1 de novembro de 2018

A Reforma que o Brasil precisa: Tota Scriptura

Outubro já passou, por que ainda falar em Reforma? Bom, nunca é tarde demais para tocar no assunto, como diz o lema: "Igreja reformada, sempre se reformando". Infelizmente, porém, o lema tem sido mal aplicado no Brasil. As igrejas evangélicas brasileiras parecem aquelas senhoras que fizeram tantas cirurgias plásticas que desfiguraram seu próprio rosto. São tantas reformas: na liturgia, no nome, no marketing, na abordagem evangelística...mas a verdadeira Reforma, que é o retorno à Palavra de Deus, essa parece sempre ficar para depois.

E, de todas as reformas plásticas feitas no rosto das igrejas evangélicas brasileiras, a mais assustadora de todas é a doutrinária. E eu não falo aqui da Teologia da Prosperidade. Falo de uma "reforma"mais sutil, disfarçada de pregação do Evangelho da graça, mas que esconde uma heresia por trás: o marcionismo. Usando o Sola Gratia e o Solus Christus como disfarce, muitos pastores em igrejas históricas tem desprezado completamente o ensino do Antigo Testamento, assim como o herege Marcião descartou o Antigo Testamento no século II. Quando pastores verdadeiramente reformados resgatam princípios do Antigo Testamento para aplicá-los de modo cristológico nos dias de hoje, eles logo são acusados de judaizantes e legalistas. Bem, em resposta, afirmo: a Reforma não é apenas os cinco Solas. Ela também é o ensino do Tota Scriptura. E rejeitar o Tota é abraçar a heresia do que chamo "neomarcionismo".

A utilidade do Antigo Testamento
Em primeiro lugar, é preciso aprender a importância do Antigo Testamento nos dias de hoje. Com a vinda de Jesus e o derramar do Espírito Santo, uma nova aliança ou testamento teve início. A Lei passou a ser lida de uma forma diferente, com as lentes oferecidas pelo Novo Testamento. Mas ler com uma nova lente não significa que eu não preciso mais ler. Como diz a própria Bíblia:
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17)
Quando Paulo fala de "Toda a Escritura", as Escrituras que ele tinha em mãos eram o Antigo Testamento. Os Evangelhos não haviam sido todos escritos ainda, o Apocalipse sequer fora revelado, e as cartas dos apóstolos ainda não haviam sido compiladas em um Novo Testamento. Tudo o que Paulo fala nos dois versículos supracitados aplica-se, de modo mais direto, ao Antigo Testamento. Aplica-se a Moisés e a todos os Profetas.

Enquanto, em nome da graça, pastores dizem que não devemos ir até Moisés, Paulo estava usando Moisés e os Profetas para ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça. Paulo estava afirmando a inspiração divina de livros como Levítico. Mais: ele aconselhava Timóteo a permanecer usando esses livros, para que o homem de Deus fosse perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

O dever de anunciar o Antigo Testamento
Em segundo lugar, além de ser útil, é um dever ensinar o Antigo Testamento. Erramos quando pensamos que nós, que vivemos no tempo da graça, temos a opção de ignorar 39 dos 66 livros da Bíblia em nossa leitura individual. Erramos quando pensamos que nossos pastores e professores de Escola Bíblica Dominical podem descartar a Lei e os Profetas de seu ensino. Deixar de fazê-lo é deixar que as mãos de mestres e pastores estejam sujas de sangue:
Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus. (Atos 20:26-27)
Quando Paulo fala de todo o "desígnio" de Deus, a palavra usada é boule, que tem o sentido de "conselho, propósito". O texto tem sido entendido como uma declaração paulina de que o apóstolo ensinou toda a Palavra de Deus à igreja de Éfeso. Isso faz muito sentido. Uma vez que Deus fala por meio da Bíblia, a única maneira de expor todo o seu propósito é explorando todo o seu conteúdo.

Isso não significa que Paulo fez uma exposição de todo o Antigo Testamento versículo por versículo em Éfeso ou em qualquer igreja. Mas que toda a mensagem bíblica, todos os temas contidos em toda a Lei e os Profetas foram ensinados por ele em seu ministério. Paulo não era um especialista que falava somente do profeta Isaías, por exemplo. A Bíblia toda era o seu ensino.

O caminho que leva a Jesus Cristo
Mas há um terceiro e último motivo que quero colocar aqui para defender porque Moisés não deve ser retirado dos púlpitos cristãos. Repare em Atos 20:26. Paulo afirma que estava limpo do sangue de todos, porque ensinou todo o desígnio de Deus. Por que limpo do sangue? Porque, ao ensinar toda a Escritura, Paulo ensinou tudo o que era preciso para que os efésios cressem em Jesus e vivessem segundo o desejo d'Ele. Em outras palavras, Moisés nos leva a Cristo.

Quem ensina isso é o próprio Senhor Jesus. O problema nunca esteve na Lei e nos Profetas, mas sim na maneira como lemos. Se lermos o Antigo Testamento corretamente, veremos que a mensagem dele é Cristo! Jesus mesmo prova isso quando conversa com dois discípulos no caminho de Emaús:
Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!  Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras. (Lucas 24:25-27)
Jesus não é a revogação da Lei, mas sim o seu cumprimento:
Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Mateus 5:17-18)
A Lei não é contrária a Cristo! O problema da Lei não é a sua existência. O que o Novo Testamento combate é a ideia de que podemos ser salvos por meio das obras da Lei. Contudo, se a Lei for vista de modo correto, sem ser como caminho de salvação, ela é boa. Ela é uma espécie de pedagogo que leva até Cristo Jesus:
É, porventura, a lei contrária às promessas de Deus? De modo nenhum! Porque, se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente de lei.  Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que crêem. Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio.(Gálatas 3:21-25)
A Lei não é uma inimiga do Evangelho. Ela não se coloca como uma alternativa a ele. Usada de modo correto, a Lei conduz a Cristo. Como? Nos convencendo de nossos pecados. Não há arrependimento e graça sem que, antes, sintamos a condenação da Lei aos nossos pecados. Enquanto não formos convencidos de que não somos justos e de que necessitamos de um Salvador, nunca imploraremos a misericórdia de Cristo. E, sem isso, não seremos salvos.

Um retorno ao Tota Scriptura
Ainda haveria mais motivos para serem explorados, mas o espaço e o hábito limitam-me a listar apenas os três acima. Jesus nunca quis que sua vinda e a pregação de Seu nome fossem pretextos para jogar fora Moisés e os Profetas. O que Ele espera é que nós o imitemos, e aprendamos a encontrar tudo o que é dito sobre Cristo em todo o Antigo Testamento.

Certamente isso não é fácil. Mas viver de modo completo nunca o foi. Ter uma dieta completa envolve variedade e o trabalho de cozinhar e preparar o que não parece saboroso. Uma vida equilibrada não é aquela dedicada somente ao lado espiritual, negligenciando o convívio com o próximo ou os cuidados com a saúde. É preciso enfrentar aquilo que parece difícil ou até indesejado.

O mesmo ocorre com as Escrituras. Uma Igreja verdadeiramente bíblica e reformada precisa passar por aqueles livros difíceis de entender e até de ler. Precisa aprender a buscar a Cristo em histórias que, em um primeiro momento, não parecem nada cristãs. Mas não temos o direito de fingir que elas não existem.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

25 de outubro de 2018

A Reforma Anti-Totalitária e suas lições para o Brasil

Sinto saudades de quando as eleições eram realizadas apenas no dia 15 de novembro. Então, outubro ainda podia ser o mês das crianças e da Reforma Protestante. No entanto, quis a Providência Divina que o Brasil realizasse eleições em outubro. Mais do que isso: em 2018 elas acontecem no domingo em que, tradicionalmente, celebraríamos o aniversário da Reforma Protestante. E há sabedoria nisso.

Martinho Lutero ainda não sabia disso, mas quando ele pregou suas 95 Teses na Catedral de Wittenberg, ele começou um movimento religioso que teria implicações políticas, culturais e econômicas. Até os estudiosos seculares se sentem obrigados a explicar a Reforma em seus cursos de História, porque ela é indispensável para compreender o mundo em que vivemos hoje. A fé nunca é apenas um assunto privado, ela é sempre o centro de um abalo sísmico que vai impactar toda a vida do fiel. E, no campo político, a Reforma foi um grito contra o totalitarismo simbolizado pelo papa.

A Bíblia e as constituições
O papado moderno foi forjado durante a Idade Média e é filho de seu tempo. A Igreja sempre foi descentralizada enquanto era perseguida no Império Romano. Houve um início de centralização quando Constantino reconheceu o cristianismo, no século IV, mas o fim do Império Romano voltou a fragmentar a Igreja ocidental. Ao longo da Idade Média, reis buscaram legitimar seu poder e centralizá-lo, lutando para diminuir o poder dos senhores feudais. De modo análogo, o Papado também reivindicou para si a supremacia sobre toda a Igreja e lutou contra reis para assumir o controle das nomeações eclesiásticas e sufocar aqueles que contestassem sua teologia e autoridade. O período medieval termina com reis absolutistas e papas com um imenso poder. Em suma: a Idade Média começa com uma Europa quase anárquica e termina com uma Europa quase totalitária.

Ao questionar publicamente as indulgências (o perdão de pecados concedido por meio de ofertas à Igreja) e apontar os desvios do catolicismo romano, Lutero fez um desafio imperdoável. O erro do reformador foi ter afirmado que, além de Deus, havia uma outra autoridade superior à do papa: a Bíblia Sagrada. Quando ele colocou as Escrituras como a norma a ser observada até mesmo pelo suposto sucessor de Pedro, Lutero desferiu um golpe inconsciente contra o totalitarismo medieval.

Esse deslocamento de autoridade teve repercussões que se fazem sentir até no Brasil do século XXI. Ao colocar a autoridade sobre as leis divinas, e não sobre o seu intérprete, Lutero deu uma justificação teológica para os governos constitucionais de nosso tempo. O poder de reis, presidentes, parlamentares e juízes é definido e limitado pelo texto constitucional. Em caso de abusos de poder, assim como Lutero apelou para a Palavra de Deus, hoje podemos apelar para o texto fundador do país: a Constituição.

Vale lembrar que isso afetou até mesmo os príncipes que protegeram Lutero quando a reação católica colocou a vida do reformador em perigo. Os príncipes alemães gostaram da descentralização de poder, mas talvez aspirassem a um totalitarismo local, menor. Com o passar do tempo, o apelo à Lei acabou alcançando todas as esferas de poder político ocidental, enterrando também o feudalismo e toda a estrutura política medieval.

Concílios e parlamentos
Uma vez estabelecida uma nova fonte de autoridade, é preciso ouvir o que ela diz. A Reforma foi, antes de tudo, uma tentativa de retorno e de resgate do ensino bíblico. E algo interessante a se notar é que nenhuma das denominações filhas da Reforma de Lutero adotou o episcopalismo, o governo da Igreja pelos bispos. As denominações protestantes que possuem bispos ou são filhas da Reforma Inglesa (metodistas, por exemplo) ou são filhas do movimento neopentecostal, o qual tem seu caráter protestante questionável.

De modo geral, duas formas de governo eclesiástico procederam do movimento inicial da Reforma: o governo congregacional e o governo presbiteriano da Igreja. A figura do bispo acima dos demais que decide as questões doutrinárias foi substitúido pelos concílios. O luteranismo formou seu corpo doutrinário na Confissão de Augsburgo, que teve Melanchton como principal redator, e não Lutero. João Calvino defendeu o governo da Igreja por meio de uma pluralidade de presbíteros e as doutrinas do calvinismo foram definidas em concílios posteriores, que produziram documentos como Os Cânones de Dort e a Confissão de Fé de Westminster, entre outros. Até mesmo os batistas decidiram sua doutrina de modo conciliar, produzindo as Confissões Batistas de Londres no século XVII.

A importância dos concílios é que eles são uma espécie de equivalente dos parlamentos. Diferentes pontos de vista são examinados por comissões, discutidos e chega-se a um acordo sobre o texto final. A primeira grande controvérsia teológica cristã foi resolvida de modo similar, no que ficou conhecido como Concílio de Jerusalém, registrado em Atos 15. De modo mais rotineiro, tanto as assembleias congregacionais como as reuniões de Conselhos de igrejas locais também cumprem uma espécie de papel legislativo. O clero não decide sozinho, ele precisa do consentimento da assembleia ou de seus representantes (os presbíteros) para governar a Igreja.

Liberdade: a doença e o antídoto
Contudo, há uma implicação negativa da Reforma, sempre lembrada pelos católicos. Ao evitar a centralização, a Reforma levou a um quadro nunca antes de visto de desfragmentação da Igreja. Ninguém sabe ao certo quantas denominações se divide o protestantismo, e muitas delas sequer carregam os fundamentos teológicos dos reformadores.

Por que isso acontece? Porque o maior problema da Reforma é uma de suas maiores virtudes: a liberdade. Ao tirar o poder de uma pessoa e lançá-lo sobre a Bíblia em si, a Reforma abriu a possibilidade de qualquer um examinar livremente a interpretação bíblica. Como é inevitável (e explico por quê a seguir), divergências surgiram. E, sem uma autoridade central a apelar, nada impediu que se criassem denominações diferentes.

Essa fragmentação era inevitável porque é uma consequência da liberdade em um mundo caído. O ensino bíblico afirma claramente que o pecado afetou o ser humano como um todo, inclusive nas áreas da razão, das emoções e dos desejos e vontades. Por esse motivo, a unidade espontânea de pensamento é inatingível neste mundo. Alie a isso a finitude dos seres humanos e você verá que é impossível que nós enxerguemos todos os lados de uma questão e vejamos tudo como Deus vê.

Mas essa fragmentação tão indesejada acaba sendo uma virtude celebrada na política. Os partidos políticos são como as diferentes denominações protestantes. Cada um deles possui (ou deveria possuir) um programa ideológico, com propostas concretas diferentes sobre como a Constituição deve ser interpretada e executada. E como a Constituição não é a Bíblia Sagrada, eles possuem visões diferentes até de como deveria ser o texto constitucional. Mas, embora sejam partidos diferentes, ainda são parte de um mesmo país. E essa pluralidade político-partidária tem evitado totalitarismos e corrigido erros por meio da alternância de poder.

E é aí que a liberdade trazida pela Reforma se transforma em cura. O que os católicos não entendem é que, embora existam muitas denominações, os protestantes se vêem como parte de uma única Igreja de Cristo. Por isso não digo "igrejas" protestantes, mas sim "denominações". E, assim como os partidos políticos podem ser classificados em grandes categorias, também as denominações, embora muitas, acabam seguindo um número bem menor de escolas protestantes de pensamento. Há esquerda e há direita, mas há calvinistas, luteranos, herdeiros do anglicanismo, batistas e pentecostais. Dificilmente alguma denominação estaria fora desse enquadramento geral.

Mais do que isso: as diferentes tradições protestantes se complementam. Por mais que eu, por exemplo, considere a tradição calvinista como sendo a mais fiel intérprete do texto bíblico, aprecio muito as contribuições que outras tradições trouxeram ao cristianismo. Este blog é uma pequena demonstração disso, pois embora sejamos cinco calvinistas, todos temos algumas afinidades com outras tradições que moldaram ou moldam a nossa fé até hoje.

E o Brasil?
Mas vamos parar de falar de 1517 e irmos a 2018. Hoje, às vésperas do segundo turno de eleições presidenciais, o país todo teme a volta do totalitarismo. Um grupo teme o advento de uma ditadura socialista, outro o de uma ditadura militar. E aqui eu convido os dois lados a encontrarem na Reforma e nas Escrituras os princípios que podem evitar esse perigo.

A Reforma é o reconhecimento de que o ser humano é pecador e que nenhum de nós pode ter poderes em excesso. Se trouxermos esse reconhecimento para a esfera civil, entenderemos que nenhum político, partido ou Estado pode ter um poder ilimitado. É preciso que tenhamos um documento, uma constituição para a qual possamos apelar, inclusive contra as autoridades constituídas, caso elas se corrompam.

Além do limite constitucional, é preciso que o poder seja compartilhado. Esse compartilhamento pode ser maior ou menor (congregacionais e presbiterianos que o digam), mas é necessário. O povo não apenas deve ser ouvido, mas também deve assumir a responsabilidade de aprovar leis e governar.

E, uma vez que a unidade perfeita só virá quando Cristo voltar, é preciso que convivamos com uma pluralidade de opiniões. Claro, é preciso que exista um consenso em torno de valores básicos e essenciais. Mas há amplo espaço para debates e discordâncias respeitosas em assuntos secundários. A liberdade sempre trará diferenças consigo. E, desde que o principal seja preservado, a liberdade não é uma inimiga da unidade que desejamos como Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

23 de outubro de 2018

Aborto social

Ou: A insensibilidade como prova da imoralidade

Li nas mídias sociais que haveria um "arguto" argumento em favor da descriminalização do aborto desenvolvido num artigo de um grande jornal. Fui conferir. E tal argumento pode ser resumido na sua afirmação tese:
Meu argumento pragmático em defesa do direito da mulher de interromper a gravidez em seu estágio inicial é o seguinte: não há qualquer ritual social que indique a perda de uma vida humana quando uma gravidez é interrompida nesse estágio. (Um argumento pragmatista em defesa do direito de aborto, por Heloisa Pait, no Estadão, em 28/08/2018)
Este é um dos argumentos mais abjetos que já tive a oportunidade de ler/ouvir.

Em 2015, minha esposa sofreu um aborto espontâneo no estágio inicial da gravidez. É verdade que não houve qualquer "ritual social" a respeito. Mas houve luto familiar, que não deixou de ser compartilhado:


O luto…

“Você saberia meu nome se eu o visse no Paraíso?”

…não é sem…
“Além da porta há paz, eu estou certo, e eu sei que não haverá mais lágrimas no Paraíso!”
…ESPERANÇA!

27.05.2015 (trechos de Tears in Heaven, de Eric Clapton)
Uma vez compartilhado, houve condolências. Mas, não houvesse, não faria a menor diferença para nosso luto e o sofrimento da perda de um filho.

E aqui convém dizer que a falta de um túmulo e mesmo de um nome também não diminuem o luto neste tempo e a esperança que acalento de encontrar meu não nascido no porvir. Também não importa que mesmo entre os cristãos não se veja, socialmente, um discurso neste sentido.

Sim, este luto é um luto íntimo.

Em 2011, um casal amigo passou por uma gravidez difícil e acabou perdendo seu bebê. O marido, André Venâncio, escreveu, à época em seu blog, um dos relatos mais comoventes que já tive ocasião de ler a respeito da perda de um não nascido: Dezenove semanas de amor. Destaco o parágrafo final de seu relato:
Sofro porque meu filho partiu tão cedo, pela intimidade que não chegamos a ter, pelas muitas alegrias (e algumas dores de cabeça) que não terei mais, por tudo o que eu teria aprendido com ele, por todos os momentos com que sonhei e que jamais acontecerão. É como se nossa vida tivesse empobrecido de repente. É justo chorar por tudo isso. Mas não há nenhuma necessidade de chorar por meu bebê, como se ele fosse uma vítima inocente de um destino cruel, nem de queixar-me das injustiças deste mundo, no qual tantos perversos incorrigidos passam vidas longas e saudáveis. A verdade é o oposto exato disso tudo: meu filho se foi deste mundo mau sem que ninguém lhe tivesse feito mal algum. Deus foi maravilhosamente bom para ele. Sua morte foi preciosa aos olhos de meu Senhor, que o alcançou com sua graça salvadora. Todo pai deseja que seu filho seja bem-sucedido. Pois o meu foi, naquilo que pode haver de mais importante. E isso muito me alegra nesta hora de lágrimas.

Sim, este luto é um luto íntimo. Mas os cristãos sofremos e esperamos, mesmo em silêncio.

Até porque… que esperar da sociedade quanto às angústias mais profundas pelas quais passamos?

Em A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi, o personagem principal se ressentia da indiferença e da afetação dos médicos e dos familiares. Afetação e indiferença bem poderiam também fazer parte do delírio do doente, mas é certo que a tristeza convencional (social) é bastante insincera. E isto é um retrato fiel da realidade.

Ou, como bem disse Fabrício Tavares de Moraes:
No conto “Angústia”, Tchekhov narra a excruciante dor do cocheiro Yona Potapov, que havia perdido há pouco seu menino em razão de uma febre misteriosa. Tentando comunicar-se e falar de sua perda a todos os que entram em seu coche, depara-se com a completa indiferença dos tipos sociais. Por fim, encontra no seu cavalo o único ouvinte atento: “O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo… Yona anima-se e conta-lhe tudo…”.
Considerar a angústia humana pelas reações ou ritos sociais que se lhe seguem é próprio de uma alma imersa nas trevas mais estéreis.

A verdade é que nossas dores, especialmente as mais lancinantes, as mais profundas, as mais indelevelmente marcantes, raramente são compartilhadas por outros. São angústias pessoais, não sociais.

Que esta espécie de “aborto social” da dor individual, assassinada e esquecida pela multidão, seja um aspecto da realidade é irrelevante para a causa do aborto. A única coisa que o "aborto social" prova é a extensão da depravação humana.

A tese que faz depender a humanidade do feto à qualquer consciência social por meio de ritos é um desrespeito tanto ao feto quanto à própria angústia de inúmeros pais que sofrem a perda de um filho, quer participem isso socialmente quer pranteiem em silêncio. É uma monstruosidade.

Justificar, pois, a própria imoralidade pela insensibilidade social é cabal, total e perfeitamente abjeto. É acumular testemunho da própria podridão contra si.

É uma tristeza que o homem seja capaz de propor tais termos.

25 de dezembro de 2014

Os Pais da Igreja e a Expiação

Na tentativa de evitar a doutrina reformada da expiação limitada, ou da redenção eficaz, sem parecer que estão negando o ensino histórico da igreja, os arminianos recorrem aos chamados Pais da Igreja, aqueles que lideraram a igreja nos primeiros séculos depois dos apóstolos. É um recurso válido recorrer aos antigos, mas nem sempre é seguro e nunca é decisivo. Quero apresentar três razões para isso, aplicando ao caso da doutrina da expiação realizada por Cristo.

A primeira delas é que antiguidade não significa necessariamente ortodoxia. Provam isso heresias como gnosticismo que acometeu a igreja ainda na sua infância e que deixou sequelas que duram até hoje. Quando lemos o Novo Testamento e em seguida os escritos dos chamados pais apostólicos é impossível não perceber as diferenças. Embora citem Paulo e os demais apóstolos em profusão, percebemos que pelo menos a ênfase fui mudada. E práticas simples foram corrompidas por superstições no mínimo bizarras, como os rituais de exorcismo antes do batismo. Por isso, nem tudo que os Pais da Igreja fizeram e ensinaram deve ser aceito sob a premissa de que eles as receberam diretamente dos apóstolos e as conservaram inalteradas.

Os Pais da Igreja não desenvolveram uma doutrina ou teoria da expiação e o fato é que a posição de muitos deles permanece indeterminada. Até os dias de Anselmo, os pais da igreja não se preocuparam em apresentar um entendimento sistematizado da expiação . Suas referências à morte de Cristo se dão num contexto devocional, usando a linguagem da escritura, sem se preocupar em comentar e menos ainda oferecer uma explicação para os textos citados.

Quando os Pais Apologistas mencionavam a morte de Cristo, sua ênfase era apresentá-la como cumprimento das profecias do Antigos Testamento. Já o interesse de Clemente de Roma era ético e prático. Pela Sua morte, Cristo nos deu um grande exemplo a ser seguido de humildade e deve nos constranger à gratidão a Deus, ao amor ao próximo e ao auto sacrifício. A apresentação de aspectos doutrinários da morte de Jesus era feito de forma débil e não era livre de distorções. A questão da extensão da expiação jamais foi levantada por eles. Afirmar que defenderam a expiação universal é impor a eles uma conclusão a que não chegaram, simplesmente por não refletirem sobre.

Os Pais da Igreja criam numa teoria fantasiosa da expiação. Mesmo não tendo elaborado um entendimento estruturado sobre a doutrina da expiação, e talvez por causa disso, os Pais da Igreja adotaram uma teoria muito estranha sobre a morte de Cristo. Esta teoria assume que por causa do pecado de Adão Satanás tinha o direito e a posse sobre os homens e que para libertá-los Deus deveria pagar uma indenização ao Diabo.

Uma variação dessa teoria dizia que Deus enganou o Diabo, pois sua humanidade era uma isca e sua divindade um anzol. A implicação clara de Deus usar de um engodo foi justificada pelos pais com a explicação de que Satanás merecia ser enganado. Esta visão da expiação, em suas variações e nuanças, perdurou na igreja até os dias de Anselmo.

Como podemos ver, apelar aos antigos Pais para decidir a respeito de questões teológicas que foram desenvolvidas posteriormente pode não ser a melhor saída. Nenhum deles elaborou um sistema completo. Não se trata de desprezar seus ensinos ou ignorar seus exemplos de fé, e sim de compreendermos o contexto em que viveram e não esperar mais de suas obras do que eles pretendiam com elas.

Soli Deo Glória

10 de dezembro de 2014

Quem é atraído pela cruz de Cristo?


A extensão da expiação é um dos temas mais debatidos pelos interessados em teologia. Duas posições são defendidas fervorosamente, uma delas afirmando que Jesus morreu para tornar possível a salvação do mundo inteiro e outra que Jesus morreu para tornar certa a salvação dos eleitos somente. O texto acima geralmente é apresentado contra esta última posição, com a suposição de que todos significa "todas as pessoas do mundo, sem exceção".

Consideremos, primeiro, quem está falando. O início do verso 30, "Então, explicou Jesus", deixa claro que o "eu" e "a mim mesmo" do versículo se referem a Jesus. Os pronomes eu e mim são enfáticos, uma vez que a forma verbal indica o sujeito e torna dispensável o uso de pronomes. Certamente a intenção de Jesus é fazer um forte contraste entre a Sua pessoa e o "príncipe deste mundo" mencionado no verso anterior, e que seria expulso pela Sua morte.

Para saber com quem Jesus estava falando, precisamos recorrer ao contexto. Voltando para o versículo 20 lemos que “entre os que subiram para adorar durante a festa, havia alguns gregos; estes, pois, se dirigiram a Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e lhe rogaram: Senhor, queremos ver Jesus” (Jo 12.20–21, RA). É importante destacar que esses gregos eram gentios e não judeus helenistas, nascidos na Diáspora. E foi no momento que estes estrangeiros foram apresentados a Jesus por André e Filipe que Jesus se referiu à Sua morte e aos resultados dela. É fundamental ter em mente que o discurso de Jesus foi provocado pela presença dos gregos e dirigido a um auditório misto, composto por judeus e gentios.

Estando claro quem diz e para quem o faz, podemos nos concentrar no que é dito. Jesus faz duas afirmações envolvendo Sua pessoa e vamos considera-las separadamente. Primeiramente Ele diz “e Eu, quando for levantado da terra”. Ser “levantado” é uma referência à sua morte, como o narrador interpreta as palavras de Jesus: “Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12.33, RA). A mesma linguagem é utilizada em Jo 3:14. É interessante que a voz do verbo levantar é passiva, o que indica que neste caso Jesus não realiza, mas sofre a ação descrita. Convém observar, também, que a palavra “quando” é um advérbio condicional, que indica que a ação seguinte depende do evento ou ação descritos, e por isso o sentido é de “e se, no caso de”.

A declaração de Jesus que está no centro da controvérsia é “atrairei todos a mim mesmo”. O verbo atrair está na voz ativa, significando que é Jesus quem toma a iniciativa e realiza a ação e no modo indicativo, que é utilizado quando quem fala descreve uma ação como sendo real, em oposição a algo que é apenas possível, contingente ou intencional. Compare com a declaração do verso anterior, em que Jesus diz “...agora o seu príncipe será expulso” (João 12.31, RA). O mesmo modo verbal é utilizado, logo dizer que Jesus apenas tentará atrair as pessoas para Si, sem a certeza de que isto ocorrerá de fato, implica reconhecer que Ele apenas tentará expulsar a Satanás, uma vez que as duas coisas, a expulsão de um e a atração de outros são expressas da mesma maneira, e como resultados da mesma ação: a morte de Jesus.

Além disso, quando considerado teologicamente, o termo atrair implica mais que meramente exercer influência moral. Não é como se o Senhor se tornasse atraente na cruz, o pecador olhando-O ali fosse até Ele. Jesus já havia dito que “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.44, RA), e a palavra traduzida por trazer e atrair é a mesma nos dois casos. O termo aponta tanto para o fato de que é Deus quem atrai como para a realidade de que o homem por si mesmo não pode ir a Cristo. Mais, indica que o homem resiste a esta atração divina, contudo o Senhor vence esta resistência em seus escolhidos. Em vários lugares encontramos indicações de que esta atração não é passiva, pelo contrário, é ativa e poderosa. Os autores bíblicos utilizam-se dela para descrever o puxar redes cheia de grandes peixes (João 21:6,11), o arrastar pessoas ao tribunal (Atos 16:19; Tg 2:6) e o sacar uma espada da bainha (João 18:10).

Mas se considerarmos que essa atração é tanto iniciativa de Deus quanto invencível, como evitar a conclusão de que todas as pessoas serão salvas, uma vez que Jesus diz que atrairá a todos? Chegamos ao cerne do problema. A saída fácil é ignorar o que foi dito até agora e fazer do Crucificado apenas atraente e não Aquele que por Sua morte efetivamente atrai aqueles por quem deu a vida e salva de fato. Nem sempre o caminho fácil e agradável é o correto a seguir.

Examinemos com atenção a expressão todos. Notemos, inicialmente, que “pessoas” ou “homens” não constam do original, como aparece em algumas traduções, e inclusive há quem sugira que o termo se refira a todas as coisas, tudo. Portanto, se a palavra todos for tomada em sentido absoluto, forçosamente teremos que incluir os anjos caídos e os seres inferiores como objetos da atração de Cristo. Ou seja, algum tipo de limitação não expressa é admitida mesmo por universalistas.

O Novo Testamento apresenta diversos lugares em que a palavra todos não pode significar todos os indivíduos sem exceção.  Por exemplo, quando se diz que “ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão” (Mt 3:5, RA) e “toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus” (Mt 8:34, RA), obviamente as cidades citadas não ficaram abandonadas enquanto cada homem, mulher e criança iam ver João Batista e Jesus. O mesmo quando lemos que “toda a cidade se ajuntou à porta” (Mc 1:33, RA). E quando Jesus diz que “todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores" (Jo 10:8, RA) não pode significar, por exemplo, que Abraão, Jó e Daniel eram assaltantes. Por falar em Abraão, quando seu servo partiu “levando consigo de todos os bens dele” (Gn 24:10, RA), é claro que não deixou Abraão na miséria e a promessa de Joel, “derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (Jl 2:28, RA), não implica que cada indivíduo sobre a terra é batizado com o Espírito. Quando lemos que Jesus percorria a Judéia “curando todas as enfermidades” (Mt 4:23, RA) devemos lembrar que houve lugar em que “não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” (Mateus 13.58, RA). Assim também, quando lemos que os discípulos “tendo partido, pregaram em toda parte” (Mc 16:20, RA), não devemos pensar que pregaram em todos os lugares do mundo, mas em toda parte a que foram. Em cada caso, o contexto nos esclarece quando todos significa todos sem exceção, a maior parte, todos os tipos e classes, etc.

Agora podemos voltar a falar do contexto em que a declaração de Jesus está inserida. Lembramos que o Seu discurso foi feito na presença e motivado pelos não judeus que queriam vê-lo. Portanto, o todos significa que não apenas judeus, mas também gentios seriam atraídos, ou seja, todos sem distinção e não todos sem exceção. Vemos isso de forma recorrente no quarto evangelho. A salvação não depende de laços familiares ou de raça (1:13; 8:31-59), Jesus é o Salvador não apenas dos judeus, mas também dos samaritanos e em consequência, do mundo (4:42), Ele tem outras ovelhas que não são do redil dos judeus, mas do mundo gentio (10:16), morrerá não só pela nação, mas para reunir num só os filhos de Deus que estão dispersos (11:51). Entendemos, então, que por todos o Senhor estava dizendo “não apenas os judeus, mas também os gentios”.

É o que também entende a maioria dos comentaristas e eruditos. Robertson diz que todos “não significa cada homem individual, pois alguns, como Simeão disse (Lc 2:34) são repelidos por Cristo”. Bartley diz que a expressão é uma “referência ao alcance universal do evangelho, que inclui os gentios”. Wiersbie afirma que "Cristo menciona os gentios quando fala em ser "levantado" na cruz. Em Mateus 10:5 e 15:24, Cristo ensinou seus discípulos a evitarem os gentios; todavia, agora ele diz que os gentios também serão salvos pela cruz. (...) Cristo tinha que ser levantado para que 'todos' (v. 32, judeus e gentios) fossem atraídos a Ele. Isso não significa todas as pessoas, sem exceção, mas todas as pessoas, independente da raça". Para Hernandez, todos significa “tanto gregos (ali presentes, v. 20) como judeus, como pessoas de todo povo e nação. Isto enfatiza a composição multinacional e racial do povo de Deus”. Lembrando que “um momento antes os gregos pediram para ver Jesus”, Hendriksen, diz que “Jesus promete atrair a todos os homens a si mesmo. Este todos os homens, neste contexto que coloca gregos junto aos judeus, deve significa homens de toda nação”, acrescentando que “estes gregos representam as nações – os eleitos de todas as nações – que chegariam a aceitar a Cristo com fé viva, através da graça soberana de Deus”.

Matthew Henry também diz que “o grande desígnio do Senhor Jesus é atrair a si todos os homens, não só os judeus, mas também os gentios de toda raça, língua, nação e povo”. Luiz Palau também entende que “a cruz é como um ímã ao qual tanto judeus como gentios são atraídos”. Walvoord, interpretando o ser atraído como ser salvo, afirma que “aqueles que serão salvos não virão apenas dos judeus, mas também de toda tribo, língua, linhagem e nação (Ap 5:9)”. Cabal é firme ao declarar que “isto não é universalismo (salvar a todos), mas o evangelho é oferecido a todos sem distinção – atraindo pessoas de todos os tipos para Si mesmo”. Finalmente, para Dockery, todos significa “todas as pessoas sem distinção de sexo, raça, posição social ou nacionalidade”.

Concluindo, a interpretação de que Cristo atrai redentivamente todos os homens a si mesmo, a menos que se advogue o universalismo, impõe que a atração referida por Cristo seja meramente potencial, e não real. Longe de glorificar a Deus e exaltar a obra de Seu Filho na cruz, tal tentativa acaba por anular a eficácia intrínseca de Seu sacrifício, fazendo-a depender, ao final, da vontade do homem e não da intenção divina.

 Soli Deo Gloria