29 de setembro de 2011

Preconceito não é um pecado qualquer: é grave!

"A que posso, pois, comparar os homens desta geração?", prosseguiu Jesus. "Com que se parecem? São como crianças que ficam sentadas na praça e gritam umas às outras: ‘Nós lhes tocamos flauta, mas vocês não dançaram; cantamos um lamento, mas vocês não choraram’.

Pois veio João Batista, que jejua e não bebe vinho, e vocês dizem: ‘Ele tem demônio’.

Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e "pecadores" ’.

Mas a sabedoria é comprovada por todos os seus discípulos". (Lucas 7:31-35)
Uma das lições que mais ouvi quando era seminarista é a de que os extremos são perigosos. Na maioria das vezes, a razão não está em um dos extremos, mas em algum ponto entre duas posições. Mas, infelizmente, hoje muitos cristãos reformados (seguidores do calvinismo) são mais adeptos do radicalismo.

E uma questão que ilustra isso muito bem é o "politicamente correto". Certamente este conceito tem sido usado de forma muito negativa pela sociedade, como uma espécie de mordaça que quer calar humoristas, jornalistas e até mesmo a Bíblia. Não se pode mais denunciar o pecado como tal porque isso não é "politicamente correto". É óbvio que essa política é ruim.

Por outro lado, não devíamos ser estúpidos e ignorar o que ela tem de bom. Embora isso pareça estar "na moda" entre conservadores (políticos e/ou religiosos), fazer piadas ou comentários jocosos sobre homossexuais, vegetarianos e até fãs de determinado tipo de música também é ruim. O preconceito é um pecado. Um erro que pode levar a outros, como, por exemplo, o estupro praticado contra um soldado em um quartel do Exército no Rio Grande do Sul.

O caso
Fiquei sabendo da história por meio do colunista Ricardo Setti, da revista Veja. Resumindo a história, podemos dizer que um soldado de 19 anos foi estuprado por 4 outros, na frente de outros 14 colegas. A razão é ridícula: já que ele usava calças coloridas, inspiradas na banda preferida do agredido, a Restart, os "companheiros" de farda o tomaram por homossexual. E, por causa disso, o estupraram! Exames já comprovaram que 3 dos 4 acusados efetivamente violaram o rapaz.
Banda Restart

Olha como a situação é ridícula:

- Se você se veste com roupas coloridas, é homossexual. O nome disso é preconceito.
- Se você ouve o Restart, você é homossexual. O nome disso é preconceito.
- Se as pessoas pensam que você é homossexual, elas podem ficar passando a mão na sua bunda e fazerem piadas. O nome disso é discriminação e abuso sexual.
- Se as pessoas pensam que você é homossexual, elas podem te estuprar! O nome disso é estupro, homofobia, estupidez, absurdo!

Ridículo  porque quem teve desejos homossexuais fortíssimos foram os estupradores e não o estuprado. Porque roupa não indica preferência sexual (conheço uns que não têm o menor traço de afetação e gente bem afetada que saiu com mulheres lindas). Porque a homossexualidade não dá a ninguém o direito de fazer piadas, "passar a mão" e muito menos estuprar!

O nosso preconceito
Mas, veja só: quantas vezes nós não cometemos estes pecados! Quantas vezes não julgamos de modo preconceituoso e apressado as pessoas por causa de bobagens! Quantas vezes não somos hipócritas e achamos mais grave o homossexualismo do que o estupro de um (e o soldado estuprado nem disse que é!)!!!! E isso também acontece dentro das igrejas!

Mas como o "politicamente correto" é uma causa abraçada por homossexuais, preferimos "dar de ombros" e continuar com nossas piadas e hipocrisias. Não censuramos os "machões" que fazem esse tipo de atrocidade no nosso meio (é asusstador quantas pessoas eu conheço que foram abusadas ou estupradas por amigos, parentes e "pessoas de bem") e se imaginam mais homens do que o estuprado. Este sim é homem! Homem por estar clamando por justiça, por se expor, por lutar contra um Exército que fecha os olhos para o que aconteceu!

Jesus e João Batista também foram alvos deste tipo de preconceito. Eles não usaram calças coloridas e ouviram Restart, mas foram chamados de "endemoninhado" ou de "beberrão" simplesmente por causa de preconceitos estúpidos. O mesmo preconceito idiota que hoje nós temos com quem tem tatuagem ou ouve Restart ou ouve sertanejo universitário ou pinta o cabelo de roxo ou é do heavy metal ou vai ao bar com os colegas do trabalho. Isso quando não somos racistas ou não discriminamos por causa da classe social ou do gênero!

Não: preconceito não é um pecadinho qualquer. É um que pode levar a atrocidades, como estupros, agressões físicas e assassinatos. Está por trás da praga do bullying, que deveríamos condenar e combater, ao invés de dizer algo do tipo "ah, eu sofri e não matei, então tudo bem". Aliás, o que aconteceu com o soldado pode muito bem ser entendido como uma forma extrema de bullying.

Que possamos orar pedindo que Deus faça a justiça valer neste caso de estupro. Que possamos, na medida do possível, pressionarmos as Forças Armadas para que apure de forma diferente crimes como esse. E que possamos nos arrepender em Cristo de todas as vezes em que nós agimos desta maneira.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

26 de setembro de 2011

Jesus não pecou. Mas poderia ter pecado?

Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Hb 4:15
Os cristãos concordam que Jesus não pecou. Somente Ele podia dizer “qual de vocês pode me acusar de algum pecado?” (Jo 8:46) e calar a audiência. Mas a questão que permanece é “Jesus poderia ter pecado?”. Em outras palavras, Jesus era incapaz de pecar ou apenas capaz de não pecar? E no centro dessa discussão está a passagem em apreço.

O ponto em disputa depende da expressão “sem pecado”. Se pecado é visto como o resultado, então é possível supor a possibilidade de sucumbir a tentação. Porém, se pecado é entendido como natureza pecaminosa, então Jesus não possuía uma natureza pecaminosa, e portanto não era propenso a pecar.

Os que defendem a pecabilidade (não o fato, mas a possibilidade de ter pecado) alegam que se Jesus não poderia pecar, não poderia ser verdadeiramente humano, que se Ele não podia pecar então sua tentação não foi real e, finalmente, que se Ele não podia pecar, logo não possuía livre-arbítrio. Examinemos esses argumentos.

É verdade que desde Adão todos os homens pecam. Porém, o pecado não faz parte da constituição original do homem, sendo assim, não é essencial que se tenha uma natureza pecaminosa para que se seja humano de fato. A natureza humana de Jesus era a mesma de Adão antes da Queda, portando, não corrompida pelo pecado. Jesus veio “à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado” (Rm 8:3), mas essa semelhança não significou que Ele tivesse pecado, pois “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (1Co 5:21).

Devemos considerar também que Jesus foi gerado pelo Espírito Santo, que milagrosamente impediu que a natureza caída de Maria fosse comunicada a Ele. O anjo diz como seria a concepção do Filho de Deus: "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus” (Lc 1:35) e de fato, pouco depois, Maria “achou-se grávida pelo Espírito Santo” (Mt 1:18). Finalmente, ao argumento de que a pecabilidade é inerente à natureza humana deve ser respondido com o fato de que a impecabilidade é inerente à natureza divina. Como Deus não pode pecar, sendo Deus Jesus tampouco poderia.

Mesmo incapaz de pecar, Jesus podia e o foi tentado de uma forma real. Tentabilidade não implica susceptibilidade ao pecado. Um exército invencível pode ser atacado. Uma fortaleza inexpugnável pode receber investida de conquistadores. O fato de Jesus não ser capaz de pecar não diz nada sobre a disposição do Diabo de tentá-lo. Se no céu ele ousou se rebelar contra o Altíssimo, quanto mais ele o faria contra o Filho do Homem na terra, muito embora nem lá, nem aqui, tivesse chance de lograr êxito. Mas, há que se destacar um ponto. Nem tudo o que se aplica a nós, em termos de tentação, se aplica a Jesus. Somos tentados a partir de dentro, “pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios” (Mc 7:21). Como Jesus não tinha um “coração perverso e incrédulo” (Hb 3:12), portanto, todas as suas tentações tinham origem externa e não em desejos maus e proibidos.

Finalmente, argumenta-se que se Jesus não podia pecar, então Ele não tinha livre-arbítrio. Não vamos aqui refutar a bobagem que chamam de livre-arbítrio do homem, apenas presumamos que Jesus tinha livre-arbítrio e vejamos se este fato seria incompatível com a doutrina da impecabilidade. O livre-arbítrio corretamente entendido é a faculdade de decidir livremente, de acordo com a própria natureza. Em Jesus, havia duas naturezas, a humana e a divina. Pela natureza humana, Jesus podia não pecar, pois Sua natureza não estava corrompida pelo pecado e em tese, poderia pecar. Porém, através da natureza divina, Ele não podia pecar, pois isso iria contra a própria natureza. Sendo assim, podemos dizer que o Senhor tinha um livre-arbítrio perfeito, que o capacitava a livremente fazer sempre e unicamente a vontade de Deus.

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

5 de setembro de 2011

O que é um evangélico?

Então vocês verão novamente a diferença entre o justo e o ímpio, entre os que servem a Deus e os que não o servem. Ml 3:18
A religiosidade está em alta. E a griffe evangélico mais em evidência do que nunca. Aliás, nunca foi tão chic ser evangélico e “gospel” dá status. O resultado é uma confusão tamanha que para fugir dela alguns chegam a dizer “não sou evangélico”. Mesmos sendo. Vamos tentar nos encontrar no meio desse emaranhado que se tornou o cristianismo protestante. Vamos tentar enxergar alguns pontilhados que sirvam de linhas divisórias.

A primeira divisão a ser feita é entre ateus e teístas. Ateu é aquele que a Bíblia chama de tolo por pensar que "Deus não existe" (Sl 14:1). Por comparação, o teísta é o que admite a existência de Deus, por entender que “quem dele se aproxima precisa crer que ele existe" (Hb 11:6). Equilibrando-se entre esses dois extremos temos os deístas, existindo em duas formas, uma ateísta e outra teísta. O deísmo ateísta confia nas forças da natureza, o deísta crê num poder acima da natureza, mas não o identifica como o Deus que se revela dos cristãos ou o de nenhuma outra religião. E necessário dizer que muitos que se dizem cristãos evangélicos são deístas na prática.

Entre os teístas, precisamos diferenciar os cristãos dos pagãos. Os pagãos são os que adoram um ou vários deuses diferentes do Deus da Bíblia. Temos um exemplo neotestamentário nos atenienses: “Então Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: "Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos, pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO” (At 17:22-23). Idólatras ou politeístas, os pagãos diferem dos cristãos pois estes reconhecem que “o Senhor é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. Não há nenhum outro” (Dt 4:39).

Apesar do exclusivismo cristão, no que se refere ao deus vivo, há várias ramificações dentro do cristianismo e uma linha divisória principal pode ser traçada separando o catolicismo romano do protestantismo bíblico. A qualificação bíblico para protestantismo é necessária pois muitos evangélicos, ditos protestantes, são tão ou mais supersticiosos que um romanista medieval. Vejamos alguns pontos distintivos do protestante identificado com o cristianismo bíblico.

A primeira diferença está na regra de fé, ou dizendo de outro modo, a fonte de autoridade. O romanismo recorre à autoridade do papa e da tradição, as quais são necessárias para validar a autoridade da Escritura. O protestantismo nominal recorre a apóstolos modernos e líderes carismáticos, além de profecias não julgadas, para nortear a sua conduta e para definir quais partes da Bíblia se aplicam à sua vida. A uns e outros aplica-se a repreensão de Jesus: “Assim vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram. E fazem muitas coisas como essa" (Mc 7:13). Já um cristão evangélico reconhece a Escritura como sua única fonte de fé, prática cúltica e conduta civil. Todas as demais autoridades à que se sujeita, o faz somente na medida em que reconhece que ela deriva e concorda com o que a Bíblia ordena, colocando-se sob o dever de discordar e desobedecer a qualquer autoridade que queira constranger sua consciência contra a Bíblia Sagrada, pois crê que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3:16-17).

Outra distinção a ser feita é quanto à fonte da salvação. O romanismo advoga a capacidade humana de, pelo menos, cooperar com a graça, enxergando no homem capacidade para tal. De igual modo, o evangélico popular presume que o homem tem livre-arbítrio que o capacita a aceitar por si mesmo a Cristo. Dessa forma, para ambos, o homem é capaz de iniciar e/ou complementar a operação da salvação, seja atraindo ou cooperando com a graça. O cristianismo bíblico, por sua vez, crê que o homem está completamente morto em pecados e como tal é incapaz de se preparar ou de cooperar com a obra da graça para a sua salvação. Para estes, a salvação é totalmente de Deus, do início ao final, com tudo mais que vem no meio: “Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos” (Ef 2:4-5).

Quanto aos instrumentos que Deus usa para salvar, também há divergência entre os evangélicos bíblicos e os demais. Os católicos romanos acreditam numa combinação de fé e obras para a salvação. Os evangélicos nominais, embora neguem a necessidade de obras, admitem que é necessário “colocar a fé em prática”. E a prática consiste de sacrifícios, legalismo e o uso de artifícios supersticiosos, como o uso de fórmulas ou rituais para obter o favor de Deus, especialmente relacionado à prosperidade, saúde e reconhecimentos social. Os cristãos genuínos aceitam a intrumentalidade da fé somente, pura e simples. “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9), é o que afirmam e vivem, sabendo que é “Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Fp 2:13).

Essa dependência exclusiva da fé por parte dos evangélicos bíblicos tem a ver com a causa da nossa salvação. No catolicismo, a salvação se baseia no mérito. E quando há mérito excedente, por obras de supererrogação (que vão além do dever), esses méritos são administrado pelo papa, que assim pode vender indulgências. Evangélicos nominais confiam na mediação de seus líderes ou em pontos de contato, para que obtenham favores divinos. Os cristãos bíblicos rejeitam a intercessão de santos falecidos, a mediação de qualquer homem e o recurso a qualquer fórmula ou objeto, recorrendo e confiando unicamente nAquele que disse "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14:6), sabendo que “não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos" (At 4:12), além do nome de Jesus.

Os pontos anteriores levam a uma distinção final entre os verdadeiros evangélicos e aqueles que apenas usam o nome. Trata-se de a quem é dada toda glória. O romanismo cultua aos santos, especialmente a Maria, além de Deus. Embora tente estabelecer uma diferença teórica entre culto de latria, superlatria e dulia, tal tentativa falha em todo aspecto prático. Evangélicos nominais veneram celebridades gospeis, exaltam apóstolos modernos e rendem tributos a homens, dividindo com eles uma glória que é devida unicamente a Deus. Cristãos genuínos, embora dêem graças a Deus por levantar e usar homens e mulheres, reconhecem que Ele o faz para Sua própria glória, e assim rendem louvor unicamente ao seu nome, pois ouvem-no dizer "Eu sou o Senhor; esse é o meu nome! Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor” (Is 42:8) e respondem “Não a nós, Senhor, nenhuma glória para nós, mas sim ao teu nome, por teu amor e por tua fidelidade!” (l 115:1).

Em conclusão, é necessário dizer que todas essas diferenças são exteriores ou manifestas. E podem ser simuladas por simples assentimento intelectual ou aparência de conformidade exterior. Por isso o texto diz “vocês verão novamente a diferença entre o justo e o ímpio” (Ml 3:18). Pois a verdadeira diferença não pode ser percebida pelo homem, precisando ser revelada por Deus, em momento oportuno: quem é salvo e quem não é. Deus determinou um dia, quando Seu Filho porá à sua direita os que salvou e à sua esquerda os que perecerão, ainda que pensassem estar a serviço dEle. "Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (Mt 25:34) e “Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos” (Mt 25:41).

Assim, antes e acima de qualquer diferença visível ou aparente, o que realmente importa é: você está salvo? Se ainda não creu na pessoa de Jesus e não depositou toda a sua confiança em Sua obra para sua salvação, então você está perdido. Arrependa-se de seus pecados e creia nEle para sua salvação, nesta vida e para sempre!

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

28 de agosto de 2011

Resenha do livro "Em Defesa da Teologia", de Gordon Clark



CLARK, Gordon H. Em defesa da teologia. Brasília: Editora Monergismo, 2010. 114 pp.


Traduzido por Marcos Vasconcelos e prefaciado por Felipe Sabino (à edição brasileira) e John Robbins (à edição americana), o livro escrito pelo teólogo e filósofo calvinista norte-americano Gordon Haddon Clark (1902 – 1985) possui seis capítulos, acrescidos de um posfácio (“A crise de nossa era”), também de autoria do Robbins. O que se seguirá será mais um resumo do que propriamente uma resenha, embora haja algumas observações.

No primeiro capítulo, e de forma bem genérica, o Dr. Clark fala sobre os quatro grupos de pessoas que, em diferentes graus, desprezam a teologia enquanto ciência. Com uma boa dose de ironia – ironia esta que, aliás, perpassa todo o livro –, ele começa sua fala dizendo que “a teologia, aclamada no passado como ‘a rainha das ciências’, hoje mal chega à posição de lavadora de pratos” (p. 17). O primeiro grupo, pois, é o dos “cristãos medianos”, o qual abrange “pessoas de diversos níveis de desenvolvimento teológico e espiritual” (p. 18). É aos tais que Clark chamará no capítulo três de “os desinteressados”. O segundo grupo é o dos “ateístas”, que são aquelas “pessoas que afirmam não haver Deus” (p. 21). Aqui, Clark inclui os positivistas lógicos (“uma divisão notável do grupo ateísta histórico”), os naturalistas ou humanistas (“adoradores do cientificismo [que] não são positivistas lógicos”), alguns políticos liberais e seus “credos socialistas”, os panteístas e, por último, os agnósticos, “embora seus adeptos repudiem enfaticamente a designação de ateístas” (p. 22, 23). O terceiro grupo é formado por aqueles indivíduos que “creem na existência de algum tipo de Deus, mas estão convencidos de que ele não pode ser conhecido” (p. 24). Difere do agnosticismo justamente pelo detalhe religioso: não obstante sua transcendência, esse Deus “pode ser sentido”. Aqui Clark dirige parte de sua crítica aos pentecostais e aos “fundamentalistas rasos”, a quem ele chama a ala “extrema direita” desse grupo. “Os integrantes dessa casta generalizada”, diz Clark, “perguntam-se o que a teologia, com seus detalhes e a ortodoxia morta, teria em comum com a oração e a religião ‘fervorosa’”. Contra essa invectiva, Clark observa (em nota de rodapé) que “hoje, há tão pouca ortodoxia de qualquer tipo que seria reconfortante encontrar até mesmo a ortodoxia morta" (p. 25). Mas o alvo de Clark é mesmo os neo-ortodoxos, a ala “extrema esquerda” do grupo. Começando por Schleiemacher, “o iniciador moderno da teologia da experiência” (p. 25) e passando por Kierkegaard, aquele que “rejeitou o sentimento do infinito substituindo-o pela ‘paixão pelo infinito’” (p. 26), Clark chega, então, a Emil Brunner e a Karl Barth, a quem dirigirá críticas mais específicas no capítulo quatro, sobre a Neo-ortodoxia. Sobrou até para Dooyeweerd, a quem Clark acusa de defender pontos de vistas “extáticos, irracionais e existenciais” (p. 27), mas sem justificar o porquê disso – o que é uma falta grave da sua parte. Diz Clark que “os mais bíblicos desse grupo, não particularmente a multidão desatenta que dorme durante o sermão, mas, em especial, pastores e autores de livros devocionais populares, são, na maioria, incoerentes. Possuem uma pobre compreensão lógica e por isso, firmemente agarrados a alguma doutrina fundamental, também defendem, pregam e escrevem as heresias mais selvagens. Essa mistura indigesta”, continua ele, “é enfeitada de forma regular com o chantili fofo do absurdo” (p. 27). O quarto grupo, por fim, consiste nos que estudam mais teologia que a pregada no púlpito, a quem Clark dedicará o último capítulo de sua autoria.

A partir do segundo capítulo é que Clark se dirige de forma específica aos quatro grupos acima listados, começando pelos ateus. Como o cristão deve combater o ateísmo? Para Clark, o método evidencialista (embora ele não use esse termo), além de ser árduo, é praticamente inútil. Ele diz que “o ‘argumento cosmológico’ não é apenas extremamente difícil, uma vez que demandaria grande dose de ciência, matemática e filosofia para formá-lo, mas é inconclusivo e irremediavelmente falacioso. Essa não é a maneira de responder aos ateístas” (p. 34). Clark também ressalta a inutilidade do método evidencialista ao dizer que “os cristãos deveriam se preocupar menos com a existência de Deus e mais com o tipo de Deus existente”. Para ele, afirmar que Deus existe “não ajuda em nada o cristianismo”. “Já que tudo existe, a palavra existe é desprovida de informação. Por isso que o Catecismo pergunta: ‘o que é Deus?’, e não: ‘Deus existe?’” (p. 36). Qual o método, então? “Nosso axioma é o de que Deus falou. Ou, de modo mais completo – Deus falou na Bíblia. De forma mais precisa, as afirmações bíblicas são o que Deus falou”, responde ele (p. 38). Que Clark tem em mente aqui o escrituralismo (as Escrituras como a única fonte de verdade, em contraponto ao pressuposicionalismo do tipo vantiliano-schaefferiano, que contempla verdade em outras fontes) fica evidente no restante do livro.

No terceiro capítulo, como já foi mencionado, Clark se dirige aos “desinteressados”. São aqueles que consideram a teologia como uma matéria nada prática ou inútil; que aderem a bordões já desgastados como “nenhum Credo, senão Cristo” e “o que conta não é o que se crê, mas o que se sente” (p. 41). Para Clark, contudo, “caso Deus exista – supondo o descarte do ateísmo – ele deve ser alguém que deveríamos conhecer”. Isso o leva a afirmar que “ninguém pode ser crente sem teologia – o conhecimento de Deus” (p. 42). Clark também observa que “o temperamento americano é ativista e prático e talvez se impressione mais com a necessidade de teologia para o evangelismo”. E, após citar o quanto se desdenha de doutrinas como a ressurreição de Cristo nas faculdades e escolas de ensino fundamental – onde as pessoas são “inculcadas pela educação humanista” –, Clark aproveita para denunciar alguns “evangelistas” que, para contornar tais objeções, resolvem simplesmente excluir a ressurreição do “evangelho” deles ou então existencializá-la como “a feliz sensação de confiança sentida ao ressurgir das profundezas da frustração”, como fazem os neo-ortodoxos (p. 42, 43). Clark apresenta esses problemas como “desafios intelectuais ao evangelismo”, e diz que “seria lastimável se o cristão conhecesse a Bíblia de modo menos completo que seu colega conhece o humanismo” (p. 43), no que concordamos com ele. Para ele, “se quisermos conhecer a Deus é indispensável levar criteriosamente em conta a metodologia”. E que metodologia é essa? Uma teologia cujo conteúdo proceda “inteira e somente da Bíblia” (p. 44). “Nossa tarefa”, prossegue, “é coletar versículos e passagens da Bíblia, entendê-los preliminarmente e depois sistematizar o conteúdo” (p. 45)[1]. Mas, para justificar seu ponto, Clark faz um uso inapropriado – levando em consideração o contexto da passagem – do texto paulino em que o apóstolo diz que “Deus não é Deus de confusão… tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1 Co 14.33, 40). Ele conclui o capítulo tomando como ilustração a construção de uma casa, a qual somente é possível graças ao arranjamento lógico dos materiais (pregos, tijolos, cimento etc.).

No quarto capítulo é onde Clark vai bater mais forte nos neo-ortodoxos, os quais, segundo ele, é o grupo que “domina as principais denominações nos EUA e no exterior”. Para Clark, a Neo-ortodoxia é a “religião experimental” (p. 48); a “religião da irracionalidade” (p. 50); proponente de uma “dupla verdade” (p. 55) e, por isso mesmo, “antilógica” (p. 56). Por quê? Porque ela insiste que o homem nunca poderá conhecer Deus, visto que este é o “totalmente outro” (Barth) e ideias afins. A propósito, quando se refere a Barth, Clark diz que “é difícil entender por que tantas das asserções de Barth dão ao leitor de boa-fé a impressão exatamente contrária das verdadeiras crenças dele” (p. 58 – embora seja oportuno dizer que esta não é uma exclusividade dos leitores de Barth, evidentemente. Incluem-se aqui os próprios leitores de Clark). Para Clark, Barth, além de abraçar o paradoxo “nega quase de forma absoluta que o homem seja a imagem de Deus, de acordo com 1 Coríntios 11.9” (p. 58), como também “não crê na ressurreição do corpo” (p. 61). Tais coisas arrancam de Clark declarações fortes, como a de que “a igreja visível é muitas vezes atormentada pela peste dos místicos pseudodevotos que apostam na própria intuição”, e arremata: “o pensamento criterioso e a teologia dogmática repeliram-nos” (p. 58). O problema básico de Barth e dos pregadores super-religiosos é epistemológico, segundo Clark, visto que os tais, ao ignorarem a proposição bíblica de que o homem é a imagem de Deus, estão de fato repudiando a lógica (p. 64).

E é justamente a esta última que Clark dedica as linhas do quinto capítulo, no qual ele pretende fazer uma “defesa da teologia lógica” (p. 67). E o que vem a ser essa “teologia lógica”? Basicamente, é a pregação de todo o conselho de Deus. Para Clark, “Deus é um espírito ou intelecto racional e lógico, do qual o homem recebeu a imagem”. Aqui, ele continua criticando aqueles que exaltam a práxis em detrimento da atividade intelectual. Segundo ele, “todos os homens são obrigados a obedecer aos mandamentos divinos e devemos ‘fazer a verdade’ até onde a verdade puder ser realizada”. “Agora”, ironiza, “como ‘fazer’ a Trindade é um enigma” (p. 69). Doravante, ele fará outra crítica injustificada a Dooyeweerd, a quem ele chama de “existencialista” juntamente com Rookmaker, os quais seriam os mentores de um “grande grupo que detesta o conhecimento ou a lógica: os que tem mais interesse na estética que na teologia ou filosofia” (p. 71). Seria interessante se Clark pelo menos nos remetesse a algum escrito seu no qual ele confronta de forma mais apropriada (para não dizer justa) o filósofo holandês. Caberá também uma crítica a Leland Ryken, que disse que “é possível receber a verdade de Deus ouvindo o Messias de Handel. [...] Não basicamente pela razão, mas pelos sentidos (audição) e emoções” (p. 71). Para Clark, porém, uma vez que “somente as proposições podem ser verdades” (p. 74), “a arte não substitui a informação do evangelho” (p. 76). A partir da página 84 Clark apresentará alguns argumentos formais na Escritura em defesa da lógica, e da página 90 até ao final do capítulo, algumas notas sobre lógica simbólica, que é, de longe, a parte mais maçante do livro (especialmente para quem não entende bem o assunto, como eu. Por isso, prefiro não comentá-lo).

No sexto e último capítulo Clark se dirigirá àqueles que se interessam pela teologia – o quarto grupo. São pessoas que levam mais a sério a responsabilidade cristã, que “deleitam-se em receber informação da parte de Deus e querem entendê-la corretamente” (p. 95). Não é preciso fazer muito esforço para se chegar à conclusão de que este é o grupo a quem Clark se mostrará mais amigável. Ele toma como ponto de partida para o seu desfecho a doutrina do homem como imagem de Deus, a qual, segundo ele, “é aquela que está mais intimamente ligada à defesa da teologia”. E ele nos dá algumas referências bíblicas para tal defesa: Gn 1.26, 27; 5.1; 9.6; 1 Co 11.7; Cl 3.10 e Tg 3.9. Para ele, “teologia consiste em entender essas referências e extrair dela conclusões lógicas” (p. 97). Aqui, caberão ainda algumas críticas ao empirismo e ao naturalismo (p. 98 a 103). “Todas as filosofias não cristãs resultam no ceticismo total”, diz. E continua: “Em contraste, o teísmo fundamenta seu conhecimento nas proposições divinamente reveladas. Elas podem não nos dar toda a verdade; pode até ser que nos dêem pouca verdade; mas, de outra maneira, não existe verdade”. E arremata: “chega de alternativas seculares” (p. 103). Nesse embalo, vai sobrar novamente para a neo-ortodoxia (mormente nas figuras de Barth e Brunner), a qual torna toda doutrina falsa, segundo Clark. “Portanto”, conclui, “pode-se dizer que o material bíblico está corretamente resumido ao identificar a característica distintiva do homem como a razão. O pecado causa seu mau funcionamento. A redenção renovará os homens em conhecimento (retidão e santidade) à imagem de quem os criou. Então, no céu, não cometeremos erros nem mesmo de aritmética”. No último parágrafo do livro é que Clark fará uma síntese de todo ele:
Deus nos deu uma revelação verbal; temos a obrigação de estudá-la. Nenhuma outra exortação é necessária. Não há dúvidas de que muitos depreciadores da lógica e da informação sejam cristãos, entretanto o que publicam, pregam e conversam não é cristão. Também não são logicamente coerentes ao repudiarem o dogma bíblico, pois cristianismo sem doutrina inteligível é simplesmente doutrina inteligível sem cristianismo (p. 104-105).

Conquanto eu concorde com John Robbins em certos aspectos, encaro seu posfácio ao livro mais como uma oportunidade para destilar sua ojeriza ao sistema vantiliano de apologética do que propriamente uma defesa da teologia. “Os fieis clamam por verdade e recebem ‘paradoxo’ e ‘antinomia’”, diz (p. 108). E mais: “a prática dos crentes professos modernos é imoral por tratar-se da prática de teorias falsas” (p. 112). Ora, se este pensamento for levado às últimas conseqüências os eleitos não seriam somente os “clarkeanos”? Interessante que nem mesmo Clark parece ter pensado nisso! Temo pelos leitores caso estes se impressionem mais com o apelo ácido do Robbins do que com as palavras do Clark em si mesmas (pelo que sabemos, havia grande respeito pessoal entre este e Van Til).

O livro, no geral, é bom, embora haja conceitos nele que podemos encontrar com maior profundidade em outras obras, o que o tornaria, em certa medida, “dispensável”. Mas, como se trata de um pequeno esboço do que o autor pensa a respeito do assunto, é uma leitura válida – especialmente para aqueles que, como eu, desejam conhecer um pouco mais do pensamento de tão notável teólogo do século XX, o qual já goza de considerável prestígio entre muitos reformados da atualidade.


--------------------------------------------------------------------------------

[1] Novamente, tem-se como pano de fundo a perspectiva escrituralista.

24 de agosto de 2011

Deus vs Natureza: a lei de Deus é natural?

Pode parecer estranho, mas um dos argumentos mais poderosos usados para se rejeitar a Bíblia é a natureza. A ideia é a de que, se é natural, é certo, independente do que seja. Afinal, como nós podemos seguir uma lei divina que contraria a nossa "essência"? Se Deus ordena algo que fere o natural, então Ele que mude.

E engana-se quem pensa que o apelo à natureza explica apenas pecados sexuais, como o adultério (ou a promiscuidade sexual em si) e o homossexualismo. Afinal, mentir, por exemplo, é "biológico e natural". Já há cientista que disse o mesmo da violência. Basta procurar uma explicação genética que se legitima o pecado e livra a cara do pecador.

Errados são os antinaturais, como os celibatários (um escândalo até mesmo entre cristãos), os que não mentem e aqueles que lutam contra a violência em todas as suas formas. Imaginem o mal que estão causando a si mesmos! Pior é quando querem levar isso ao restante da sociedade, por exemplo, as crianças! Ir contra os genes é como sentenciar a humanidade a uma vida de desgraças e infelicidades. A imposição de um estilo de vida "antinatural" pode até ser apontada como a raiz de guerras, conflitos e outras mazelas.

Normalmente a maioria dos cristãos conservadores rebateria tudo isso negando a validade dessas pesquisas. Em muitos púlpitos, os pastores ensinam que "o pecado é que não é natural", já que Deus considera que a sua criação é "muito boa" (Gênesis 1:31). Mas essa resposta é muito simplista. Pior: ela é errada.

O pecado é natural
Errada porque, quando os cientistas descobrem que o pecado faz parte de nossa natureza, eles estão apenas concluindo o mesmo que a Bíblia! Sim, originalmente a natureza humana era boa. Mas depois do pecado, a inclinação natural dos seres humanos não é mais a de agradar a Deus: Como está escrito:
Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer. (Romanos 3:10-12)
Na verdade, essa era a conclusão de Deus no primeiro livro da Bíblia:
O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal. (Gênesis 6:5)
Uma inclinação que começa a se manifestar desde a infância:
O Senhor sentiu o aroma agradável e disse a si mesmo: "Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz desta vez". (Gênesis 8:21)
Logo, espantoso seria é se uma pesquisa concluísse que o ser humano tem a tendência natural de sempre dizer a verdade.

O pecado é antinatural
Só há uma consequência lógica do raciocínio bíblico. Se a tendência natural do ser humano é o pecado, então seguir a Lei de Deus é fazer o oposto do que a nossa natureza busca. Só que a oposição é maior do que imaginamos. Na verdade, é impossível aos seres humanos fazer aquilo que agrada a Deus.
A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz; a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus (Romanos 8:6-8)
Sem que a mentalidade da carne (a natural) seja substituída pela do Espírito, não é possível que alguém se submeta à lei de Deus. Podemos educar, pregar, ameaçar, disciplinar...nada disso produzirá verdadeira obediência. Somente por meio do Espírito Santo é que os seres humanos obedecerão ao Senhor.

Quando os pastores ensinam que Deus só ordena aos homens aquilo que nós podemos fazer, eles erram. Deus ordena sim o impossível. Adúlteros, ladrões, homossexuais, mentirosos, fofoqueiros, assassinos...nenhum deles consegue sozinho vencer o pecado. Deixar de pecar é negar aquilo que se é, aquilo que nós somos. Mas, se não fazermos isso, o mundo se transformará em um lugar de selvageria sem fim e se perderá. É preciso uma salvação.

Jesus: o Salvador da natureza
Se a Igreja erra quando não admite que o pecado é natural, o resto do mundo erra quando se nega a lutar contra a natureza humana. As nossas inclinações naturais são sim fortíssimas, mas há uma maneira de vencê-las: por meio de Cristo Jesus.
Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês. Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. (Romanos 8:9-14)
Se a humanidade se render aos seus impulsos carnais, ela se destruirá. Guerras e violências não são fruto da repressão divina, mas sim dos nossos desejos! É preciso, portanto, "fazer morrer os atos do corpo". É necessário que deixemos o domínio da carne. E isso só acontece com aqueles que pertencem a Cristo Jesus.

Em Romanos 8, a Bíblia fala que existem pessoas que estão fora do domínio da carne. Essas pessoas são controladas pelo Espírito de Cristo, que habita naqueles que estão em Cristo. Jesus habita nessas pessoas e Ele mata o nosso "corpo" (natureza pecaminosa) e vivifica em nós o Espírito. Quem está em Cristo não deve mais nada à sua natureza e não precisa viver sujeito à carne. O Espírito os guiará, e não mais os seus desejos.

E aqui nós precisamos parar e fazer uma reflexão. Muitas pessoas não se aproximam de Jesus porque acreditam ser impossível vencer os seus maus impulsos. Acham que não conseguirão viver sem sexo ou se sujeitar às exigências divinas de pureza sexual (heterossexualidade monogâmica ou celibato). Que não vão controlar os defeitos de seu caráter, o seu gênio ruim, a língua solta, a vontade de quebrar a cara daquela pessoa. Entendem que o pecado é mais forte e pensam que lutar contra ele seria sacrificar a si mesmos.

A Bíblia diz que isso é possível, desde que seja em Jesus. Por mais fortes que sejam os nossos pecados, se nos entregarmos a Jesus, se depositarmos n'Ele a nossa fé, se estivermos dispostos a morrermos com Cristo na cruz, não há pecado que não possa ser vencido. Mas isso é somente em Jesus. Sem Ele, é impossível.

E neste ponto ninguém é superior a ninguém. Todos nós, sem exceção, temos que passar por este processo de negação. Todos estão no mesmo barco, uns com uma dificuldade e outros com outra.

O processo é lento e às vezes cheio de idas e vindas, uma recaída aqui e outra ali. Mas, se estamos em Cristo, a vitória é certa. O progresso acontecerá. É só permanecermos nele.

Sim, Deus e a Natureza estão em lados opostos do ringue. Mas Deus jamais será vencido. Toda a glória seja dada somente a Ele!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro