21 de janeiro de 2010

Mar, terra, e o equilíbrio dos atributos


"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra" - diz o ditado. No que diz respeito aos atributos de Deus, a máxima se torna um guia interessante. Digo isto porque, em tempos de crise e tragédias como a do Haiti, há exageros em dois extremos: alguns que vêem Deus só como amor, e outros que O observam apenas como justiça.

O desequilíbrio na maneira como percebemos o Senhor pode atrapalhar consideravelmente a maneira como nos relacionamos com ele, e como observamos a realidade em geral.

Essa ênfase errônea em apenas um atributo revela a desconsideração da Escritura em sua totalidade. Não digo que há uma intenção malévola de perverter o ensinamento escriturístico, mas, se não há maldade, pelo menos há ingenuidade, ou ignorância - e os resultados práticos disto podem ser tão ruins quanto o da maldade deliberada.

Tomemos, por exemplo, o atributo da cognoscibilidade de Deus. Basicamente, ensina que Deus pode ser conhecido. A idéia de conhecimento relacionado ao ser de Deus é desprezível para alguns em nosso tempo: por um lado, há os que negam a Divindade, e, por isso, consideram que algo inexistente não pode ser conhecido. Mas há cristãos caminhando nesse mesmo sentido. Eles não negam a existência de Deus, mas rejeitam tudo relacionado ao uso do intelecto na religião, e assim preferem dizer que Deus é "experimentado", mais do que conhecido.

Para muitos desses, o termo "conhecimento" em si já traz uma carga não-cristã, uma importação da filosofia grega, ou expressa a ocidentalização da fé. A fim de justificar seu pensamento, porém, recorrem muito mais à filosofia existencialista ou alguma corrente de pensadores ocidentais, do que ao texto bíblico. E assim refutam a sua própria perspectiva.

A Escritura, por outro lado, trabalha num equilíbrio recheado de beleza. Deus é "experimentado" no sentido de se viver uma relação pessoal com Ele, mas esse relacionamento se perfaz nos termos da Escritura, que exige o intelecto humano em sua expressão religiosa. A cognoscibilidade de Deus se mostra, em parte, na apresentação bíblica dos Seus atributos.

Deus pode ser conhecido? Deixemos que Ele responda:

...mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR. [Jr.9.24]


A busca de uma visão completa, porém, não permite ficarmos presos exclusivamente à cognoscibilidade de Deus. Enfatizarmos apenas este atributo, pode gerar o erro de estendermos o seu limite além do permitido. Não é porque Deus pode ser conhecido, que Ele pode ser exaustivamente conhecido e compreendido.

Por isso, a cognoscibilidade precisa ser pensada em paralelo com a incompreensibilidade de Deus. A fim de não nos orgulharmos e pensarmos que podemos "dominar" a matéria divina, somos lembrados constantemente que Deus está bastante além da nossa finita capacidade de compreendê-lo. Ele tem grandeza e pensamentos insondáveis [Sl.145.3; Rm.11.33-36]. Para usar o linguajar do Francis Schaeffer, podemos ter conhecimento verdadeiro sobre Deus, mas não conhecimento exaustivo.

Este equilíbrio, na prática, gera segurança e humildade. Torna-nos seres humildes, diante da grandeza do Senhor, O incompreensível. Mostra a nossa limitação e fraqueza. Livra-nos de considerarmos nosso intelecto além do que ele merece. Ao mesmo tempo, dá-nos segurança, por nos fazer confiar que, mesmo com nossa limitação, Deus ainda Se revela, e pode ser conhecido por nós. Novamente, como diria o Schaeffer: "Ele está lá, e não está em silêncio"*.

*Este é o título de um dos livros do autor: "He is there and He is no silent", traduzido no Brasil como "O Deus que Se revela".

Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve às quintas-feiras no 5C.

19 de janeiro de 2010

Como ajudar o Haiti


Quer ajudar a população do Haiti e não sabe como? A Visão Mundial é uma organização missionária cristã interdenominacional e está recebendo doações para os haitianos. Depósitos podem ser feitos em duas contas, uma do Bradesco e outra no Banco do Brasil:

Visão Mundial
CNPJ: 18.732.628/0001-47

Bradesco
Ag 3206-9
CC 461666-9
ou
Banco do Brasil
Agência 0007-8
CC 16423-2

A Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira também está recebendo doações. Informações sobre como doar pelo telefone (21) 2122-1901 ou clicando aqui.

Quem quiser, também pode fazer a sua doação pelo Banco do Brasil. Os dados necessários para a doação estão abaixo:

Favorecido: Embaixada da República do Haiti
Agência: 1606-3
Conta corrente: 91.000-7
Caso seja necessário, informe o CNPJ da Embaixada: 04.170.237/0001-71

Envolva-se, não deixe de ajudar.

18 de janeiro de 2010

Deus é amor

Deus é a soma de Seus atributos. Negar ou diminuir a importância de qualquer de suas perfeições é fazê-lo menos Deus do que Ele realmente é. De igual modo, dar proeminência a um atributo, destacando-o dos demais, é apresentar uma idéia deformada da divindade. Qualquer proposição que comece com "o principal atributo de Deus é..." é enganoso e tende a desembocar numa heresia qualquer. Os atributos de Deus estão em plena harmonia, um não faz sombra a outro.

Estas considerações são necessárias quando alguém se propõe a falar do amor de Deus. Pois é fato que alguns, ante os requisitos de Sua santidade e justiça, podem querer suplantá-los com uma dose extra do amor divino. Por outro lado, os convictos de Sua soberania na salvação correm o risco de atenuar a dimensão do amor divino. Devemos afirmar, contudo, que Deus não é nem mais e nem menos amoroso que santo e justo! Ele é tanto amor, como espírito e luz.

O amor de Deus significa que Ele se doa aos outros - na linguagem teológica se diz que o amor de Deus é sua auto-comunicação aos homens. Nele estão incluídos complacência, deleite, desejo de posse e comunhão com seus amados. Porque ama, Deus entrega-se para e pelos objetos do seu amor.

As características do amor de Deus

O amor é uma daquelas palavras difíceis de definir e, por isso mesmo, geralmente mal compreendida. Se isso é verdade em se tratando do amor entre os homens, quanto mais então quando se trata do amor de Deus. É comum a idéia do amor de Deus como indulgência ou fraqueza. Para muitos, um Deus de amor é igual a um avô assistindo as travessuras de seus netos, maneando a cabeça enquanto diz "essas crianças...". Claro que não é assim que a Bíblia revela o Deus de amor.

Deus ama eterna e livremente. O amor de Deus não depende de nós, não é despertado por nós, mas flui livre e puro das profundezas do ser divino. Quando não havia nenhuma criatura para amar, as pessoas da Trindade amavam-se mutuamente. Jesus orou ao Pai dizendo "porque tu me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17:24) e fazia questão de "que o mundo saiba que eu amo o Pai" (Jo 14:31). Além disso, o seu amor pelas criaturas precede qualquer feito realizado por elas que justificasse serem amadas. "Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4:10). Já no Antigo Testamento Deus dizia "com amor eterno te amei; também com amável misericórdia te atraí" (Jr 31:3).

Deus ama de forma imutável. O amor de Deus não sofre variação, não aumenta nem diminui, não aparece nem desaparece. Não há nada que alguém possa fazer para Deus amá-lo mais, e nada que um filho Seu faça O levará a amá-lo menos. O amor de Deus não está sujeito ao tempo ou ao espaço, mas vem da eternidade para o coração dos filhos de Deus. O amor de Deus é absolutamente digno de confiança, mesmo na morte podemos desfrutar do cuidado amoroso do Pai. De Jesus é dito que "como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13:1).

Deus ama infinitamente. Seu Deus infinito e sendo Deus amor, decorre que Seu amor é infinito. João diz que "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito" (Jo 3:16). Paulo declara que "Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5:10). A linguagem humana falha em tentar expressar a dimensão do amor de Deus, pelo que os autores inspirados recorrem a expressões como "de tal maneira", "Deus prova" e "seu muito amor com que nos amou" (Ef 2:4).

Deus ama de forma onipotente. Não existe força no céu, na terra ou no inferno capaz de quebrar o amor de Deus por nós. A Carta aos Romanos nos dá a certeza de que "nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8:38-39). O poder de Deus está a serviço de Seu amor e nada pode tirar dEle aqueles a quem ama.

O amor de Deus está intimamente relacionado com Sua misericórdia e graça. O amor de Deus se manifesta em misericórdia quando Ele não nos dá o que merecemos. É pelo amor de Deus que alguns não são condenados. E se manifesta em graça quando nos dá aquilo que não merecemos, pois é pelo amor de Deus que somos salvos. Portanto, o sermos livrados do inferno e o sermos conduzidos à glória, devem-se ao fato de que Deus é amor.

O amor de Deus é consistente com a eleição

Tendo feito a afirmação de que somos salvos pelo amor de Deus, ouvimos a objeção de que as doutrinas da graça, conforme entendidas pelos calvinistas, são inconsistentes com o amor de Deus. Porém, a verdade ensinada nas Escrituras prova ser esta objeção destituída de fundamento.

A Bíblia diz "eu amei a Jacó, mas rejeitei a Esaú" (Ml 1:2,3). Paulo menciona que essas palavras foram proferidas antes do nascimento dos gêmeos, exatamente para que "o propósito de Deus conforme a eleição prevalecesse" (Rm 9:11-13). Deus não teve afeição por Jacó porque este tinha alguma atração, Ele teve afeição porque amou (Dt 7:7-10). Deus o amou porque o amou e o escolheu porque o amou, não dá para ir além disso.

Noutra carta os crentes são chamados de "eleitos de Deus, santos e amados" (Cl 3:12). Não deve restar dúvidas de que é Deus quem elege, a referência bíblica é aos "eleitos de Deus" (Tt 1:1), como quando a Escritura diz "sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus" (1Ts 1:4). Sendo o agente da eleição o mesmo Deus de amor, não há nenhuma inconsistência entre amor e eleição, pelo contrário, esta decorre daquele. Por isso Paulo dizia "devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação" (1Ts 2:13). O mesmo pode ser dito sobre a predestinação, pois as Escrituras registram que Deus "em amor nos predestinou para ele" (Ef 1:4-5). Deus não elege e predestina apesar do Seu amor, Ele elege e predestina por causa do Seu amor.

Porque Deus é amor, devemos amar

O amor é uma qualidade que Deus comunica a nós. Nós O amamos e amamos o próximo porque Ele nos amou primeiro. Aliás, somente quando observamos a atividade de amar é que descobrimos como amar. Pois não descobrimos Deus através de nossas experiência com o amor, descobrimos o amor através de nossa experiência com o amor. Só somos capazes de amar verdadeiramente quando nosso amor é reflexo do amor de Deus em nós. E a prova de que o conhecemos é quando amamos seguindo Seu exemplo.

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras (quase todas).

14 de janeiro de 2010

Sobre revelações e atributos


Certa vez tive umas aulas de história da revelação com um liberal. A primeira crítica que ele fez ao pensamento conservador, logo no início das aulas, dizia respeito à Escritura e à possibilidade do conhecimento de Deus. Para ele, era ridículo se estudar as categorias tradicionais de "Revelação geral e especial", ou ainda "os atributos de Deus".

Com o devido desconto pela amargura daquele professor, o conteúdo de suas afirmações revela o desprezo pela perspectiva do cristianismo clássico, bem como a rejeição da Escritura como Palavra de Deus (proposicional) e assim, o abandono da análise bíblica de quem Deus revela ser.

Aquele professor, contudo, não rejeitava absolutamente o conhecimento de Deus. Afirmava que era possível um encontro com Jesus - a verdadeira Palavra. Esse encontro, que ele chamava de "abalo existencial" tornaria Deus conhecido ao homem.

O estranho desse pensamento é que o encontro não possui conteúdo. O abalo existencial não revela algo sobre Jesus, apenas produz um impacto emocional, ou algo parecido.
Ainda assim, a estrutura humana se revela. Mesmo aceitando as proposições do professor que nega a revelação proposicional, e admitindo um "abalo existencial" como encontro com Jesus, passamos a pensar em Deus em termos de categorias - bom, mal, belo, feio, confrontador, confortador, etc., etc.

O "encontro sem conteúdo" faria o homem categorizar suas impressões sobre Deus, utilizando atributos. "Jesus se encontrou comigo. Ele é bom"; "Fui profundamente impactado por Deus, Ele é poderoso"; "O encontro com Deus gerou grande abalo existencial, Ele é majestoso".

E assim voltamos ao que a Escritura apresenta. Em vez de especularmos sobre um encontro sem conteúdo, a Bíblia revela as perfeições de Deus de maneira inequívoca. Se dependêssemos de nossas sensações para atribuirmos qualidades ao Senhor, correríamos o risco de Lhe conferirmos atributos ruins quando sentíssemos algo negativo. Mas a Escritura revela quem Deus é.

Do início ao fim percebemos os relatos sobre o caráter do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Há versículos declarando explicitamente um atributo, e outros indicam situações nas quais a qualidade é apresentada na prática, mas todos demonstram que Deus pode ser conhecido, e que a observação dos Seus atributos é o caminho escolhido por Ele mesmo.

Os 5 calvinistas pretendem passar um tempinho pensando sobre os atributos de Deus. O Calvinismo acredita na Revelação proposicional, e crê que Deus pode ser conhecido - tendo os Seus atributos papel especial neste processo.

O melhor "abalo existencial" é aquele que vem das proposições da [Sagrada] Escritura, aliado à ação do [Santo] Espírito, que revela o [Amoroso] Filho, e o [Glorioso] Pai.

13 de janeiro de 2010

Onde está Deus quando a terra treme?

Peço perdão pelo tamanho do texto. Mas, quando lidamos com as catástrofes, é preciso pensar e refletir sobre muitas coisas. Por isso, peço a paciência dos leitores. A série "Bíblia e Predestinação" volta na semana que vem (ou no sábado). Hoje é preciso meditar sobre um outro assunto.
Onde estavas tu,
quando eu lançava os fundamentos da terra?
Dize-mo, se tens entendimento.
Quem lhe pôs as medidas,
se é que o sabes?
Ou quem estendeu sobre ela o cordel?
Sobre que estão fundadas as suas bases
Ou quem lhe assentou a pedra angular.
quando as estrelas da alva, juntas,
alegremente cantavam,
e rejubilavam todos os filhos de Deus? (Jó 38:4-8)

O dia hoje começou com o anúncio de mais uma tragédia. Um terremoto de 7 graus na escala Richter assolou o Haiti. Até o momento a estimativa é que mais de 100 mil pessoas tenham morrido, incluindo ao menos doze brasileiros, dentre eles uma das fundadoras da Pastoral da Criança, Zilda Arns. A tragédia se mostra ainda mais sinistra quando lembramos que o Haiti é um dos países mais pobres do mundo.

Esse tipo de desastre leva a uma pergunta: onde está Deus? Por que isso acontece?

Provavelmente um ateu encontraria aí a prova da não-existência de Deus. Para outros, o terremoto mostra um Deus impotente para evitar os desastres e socorrer a humanidade. Uma outra resposta seria a de que Deus é mau, por isso não impediu o desastre, mesmo tendo o poder para fazê-lo. Há ainda quem prefira deixar Deus fora dessa e culpar a Satanás pelo incidente.

No entanto, não é no intelecto humano que devemos buscar essa resposta, e sim na Bíblia.

Deus controla os fenômenos naturais
A primeira coisa que devemos entender é que o Senhor controla e governa todas as coisas, inclusive os fenômenos naturais do planeta Terra. A natureza não é uma força independente de Deus, cujo poder é tão grande a ponto de impedir ou desafiar os planos do Senhor. Secas e enchentes, terremotos ou maremotos, furacões e tempestades, tudo é controlado pelo poder divino.

Essa ideia é o centro da resposta que Deus dá quando Jó questiona a Sua justiça. O ser humano não conhece plenamente o universo criado por Deus e nem sabe explicar todas as leis que regulam o funcionamento da criação...como poderia então entender a forma como Deus dirige a vida das pessoas? Deus, no entanto, não apenas conhece, como Ele mesmo estabeleceu a Terra e tudo o que existe, fixando as leis que regem o mundo material. O Senhor é soberano sobre a terra, mas também sobre o mar (Jó 38:12-16), a morte (Jó 38:17), a luz e as trevas (Jó 38:19-20), os fenômenos climáticos (Jó 38:22-30), as estrelas e os céus (Jó 38:31-38) e os animais (Jó 38:39-39:30).

O terremoto no Haiti, assim como os deslizamentos de terra acontecidos no Ano Novo em Angra dos Reis e outros desastres naturais, todos eles estão debaixo do controle divino. Mais do que isso: eles foram decretados por Deus. Como disse Jesus:
Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais. (Mateus 10:29-31)
Um pardal só pode morrer se o Pai consentir. E é certo que um ser humano vale mais do que um bando inteiro de pássaros. Seria possível então que mais de cem mil pessoas morressem sem que houvesse nisso o consentimento do Pai?

Na verdade, a Bíblia vai além. Não apenas o terremoto, mas tudo o que acontece é fruto de um decreto ou determinação divina (já tratei mais dessa questão em outro post):
Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Salmo 139:16)

Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Daniel 4:35)

nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade... (Efésios 1:11)
Não é preciso dizer que Satanás causou esse ou qualquer outro desastre. Ainda que o diabo tenha sido o autor imediato, Deus é Aquele que controla todas as coisas, incluindo as ações de homens, anjos e até mesmo de seres inanimados, como a terra ou a água.

Deus tem direito de vida ou morte sobre os seres humanos
Se Deus tinha poder para impedir esse desastre, por que então Ele não o fez? Será que Deus foi mau por ter decretado que a terra tremeria no Haiti na noite do dia 12 de janeiro?

Certamente Deus não é mau. Ele tem um propósito em cada ato bom ou ruim que acontece no mundo. Não somos governados por um Ser arbitrário ou caprichoso, que mata ou salva pessoas injustamente. A razão pela qual Deus determina que esse tipo de desgraça aflija a humanidade é o pecado.

Doenças, envelhecimento, acidentes violentos, desastres naturais, a morte enfim...tudo isso é o justo castigo que Deus inflige aos seres humanos por causa dos nossos pecados. Como diz a Bíblia:
porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
Todos os seres humanos, sem exceção, incluindo loucos ou bebês de colo, são dignos de morte porque todos pecamos e nossa natureza já é marcada pelo erro desde que nascemos:
pois todos pecaram e carecem da glória de Deus...(Romanos 3:23)

como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. (Romanos 3:10-12)

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (Romanos 5:12)

Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. (Salmo 51:5)
Na verdade, o salário do pecado não é a morte física, mas sim a morte espiritual, aquilo que a Bíblia chama de lago de fogo:
Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo. (Apocalipse 20:12-15)
Sei que essa ideia não é agradável. Para muitos, Deus poderia ser mais brando e dar um castigo menor aos seres humanos por causa do pecado. Uma eternidade de tormentos é um cenário muito mais assustador do que os tremores no Haiti ou até mesmo campos de concentração nazistas.

Contudo, o pecado é uma ofensa dirigida ao nosso Criador, a um Ser Perfeito, que criou um mundo perfeito. Mais do que isso, é uma ingratidão contra Aquele que sustenta todas as coisas. Se vivemos, respiramos, se fazemos qualquer coisa, é porque o Senhor nos dá condições. Em todas as coisas, inclusive nas mais básicas, a humanidade depende de Deus:
O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais...(Atos 17:24-25)

Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, (Hebreus 1:3)
Se um crime contra um desconhecido já é alvo de punição por parte de homens, imagine um crime cometido contra o Todo-Poderoso, de quem dependemos para absolutamente tudo?

Se esse argumento ainda não basta, precisamos sempre nos lembrar que Deus tem sobre nós o direito que um Criador tem sobre sua criação:
Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? (Romanos 9:20-21)

Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça. (Isaías 45:9)
O Senhor pode fazer com os seres humanos o que bem entender, assim como podemos fazer o mesmo com as coisas que nós inventamos. Mais do que isso: se o ser humano cria algo que se revela nocivo a ele, por acaso não destruímos essa invenção? Se um animal de estimação nos ataca, a maioria de nós não se livraria dele?

Deus, no entanto, é misericordioso. Embora Ele julgue, com justiça, os erros dos seres humanos, enquanto nós vivemos neste mundo ainda desfrutamos de uma condenação parcial por nossos erros. A fome, a depressão, a solidão...tudo isso ainda é mais leve do que a justa pena por nossos erros. Por isso o rei Davi podia dizer:
Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades...(Salmo 103:10)
Mas, uma hora todo ser humano se defronta com o juízo divino. E, como todos nós somos pecadores, qualquer um de nós pode perecer com uma enfermidade ou em um acidente ou catástrofe. Por isso, o Senhor pode dizer:
Vede agora que Eu Sou, Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão... (Deuteronômio 32:39)
Quando os desastres acontecem, o Senhor está apenas sendo justo. É preciso que nós entendamos que o Juiz é Deus, e os réus somos nós, e não Ele.

Deus chama os seres humanos ao arrependimento
Contudo, a justiça não é o único propósito de Deus em desastres assim. Para os vivos, essas catástrofes são um chamado de Deus ao arrependimento. Isso foi o que Jesus Cristo ensinou quando Pilatos assassinou a galileus no templo e dezoito pessoas morreram em um acidente:
Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam. Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. (Lucas 13:1-5)
A mensagem de Jesus é clara: se não nos arrependermos, então morreremos, cedo ou tarde, como os vitimados em desastres. Da morte física não podemos escapar, mas da condenação eterna sim, desde que haja arrependimento. Mas, o que é se arrepender?

Na Bíblia, arrependimento é mais do que a tristeza pelo erro cometido: é mudar de direção. A ideia é de alguém que para, dá meia volta e faz o inverso do que fazia antes. Mais do que isso: uma das palavras usadas é o grego metanoia, que significa "mudança de mente".

Na verdade é preciso mais que mudar a mente, é preciso mudar quem nós somos. Por isso, Jesus fala do novo nascimento:
Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. (João 3:5-6)
Na verdade, o arrependimento genuíno é uma graça dada pelo próprio Deus:
Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? (Romanos 2:4)
Como saber se essa bondade chegou até você? Simples.

Certamente você já pôde refletir aqui sobre como o pecado prejudicou a humanidade e como ele é algo sério e abominável aos olhos de Deus. Se você sente tristeza por causa disso, reconhece que é culpado diante do Senhor e deseja viver uma nova vida, escapando assim da ira do Senhor, então Jesus o está levando a arrepender-se.

Apesar de tantas catástrofes, lembre-se de que a maior de todas elas foi sofrida por Jesus Cristo. Em vida, Ele viveu como pobre, provavelmente perdeu cedo a José e foi perseguido pelos religiosos de sua época. Ele não pecou, mas foi espancado, torturado, humilhado e abandonado por seus discípulos. Ele morreu na cruz, com pregos nas mãos e nos pés, onde ficou pendurado por seis horas.

Mas tudo isso tinha um propósito: salvar pessoas. Cristo sofre, no lugar dos filhos de Deus, a pena que nós merecemos pelo pecado:
Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados por seu sangue, seremos por ele salvos da ira. (Romanos 5:6-8)
Há saída para a morte. Há livramento para o pecado. Mas isso é algo que somente Deus pode fazer. Somente Cristo pode sofrer o nosso castigo e somente Deus pode mudar a nossa mente. E a forma pela qual Deus faz isso é pela fé:
Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor, e em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para a justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. (Romanos 10:9-13)

Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)
Quando a terra treme, o morro desce ou o mar invade a terra, Jesus chama a humanidade para Si. Ele nos diz que algo ainda pior pode nos acontecer. Mas, em amor, Ele nos dá a saída. Nos mostra um caminho melhor. O caminho da cruz.

Deus chama a igreja a ajudar aos que sofrem
Andar com Jesus é viver uma nova vida, é mudar de mente, nascer de novo. E isso implica em uma nova atitude: a de amar o nosso próximo. Mesmo que o terremoto seja fruto da justiça de Deus, Ele espera que Seus filhos mostrem também a misericórdia do Senhor: ajudando a achar os desaparecidos, consolando os vivos, levando comida e remédios aos desabrigados, reconstruindo as casas destruídas, pregando o Evangelho. Como ordenou o Senhor:
Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas. (Mateus 7:12)
E, se a tragédia tiver levado filhos de Deus, que nos lembremos de que o Senhor age pelo sofrimento para nos aperfeiçoar:
E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. (Romanos 5:3-4)

Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. (2 Coríntios 12:9)
E, por mais que seja duro de acreditar, mas creiamos que, mesmo em meio ao mal, Deus age a nosso favor:
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Romanos 8:28)
Que possamos então, chorar com os que choram...no Haiti, em Angra dos Reis, no Rio Grande do Sul, em nossa rua. Orar por eles. Ajudarmos com o que pudermos, inclusive abrindo a casa ou dando dinheiro. E mostrando aos que sofrem que há um Deus que pode nos livrar da morte.

Louvado seja o nosso Deus...que está sempre presente...mesmo quando a terra treme.

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no 5 Calvinistas.