8 de abril de 2010

Por que também não sou de esquerda

Este texto reflete uma opinião pessoal que não é, necessariamente, a dos outros articulistas deste blog.
 
Nenhum sistema de governo ou de organização sociopolítico e econômico é de Deus. Essa afirmação é praticamente unânime nos meios evangélicos e é usada por muitas pessoas para dizer que não são nem capitalistas nem socialistas. Mas há duas ressalvas que precisam ser feitas.

A primeira é que isso não significa que todos os sistemas sejam igualmente bons aos olhos do Senhor. Há sim sistemas melhores do que outros. O fato de não existir um que seja perfeito não significa que não existam opções boas e ruins.

A segunda é que essa afirmação é um "praticamente" porque, na verdade, vários evangélicos agem como se certas bandeiras políticas fossem, de fato, o cumprimento do Reino de Deus na Terra. E quando esses modelos são criticados, a boca dos críticos é amordaçada.

Foi o que muitos esquerdistas fizeram com a articulista Norma Braga, que escreveu o artigo Por que não sou de esquerda, publicado na revista Ultimato. A teologia pode ser livre, desde que você não critique a esquerda. E aí começa, lá e em alhures, um rosário de acusações:

1) Que a autora foi simplista;
2) Que criticar a esquerda significa aceitar tudo o que vem da direita;
3) Que esquerda e direita se equivalem.

Não é possível mesmo responder a tudo em um artigo de revista que deve caber em uma página. O jornalismo não é para profundidades, não há espaço para isso. Blogs também não. Mas há espaço para mostrar algumas razões que explicam por que não sou de esquerda:

1) O direito de propriedade é bíblico
O socialismo marxista defende o fim da propriedade individual, que deve ser coletiva. Até que cheguemos a um comunismo utópico, o Estado deve distribuir os bens entre os cidadãos. Vários cristãos citam a igreja de Jerusalém como um modelo desta utopia:
Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. (Atos 4:32)
O que parece escapar aos socialistas cristãos é que esse dividir era um ato voluntário e nunca foi uma exigência no Novo Testamento. É o que mostra a condenação de Pedro a Ananias:
Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? (Atos 5:4a)
Na verdade, Jesus não tinha problema algum em ser sustentado pelas ofertas de mulheres que possuíam bens, provavelmente pessoas consideradas ricas na sociedade de seu tempo:
Aconteceu, depois disto, que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Suzana e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens. (Lucas 8:1-3)
Logo, fica claro que não é e nem nunca foi o plano de Deus para este mundo a instituição da propriedade coletiva. Seja no Antigo ou no Novo Testamento, a Bíblia sempre reconheceu o direito de cada pessoa ter os seus bens e não condena a posse de riquezas.

Agora, claro, isso não significa endossar o capitalismo selvagem: a riqueza construída em cima da pobreza de outros. Contudo, o rico tem sim uma oportunidade de santificação (sim, santificação!), se fizer bom uso de seus bens:
Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida. (1 Timóteo 6:17-19)
Não há problema em ser rico! O problema é confiar nas riquezas e não em Deus, é não usar os seus bens para glorificar ao Senhor, servindo o próximo. Quando um rico dá emprego a outros, ele está fazendo isso. Quando ele faz obras de caridade, ele faz isso. Quando ele dá ofertas à Igreja e sustenta missionários (imagine o privilégio de assistir a Jesus!), ele faz isso.

Apenas este argumento seria suficiente para desmontar o projeto da esquerda. Mas há mais.

2) O Estado não é responsável pela sua felicidade
A esquerda confia muito no governo. Espera que ele sustente a todas as pessoas, crie cotas para os mais pobres, dê o Bolsa Família, gás, renda mínima, casa própria e tudo o mais para as pessoas. Pelo menos no Brasil é assim: os mais pobres querem bolsa-família, tem escola pública, querem lotes com casa do Governo, gás, leite...em Cuba é um pouco pior. O Estado decide o quanto de manteiga você pode comprar, o que você pode ler e que opiniões são ou não defensáveis e podem ser pensadas naquele país (não só lá...vide Google vs. China e nuestro amigo Chávez).

Na prática, o ideário de esquerda transporta em maior ou menor grau as responsabilidades dos indivíduos para o Governo. Contudo, o ensino bíblico é o de que, em condições normais (e isso inclui Império Romano e os reinados de Israel no AT), a prosperidade das pessoas depende delas, e não do Estado. Fatores como preguiça, trabalho e retidão contam para alguém enriquecer ou não:
O que trabalha com mão remissa empobrece, mas a mão dos diligentes vem a enriquecer-se. O que ajunta no verão é filho sábio, mas o que dorme na sega é filho que envergonha. (Provérbios 10:4-5)

O alongar-se da vida está na sua mão direita, na sua esquerda, riquezas e honra. (Provérbios 3:16)

Um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade, como um homem armado. (Provérbios 6:10-11)
Sim, existem pecados "estruturais" que provocam injustiça social e os profetas estão recheados de denúncias a isso. Não ser de esquerda não significa endossar essas injustiças. Mas significa sim, reconhecer que, em circunstâncias normais, as pessoas empobrecem ou enriquecem, prosperam ou definham por seu próprio mérito.

Vou além: se não existir um regime totalitário, mesmo em condições difíceis, as pessoas prosperam ou não independente dos tais pecados estruturais. José prosperou mesmo sendo um escravo no Egito. Jacó chegou sem nada e saiu rico trabalhando como assalariado de Labão. Neemias era copeiro e virou governador. Jefté era o filho de uma prostituta e virou juiz de Israel. E isso em sociedades onde a mobilidade social era bem mais difícil que nos regimes capitalistas do século XXI.

Repare: a Bíblia não joga sobre o Governo a responsabilidade de dar bem-estar material. O sucesso ou fracasso das pessoas depende muito mais delas mesmas do que do Estado.

3) A igualdade absoluta não existe
A igualdade parece ser o valor supremo da esquerda para a construção de uma sociedade. No entanto, esse ideal é utópico.

Basta mostrar um fato: nem mesmo no céu há igualdade.
Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo. (1 Coríntios 3:14-15)

Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu trabalho. (1 Coríntios 3:8)

Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão. (2 João 8)
A salvação é pela graça e não envolve mérito. Mas nem todos receberão a mesma coisa. Uns terão galardão completo. Outros, parece que só serão salvos, como que pelo fogo. Cada um receberá de acordo com o seu trabalho.

Se é assim no céu, naquilo que a Bíblia coloca como o Reino de Deus em plenitude...por que esperar uma igualdade tão grande neste mundo? Nem Jesus ensinava isso:
A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu. (Mateus 25:15)
Isso não é injustiça. Uma vez dada a salvação, as pessoas devem receber segundo a sua dedicação, capacidade, mérito. E este não é o pensamento da esquerda.

4) O Estado não deve patrulhar o pensamento
Reconheço que restringir ou censurar a liberdade de imprensa, de expressão e de opinião não é uma exclusividade da esquerda. Mas é inegável o fato de que ela recai muito mais neste pecado do que a direita ou o centro.

Sei que muitos cristãos, reformados inclusive, gostariam de um Estado teocrático, confessional, onde as leis de Deus fossem as leis da nação. Dar as pessoas a liberdade de pensarem e opinarem o que quiserem, mesmo que sejam pecados aberrantes, como o aborto, parece mais satânico do que santo.

Contudo, a esperança da vinda completa do Reino de Deus não é para este mundo. Como bem diz a Bíblia, aguardamos uma pátria diferente:
Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se na verdade, se lembrassem daquela onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade. (Hebreus 11:13-16)
A sociedade ideal não será alcançada aqui. E todo regime político ou econômico deve levar em consideração que vivemos em um mundo caído de pessoas imperfeitas que jamais se curvarão espontaneamente a Cristo. E não tem jeito: trigo e joio devem crescer lado a lado até o fim. Não há como separar aqui.

Talvez por isso Jesus e os apóstolos jamais pediram ao Império Romano que o Estado apoiasse a Igreja. Nem condenaram os romanos por permitirem a idolatria. Na verdade, o que parece transparecer em Atos é que o desejo dos cristãos era o de pregarem livremente a Palavra. Quando Paulo apela ao direito romano (e Atos mostra favoravelmente Paulo usando a sua cidadania), o que ele busca (e de certa forma consegue) é a liberdade de pregar, enquanto os judeus querem calá-lo.

Considerando que os judeus queriam uma uniformidade judaica e que os pagãos queriam uma uniformidade pagã (por isso odiavam judeus e cristãos), os cristãos deveriam ser os primeiros a defender a liberdade de ação, de opinião, de pensamento, de expressão. O Império Romano não é o baluarte da democracia, mas deu uma liberdade aos seus cidadãos maior que a de impérios anteriores, tanto que tornou possível que Paulo usasse o Estado para preservar o pescoço e continuar pregando.

Quando o Império Romano perseguiu os cristãos ou mesmo matou a Jesus, apenas se desviou do alvo, feriu as suas próprias regras, corrompeu o que havia de belo em seu governo. Mas nada disso não muda o fato de que, quando Roma se aproximou da liberdade, o cristianismo encontrou defesa, apesar de ser uma minoria.

No totalitarismo isso não é possível. E não há comunismo sem ele, porque você só consegue produzir a igualdade de modo artificial: calando os descontentes, os diferentes, preservando a unidade às custas do indivíduo.

E, se os cristãos percebessem melhor o que Jesus e os apóstolos ensinaram sobre o Estado e conhecessem melhor a própria história, jamais aceitariam o totalitarismo. E como ele é indispensável à esquerda (como provam Chávez, os chineses, os norte-coreanos e, em certa medida, o PT), eu não entendo como os cristãos podem ser de esquerda.

Encerro aqui o meu texto. Não é exaustivo, não trata de tudo, talvez nem seja muito profundo. Mas creio que é suficiente.

6 de abril de 2010

Entre ler sobre Calvino e ler Calvino

O que me levou a escrever sobre o presente tema foi o fato de ter chegado hoje às minhas mãos dois comentários de Calvino que comprei pela internet: o volume I de Salmos, que estava esgotado pela Edições Parakletos e foi reeditado recentemente pela Editora Fiel, e os vols. I e II de Daniel, ainda pela Parakletos. ABRE PARÊNTESE. Na realidade, estou escrevendo somente para minha terça não passar em branco. Mas penso que meu “testemunho” pode interessar a algum meio-leitor de Calvino, como o Leonardo Galdino de antes… FECHA PARÊNTESE.

Até pouco tempo atrás eu nunca havia lido nada escrito por Calvino. Nenhuma obra, nenhum comentário – apenas citações. Na realidade, para quem não está disposto a ir direto à fonte, as citações bastam. Um autor reformado citando Calvino aqui, outro acolá, e pronto: eis a receita para se ter uma colcha de retalhos completa de ditos do reformador. E acho que descobri por que eu achava mais graça em ler citações sobre Calvino do que ele próprio: é que Calvino não cita Calvino!

Contudo, essa situação mudou quando decidi comprar algumas de suas obras publicadas em língua portuguesa. A primeira delas foi o seu comentário em 1 Coríntios (Edições Parakletos). Foi nesse dia que eu descobri porque ele foi considerado o maior exegeta e teólogo da Reforma. Daquele dia pra cá, não parei mais de lê-lo – agora, não somente em citações e notas de rodapé, mas in loco. Adquiri, mais tarde, As Institutas, sua magna opus.

Hoje, dos comentários disponíveis em língua portuguesa, só me falta o de Hebreus. Estou esperando a Editora Fiel reeditá-lo, como ela havia prometido. E não apenas isso, mas o de lançar outros comentários inéditos desse grande vulto da história do Cristianismo. Espero que isso não demore para acontecer, porque, parafraseando Boanerges Ribeiro (no seu prefácio ao vol. I de Salmos), “escritos de calvinistas são interessantes; escritos de Calvino são inestimáveis”.

Deus seja louvado!

Soli Deo Gloria!

1 de abril de 2010

Que é o homem?


Quando o salmista perguntava "que é o homem para que Te lembres dele?", a pergunta retórica indicava uma compreensão profunda do lugar do homem diante de Deus.

A pergunta sobre o "lugar" do homem no espaço e no tempo define uma série de outros pontos do nosso modo de viver. Alguém com uma concepção por demais pessimista sobre a humanidade é levado ao niilismo, existencialismo, ou qualquer abordagem que cede ao desespero. Do outro lado, quem desenvolve uma visão exageradamente otimista do ser humano, acaba vivendo em uma ilusão ineficaz para explicar os problemas e crises humanas.

João Calvino afirmava que o conhecimento de Deus produziria auto-conhecimento na medida correta. Partindo desta premissa, já observamos os atributos de Deus e percebemos pontos importantes de Sua Palavra. Agora, então, é a hora de concentrarmos o foco no que a Bíblia diz a respeito de nós.

Longe das fórmulas prontas e psicologizadas, buscamos uma abordagem acima de tudo fiel à Palavra de Deus, e consoante com a tradição Reformada. Entendemos que muitos dos problemas nas comunidades cristãs atuais, brota de uma antropologia confusa nestes aspectos: ou é (1) "psicologizada" demais, conhecedora de todas as teorias e postulados das várias escolas da psicologia enquanto desconhece ou minimiza a perspectiva bíblica sobre o assunto; ou (2) falha na fidelidade à Escritura, às vezes rejeitando a psicologia, mas ainda assim se apegando a tradições teológicas que rejeitam aspectos fundamentais da antropologia bíblica; ou (3) rejeita a produção do período da Reforma, considerando-a severa ou pessimista demais, bem como o ensino reformado a respeito do homem.

O Dr. Michael Horton sugeriu que, se você tem uma visão inadequada do problema, a sua solução para o problema será compatível com a sua percepção, e também será indequada para a dificuldade em evidência. A partir disso, ele utilizou a pesquisa de um sociólogo norte-americano - Christian Smith - e chegou à conclusão de que muito da teologia dos evangélicos naquele país (e não só lá) se tornou uma nova religião: o Deísmo Moralista e Terapêutico. Essa solução contemporânea parte de noções erradas sobre Deus, o homem, e sua relação. Quando você desconhece o problema, surgirá com soluções ineficazes problemáticas.

A mentalidade terapêutica se fundamenta na percepção de que, em última análise, o problema do homem é psicológico. Podemos confiar nesta percepção?

Neste mês de Abril os 5 calvinistas analisarão o homem. Uma antropologia bíblica será o nosso foco. Acompanhe-nos nessa jornada!

* * *

Allen Porto é blogueiro do BJC, e escreve às quintas no 5 Calvinistas.

31 de março de 2010

Bíblia e Predestinação [9] - A Perseverança dos Santos

Para ler o post anterior da série, clique aqui.
Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. (João 6:37-40)
Quando eu me converti, na época em que Dunga era só um jogador de futebol e o Brasil ganhava o tetracampeonato, um argumento usado para me convencer a deixar de ser católico era a distinção entre os católicos praticantes e não-praticantes. Dizia o nobilíssimo Rafael Garcia, o homem usado por Deus para me levar ao Evangelho: "Vocês, católicos, escolhem se seguem ou não a sua religião, por isso há os praticantes e os não-praticantes. Mas nós evangélicos não temos essa distinção: todos temos que seguir a nossa fé".

Infelizmente, hoje em dia este argumento não é mais válido. Os evangélicos também têm os seus não-praticantes, também conhecidos como desviados. Pessoas que freqüentaram igrejas, foram batizadas, mas abandonaram a fé ou vivem de modo contrário a ela. E há uma angústia enorme quanto à salvação dessas pessoas. Afinal, se elas morrerem hoje, vão ou não ao céu?

Responder a esta pergunta não é fácil. Mas antes de chegarmos lá, precisamos compreender uma doutrina: a da perseverança dos santos.

Os dois lados do ringue
Uma vez adquirida a salvação, ela pode ser perdida por causa de algum pecado? Segundo os calvinistas (ou reformados), a resposta é não. O verdadeiro salvo perseverará no caminho do Senhor até o fim. Ainda que ele se decepcione com Deus e com a Igreja, essa decepção nunca se transformará em uma apostasia, ou seja, jamais o verdadeiro salvo chegará a perder a sua fé em Deus. Essa doutrina é conhecida como a perseverança dos santos, e é o último ponto do calvinismo.

Os arminianos pensam diferente. Para eles, a salvação pode sim ser perdida. Se um salvo peca e não tem tempo de confessar o seu pecado e arrepender-se dele, ele irá ao inferno. Essa doutrina tem sido básica em muitas igrejas, notadamente algumas de cunho neopentecostal fortemente ligadas às doutrinas do G-12 e de batalha espiritual.

Uma acusação arminiana ao calvinismo é de que a perseverança dos santos induz os salvos ao relaxamento moral. Ao afirmar a salvação como uma graça eterna, o calvinista induziria os cristãos a darem ao pecado um valor menor que o real e a superestimar a graça divina, produzindo uma igreja de desviados.

A minha acusação como reformado é um pouco mais pesada: o ponto de vista arminiano torna Jesus Cristo um Filho desobediente ou incapaz de cumprir a vontade do Pai. Se a perseverança dos santos não é real, há um conflito na Trindade e não seria exagero negar a divindade do próprio Cristo.

O ensino de Jesus
Vejam o que diz Jesus no texto que abre este post. Algumas afirmações não podem passar despercebidas:

1) Todo o que o Pai dá a Jesus, vai até Ele. Esse ponto é mais desenvolvido no post anterior, sobre a graça irresistível.

2) Jesus não lança fora os que vão até Ele. Essa promessa é reforçada pela expressão "ou mê", que é traduzida como "nunca" ou "de modo nenhum". Em outras palavras, não há uma possibilidade pela qual Jesus venha a rejeitar os que Ele recebe do Pai. Se Jesus rejeitar um só destes, Ele mentiu e já não merece ser chamado de Deus.

3) A vontade do Pai é que nenhum eleito se perca. Deus Pai deseja que todo homem que veja o Filho e creia n'Ele tenha a vida eterna. Todos, sem exceção. Ele dá pessoas ao seu Filho e não quer que o seu presente seja desperdiçado. Repare, no entanto, que o texto não diz que a vontade do Pai é salvar a todas as pessoas, mas apenas um grupo de pessoas: os que Ele deu ao Filho, que são os mesmos que veem a Jesus e n'Ele creem.

4) Jesus vem cumprir a vontade do Pai. Salvar a humanidade, ensinar, curar...tudo isso pode ser resumido em uma única intenção de Jesus: fazer a vontade de seu Pai. De fato, esse objetivo era tão forte que Ele disse que eram a Sua comida (João 4:34). Repare que Jesus coloca sobre Ele mesmo a responsabilidade de guardar os salvos. Se eles não se perdem é porque Jesus cumpre a vontade do Pai e não perde os Seus filhos.

Mas, e os desviados?
Há duas possibilidades. A mais benigna é a de que pode ser que o "desvio" seja algo passageiro, que o cristão se arrependa e volte à comunhão com o Senhor. É isso o que parece ter acontecido com um membro da igreja de Corinto:
Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós; basta-lhe a punição feita pela maioria. De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor." (2 Coríntios 2:5-8)
Por outro lado, é possível que, na verdade, o desviado jamais tenha sido salvo. Na parábola do trigo e do joio, Jesus afirma que tanto o trigo (filhos de Deus) como o joio (filhos do diabo) crescem juntos no mundo (o que, certamente, inclui também as igrejas). Salvos e não-salvos vivem lado a lado e nem sempre é possível distinguir um do outro:
Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro. (Mateus 13:29-30)
Todos os versículos de advertência quanto a uma possível perda de salvação devem ser lidos tendo essa parábola em mente. Os apóstolos escreviam a igrejas onde trigo e joio convivem lado a lado. As ordens de perseverar servem para encorajar os salvos a permanecerem na fé e para evidenciar as pessoas que não são filhas de Deus:
Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. (1 João 2:19)
Uma advertência final
A perseverança dos santos não é, de modo algum, uma licença para pecar. Nem ela e nem a doutrina da predestinação. O verdadeiro cristão se santifica à medida que o tempo passa, enquanto os condenados ao inferno permanecem no pecado. Um versículo de Apocalipse esclarece bem isso:
Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se. (Apocalipse 22:11)
O santo persevera na santidade e não no pecado.

Concluo aqui a série de posts sobre a base bíblica da predestinação. Espero que a exposição seja útil à edificação dos irmãos.

30 de março de 2010

Meu sobrinho, a inspiração da Bíblia, a divindade de Jesus e os liberais

Quando estou de férias em Recife uma de minhas atrações favoritas (senão a favorita) é curtir o meu sobrinho, de três aninhos de idade (e não é porque o nome dele é igual ao meu, viu?!). Como ainda não sou pai, meu consolo é ficar babando por ele (acho que herdei a “corujice” de meus pais). Desta última vez em que fui a minha amada terra, ensinei-lhe a dizer que a Bíblia é a Palavra de Deus.

– “A Bíblia é o que, Leo”?

– “A Palavra de Deus”, respondia ele entusiasticamente, com os punhos cerrados e dando socos no ar, como se estivesse comemorando um gol ou coisa do tipo. Fiquei lhe perguntando repetidas vezes a mesma coisa, e a resposta era sempre a mesma: “A Palavra de Deus, a Palavra de Deus”! Depois disso, dessa vez sem adotar nenhuma metodologia tipo catequética, perguntei-lhe quem era Jesus. Ele pensou um pouco, pensou, e disse: “É… é… é Deus”! Ainda nem tínhamos conversado sobre isso! Nem acreditei no que ouvi, tanto que resolvi forçar mais ainda a barra:

– “E quem é Deus, Leo”?

– “Jesus”, respondeu ele dando de ombros, com aquela simplicidade que é própria das crianças. Depois daquele dia eu quase disse para mim mesmo que agora eu poderia morrer, ops!, ir para Santarém em paz (*).

Depois de mais  dois meses sem falar com meu sobrinho, pedi a minha mãe para levá-lo à casa dela somente para eu matar um pouquinho da saudade que sinto dele. Depois de tantos desencontros (eu ligo e ele não está, ele está e eu não ligo…), o dia finalmente chegou: eu estava, enfim, cara a cara, ou melhor, fone a fone com ele. E adivinhem qual foi a primeira pergunta que lhe fiz?

– “A Bíblia é o que, Leo?” –  perguntei-lhe com aquela expectativa ofegante, para ver se ele ainda lembrava.

“A Palavra de Deus!”, respondeu ele sem hesitar (só não deu para saber se foi com socos no ar). Dois meses depois e ele ainda lembrava! Puxa vida! Nem precisa dizer como me senti, não é mesmo? Bem, depois de ouvir o que queria (egoísta bitolado, eu?!), começamos a conversar sobre sua escolinha, seus amiguinhos, sua “malcriação” (“birra”, para os não-nordestinos), etc, etc, etc.

As declarações de meu sobrinho fariam muita gente se contorcer toda, especialmente os liberais, que negam tanto a inspiração das Escrituras quanto a divindade de Jesus. Para estes, as palavras do  pequeno Leo não revelam apenas a “inocência” de uma criança que ainda não sabe o que diz, mas também a ilusão de toda uma cultura cristã construída sobre uma base mítica – os Evangelhos, que não são, segundo eles, um relato confiável da vida e ministério de Jesus. É exatamente assim que pensa, por exemplo, Rudolf Bultmann, teólogo liberal (roxo, diga-se de passagem), considerado por muitos como um dos maiores eruditos em Novo Testamento do século 20.

Eu realmente penso que não podemos saber quase nada sobre a vida e a personalidade de Jesus, já que as fontes cristãs primitivas [os Evangelhos] não mostram qualquer interesse em ambos, são fragmentárias e frequentemente lendárias; e outras fontes sobre Jesus não existem[1].

Para Bultmann, a Bíblia nada mais é do que o registro das crenças de um povo, a saber, dos judeus e cristãos do primeiro século, nada mais. Ela está cheia de lendas e crenças populares. Não há nenhuma verdade absoluta ali, apenas crendices (lendas).

A comunidade cristã estava convencida de que Jesus havia realizado milagres, e contaram muitas histórias de milagres sobre ele. A maioria das estórias sobre milagres que estão nos Evangelhos são lendas, ou pelo menos estão revestidas de caráter lendário. Não pode haver dúvida, contudo, que Jesus realizou atos que, no seu entendimento e no de seus contemporâneos, eram atribuídos a uma causa divina sobrenatural[2].

Além de eventos como o relato do chamado dos primeiros discípulos (Mt 4.18-22; Mc 1.16-20; Lc 5.1-11), da morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9), da moeda na boca do peixe, para pagar o imposto (Mt 17. 24-27), e da última Ceia (Mt 26.26-30; Mc 14.22-26; Lc 22.14-20), a própria ressurreição de Jesus é considerada por liberais como Bultmann como mitológica, lendária. Para eles, Jesus não ressuscitou literalmente, mas apenas no coração e na lembrança dos discípulos. Por exemplo, Cristo não esteve literalmente com aqueles dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24.13-35), mas apenas “na memória” destes. Ou seja, o Jesus que caminhava com aqueles discípulos era, na realidade, uma fantasia. Consequentemente, isso faz com que a divindade de Jesus também seja mítica, já que sua ressurreição (que para nós, os que cremos, é uma prova cabal de sua divindade) não foi histórica, mas folclórica. E o que Bultmann propõe para que relatos tão “fantasiosos” e “folclóricos” como esses é que o intérprete das Escrituras proceda a uma “demitização” (ou “desmitologização”) da mensagem do Evangelho (do kerigma), o que pode significar negar totalmente o conteúdo da Revelação, mesmo que alguns relatos nem sejam tão “absurdos” e “folclóricos” assim.

Prefiro ficar com a simplicidade do meu sobrinho a ceder às sugestões de Bultmann e seus confrades liberais. E não se trata de nenhum tipo de “nepotismo teológico” de minha parte, claro que não. O que o pequeno Leo falou apenas está de acordo com o ensino das Escrituras, no qual creio ser infalível, inerrante e inspirado. “Nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” – é o vaticínio de Pedro quanto à infalibilidade e inspiração da Bíblia (2Pe 1.20-21). Pedro diz que os santos profetas não falaram aquilo que eles “achavam” que ia acontecer, e sim aquilo que Deus lhes mandara falar e que Ele mesmo cumpriria. Este mesmo Pedro, quando discursou em Jerusalém por ocasião da descida do Espírito Santo sobre a igreja no dia de Pentecostes (At 2), aplicou o Salmo 16, especificamente os versículos de 8 a 10, a Jesus: “Porque não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” – referindo-se à ressurreição de Cristo como um fato histórico, o que atesta tanto a infalibilidade das Escrituras quanto a divindade do Filho de Deus. Se isso é mero mito, como querem os liberais, então, de acordo com o apóstolo Paulo “é vã a nossa pregação, e vã, a nossa fé” (1Co 15.14).

O teólogo presbiteriano Grescham Machen já dizia que “o liberalismo teológico não é cristianismo, mas outra religião”. G. K. Chesterton foi mais além (apesar de não estar se referindo diretamente aos liberais) quando disse que “quando as pessoas deixam de crer no verdadeiro Deus da Bíblia, isso não significa que elas deixaram de crer em algo, mas que elas agora creem em tudo ao mesmo tempo”[3]. H. Richard Niebuhr também deixou seu comentário (caricaturizado) sobre a perspectiva liberal: “um Deus sem ira levou homens sem pecado para um reino sem julgamento pelas ministrações de um Cristo sem uma cruz”[4]. Tudo isso só reforça ainda mais o parecer simples, mas extremamente profundo, do meu querido sobrinho: a Bíblia é a Palavra de Deus; Jesus é Deus! Simples assim.

Soli Deo Gloria!

(*) Isso não quer dizer que eu esteja aderindo ao Monarquianismo Modalista (séc. IV), que não faz distinção entre as Pessoas da Trindade (aquelas coisas do tipo: “o Pai foi para a cruz”, Unitarismo, etc).  Só estou ressaltando a divindade de Cristo, nada mais. Seria exigir demais de uma criança de apenas três anos que ela distingua tão bem algo que nem mesmo os grandes teólogos da história conseguiram fazer – desvendar o inesvendável mistério da Trindade.


[1] Bultmann, Rudolf K. Jesus and the Word (1934). Citado por Augustus Nicodemus Lopes em A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo, 2007. Editora Cultura Cristã. Pág. 208.

[2] Idem. Pág. 208, 209.

[3] Citado por Michael Horton em A Face de Deus – os perigos e as delícias da intimidade espiritual. São Paulo, 1999. Editora Cultura Cristã. Pág. XV.

[4] Idem. Pág. XVI.