29 de março de 2010

De pecadores mortos a santos ressuscitados

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2:8)

INTRODUÇÃO

Na primeira mensagem dessa série, lemos que Paulo escreveu a santos e fiéis em Cristo. Santos significa separados para Deus e fiéis quer dizer crentes em Jesus. Porém, a Bíblia diz que "todos pecaram e separados estão da glória de Deus" (Rm 3:23). Diz também que "o salário do pecado é a morte" (Rm 6:23). Como então pecadores mortos passam a ser santos vivos? É esse processo que Paulo explica na passagem que iremos meditar nesta noite.

Na primeira parte do capítulo primeiro, Paulo fala do planejamento da nossa salvação pelo Pai, do provimento dos meios para nossa salvação pelo Filho e da execução dessa salvação pelo Espírito Santo. Agora Paulo se detém a explicar o que aconteceu na prática com cada pessoa que experimentou a salvação de Deus, de como elas passaram de defuntos espirituais  a novas criaturas em Cristo.

Você precisa apreciar, valorizar o que recebeu de Cristo. Mas para isso, precisa considerar tr~es coisas: que você estava morto e separado de Deus, que você foi vivificado em Cristo e que tudo isso foi feito exclusivamente pelo Espírito Santo.

I ESTANDO VÓS MORTOS EM OFENSAS E PECADOS, 2:1

Tudo começou com nosso primeiro pai, Adão. Ele recebeu uma ordem de Deus, não poderia comer do fruto da árvore no meio do jardim. Deus havia sido bem claro: "De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2:16-17). Desde Adão, todos os homens nascem mortos espiritualmente, pois "como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram" (Rm 5:12).

Paulo apresenta as provas dessa morte espiritual, ao dizer que

1. Andávamos "segundo o curso deste mundo", 2:2a

Os padrões do mundo são opostos à Lei de Deus. Existe uma incompatibilidade, que a Bíblia chama de inimizade entre o mundo e Deus, a ponto de que se alguém quer ser amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus. E de fato, a forma como andávamos anteriormente fazia de nós inimigos de Deus (Rm 5:10).

2. Andávamos "segundo o príncipe das potestades do ar", 2:2b

Como "todo o mundo está no maligno" (1Jo 5:19), andar segundo os rudimentos do mundo é, em última análise, fazer a vontade do Diabo. Mesmo sem saber, quem está no mundo faz a vontade do Diabo e não a vontade de Deus. Pois quem opera neles não é o Espírito santo, mas "espírito que agora opera nos filhos da desobediência" (2:2).

3. Andávamos "nos desejos da nossa carne", 2:3

Além de nos conformar com o mundo separado de Deus, de agir sob influência do Diabo, também nos entregávamos à concupiscência de nossa carne, "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos" (2:3). Quando Adão pecou, ele arruinou a nossa natureza, que ficou corrompida pelo pecado. Passamos a ter uma vontade contrária á vontade de Deus, de modo que até mesmo nossos pensamentos tornaram-se pecaminosos.

Era assim que andávamos, como amantes do mundo e inimigos de Deus, dominados pelo espírito maligno e não pelo Espírito Santo e servos de nossa vontade caída e não da vontade santa de Deus. Isso fazia de nós "filhos da desobediência" e "filhos da ira". Por nossa desobediência estávamos destinados à ira, se Deus não fizesse algo por nós. Mas Ele fez!

II NOS VIVIFICOU JUNTAMENTE COM CRISTO, 2:5

1. Motivado "pelo seu muito amor com que nos amou", 2:4

Paulo se refere a Deus como "riquíssimo em misericórdia" (2:4). Não fosse Seu grande amor para com pecadores irremediáveis, nós permaneceríamos mortos até finalmente experimentarmos a segunda morte, a condenação e tormento eterno. Mas movido por grande amor, foi misericordioso e nos deu vida com Cristo, livrando-nos das algemas da morte.

2. Ele "nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus", 2:6

Mais que apenas nos vivificar, o Senhor nos exaltou às regiões celestiais, em Cristo. Como a igreja é o Corpo de Cristo, que está assentado nos céus, desde agora ela está assentada nos lugares celestiais na pessoa de Jesus. De defuntos espirituais jogados nas profundezas da terra e separados de Deus, fomos transportados para as alturas celestiais, na presença de Deus!

3. Para mostrar as "as abundantes riquezas da sua graça", 2:7

Para que Deus fez tudo isso? Paulo nos diz que foi para mostrar "nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus". Deus é glorificado por Sua justiça quando aplica a justa condenação àqueles que rejeitam seu Filho Jesus Cristo. Mas muito mais Ele é glorificado ao exibir, por toda a eternidade, a riqueza de sua graça com pecadores redimidos e ressuscitados com Seu Filho!

III ISTO NÃO VEM DE VÓS, É DOM DE DEUS, 2:8

Agora precisamos abordar um ponto fundamental e que muitas vezes é ignorado. Tranformar pecadores mortos em pessoas nascidas de novo é uma obra exclusiva de Deus. Um morto não pode fazer nada por si mesmo. Somente depois de ser vivificado é que alguém pode esboçar qualquer reação. Paulo faz questão de deixar isso claro na passagem que estamos analisando.

1. "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas", 2:5

Nunca é demais relembrar este ponto: nós ainda estávamos mortos quando fomos renovados em nossa vontade, mente e coração. Um morto não tem fé, então precisar viver antes de crer. Um morto não se arrepende, então precisa viver antes de confessar seus pecados. Por isso, os que nasceram de novo "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (Jo 1:13). Deus usa de misericórdia e vem até nós quando estamos mortos e incapazes de fazer qualquer coisa para cooperar com Sua obra em nós.

2. "Não vem das obras, para que ninguém se glorie", 2:9

A nossa ressurreição com Cristo não vem de algo que possamos fazer. Obras são coisas que o homem faz. E não há nada que o homem possa fazer para ajudar na sua salvação. Se o homem operasse ou cooperasse com sua salvação, teria motivos para se orgulhar disso. O glória não seria toda de Deus, que pelo menos uma parte teria que dividir com o homem. Mas a Bíblia é taxativa: a salvação não vem de obras humanas, logo não há motivo para ele se gloriar.

3. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé", 2:8

A salvação é uma obra divina, do começo ao fim. Paulo diz que somos salvos pela graça. O fundamento de nossa salvação é a graça de Deus, é porque Deus quis nos salvar, mesmo sem mérito algum, que somos salvos. Tudo o que é necessário para nossa salvação é provido por Deus, até mesmo a fé. A fé é necessária para a salvação, pois somente quem crê é salvo por Deus. Mas é Deus quem nos capacita a crer, em outras palavras, a fé também é um dom de Deus!

CONCLUSÃO

Um erro comum é pensar que como a salvação é pela graça somente e não pelas obras, não precisamos viver uma vida de santidade ou fazer o bem. O ensino de Paulo é bastante claro. Embora o novo nascimento não dependa de boas obras, estas tem o seu lugar na vida daqueles que nasceram de novo. Primeiro, que "fomos criados para boas obras" (2:10). Não realizamos boas obras para sermos salvos, mas somos salvos para realizá-las. As boas obras não são a causa, mas a consequência da salvação. Em segundo lugar, as boas obras "Deus preparou para que andássemos nela" (2:10). Isto significa que mesmo quando realizamos boas obras, e devemos realizá-las, não devemos nos orgulhar disso, "porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2:13).

Soli Deo Gloria

25 de março de 2010

Reflexos devocionais da doutrina da criação

Correndo um grande risco de ser redundante, considerando o post anterior que exemplifica estes pontos de maneira tão clara, pretendo destacar aspectos da doutrina da criação que estimulam a vida do cristão e seu relacionamento com Deus.

Escrevo isto porque, vez ou outra, corremos o sério risco de excluir tudo aquilo que não possui uma aplicação imediata do nosso repertório. É o famigerado pragmatismo que nos leva a tais decisões. Por isso, alguém poderia pensar: “a doutrina da criação não possui nenhuma aplicação direta para a minha vida hoje. Ela não me ajuda a resolver os problemas, não fala sobre a vida atual da igreja, não indica nada para a 'missão', e por isso não merece tanto a nossa atenção”.

Daí se percebe que a mente pragmática caminha para um vazio no qual apenas frases de impacto imediato e ações ordenadas têm vez. Talvez por isso as pregações de hoje caminham mais e mais para uma abordagem do “faça isso” ou “faça aquilo”, em vez do “Jesus fez”. Mas eu me desvio do assunto. Voltemos, pois.

Falei, em outro post, sobre o papel das origens na determinação de uma cosmovisão. A maneira como vemos a realidade, e como consideramos sua origem e queda – se nossa cosmovisão tem lugar para uma “queda” - influenciará a nossa visão de redenção. Por isso, a criação ocupa papel de destaque na forma como vivemos hoje, ainda que não tenhamos uma percepção disso.

Para a vida devocional – e eu me refiro a “vida devocional” e não apenas ao “momento devocional” por entender que a devoção transcende os minutos de oração e leitura bíblica – a doutrina da criação possui grande significado.

1.Ela nos assegura a existência de um Criador infinito e pessoal
Toda a vida de devoção só faz sentido porque a criação nos demonstra a existência do Criador. Mais do que isso, o modo como o Criador agiu, revela a sua pessoalidade. Ainda além, a revelação bíblica de que fomos criados à imagem e semelhança dEle, indica que é possível haver comunicação real entre nós e o Criador.

A possibilidade de um relacionamento com Deus é estabelecida a partir da compreensão deste ponto.

A oração é possível na base de um Deus pessoal. A comunicação com Deus, ouvindo-O por meio da Escritura, é certa a partir do fundamento de que Deus é pessoal.

Antes mesmo de passar a outro item, é preciso destacar que a Queda afetou o relacionamento inicial entre homem e Deus, e assim, hoje só é possível haver paz entre criatura e Criador, com base no sacrifício perfeio de Cristo.

2.Ela demonstra um Criador digno de adoração
Não apenas o Criador existe, mas em Seus atributos de inifinitude e pessoalidade (ou personalidade, como quiserem), encontramos um Deus digno de adoração. Na criação encontramos um Deus poderoso, criativo, perfeito, gracioso, e santo.

Na doutrina da criação percebemos aspectos da transcendência e da imanência de Deus, e nesse contextos somos levador a nos alegramos e vivermos em adoração.

Considerar a independência do Criador – que não precisava de absolutamente nada do que foi criado, e ainda assim decidiu criar, torna todas as criaturas devedoras a Ele – tudo o que respira, louve ao Senhor”.

3.Ela pavimenta o caminho da doutrina da providência e fortalece a fé e segurança do cristão
A doutrina da criação, ao revelar o cuidado e amor de Deus, aponta para a realidade de que o Criador não abandona Sua criação. Por isso, enquanto vivemos, temos a certeza de que estamos “sob os olhos” do Senhor, ou “nas mãos de Jesus”.

Para a vida devocinal, esta segurança de que o Criador e Mantenedor de todas as coisas está cuidando de nós, livra-nos do desespero nos momentos de crise e dor, protege-nos do medo nos momentos de perigo, guarda-nos da ansiedade, e nos dá paz para todas as horas.

Você consegue pensar em outros pontos?
Longe do falso ensinamento pragmático, a doutrina-sem-ordem-de-ação-imediata da criação revela, por meio de suas implicações, como ela gera impacto no nosso dia-a-dia.
Você consegue pensar em outros reflexos dela para a sua vida devocional?

Soli Deo Gloria.

* * *

Allen Porto é blogueiro do BJC e escreve às quintas-feiras no 5Calvinistas.

23 de março de 2010

A doutrina da Criação no Catecismo de Heidelberg

O que o Catecismo de Heidelberg fala acerca da doutrina da criação pode até não ser a exposição mais apreciada e abrangente (em comparação com outras confissões de fé e catecismos do período da Reforma) sobre o assunto, mas é a que mais me agrada. Por que? Porque ela dá um toque, digamos, mais devocional a esse tema. Escrito a pedido do príncipe eleitor da província alemã do Palatinado, Frederico III (que havia se tornado calvinista em 1560), por Zacarias Ursinus (professor de teologia da Universidade de Heidelberg) e por Gaspar Olevianus (pregador da corte de Frederico), esse valioso catecismo, publicado em 19 de janeiro de 1563, tem muito a nos ensinar sobre como a doutrina da criação pode nos levar a uma reflexão mais piedosa (sem deixar de ser teológica) sobre o Deus Criador e as coisas a Ele concernentes.

A exposição do tema encontra-se nas perguntas 26 a 28 do Catecismo (sugiro aos leitores que atentem bem para as referências bíblicas).

Pergunta 26 – Em que você crê quando diz: “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”?


Resposta – Creio que o eterno Pai de nosso Senhor Jesus Cristo criou, do nada, o céu, a terra e tudo o que neles há (1) e ainda os sustenta e governa por seu eterno conselho e providência (2) . Ele é também meu Deus e meu Pai, por causa de seu Filho Cristo (3). NEle confio de tal maneira, que não duvido que dará tudo o que for necessário para meu corpo e minha alma (4); e que Ele transformará em bem todo mal que me enviar, nesta vida conturbada (5) . Tudo isto Ele pode fazer como Deus todo-poderoso (6) e quer fazer como Pai fiel (7) .


(1) Gn 1:1; Gn 2:3; Êx 20:11; Jó 33:4; Jó 38:4-11; Sl 33:6; Is 40:26; At 4:24; At 14:15. (2) Sl 104:2-5,27-30; Sl 115:3; Mt 10:29,30; Rm 11:36; Ef 1:11. (3) Jo 1:12; Rm 8:15; Gl 4:5-7; Ef 1:5. (4) Sl 55:22; Mt 6:25,26; Lc 12:22-24. (5) Rm 8:28. (6) Rm 8:37-39; Rm 10:12; Ap 1:8. (7) Mt 6:32,33; Mt 7:9-11.

Como é claramente perceptível, o Catecismo de Heidelberg se utiliza da primeira sentença do Credo Apostólico (séc. II – VI) na formulação da pergunta 26, uma vez que o referido credo foi amplamente aceito pelas igrejas reformadas como sendo uma genuína expressão da fé que nos foi legada pelos apóstolos de Cristo. E a resposta a essa pergunta não poderia ser mais esplêndida. Ela não diz apenas que Deus criou “do nada” (ex nihilo) todas as coisas, mas faz questão de frisar que Ele é “meu Deus e meu Pai, por causa de seu Filho Cristo”. É somente por intermédio de Jesus Cristo que alguém pode se apropriar do amor paternal de Deus. O Catecismo também faz questão de acentuar a necessidade de confiarmos total e irrestritamente no fato de que Deus nos dará tudo o que for necessário para nossos corpos e almas. Ou seja, Deus não apenas proverá nosso alimento material (“necessário para meu corpo”), mas também o espiritual ([necessário] para minha alma”). Em tempos onde os crentes andam tão vacilantes quanto à certeza da divina provisão para as suas necessidades mais básicas (tanto materiais quanto espirituais), a inabalável convicção exposta nessa resposta deve nos servir de exemplo. Precisamos crer que o mesmo Deus que cria é o mesmo Deus que supre. O Catecismo ainda diz, alinhado ao que Paulo fala sobre todas as coisas cooperarem para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28),  que o próprio Deus converterá todo mal que Ele nos enviar em bem, enquanto aqui estivermos. O mesmo Deus que das trevas fez resplandecer a luz é o mesmo Deus que fará redundar em glória as agruras pelas quais passamos aqui nesta terra. A última sentença da resposta não poderia ser mais categórica: Deus pode nos provar pelo seu soberano poder, e quer nos livrar por sua fidelidade paternal.

Referindo-se à divina Providência, doutrina que está intimamente ligada à doutrina da Criação, o Catecismo ainda nos diz, em resposta à pergunta 27 (“O que você entende por ‘Providência de Deus?’”), que “ervas e plantas, chuva e seca [Jr 5.24; At 14.17] , anos frutíferos e infrutíferos, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza [Pv 22.2; Jo 9.3] e todas as coisas [Pv 16.33; Mt 10.29] não nos sobrevem por acaso, mas de sua mão paternal”. Deus, por ser onipotente e onisciente, não apenas “sustenta continuamente o céu e a terra e todas as criaturas” (providência), mas também os governa de tal modo que Sua Soberania seja a todos evidenciada.  Notem os queridos leitores que o Catecismo inclui a “seca”, os “anos infrutíferos”, a “doença” e a “pobreza” na categoria daquelas coisas que “não nos sobrevem por acaso”. Se for assim, quem é que está por trás disso tudo? “É a ‘mão paternal’ de Deus” – responde o Catecismo. ABRE PARÊNTESE. Os propagadores do Teísmo Aberto (heresia que nega, dentre outras coisas, o absoluto controle de Deus sobre todas as coisas) odiariam esta afirmação. Nesse caso, não é um problema deles com o Catecismo, e sim, um problema deles com as Escrituras. FECHA PARÊNTESE.

Mas, afinal, “que benefício há em sabermos que Deus criou todas as coisas e que continuamente as sustenta pela sua providência” (Pergunta 28)? Chegamos, então, ao “filé mignon” da exposição que o Catecismo faz da doutrina da Criação. E a resposta é:

Para que tenhamos paciência em toda adversidade (1) e mostremos gratidão em toda prosperidade (2) e para que, quanto ao futuro, tenhamos a firme confiança em nosso fiel Deus e Pai, de que criatura alguma nos pode separar do amor dEle (3) . Porque todas as criaturas estão na mão de Deus, de tal maneira que sem a vontade dEle não podem agir nem se mover (4) .

(1) Jó 1:21,22; Sl 39:9; Rm 5:3,4; Tg 1:3. (2) Dt 8:10; 1Ts 5:18. (3) Sl 55:22; Rm 5: 4,5; Rm 8:38,39. (4) Jó 1:12; Jó 2:6; Pv 21:1; At 17:25-28.

Dificilmente alguém enxergaria algum benefício prático em se possuir uma perspectiva correta sobre a doutrina da criação. “E daí? O que é que eu ganho com isso? Que diferença isso fará na minha vida?” – é o que pensa a maioria das pessoas (em tom de desdém), inclusive alguns crentes. E o Catecismo, mais uma vez de forma mui apropriada, nos instrui de forma singular.

Que benefício há em sabermos destas coisas? Para que tenhamos a paciência de Jó (Jo 1.21) e do salmista Davi, que no meio da adversidade reconheceu tanto a soberania quanto a providência do Seu Criador: “Emudeço, não abro os meus lábios porque tu fizeste isso” (Sl 39.9 – itálico meu). Que benefício há em sabermos destas coisas? Para que sejamos gratos a Deus quando as coisas estiverem dando certo. Não devemos lembrar de Deus apenas quando o cerco se fecha contra nós. Não devemos lembrar de que Ele é o Criador de todas as coisas apenas quando a terra treme, ou quando a chuva cai copiosa e arrasadoramente, momentos estes em que costumamos clamamos por Sua misericórdia e graça, mas devemos ser gratos em todo tempo e em qualquer circunstância. Foi exatamente isso que Ele recomendou ao povo de Israel: “Comerás, e te fartarás, e louvarás o Senhor, teu Deus, pela boa terra que ele te deu” (Dt 8.20). Que benefício há em sabermos destas coisas? Para que a incerteza quanto ao futuro não assalte nossos corações com aquele tipo de pavor que é próprio dos incrédulos. Foi Jesus mesmo quem disse para não andarmos preocupados com a nossa vida, quanto ao que haveremos de comer e beber, nem quanto ao nosso corpo, quanto ao que haveremos de vestir. Segundo o próprio Mestre, esse tipo de ansiedade é uma particularidade dos pagãos. Ele mesmo é quem nos garante que o mesmo Deus que criou e veste as ervas dos campos é o mesmo Deus que cuida (e continuará cuidando!) de nós (Mt 7.25-34). Que benefício há em sabermos destas coisas? Para sabermos, finalmente, que todas as coisas, absolutamente todas as coisas, estão sob o domínio de Deus. Não apenas as coisas visíveis, como as chuvas e os terremotos, mas também as coisas invisíveis, como os principados e potestades que habitam nas regiões celestes. Inclusive o diabo, que, como dizia Lutero, é “o diabo de Deus”. Mas o bom de tudo é saber que nada, absolutamente nada disso poderá nos separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 8. 31-39). Aleluia!

Saber destas coisas faz toda a diferença, meus amados. A vontade que me dá é de não parar mais de escrever sobre estas verdades tão maravilhosas. No momento em que escrevo estas linhas passa em minha memória um filme da minha breve vida, de como Deus tem sido misericordioso para comigo, um pecador. Não posso ser outra coisa senão grato a Ele por tão grande amor. Infelizmente, nem sempre é dessa forma que encaramos certos temas teológicos. Geralmente nem nos esforçamos para enxergar sequer uma pontinha de “possibilidade devocional” em nossas elucubrações. Por isso, agradeço a Deus pelo Catecismo de Heidelberg, que me fez enxergar a teologia (doutrina) da Criação por um prisma, digamos, “diferente” – o da piedade.

Soli Deo Gloria!!!

22 de março de 2010

De pecadores mortos a santos vivificados

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2:8)

INTRODUÇÃO

Na primeira mensagem dessa série, lemos que Paulo escreveu a santos e fiéis em Cristo. Santos significa separados para Deus e fiéis quer dizer crentes em Jesus. Porém, a Bíblia diz que "todos pecaram e separados estão da glória de Deus" (Rm 3:23). Diz também que "o salário do pecado é a morte" (Rm 6:23). Como então pecadores mortos passam a ser santos vivos? É esse processo que Paulo explica na passagem que iremos meditar nesta noite.

Na primeira parte do capítulo primeiro, Paulo fala do planejamento da nossa salvação pelo Pai, do provimento dos meios para nossa salvação pelo Filho e da execução dessa salvação pelo Espírito Santo. Agora Paulo se detém a explicar o que aconteceu na prática com cada pessoa que experimentou a salvação de Deus, de como elas passaram de defuntos espirituais  a novas criaturas em Cristo.

Você precisa apreciar, valorizar o que recebeu de Cristo. Mas para isso, precisa considerar tr~es coisas: que você estava morto e separado de Deus, que você foi vivificado em Cristo e que tudo isso foi feito exclusivamente pelo Espírito Santo.

I ESTANDO VÓS MORTOS EM OFENSAS E PECADOS, 2:1

Tudo começou com nosso primeiro pai, Adão. Ele recebeu uma ordem de Deus, não poderia comer do fruto da árvore no meio do jardim. Deus havia sido bem claro: "De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2:16-17). Desde Adão, todos os homens nascem mortos espiritualmente, pois "como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram" (Rm 5:12).

Paulo apresenta as provas dessa morte espiritual, ao dizer que

1. Andávamos "segundo o curso deste mundo", 2:2a

Os padrões do mundo são opostos à Lei de Deus. Existe uma incompatibilidade, que a Bíblia chama de inimizade entre o mundo e Deus, a ponto de que se alguém quer ser amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus. E de fato, a forma como andávamos anteriormente fazia de nós inimigos de Deus (Rm 5:10)

2. Andávamos "segundo o príncipe das potestades do ar", 2:2b

Como "todo o mundo está no maligno" (1Jo 5:19), andar segundo os rudimentos do mundo é, em última análise, fazer a vontade do Diabo. Mesmo sem saber, quem está no mundo faz a vontade do Diabo e não a vontade de Deus. Pois quem opera neles não é o Espírito santo, mas "espírito que agora opera nos filhos da desobediência" (2:2).

3. Andávamos "nos desejos da nossa carne", 2:3

Além de nos conformar com o mundo separado de Deus, de agir sob influência do Diabo, também nos entregávamos à concupiscência de nossa carne, "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos" (2:3). Quando Adão pecou, ele arruinou a nossa natureza, que ficou corrompida pelo pecado. Passamos a ter uma vontade contrária á vontade de Deus, de modo que até mesmo nossos pensamentos tornaram-se pecaminosos.

Era assim que andávamos, como amantes do mundo e inimigos de Deus, dominados pelo espírito maligno e não pelo Espírito Santo e servos de nossa vontade caída e não da vontade santa de Deus. Isso fazia de nós "filhos da desobediência" e "filhos da ira". Por nossa desobediência estávamos destinados à ira, se Deus não fizesse algo por nós. Mas Ele fez!

II NOS VIVIFICOU JUNTAMENTE COM CRISTO, 2:5

1. Motivado "pelo seu muito amor com que nos amou", 2:4

Paulo se refere a Deus como "riquíssimo em misericórdia" (2:4). Não fosse Seu grande amor para com pecadores irremediáveis, nós permaneceríamos mortos até finalmente experimentarmos a segunda morte, a condenação e tormento eterno. Mas movido por grande amor, foi misericordioso e nos deu vida com Cristo, livrando-nos das algemas da morte.

2. Ele "nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus", 2:6

Mais que apenas nos vivificar, o Senhor nos exaltou às regiões celestiais, em Cristo. Como a igreja é o Corpo de Cristo, que está assentado nos céus, desde agora ela está assentada nos lugares celestiais na pessoa de Jesus. De defuntos espirituais jogados nas profundezas da terra e separados de Deus, fomos transportados para as alturas celestiais, na presença de Deus!

3. Para mostrar as "as abundantes riquezas da sua graça", 2:7

Para que Deus fez tudo isso? Paulo nos diz que foi para mostrar "nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus". Deus é glorificado por Sua justiça quando aplica a justa condenação àqueles que rejeitam seu Filho Jesus Cristo. Mas muito mais Ele é glorificado ao exibir, por toda a eternidade, a riqueza de sua graça com pecadores redimidos e ressuscitados com Seu Filho!

III ISTO NÃO VEM DE VÓS, É DOM DE DEUS, 2:8

Agora precisamos abordar um ponto fundamental e que muitas vezes é ignorado. Tranformar pecadores mortos em pessoas nascidas de novo é uma obra exclusiva de Deus. Um morto não pode fazer nada por si mesmo. Somente depois de ser vivificado é que alguém pode esboçar qualquer reação. Paulo faz questão de deixar isso claro na passagem que estamos analisando.

1. "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas", 2:5

Nunca é demais relembrar este ponto: nós ainda estávamos mortos quando fomos renovados em nossa vontade, mente e coração. Um morto não tem fé, então precisar viver antes de crer. Um morto não se arrepende, então precisa viver antes de confessar seus pecados. Por isso, os que nasceram de novo "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus" (Jo 1:13). Deus usa de misericórdia e vem até nós quando estamos mortos e incapazes de fazer qualquer coisa para cooperar com Sua obra em nós.

2. "Não vem das obras, para que ninguém se glorie", 2:9

A nossa ressurreição com Cristo não vem de algo que possamos fazer. Obras são coisas que o homem faz. E não há nada que o homem possa fazer para ajudar na sua salvação. Se o homem operasse ou cooperasse com sua salvação, teria motivos para se orgulhar disso. O glória não seria toda de Deus, que pelo menos uma parte teria que dividir com o homem. Mas a Bíblia é taxativa: a salvação não vem de obras humanas, logo não há motivo para ele se gloriar.

3. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé", 2:8

A salvação é uma obra divina, do começo ao fim. Paulo diz que somos salvos pela graça. O fundamento de nossa salvação é a graça de Deus, é porque Deus quis nos salvar, mesmo sem mérito algum, que somos salvos. Tudo o que é necessário para nossa salvação é provido por Deus, até mesmo a fé. A fé é necessária para a salvação, pois somente quem crê é salvo por Deus. Mas é Deus quem nos capacita a crer, em outras palavras, a fé também é um dom de Deus!

CONCLUSÃO

Um erro comum é pensar que como a salvação é pela graça somente e não pelas obras, não precisamos viver uma vida de santidade ou realizar boas obras. O ensino de Paulo é bastante claro. Embora o novo nascimento não dependa de boas obras, estas tem o seu lugar na vida daqueles que nasceram de novo. Primeiro, que "fomos criados para boas obras" (2:10). Não realizamos boas obras para sermos salvos, mas somos salvos para realizar boas obras. As boas obras não são a causa, mas a consequência da salvação. Em segundo lugar, as boas obras "Deus preparou para que andássemos nela" (2:10). Isto significa que mesmo quando realizamos boas obras, e devemos realizá-las, não podemos nos orgulhar disso, "porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2:13).

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

19 de março de 2010

Carta a Ricardo: Sobre o deus dos recados (“scraps”)

Caro Ricardo [*],

Tenho recebido vários recados (scraps) seus no Orkut. Pra ser sincero, não leio todos. Não por falta de consideração a você, que tenho em grande estima, e sim por falta de tempo mesmo, ainda mais agora que estou sem internet em casa. Mas o motivo pelo qual estou te enviando a presente carta, quer dizer, e-mail, é para manifestar a minha insatisfação com alguns recados do tipo “evangelístico” que tenho recebido ultimamente. Como os tais possuem mais ou menos o mesmo conteúdo, vou citar apenas um. Ei-lo:

Oi, preciso de um favor!!!!

Bom dia e desculpe te incomodar é que é muito urgente. Tenho um amigo que veio de muito longe e precisa ficar em algum lugar. Sendo assim, indiquei sua casa. Te peço que o receba e o ame. O nome dele é Jesus Cristo.

Agora diga bem baixo: Pode entrar Senhor, eu preciso de Ti, limpa meu coração com Teu sangue e abençoe a minha família.

Se acredita em Deus envia esta mensagem a 20 pessoas, se rejeitar lembre do que Jesus disse: “SE ME NEGAS ENTRE OS HOMENS,TE NEGAREI DIANTE DO PAI”.

Mesmo sem saber se o texto é de sua autoria (pois minha esposa já recebeu esse recado também, e não foi você quem enviou), somente o fato de você repassá-lo a outras pessoas revela que, no fundo, no fundo, abraças a teologia contida nesse scrap. Pra você não dizer que estou sendo radical e “chato” (cansei de ouvir você me chamar disso – rsrsrs!) demais, gostaria que você considerasse minhas razões.

Eu sei que Jesus certa feita disse que “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20).  Todavia, este versículo não justifica nem apoia coisas do tipo “tenho um amigo que veio de muito longe e precisa ficar em algum lugar. Sendo assim, indiquei sua casa. Te peço que o receba e o ame. O nome dele é Jesus Cristo”. É bom que observemos, Ricardo, que no contexto em que Jesus falou que não tinha onde reclinar a cabeça ele estava, na realidade, pondo à prova aqueles que queriam segui-lo. O versículo 18 do aludido capítulo de Mateus diz que Jesus percebeu que havia “muita gente” ao seu redor. Foi quando um escriba (sugestivo isso, não?) aproximou-se dele e lhe falou: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores” (v. 19). Foi aí que Jesus, que sonda e conhece as reais intenções do coração, respondeu-lhe: “as raposas tem seus covis, e as aves dos céus, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (v. 20 – itálico meu). Isso significa que Jesus sabia que aquele escriba que pretendia segui-lo na realidade não estava nem um pouco disposto a negar-se a si mesmo. Como se percebe, esse texto (se é que você estava pensando nele de fato) não advoga esse tipo de teologia contida no seu recado, Ricardo! Além do mais, o modo como você coloca as sentenças transforma Jesus num pobre coitado que fica mendigando o favor dos homens para repousar em algum coração que queira recebê-lo. Esse tipo de apelo não receberia apoio nem mesmo de alguns arminianos mais fervorosos que conheço.

E tem mais. Essa coisa de dizer bem baixinho para o Senhor entrar no meu coração combina muito bem com o espírito poético-meloso da pós-modernidade, bem como com as práticas finneyanas (semi-pelagianas pragmáticas) de evangelismo, mas não com as Escrituras. Até hoje, depois de uma intensa e cansativa busca, não consegui encontrar em lugar nenhum da Bíblia qualquer texto que apoie isso. E se você estiver pensando em Apocalipse 3.20, onde Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Jesus está falando de arrependimento, o que é bem diferente dessa coisa de dizer “entra no meu coração”. Geralmente, as pessoas pedem para Jesus entrar nos seus corações quando não estão dispostas a se arrepender dos seus maus caminhos. “Entra no meu coração, Senhor”… bom, sim, mas e daí? Onde está o arrependimento, a regeneração? E o pior de tudo, Ricardo, é que tem tanta gente por aí pensando que é salva somente porque repetiu uma oração do tipo “entra no meu coração, Senhor”! Será que Jesus “entraria” num coração que não se arrependeu genuinamente, num coração que não foi regenerado pelo Espírito? Será que Jesus se deixaria levar por um pedido tão inócuo como esse?

E ainda tem mais, Ricardo. É justamente pelo fato de eu acreditar em Deus (quero dizer, no Deus da Bíblia) que eu não repassarei esta mensagem a 20, 50 ou a “x” pessoas. Prefiro falar-lhes nos termos da Palavra, e não de scraps sem conteúdo. E penso que com isso eu não esteja negando a Jesus. Lembre-se: scrap (do inglês) significa “pedaço”; “recorte”; “fragmento”. Também pode significar “refugo”; “sobras”; “sucata”. E é exatamente isso que esse tipo de recado é, Ricardo: apenas um pedaço, um recorte de evangelho, não sua totalidade. Isso quando não se torna uma verdadeira sucata; sobras de teologia barata. Lembro-te de que quando o apóstolo Paulo se despedia dos presbíteros de Éfeso ele lhes disse que não deixou de anunciar-lhes “todo o desígnio de Deus” (At 20.27). Imagine, Ricardo, se Paulo aderiria à moda dos scraps para instruir uma pessoa nos retos caminhos do Senhor? Penso que jamais.

Perdoe-me o tom não muito amistoso, caro amigo (que paradoxo! rsrsrs!), mas meu alvo não é a sua pessoa, e sim a teologia que seu recado carrega. Insisto em dizer que esse tipo de coisa, apesar de bem intencionada, não está respaldada pelas Escrituras. Também quero te pedir um favor: não me envie mais mensagens desse tipo, pois não terei o mínimo de consideração por elas (ah! se eu pudesse bloquear o recebimento de certos tipos de recados…). Não duvide que eu deletarei todas imediatamente assim que vê-las. Em vez disso, pergunte-me como é que vão as coisas por aqui em Santarém-PA. Aí sim, poderemos manter um contato, digamos, menos “beligerante” (rsrs!) e mais amistoso.

Um grande abraço!

Leonardo.

__________________________________________________

[*] Ricardo é um amigo fictício, mas as circunstâncias são reais.