10 de dezembro de 2009
Que é o calvinismo? [5]
9 de dezembro de 2009
Bíblia e Predestinação [4] - A eleição incondicional e misericordiosa
Um dos ditados evangélicos mais comuns fala que Deus bate na porta, Ele não a arromba. Ou, dito de outra forma, Deus não forçaria ninguém a se converter, Ele convida as pessoas. Mas, como diz um pastor presbiteriano daqui de Brasília, quando o Senhor quer converter alguém, Ele não só arromba portas, como até cega a pessoa e a derruba do cavalo, como fez com o apóstolo Paulo (a história está em Atos 9).
E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Gênesis 2:16-17)
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (Romanos 5:12)
porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade, te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (João 3:3)
Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. (João 3:5-6)
Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados... (Efésios 2:1)
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos... (Efésios 2:4-5)
Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus... (Efésios 2:8)
Eleição incondicional é a doutrina que ensina que Deus elege ou reprova as pessoas sem levar em conta qualquer obra, mérito ou caractéristica. O único critério usado por Deus para predestinar uns para a salvação e outros para a condenação é o Seu querer e vontade.
E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela:
O mais velho será servo do mais moço.
Como está escrito:
Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú.
Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés:
Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.
Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. (Romanos 9:11-16)
Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1:12-13)
8 de dezembro de 2009
“Meu partido é um coração partido” – Do partidarismo teológico dos evangélicos brasileiros
Caros irmãos,
Estou sem tempo para escrever e dar continuidade à série sobre os textos supostamente "arminianos" da Bíblia, pois estou resolvendo as coisas da minha mudança de Pindamonhangaba-SP para Santarém-PA, e só tenho esta semana para fazer isso. Por este motivo, vou republicar um texto antigo que postei no meu blog, o Optica Reformata. Encontrando tempo, darei prosseguimento à série.
A frase de Cazuza supracitada entre aspas reflete bem a postura de muitos evangélicos brasileiros diante das diversas perspectivas teológicas existentes dentro do Protestantismo. Tenho lido ultimamente (em blogs, sites, livros, revistas etc.) diversos manifestos cada vez mais verborrágicos de muitos que defendem uma suposta neutralidade hermenêutica, argumentando que “nada de Calvino ou Armínio, prefiro ficar com a Bíblia”, aliada a uma espécie de desilusão teológica, argumentando que “teologia é aquilo que os teólogos dizem acerca de Deus”. Para os tais, tudo isso se constitui numa prova incontestável da vaidade e tagarelice dos “teólogos de plantão”, que só sabem ficar repetindo as frases e pensamentos de teólogos renomados, já que são “incapazes” de ser originais.
Embora seja oportuno fazer uma referência às centenas de novas denominações (“partidos”) que surgem no cenário brasileiro a cada dia, de nomes que vão de Igreja Noiva de Jesus da Segunda Divisão a Igreja Abastecedora de Água Abençoada, não é meu objetivo, aqui, comentar sobre essas aberrações, embora o assunto por si só já dispense comentários. Mas, talvez eu escreva algo específico sobre isso. Meu alvo no presente artigo são aqueles que arrogam para si uma hermenêutica “equilibrada”, os quais eu chamaria carinhosamente de “os equilibrados”. Estes parecem ignorar completamente os conceitos teológicos e hermenêuticos embutidos em suas mentes, acusando de “parcialidade teológica” os pobres mortais que não conseguem se desvencilhar dos seus pressupostos. Para eles, tudo isso gera somente disputas teológicas inúteis e nocivas ao Reino de Deus, ainda que elas sirvam para traçar limites entre a ortodoxia e a heresia (Calcedônia serviu para alguma coisa!).
Uma das disputas mais acirradas é entre calvinistas e arminianos, particularmente no que se refere às questões soteriológicas, o que também se constitui, via de regra, numa questão hermenêutica. Não quero entrar no mérito da discussão sobre quem está com a razão, até porque sou muito suspeito para falar sobre isso. Mas o que mais me irrita é ver gente se dizendo que não é uma coisa nem outra. Semelhantemente àquele “garoto que ia mudar o mundo”, da aludida música do Cazuza, os profetas do equilíbrio agora assistem a essa disputa teológica “em cima do muro”. “É preciso evitar os extremos – a virtude está no meio”, é o jargão favorito deles. Mas o pior de tudo é que, geralmente, eles não sabem delinear com precisão que extremos são esses, muito menos a virtude. Quando o assunto é predestinação, por exemplo, um livro bastante usado pelos “equilibrados” é Eleitos, mas livres (Editora Vida), de Norman Geisler, que arroga para si uma pretensa “perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio”. Todavia, qualquer leitor que tenha uma boa instrução teológica logo saberá que o livro nada mais é do que um arminianismo disfarçado sob o guarda-chuva da “moderação”[1]. Prefiro lidar com os mais convictos, ainda que arminianos, aos pretensos “neutros”. Não creio que haja um meio-termo entre uma coisa e outra. Recentemente fui questionado por um leitor por que escrevo “a partir de uma ótica calvinista, e não, a partir de uma ótica bíblica”. Minha resposta foi:
“O uso que faço da palavra ‘calvinista’ é de conotação histórica; não visa à pessoa de Calvino, e sim, à sua teologia, que serviu de base para as igrejas reformadas na Suíça e Holanda (Igreja Reformada), Inglaterra (Congregacionais, Batistas [alguns] e Anglicanos) e Escócia (Presbiterianos), bem como ao movimento Puritano dos séculos XVI, XVII e XVIII, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Por uma questão de coerência, você deveria sugerir também que eu mudasse o nome do blog (Optica Reformata), uma vez que ótica reformada é sinônimo de ótica calvinista”.Para muitas pessoas, o fato de alguém se declarar como um calvinista não demonstra apenas arrogância, mas também, desprezo por Cristo. Segundo eles, estamos incorrendo no mesmo erro da igreja de Corinto, ao criarmos “partidos” no corpo de Cristo (cf. 1Co 1.10ss; 3.1-7). E isso engrossa mais ainda o coro da multidão dos inconformados: “Abaixo o PPC (Partido Predestinalista de Calvino)”!
A questão é mais abrangente do que se imagina. Certa vez perguntei a um irmão qual era a igreja (denominação) que ele fazia parte, e ele me respondeu que era da “igreja de Jesus”. Eu perguntei a ele se ele pertencia a uma “igreja sem nome”, o que ele interpretou como uma ironia de minha parte (e foi, de fato). “Mostre-me na Bíblia uma igreja presbiteriana, batista, congregacional, episcopal ou qualquer outra denominação que eu calo a minha boca”, disse ele contrariado. Imediatamente, lembrei-me dos “espirituais” de Corinto, que diziam que eram “de Cristo”, constituindo-se, talvez, no pior dos partidos daquela igreja (1Co 1.10ss). O que noto nessas ideias é um discurso de protesto contra os modelos tradicionais de igreja do período da Reforma. Para muitos, a igreja moderna entendeu errado a mensagem de Jesus. É preciso rever absolutamente tudo. Muito pouco (para não dizer nada) restou da igreja primitiva. É exatamente isso que Brian McLaren, o guru do movimento de igreja emergente propõe no livro A mensagem secreta de Jesus (Ed. Thomas Nelson Brasil). Para ele, a igreja até hoje ainda não entendeu o que Jesus queria transmitir. O evangelho foi sendo modificado ao longo da História, de tal forma que pouco restou da genuína doutrina apostólica. Urge, pois, que compreendamos qual é a “mensagem secreta” do Mestre. Apesar de McLaren ter razão em alguns aspectos, não creio que a igreja perdeu por completo a essência do evangelho. Aliás, é bom que se diga que a proposta dele se aproxima mais de uma “neo-ortodoxia pós-moderna” do que de um clamor ao resgate das origens da igreja primitiva[2]. Creio que, pelo fato de Deus preservar os seus eleitos de tropeçar (cf. Jd 24, onde o contexto sugere um livramento de apostasia total), Ele mesmo é quem supre a sua Igreja com os meios ordinários para tal. Ou será que Deus aderiu a uma espécie de “deísmo teológico”, abandonando o Seu povo por completo da Sua Palavra, deixando-o à deriva?
Fico me perguntando se uma “extinção denominacional” seria a solução para a crise de identidade da igreja evangélica brasileira; se isso traria mais “equilíbrio” ao povo de Deus. Será que aqueles que promovem a esse tipo de unidade estão certos? Não está na hora de derrubar os “partidos” (calvinista, batista, presbiteriano, episcopal, arminiano, pentecostal etc) e viver a plenitude orgânica do Corpo de Cristo? Sinceramente, além de não crer que isso seja possível, também não creio que seja viável. Não seria possível porque ninguém estaria disposto a abandonar seus pressupostos, e não seria viável porque isso só aumentaria ainda mais a cratera – não haveria unidade teológica, obviamente. Prefiro continuar seguindo o sistema reformado de teologia, não por julgá-lo perfeito, e sim por ver que é o que mais se aproxima do padrão legado pelos apóstolos (o bom e velho método gramático-histórico). Sei que muitos me considerarão um arrogante exclusivista pelo que acabo de dizer, mas essa é minha opinião. Sei também que a grande massa evangélica no Brasil não é reformada, mas nem por isso eu chegaria ao ponto de dizer o que Cazuza disse, que os “meus inimigos estão no poder”. Apesar das diferenças teológicas que tenho com algumas pessoas, reconheço-as como irmãs e irmãos em Cristo. Mas, continuo dizendo que a teologia e uma boa hermenêutica são necessárias. Talvez tão necessárias ao ponto de eu parafrasear (sem medo de ser feliz!) nosso poeta: “Teologia: eu quero uma pra viver”[3]!
Soli Deo Gloria!
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[1] Sobre esse livro veja a excelente resenha de Franklin Ferreira em http://www.monergismo.com/textos/resenhas/eleitos_livres_franklin.htm
[2] Sobre isso, ver artigo de Mauro Meister em http://tempora-mores.blogspot.com/2007/03/em-meio-ao-caos-areo-igreja-emergente.html.
[3]Por uma questão de precaução, gostaria de avisar aos leitores que NÃO ESTOU AFIRMANDO QUE É A TEOLOGIA REFORMADA QUEM IRÁ ME CONDUZIR PARA O CÉU! Como bem disse o erudito reformado Herman Bavinck, em seu leito de morte, "minha erudição para nada serve agora. Somente a fé me resta".
Leonardo Galdino é blogueiro do Optica Reformata e escreve todas as terças para o 5 Calvinistas.
7 de dezembro de 2009
O que é o calvinismo
Tendo alguns irmãos empreendido e estando ainda envolvidos na tarefa de fazer uma exposição clara do calvinismo e de suas doutrinas distintivas, resolvi também contribuir com um texto para este objetivo. Nunca é demais esclarecer esta posição teológica, vítima das piores caricaturizações e deformações dos anti-calvinistas, que agem de má fé ou sofrem de má informação.
O calvinismo é uma maneira de ver o mundo a partir do ponto de vista bíblico. Hoje tem grande rejeição no meio evangélico, mas foi a posição preponderante entre os reformadores, e ao longo da história da igreja seus maiores vultos foram calvinistas, salvo raras exceções. É difícil falar do calvinismo como um todo, pois ele é melhor compreendido quando analisado em seus diversos aspectos. Vou me referir rapidamente a dois: a doutrina da providência e a doutrina da salvação, mas fique à vontade para perguntar sobre outros aspectos. Antes porém, permita-me adiantar que ser arminiano ou ser calvinista não implica salvação, mas tem grande impacto na vida cristã e na forma como o crente entende a realidade.
A providência
Nós calvinistas cremos na soberania de Deus na criação e na história. Os arminianos dirão que também crêem na soberania divina, mas convém notar que há uma diferença no conceito de soberania nos dois sistemas teológicos. Para o calvinista, a soberania de Deus é limitada apenas pela Sua natureza, ou seja, nada fora do ser essencial de Deus o impede de fazer o que Ele quer. Na verdade, Ele faz tudo o que quer, e quer tudo o que faz. Para o arminiano, a soberania de Deus não é absoluta (ou voluntarista), mas é limitada (ou auto-limitada, como preferem dizer) pelo livre arbítrio do homem. Enquanto que para o calvinista Deus faz tudo o que quer, para o arminiano Deus pode fazer tudo o que quer, mas não o faz.
Nós cremos que Deus quando criou os céus, a terra e seus habitantes, não o fez por nenhuma necessidade. Ele poderia criar e ou não criar, e nada lhe seria acrescentado ou lhe faria falta. Mas Ele criou. E criou conforme à Sua vontade: os minerais inertes, os vegetais imóveis, os animais amorais e os homens morais. Além de criar porque quis e como quis, Ele preserva todas as coisas segundo o seu poder. É Ele que faz a grama crescer, o sol nascer e se pôr, a chuva cair e tudo o mais que observamos. Deus não deu corda no mundo e o deixou funcionando sob leis fixas, enquanto ia cuidar de outras coisas. Deus, ainda que essencialmente separado da criação, envolve-se ativamente nela, sustentando-a e preservando-a. Até este ponto os arminianos caminham mais ou menos juntos com o calvinista, mas o passo seguinte relutam em dar (na verdade, não dão).
O calvinismo sustenta que Deus é o Senhor da história, ou seja, que nenhum evento acontece à parte da vontade de Deus. Deus não apenas prevê, mas decreta tudo o que acontece, não apenas de forma geral, mas de forma específica e detalhada, inclusive os chamados eventos fortuitos. Nem um átomo sequer tem a órbita de seus elétrons fora da trajetória definida por Deus. Para o calvinista, ou Deus é Deus sobre tudo, ou Ele não é Deus coisa nenhuma. Parece forte demais? Pois é o que nós concluímos quando deixamos a Bíblia falar: nela encontramos Deus controlando detalhes como o crescimento da grama, a trajetória de uma flecha lançada ao acaso, elevando ou destronando reis, alimentando pardais, manobrando anjos ao seu bel prazer, controlando os passos dos homens e inclinando o coração dos reis. O fato dos homens em geral repudiarem a idéia calvinista da providência deveria levar crentes a se perguntar o porquê. A resposta é "não queremos que este reine sobre nós".
Mas se a idéia do controle providencial de todas as coisas, bíblica de Gênesis a Apocalipse, causa aversão até mesmo em crentes que tem a Bíblia como única regra de fé, a visão calvinista da salvação causa oposição tal que alguns a chamam de diabólica. Vejamos o que ela ensina.
A doutrina da salvação
O calvinismo é chamado de monergista, ou seja, crê que a salvação é obra exclusiva de Deus e que a participação do homem nela é apenas exercício da fé e arrependimento dados pelo próprio Deus. No dizer de Agostinho, "o que pedes de nós, que já não nos tenha dado?". O arminianismo, porém, é sinergista, ao afirmar que o homem coopera com a graça de Deus para sua salvação. Em última análise, salva-se não quem Deus quer, mas aquele que faz bom uso da graça dada a todos. Segue-se que a glória é tanto de Deus que oferece, como do homem que faz bom uso.
Convém falar também que "as antigas doutrinas da graça" não são palatáveis ao homem de hoje, tão afeito àquilo que lhe afaga o ego. Sim, a doutrina calvinista da salvação não deixa nenhuma margem para que o homem venha a se gloriar, e isto é algo que não administramos muito bem, em nossa sociedade pautada pelo mérito. Minha experiência, do meu arminianismo natural até minha rendição à convicção de que não posso merecer, me apropriar ou manter minha salvação foi uma luta interior tremenda. Hoje eu amo essas "antigas doutrinas", mas já vivi tempos em que eu dizia ser capaz de crer nelas, mas amá-las estava além de minha capacidade. Por isto, não tente assimilar de uma vez, nem ponha de lado por ser difícil, apenas comprometa-se de investigá-las à luz da Bíblia, com honestidade diante do Espírito Santo.
A doutrina calvinista da salvação pode ser apresentada em cinco pontos.
O primeiro deles diz que todos os homens são completa e absolutamente incapazes de operar sua salvação ou mesmo se preparar para ela. Depois da queda, o homem não está ferido ou doente, mas morto, de modo que não pode e não quer buscar a Deus e receber dele a salvação. Da mesma forma que uma canção bonita não faz um defunto levantar e dançar, toda persuasão humana é vã para fazer o homem desejar a salvação. E esta condição atinge a todos os homens, sem nenhuma exceção.
O segundo ponto diz que de todos os perdidos, Deus escolheu um número definido e fixo de pessoas, para neles exercer sua misericórdia, livrando-os da perdição eterna. Esta escolha não se deu por nada que Deus tenha visto ou antevisto neles, tais como resposta positiva, fé operante, boas obras ou perseverança. Os eleitos não atraíram a atenção de Deus por sua bondade ou maldade, ninguém era amável ou elegível. As causas da eleição não estão no homem, mas escondidas na pessoa de Deus.
O terceiro ponto diz que Deus enviou Seu filho com o propósito de resgatar para Si aqueles que Ele escolheu na eternidade. Embora a morte de Jesus fosse de valor infinito, portanto suficiente para salvar a todos, ela foi designada para salvar os que foram dados pelo Pai a Jesus. Numa frase, a morte de Jesus é suficiente para todos, mas eficiente para os eleitos, e o que confere essa suficiência não é a vontade do homem, mas a escolha divina.
O quarto ponto trata da operação do Espírito Santo naqueles que foram eleitos pelo Pai e comprados pelo Filho. Esta operação é dita eficaz porque sempre alcança o resultado planejado, ou seja, muda a vontade do homem, que de indisposto a todo bem, alegre e voluntariamente vai a Cristo. É uma operação sobrenatural, instantânea e irreversível, chamada de novo nascimento e que é manifestada externamente pela conversão.
Finalmente, o quinto ponto afirma que aqueles pecadores que foram eleitos, remidos e regenerados são de uma vez por todas justificados e para sempre são seguros pela mão forte do Pai. Podem cair eventualmente, se desviar temporariamente, mas jamais se apostatarão final e completamente, pois a sua segurança não está neles, mas em Deus que continua fiel mesmo quando somos infiéis. Por isso podem viver felizes e se alegrar na salvação de Deus, pois já nenhuma condenação há para eles.
Este é um resumo, um tanto longo, do que crêem esses crentes esquisitos que pregam a predestinação. Pode-se perguntar se há uma resposta arminiana para esses cinco pontos? A bem da verdade, esses cinco pontos são uma resposta aos "cinco artigos da remonstrância", o libelo arminiano. O calvinismo tem um só ponto: Deus é soberano! Sua soberania na salvação pode ser expressa na frase: Deus salva pecadores. Mas o arminianismo rebate os cinco pontos afirmando o seguinte: Primeiro, que embora o homem tenha sido "afetado" pelo pecado, restou nele luz suficiente para compreender o evangelho, força suficiente para estender sua mão, pegar e beber o remédio que precisa (a graça). Segundo, que a eleição, ainda que eterna, tem como causa a presciência divina, que sabia de antemão quem iria crer. Terceiro, que Jesus morreu por todos, mas que tal morte só é tornada eficaz com o concurso da vontade do homem. Quarto, que a graça de Deus é resistível e que o Espírito Santo pode ser vencido em seu esforço de convencer o pecador. E quinto, o homem pode cair da graça e mesmo tendo sido regenerado e justificado pode ir para o inferno para sempre.
Em resposta a estas proposições arminianas, pode ser dito que não se sustentam biblicamente, trazem conseqüências lógicas absurdas e, mal dos males, reduzem a glória de Deus a pó. Pois embora Deus queira salvar a todos, Jesus tenha morrido para salvar a todos e o Espírito Santo esteja dando o melhor de Si para salvar a todos... poucos se salvam. Logo, o Pai está contrariado, o Filho frustrado e o Espírito Santo derrotado. Isto não é o que a Bíblia revela em cada uma de suas páginas! A Bíblia ensina que há um Deus soberano sobre a criação, a história e o destino eterno dos homens. Crer nisto, é ser calvinista. Ser calvinista, é confessar o que a Bíblia ensina.
Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.
3 de dezembro de 2009
Que é o calvinismo? [4]
