21 de julho de 2011

Quem foi Francis Schaeffer?

O pesquisador Bryan Follis informa que Francis Schaeffer estudou sob o magistério de Van Til por dois anos, enquanto estava no seminário. Àquela altura ele não imaginava o tipo de ministério que Deus faria surgir através de seu serviço.
Francis August Schaeffer IV nasceu em Germantown, Pennsylvania,  em um lar marcado por simplicidade e ausência de tradição intelectual. Seguindo a linha de seus pais, ele caminhou na adolescência pelos estudos técnicos, como construção elétrica e metalurgia. Havia passado a frequentar a Primeira Igreja Presbiteriana de Germantown, por influência do grupo de escoteiros a que fazia parte. Aprendeu ofícios manuais com o seu pai, como marcenaria e o trabalho com encanamento, e ainda na adolescência exerceu serviços nessa linha, como vender peixes aos sábados.
Em certa ocasião, um professor de escola dominical deu a Schaeffer a tarefa de ensinar um conde russo a ler. Para ajudar o seu novo aluno, Schaeffer foi à livraria nas proximidades da Philadelphia e pediu ao livreiro um material para leitores iniciantes no inglês. Por erro do livreiro, saiu dali com um livro sobre a filosofia grega. A partir da leitura curiosa da obra, foi despertado para o amor às idéias.
Outras leituras vieram, como a de Ovídio, e Fran – como era chamado – começou a perceber que a filosofia em si não promovia respostas satisfatórias às perguntas que levantava. Ao mesmo tempo, sentiu desconforto semelhante em sua igreja, que cedia ao liberalismo, e levantava questionamentos sem fornecer respostas sólidas. Decidiu, então, paralelamente às leituras filosóficas, ter contato direto com a Escritura – o que não existia até então. Na Bíblia Schaeffer encontrou as respostas às perguntas da filosofia. Foi assim que se tornou um cristão de fato.
Schaeffer ingressou na escola de engenharia, mas logo começou a perceber o chamado para o ministério pastoral. A despeito da vontade de seus pais, firmou-se na convicção e seguiu para os estudos em Hampden-Sydney College, Virginia, onde se prepararia para o treino ministerial posterior.
Após um ano estudando na Virginia, Fran conheceu Edith Seville nas férias de verão em Germantown. A interessante ocasião em que se conheceram deu o tom de seu relacionamento: juntos defenderam (e defenderiam) a fé cristã contra o liberalismo teológico. Ed Bloom, ex-membro da Primeira Igreja Presbiteriana, ministrou estudo aos jovens da igreja - “Como eu sei que Jesus não é Deus, e como eu sei que a Bíblia não é a Palavra de Deus”. Ao final de sua fala, tanto Fran quanto Edith manifestaram-se publicamente pelo cristianismo ortodoxo, e assim desenvolveram interesse mútuo. Casaram-se em 1935.
Schaeffer começou os estudos no Westminster Theological Seminary, mas concluiu no Faith Theological Seminary em 1938, ano em que também foi ordenado. Pastoreou em Grove City, Pennsylvania; Chester (mesmo estado) e St. Louis, Missouri.
  Logo após a Segunda Guerra mundial, em 1947, Fran foi enviado à Europa pela Junta Independente para Missões Presbiterianas Estrangeiras (Independent Board for Presbyterian Foreign Missions). O objetivo era avaliar a situação do continente em relação à sua reconstrução, e o estado da igreja ali. Schaeffer estava diretamente interessado na condição do trabalho com crianças e jovens, bem como na ameaça do liberalismo teológico. Ele passou três meses, nos quais visitou treze países e começou a abrir os olhos para a Europa.
A família Schaeffer se mudou para a Europa em 1948, e se instalou na Suíça. Inicialmente ficaram em dois quartos pequenos na cidade de Lausanne. Logo se mudaram para Champéry, nos Alpes, onde começaram um trabalho evangelístico e uma igreja. Mas por se tratar de um cantão católico, tiveram de se mudar, e finalmente chegaram a Huemoz, onde o trabalho de L'Abri teve início.
  Em 1955 é registrado o começo de L'Abri. A partir das conversas com os amigos universitários de suas filhas, Francis e Edith perceberam que havia uma grande oportunidade diante deles. O ministério cresceu consideravalmente, atingindo jovens do mundo inteiro, e expandindo seus branches para outros lugares, como Inglaterra, Holanda e Estados Unidos.
Schaeffer faleceu em 1984, após severas lutas com câncer (linfoma). Os últimos anos de sua vida foram marcados por intensa produção, como o filme “Whatever happened to the human race?”, a organização de suas obras completas, e palestras.
A grande contribuição de Schaeffer, entre outras, está em uma abordagem apologética baseada em sólida teologia, que interagiu com a cultura, e tratou o homem de modo pessoal –  trazendo “respostas honestas a questões honestas”.

18 de julho de 2011

Charles C. Ryrie e a expiação limitada

Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. Cl 2:14
Charles C. Ryrie é um teólogo batista dispensacionalista e professor de teologia sistemática. Tem um mestrado e três doutorados em teologia, escreveu várias obras de referência na área teológica, incluindo algumas traduzidas para o português: Teologia Básica ao Alcance de Todos (Mundo Cristão), Como Pregar Doutrinas Bíblicas (Mundo Cristão) e Dispensacionalismo: ajuda ou heresia? (ABECAR). Mas sua obra mais conhecida é a Bíblia Anotada Expandida. Ele é o que se costuma chamar de calvinista dos quatro pontos, pois rejeita o quinto deles, a redenção particular.

Na sua Teologia Básica, ele defende a expiação ilimitada e tenta responder ao argumento calvinista de que se Jesus pagou pelo pecado de todos, então os pecados dos não eleitos serão pagos duas vezes, pois já “foram pagos na cruz pela morte de Cristo e serão pagos novamente no julgamento”.

Ele começa questionando “os israelitas que se recusaram a colocar o sangue nas portas de sua casa na Páscoa tiveram seus pecados pagos duas vezes? Quando o cordeiro pascal foi morto, seus pecados foram encobertos. Mas se alguém não colocou o sangue nas portas morreu imediatamente. Esse foi um segundo pagamento por seus pecados? Claro que não”. Ele complementa dizendo que “a morte após a desobediência de passar o sangue foi a retribuição justa pelo fato de a pessoa não ter se apropriado do sacrifício suficiente”. Prosseguindo, ele argumenta que “a expiação de Cristo pagou pelos pecados do mundo todo, mas as pessoas devem se apropriar desse pagamento pela fé. O mundo foi reconciliado com Deus (2Co 5.19), mas essa população que foi reconciliada como um todo, precisa ser reconciliada individualmente com Deus (v. 20)”.

Ele recorre então a analogia de uma escola que tinha um fundo que recebia doações para custear os estudos dos alunos pobres. Um comitê decidia quais alunos receberiam o auxílio e emitia um cheque em nome do aluno, que para receber deveria endossar o cheque e com ele pagar a escola. Se ele não endossasse o cheque, não receberia o crédito, embora a conta já tivesse sido paga. Então Ryrie conclui que “a morte de Cristo pagou pelos pecados de todas as pessoas, mas ninguém teve a sua conta paga até o momento em que creu”. Há quem seja convencido pela simplicidade da explicação de Ryrie. Mas nunca é bom confundir simplicidade com verdade, pois embora a verdade geralmente seja simples, nem tudo o que é simples é verdadeiro.

O erro básico de Ryrie é confundir o papel da fé na apropriação dos benefícios da morte de Cristo pelo pecador, com a aceitação pelo Pai da satisfação oferecida por Cristo. Para que aquilo que Jesus conquistou na cruz seja aplicado na vida do cristão é necessário fé. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8). A fé é o meio pelo qual os benefícios da cruz se tornam reais na nossa vida.

Porém, a fé é absolutamente desnecessária para que Deus receba a satisfação oferecida pelo sacrifício de Jesus. Vamos entender bem a questão. Quando o homem pecou, tornou-se devedor de Deus. Uma nota promissória foi lavrada e Deus poderia executar sua justiça contra nós. “E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos” (Mt 10:24). De fato, a justiça de Deus requeria que a dívida fosse paga. “E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse” (Mt 18:25). É claro que o homem não pode pagar a dívida para com Deus. Então Jesus morreu no lugar dele para pagá-la. “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53:10). A morte de Jesus satisfez completamente a demanda da justiça de Deus e ofereceu plena quitação da dívida.

É um completo absurdo pensar que a expiação oferecida por Jesus não tenha sido aceita pelo Pai, ficando em suspenso até o ingrediente da fé. Seria afrontoso se para que Deus considerasse a dívida paga, ao sangue de Jesus precisasse ser acrescido alguma coisa da parte do homem. Isso seria negar o valor intrínseco e a eficácia da morte de Jesus, e fazer do homem co-participante da expiação. Portanto, a fé do homem não complementa, nem confere eficácia ao sacrifício perfeito de Jesus. Noutras palavras, a fé é desnecessária para que o preço pago por Jesus seja aceito por Deus.

Sendo assim, como fica o arranjo de Ryrie para um preço completamente pago, mas ainda não realizado? Tenhamos em mente que ele não está falando dos eleitos, pois nestes o Senhor gera a fé necessária à apropriação da salvação. Ele está falando dos não eleitos, ou seja, dos que serão condenados no dia do juízo.

Consideremos os israelitas na noite da primeira páscoa, que são tomados como exemplo por Ryrie. Primeiro, que se ele quiser ser fiel ao relato bíblico, não deve considerar os israelitas como não eleitos, e sim os egípcios, pois os filhos de Israel eram o povo de Deus, e os egípcios os não eleitos. E a provisão de um cordeiro, para expiação, não foi feita para os egípcios, mas apenas para os judeus. Quanto aos eleitos, Deus tendo aceitado o sangue do Cordeiro, sempre os leva à fé necessária à apropriação, como ocorreu com os filhos de Israel: “E foram os filhos de Israel, e fizeram isso como o SENHOR ordenara a Moisés e a Arão, assim fizeram” (Ex 12:28). Já em favor dos egípcios (não eleitos), não havia Cordeiro preparado, e aconteceu que “à meia noite, que o SENHOR feriu a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere... havia grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto” (Ex 12:29-30)

Assim como Ryrie, também terminarei com uma analogia de pagamento. Pela lei brasileira, quando alguém financia um carro, o mesmo fica alienado à financeira. Em caso de atraso no pagamento, a financeira pode pedir na justiça a reintegração de posse, podendo inclusive contar com a força policial para recuperar o veículo. Se o cliente tiver se desfeito do carro ou escondê-lo, terá sua prisão decretada para forçar a entrega do bem. E uma vez apreendido, somente o pagamento integral da dívida, em até cinco dias, o livra de ir a leilão.

Agora, imagine que eu tenha financiado um carro e logo em seguida, perdido o emprego, ficando sem condições de pagar. O oficial de justiça me notifica que no dia seguinte a financeira virá buscar o carro. O problema é que eu o passei a terceiro, em troca da minha casa, e agora corro o risco de ir para a cadeia. Sem meu conhecimento, alguém vai até o juiz que emitiu a ordem de busca e apreensão e paga, não apenas as parcelas em atraso, mas o valor integral do financiamento. A partir do momento que o pagamento foi feito e aceito, existe alguma lei que possa me levar à prisão? Poderia, por exemplo, a financeira alegar que como não fui eu que realizei o pagamento ou porque não passei uma procuração para que um terceiro o fizesse, o pagamento não foi aceito? Claro que não. Se o juiz determinasse que eu pagasse de novo a dívida, estaria sendo injusto.

Assim, permanece em pé o argumento de que, se Jesus pagou por todos os pecados de todos os homens, então todos os homens serão salvos e Deus estaria agindo como um juiz injusto ao cobrar de novo uma dívida que já foi completamente paga.

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

11 de julho de 2011

Enfrentando as 10 dificuldades do calvinismo

Apóiam-se em argumentos vazios e falam mentiras; concebem maldade e geram iniqüidade. Is 59:4

Azenilto Gama compila o que chama de 10 Principais Dificuldades do Sistema Calvinista, as quais considera suficientes para fazer com que qualquer calvinista coerente mude de posição. Mas, quem é Azenilto Gama? Conheço-o de longa data, tivemos alguns longos debates sobre adventismo, mas se interessar, recomendo que faça uma busca no Google para descobrir mais sobre esse adventista que gosta de ser chamado de professor. Segue uma resposta ao seu artigo, o qual aconselho ler, uma vez que respondo sem transcrever o que ele disse.

1. A eleição não é cristocêntrica. A doutrina da eleição é cristocêntrica na medida que a eleição é feita em Cristo. Aos Efésios 1:3-6 diz que Deus “nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” o que inclui obviamente a eleição, pois “também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”, e também “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo” e nos “nos fez agradáveis a si no Amado”. Bem ao contrário do que Azenilto diz, a Bíblia afirma que a eleição pré-temporal é cristocêntrica.

2. Jesus não é o ponto de partida da eleição. Os eleitos são um presente do Pai para Jesus. “Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos” (Jo 10:29). Quando alguém resolve presentear alguém, o ponto de partida é a pessoa presenteada, não o presente em si. Ninguém compra um presente para dar a alguém, sem pensar nesse alguém em primeiro lugar.

3. Deus é a causa do pecado. Deus não peca, mas o pecado só existe porque Deus quis que existisse. “Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e causo a desgraça; eu, o Senhor, faço todas essas coisas" (Is 45:7). Negar que Deus decretou a existência do mal é admitir o dualismo, e que Ele não pôde evitar o mal quando este surgiu no coração de Satanás.

4. É uma doutrina que não pode ser pregada. Jesus ordenou a pregação do evangelho, dizendo “vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Mc 16:15). Ele também especificou o conteúdo da mensagem: “Por onde forem, preguem esta mensagem: ‘O Reino dos céus está próximo’” (Mt 10:7). A doutrina da eleição pode, e tem sido pregada, basta ler alguns sermões de Spurgeon e de alguns reformados de hoje na Internet e concluir que é uma mensagem frequente em púlpitos reformados. Quanto a pregar a condenação, seguimos o exemplo do mestre: “Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão” (Lc 13:3)

5. Apresenta Deus não amoroso e injusto. A Bíblia diz que Deus “em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade” (Ef 1:5). Os crentes são descritos “como povo escolhido de Deus, santo e amado” (Cl 3:12) e de fato “sabemos, irmãos, amados de Deus, que ele os escolheu” (1Ts 1:4). Mas o amor de Deus pelos eleitos não implica que Ele seja injusto com os réprobos. Depois de citar as palavras de Deus “amei Jacó, mas rejeitei Esaú” (Rm 9:13), Paulo pergunta “e então, que diremos? Acaso Deus é injusto? De maneira nenhuma!” (Rm 9:14). Isto deveria bastar para os que acham que o Deus que elege não é amoroso nem justo.

6. Se não é, parece fatalismo. Fatalismo obedece a uma lei necessidade cega e impessoal. A predestinação é o decreto de um Deus pessoal, infinitamente sábio, justo e bom. “Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito ficará de pé, e farei tudo o que me agrada” (Is 46:10) só é fatalismo para quem exclui Deus e se entrega ao acaso cego.

7. Torna a história irrelevante. Sem um Deus soberano governando, a História não passa de um emaranhado de acontecimentos sem sentido e sem propósito. A esperança futura pode ser um pessimismo trágico ou um otimismo utópico, tanto faz. Mas, se cremos num Deus que decreta e governa todas as coisas de forma infalível, então podemos ter certeza de que o que Ele decretou vai se cumprir. E em meio ao emaranhado de eventos, vemos o trem da história seguro para o propósito, o telos que Deus determinou: “Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito ficará de pé, e farei tudo o que me agrada” (Is 46:10). Somente um Deus no trono confere sentido à História.

8. Distorce o sentido da ação humana. Sendo a fé um dom de Deus, como diz Ef 2:8, “vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus”. O homem poderia ter o mérito de renunciar os próprios esforços, se estivesse vivo espiritualmente para se esforçar, mas o fato é que Deus “deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos” (Ef 2:5). Logo, toda glória é dada a Deus.

9. Inspira um falso senso de segurança. Embora a Bíblia nos diga “empenhem-se ainda mais para consolidar o chamado e a eleição de vocês, pois se agirem dessa forma, jamais tropeçarão” (2Pe 1:10), sabemos que nossa segurança não depende de nossa experiência, mas do fato de que somos “protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo” (1Pe 1:5), vale dizer, fomos “chamados, amados por Deus Pai e guardados por Jesus Cristo” (Ef Jd 1:1). O crente não se fia em si próprio, mas sabe que “Aquele que os chama é fiel, e fará isso” (1Ts 5:24).

10. Os frutos não tem sido bons. Contra o calvinismo, tem-se apresentado fatos como a execução de Serveto e o regime do Apartheid, entre outros. Os calvinistas não negam essas manchas históricas, mas as colocam sob a perspectiva correta e lembram de outros tantos bons exemplos apresentados por calvinistas. Não é o caso de enumerá-los aqui, pois uma doutrina não se prova dizendo que Madre Tereza a esposava, nem se refuta dizendo que Hitler acreditava nela. A verdade se prova biblicamente, “pois nada podemos contra a verdade, mas somente em favor da verdade” (2Co 13:8) ou, para citar um verso caro aos adventistas, “se eles não falarem conforme esta palavra, vocês jamais verão a luz!” (Is 8:20). E no arrazoado do professor, sobrou frases sem sentido e faltou fundamentação bíblica.

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

7 de julho de 2011

Quem foi Cornelius Van Til?

Poucos cometeriam o terrível erro estratégico de publicar uma monografia em blog. Eu provavelmente seria um desses idiotas. Mas, enquanto pensava sobre o post de hoje, achei por bem selecionar um trecho de trabalho monográfico, que traz uma mini-biografia de Cornelius Van Til - apologeta cristão que passou a ser publicado em língua portuguesa agora em 2011 (pela editora cultura cristã). Por se tratar de um "ctrl c + ctrl v", não me preocuparei em trazer as notas de rodapé.


O trabalho, em seu conteúdo geral, versa sobre uma abordagem vantiliana em comparação com outra, de Francis Schaeffer. Talvez na próxima semana role uma biografia resumida deste segundo autor. Por ora, vai uma apresentação pequena de Van Til.

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Cornelius Van Til nasceu na Holanda, em um lar marcado pela fé reformada. Descreve um pouco de sua história no livreto “Por que creio em Deus”, e demonstra a educação cristã que lhe foi dada por seus pais. Tendo se mudado para os Estados Unidos ainda na infância (Highland, Indiana), ali cresceu e se desenvolveu nos estudos, graduando-se no Calvin College, cursando o Calvin theological seminary, e concluindo os estudos na Princeton University – onde poderia unir os estudos da universidade e do seminário.
Van Til foi ordenado pastor em 1927 pela Christian Reformed Church, e foi transferido como ministro para a Orthodox Presbyterian Church em 1936. Tornou-se professor do Princeton Theological Seminary em 1928, mas logo saiu por ocasião da influência liberal e as políticas instituicionais. Embora também tenha trabalhado em escola cristã primária e secundária, passou a maior parte de seu ministério ensinando no Westminster Seminary (1929 - 1972).
As influências do pensamento de Van Til são rastreadas por seu discípulo, apologeta, e também professor do WTS, John Frame. Em suas leituras teológicas, são mencionados Abraham Kuyper e J. Gresham Machen, cuja perspectiva e prática sobre a noção de antítese encaminharam muito do pensamento vantiliano.

O conceito de antítese em Van Til pode ser entendido como uma continuação da obra de dois homens que tiveram grande influência sobre ele: Abraham Kuyper e J. Gresham Machen. Kuyper devotou muito de seu pensamento à antítese e à graça comum. De fato, ele também devotou muita ação à aplicação destes conceitos na igreja e sociedade. O insight fundamental de Machen foi o ponto altamente antitético de que o Cristianismo ortodoxo e o liberalismo teológico não são duas posições teológicas cristãs divergentes, como o Calvinismo e o Luteranismo, mas duas religiões diferentes, radicalmente opostas uma à outra. […] Van Til aplicou este pensamento “antitético” à neo-ortodoxia e outros movimentos teológicos .
(tradução livre - FRAME, John. Van Til on antithesis. Westminster Theological Journal, vol. 57, n. 1, Spring 1995, pp. 81-102.)

Também no âmbito teológico, é possível mencionar a influência de Geerhardus Vos, de quem recebeu uma base exegética sólida e teologia bíblica robusta para suas empreitadas teológico-filosóficas.
Seu treino filosófico tem influência de W. Harry Jellema, seu professor no Calvin College (e também professor de Alvin Plantinga, 30 anos depois), e Archibald A. Bowman, filósofo idealista e seu orientador na Princeton University. Possivelmente a influência de Bowman se fez presente na linguagem de Van Til, que por vezes utiliza expressões do idealismo – o que lhe rendeu algumas críticas.
Frame desenvolve um esboço do pensamento de Van Til, baseado em quatro tópicos principais, com seus devidos subpontos (Figura 1). O projeto vantiliano, assim apresentado, trabalha o conhecimento em sua relação com Deus e Sua Palavra, bem como o desenvolvimento de uma abordagem daí decorrente para a apologética. A divisão da teoria vantiliana desta maneira, deve-se frisar, embora pedagógica, é questionada por muitos, que consideram a unidade do sistema como ponto fundamental. Frame toma a liberdade de utilizar a “herança” recebida e criticá-la ou alterá-la nos pontos que considera defeituosos ou incompletos.
Fig. 1: esboço do pensamento vantiliano. Adaptado de John Frame.
Conforme o Dr. Davi Charles Gomes, “sua maior contribuição talvez seja no desenvolvimento de uma apologética conscientemente bíblica e reformada, com pressupostos filosóficos e teológicos claramente examinados”. Ele faleceu três anos após Francis Schaeffer, de quem foi professor no Westminster Seminary.

29 de junho de 2011

Dos calvinistas que comem “despacho” de macumba e bebem vinho

Esse foi um texto que escrevi no Google Buzz, com ligeiríssimas alterações aqui. Por isso mesmo é que ele soa assim, meio solto e com maneirismo de rede social. Risos.

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Hoje discuti com um irmão aqui do trabalho, enquanto almoçávamos, acerca dos alimentos sacrificados a ídolos. Bem, não lembro como começamos, mas o fato é que a conversa tomou rumos inesperados, pelo menos para mim. Ele ficou escandalizado porque eu lhe disse que, numa situação desértica e extrema, faminto, eu comeria um "despacho" de macumba sem problema, desde que eu estivesse sozinho. Argumentei como Paulo, no sentido de que os ídolos não são absolutamente nada, e que Deus há somente um (1 Co 8.4-6). Mas se eu estivesse acompanhado de alguém que não tivesse esse entendimento e que se escandalizasse com minha atitude, eu não comeria por amor a essa pessoa, visto que entendimento desprovido de amor serve somente para inflar o ego ("o saber incha, mas o amor edifica" - 1 Co 8.1)*. Ainda assim, esse irmão disse que o problema era meu, visto que "para Deus não há distinção de pecado", e que Deus era poderoso para suprir sua necessidade, e que por isso jamais se submeteria a comer um despacho de macumba.

Eu sei que depois o papo chegou no vinho, e ele prometeu que ia me provar, mediante estudo do termo grego, que o vinho de que a Bíblia fala, e que Jesus bebeu na Ceia, era vinho não-fermentado; um suco de uva, na realidade. Novamente, tentei argumentar com ele, dizendo que o que a Escritura proíbe é a embriaguez. Inútil. Citei o caso de Noé, que pecou por embriagar-se (não por beber) com vinho, e esse irmão disse que não queria saber da "Velha Aliança". Se o irmão está certo, então será que os fariseus estavam acusando Jesus de ser um “bebedor de suco de uva não fermentado” (cf. Lc 7.34)? Bom, deixa pra lá…

Para coroar a discussão, ele disse que eu cria dessa maneira porque sou calvinista. Perguntou até (em tom de sarcasmo) se eu cria na reencarnação, vejam só! Depois ele se virou para a predestinação, dizendo que ela não é bíblica e todo o papo que vocês já conhecem. Disse que há diferença entre predestinação e eleição. Disse também que meu problema é que eu fui doutrinado pela Igreja Presbiteriana, a qual ele disse conhecer muito bem, e que por isso mesmo está onde está, visto que não foi por ela convencido. Eu falei para ele que não dava pra discutir com uma pessoa que parte dos pressupostos errados. Sugeri-lhe que estudasse os termos gregos (já que ele gosta tanto dos originais!) para eleição e predestinação. Perguntei-lhe também se ele consegue encarar textos como Romanos 9 assim, "numa boa". "Seu problema é que você se baseia em textos isolados"... "Não sirvo a Calvino, sirvo a Deus"; gritou ele quando eu já distava uns cinquenta metros. Sim, deixei ele falando sozinho.

Infelizmente, esse irmão é somente mais um dentre tantos que confundem liberdade cristã com libertinagem (“licença” para pecar) – o que acaba se tornando um dos argumentos preferidos dos não-calvinistas contra o calvinismo, uma vez que somos acusados de nos esconder na predestinação e na perseverança dos santos, usando-as como pretexto para o pecado. Nada mais longe da verdade. É nessas horas que devemos exercitar o amor para com os fracos (cf. Rm 14). E eu diria que deixar ele falando só naquele momento foi, em alguma medida, uma prova de amor. Procurá-lo depois para esclarecê-lo e ajudá-lo pode ser outra ainda maior. Espero que assim seja.

Soli Deo Gloria!
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* Muito embora eu tenha certeza de que, mesmo sem entender a liberdade cristã, meu acompanhante ignoraria sua própria ignorância e mataria logo sua fome. =p