enquanto relacionamento com Deus, vida com o Pai, plenitude do Espírito nos lembrando das palavras do Filho. Nada disso. O seu argumento é puramente pragmático e moralista. Reclama com quem não lê a Bíblia porque simplesmente acha que as coisas devem ser do seu jeito, e porque é assim que funciona para o carinha obter o que deseja.

A Bíblia, então, deixou de ser um fim - a Palavra de Deus - para ser um meio: um talismã, um atrativo de bênçãos, um livro de receitas sobre a prosperidade, etc., etc.

Ler a Bíblia na atualidade é encarar as percepções culturais comuns sobre a realidade, confrontando-as com o ensinamento da Palavra de Deus, e aplicando a mensagem eterna ao nosso tempo. Isto desperta e mantém o processo de formação de uma visão de mundo bíblica, que é fundamental para todo cristão.

Elementos como a pré-compreensão, a análise textual, e a aplicação devem ser cuidadosamente observados.

* * *

Em Fevereiro os 5 calvinistas pretendem levantar a discussão a respeito da Escritura. Junte-se a nós na reflexão bíblica sobre a Bíblia (o vício de linguagem é proposital).

* * *

Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve no 5 calvinistas às quintas-feiras.

3 de fevereiro de 2010

Porque Ele é quem é, eu o adoro!

SENHOR, tu me sondas e me conheces.
Sabes quando me assento e quando me levanto;
De longe penetras os meus pensamentos.
Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar
E conheces todos os meus caminhos.
Ainda a palavra me não chegou à língua,
e tu, SENHOR, já a conheces toda.
Tu me cercas por trás e por diante
E sobre mim pões a mão.
Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim:
É sobremodo elevado, não o posso atingir.

Para onde me ausentarei do teu Espírito?
Para onde fugirei da tua face?
Se subo aos céus, lá estás;
Se faço a minha cama no mais profundo abismo,
Lá estás também;
Se tomo as asas da alvorada
E me detenho nos confins dos mares,
Ainda lá me haverá de guiar a tua mão,
E a tua destra me susterá.
Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão,
E a luz ao redor de mim se fará noite,
Até as próprias trevas não te serão escuras:
As trevas e a luz são a mesma coisa.

Pois tu formaste o meu interior
Tu me teceste no seio de minha mãe.
Graças te du, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste;
As tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem;
Os meus ossos não te foram encobertos,
Quando no oculto fui formado e entretecido
Como nas profundezas da terra.
Os teus olhos me viram a substância ainda informe,
E no teu livro foram escritos todos os meus dias,
Cada um deles escrito e determinado,
Quando nem um deles havia ainda.
Que precisoso para mim, ó Deus, são os teus pensamentos!
E como é grande a soma deles!
Se os contasse, excedem os grãos de areia;
Contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim.

Tomara, ó Deus, desses cabo do perverso;
aparati-vos, pois, de mim, homens de sangue.
Eles se rebelam insidiosamente contra ti
E como teus inimigos falam malícia.
Não aborreço eu, SENHOR, os que te aborrecem?
E não abomino os que contra ti se levantam?
Aborreço-os com ódio consumado;
Para mim são inimigos de fato.
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração,
Prova-me e conhece os meus pensamentos;
Vê se há em mim algum caminho mau
E guia-me pelo caminho eterno. (Salmo 139:1-24)
Em quem eu posso realmente confiar? Talvez essa seja uma das perguntas que mais afligem os brasileiros no século XXI. Muitos não sabem se têm mais medo dos bandidos ou dos policiais. Os políticos, que deveriam ser um exemplo para a sociedade, estão no fundo do poço da credibilidade. Empresários não são confiáveis por serem ricos, mas não se confia também em muitos movimentos chamados "sociais", que dizem defender os mais pobres. Liga-se a televisão, mas não se acredita no que dizem os telejornais. Até o amor virou dúvida. Como consagrou Vinicius de Moraes, "que seja infinito enquanto dure".

Mas essa dúvida sobre em quem confiar é antiga. E uma rápida análise da vida do rei Davi mostra isso. De herói por ter derrubado o gigante, Davi foi transformado em bandido, por representar uma ameaça ao rei Saul. Quando ele foi pedir ajuda aos sacerdotes do templo, o fato foi delatado ao rei, e oitenta e cinco pessoas morreram por tê-lo auxiliado. Ele livra a cidade de Queila das mãos dos filisteus, mas os habitantes que foram salvos por ele não hesitariam em entregá-lo nas mãos de inimigos. Se fosse olhar para o próprio passado, Davi aprenderia a desconfiar de quase todas as pessoas.

No entanto, havia uma pessoa em quem Davi confiava acima de todos os outros. Ele confiava plenamente em Deus. Era o Senhor quem deveria sondá-lo, conhecê-lo e guiá-lo. Somente Ele poderia cuidar dos caminhos de Davi.

O Onisciente me conhece
E por que Davi entregava o seu destino nas mãos do Senhor? A primeira resposta é que somente Deus conhecia profundamente o coração dele.

Davi abre o salmo reconhecendo que Deus o sonda e o conhece. Constantemente Deus olha para a vida do rei e o acompanha em todas as suas ações, quer ele esteja ativo ou passivo, andando ou deitado. Mais do que isso: até mesmo os pensamentos e as palavras de Davi são transparentes para Deus, que conhece todos os caminhos de seu servo, embora ele mesmo não soubesse de todos eles, a ponto de pedir que Deus visse se ele estava ou não em algum caminho mau.

O que Davi está reconhecendo aqui é que o Senhor conhece todas as coisas, o que é chamado de onisciência. Hoje, muitas pessoas não refletem mais nesse atributo e talvez até considerem essa meditação um exercício fútil e árido de alguns teólogos. Já há pastores e teólogos que vão mais longe e negam que o Senhor conheça o futuro. Ensinam um Deus que não é mais onisciente.

Mas, se é assim, como confiar que Deus sabe o melhor para nós? Como pedir que Ele nos mostre o mau caminho de nossa vida se Ele não sabe de tudo? Talvez Ele se engane em alguma coisa...

Contudo, não era assim que Davi pensava. Ele cria que Deus sabia de tudo, que Ele conhecia a Davi melhor do que ele mesmo. Por isso, Davi adorava ao Senhor.

O Onipresente está onde eu estou
Mas o Senhor não era apenas aquele que conhecia a Davi. Ele também o acompanhava, mesmo quando a última companhia desejada por Davi era a do Deus Vivo.

Não há como escapar do Senhor. A face de Deus e a presença do Espírito Santo estão em todos os lugares. Podemos subir ao céu ou descer aos abismos, ir até o Sol ou fugir para o meio dos oceanos, buscá-Lo na luz ou refugiar-se nas trevas. Deus continua a cercar-nos por trás e por diante, a mão d'Ele está posta sobre os Seus escolhidos, a quem Ele guia e sustenta o tempo todo, quer percebamos, quer não.

Na sociedade do século XXI, onde temos várias formas de nos comunicarmos com outras pessoas, a solidão e o isolamento continuam a afligir milhões. De fato, muitos se sentem jogados no mais fundo abismo, mesmo morando em um prédio de 20 andares e mais de 100 apartamentos ocupados. Para estes, Davi diz que o Senhor está perto, sendo a nossa companhia o tempo todo.

Por outro lado, muitos se levantam contra Deus e querem fugir dele. Correm de igrejas, rasgam Bíblias e evitam qualquer religioso que possa mencionar o nome de Deus. Para estes, Davi diz que é impossível fugir do Senhor e que nem mesmo o pecado pode mantê-Lo longe de seus escolhidos.

Porque o Senhor está em todo lugar, Ele está sempre comigo, me guiando e sustentando. Essa é a música do rei salmista. E, por isso, Davi adora ao Senhor.

O Onipotente dirige os meus passos
Deus conhece o coração dos homens e está sempre do lado deles. Mas, mais do que isso: Deus escreve, soberanamente, o destino das pessoas e intervêm em suas vidas. E, por isso, Davi o adora.

Ao contrário do homem contemporâneo, que se pretende senhor de seu destino e ignora a Deus em suas decisões, Davi reconhece, desde o início, que sua origem é divina. Foi o Senhor quem o formou, quem fez da substância informe um ser humano completo. Mais: antes do nascimento de Davi, Deus já havia escrito e determinado todos os seus dias. O Senhor, com as suas mãos, fez a Davi e escreveu o seu destino.

Porém, os seres humanos não reconhecem mais o trabalho de Deus na vida dos seres humanos. Mães abortam, imaginando que o fruto de seu ventre não é vida, que os embriões crescem apenas sugando a força do corpo materno e ignorando o trabalho de Deus. Os homens rejeitam a ideia de que Deus tenha escrito como deve ser as suas vidas, e num ato de "independência" se proclamam senhores de seus próprios destinos. E assim, se transformam nos homens perversos e rebeldes que Davi odeia. Tornam-se inimigos de Deus e inimigos de Seus filhos.

Davi, porém, cria no Deus Soberano e O servia. Ao proclamar como ele dependia de Deus e reconhecer o Seu poder de determinar o curso de sua existência, Davi proclamava servir a um Deus Onipotente, que pode todas as coisas, o Todo-Poderoso. E, por isso, ele pedia não só que o Senhor o conhecesse e provasse, mas também que o guiasse pelo caminho eterno. Suplicava que Deus interviesse em Sua vida para guiá-Lo pelo bom caminho.

Conclusão
Reconhecer que Deus é o Onisiciente, o Onipresente e o Onipotente não é um capricho de teólogos, um exercício mental vazio e estéril, sem relevância para o homem comum. Na verdade, meditar nessas verdades é reconhecer que precisamos de Deus, é enxergar que Ele é digno de nossa confiança, é perceber que nossa vida deve ser depositada em Suas mãos santas, pois somos incapazes de cuidar bem dela com nossas mãos frágeis e impuras.

Os verdadeiros cristãos adoram a Deus não apenas porque Ele nos faz o bem, mas acima de tudo porque olhamos para quem Ele é. E ao olharmos para a essência de Deus, aí sim começamos a entender as Suas obras e percebemos que n'Ele podemos confiar.

Soli Deo Gloria!

P.S: Peço perdão pelo "furo" das últimas quartas. É que alguns dos 5 Calvinistas estão correndo bastante nesse início de ano. E peço, desde já, orações pelas nossas vidas e por esses projetos. Obrigado!

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no 5 Calvinistas.