7 de janeiro de 2010

O Calvinista

Também estou de folga por uns dias. Este post foi originalmente publicado em 03/12/2008, no BJC. Ao texto:

* * *

O calvinista é um ser folclórico. Como um currupira (ou curupira) da teologia, as pessoas inventam estórias, lendas, contos, mitos e fábulas sobre este indivíduo. Os menos desavisados afirmam que eles ensinam a “premonição”. Queriam dizer a predestinação, mas sua cultura bíblica é por demais limitada para citar este nome complicado.

Dizia eu que o predestinacionista é um indivíduo transmutado em mito. Escrevo estas linhas e na cabeça passam situações diversas que exemplificam o caso. Muitos processos perpassam este caminho do desenho da caricatura calvinista. Nem todos são percebidos, e suas variações são muitas, por isso me permito escrever o que anotei quando pensei sobre o assunto, sem a pretensão de esgotá-lo.

Há a desconsideração da identidade como pessoa (e como cristão). O reformado não é mais um ser humano ou um batista ou assembleiano (sim, existem deles na Assembléia de Deus - sou testemunha), ele é apenas O CALVINISTA. Que peso isto terá, depende de como as pessoas enxergarão as doutrinas da graça.

Há também a utilização do rótulo odioso como desqualificador do ser e da mensagem. Aliado ao ponto acima descrito, muitos observam a fala de um calvinista sobre qualquer assunto como algo perigoso, pois o emissor é reformado. O conteúdo é rejeitado a priori, não importando se é verdade ou não, pois vem de uma fonte rotulada como negativa.

A caricaturização do pensamento reformado é elemento comum. A criatividade humana ganha muito peso neste ponto. Calvino é retratado como um assassino malvado. Li apostilas que falam mal dos calvinistas por detestarem as “inocentes criancinhas” ensinando a sua depravação e maldade inerente.

O calvinismo é pintado como a figura de um Deus odioso e tirano forçando pessoas contra a sua vontade a entrarem no céu, enquanto outras que desejavam estar na presença do Pai são rejeitadas porque não foram escolhidas. Convenhamos, eles sabem usar cores fortes e dar uma impressão bem vívida nestas caricaturas. Os calvinistas parecem seres demoníacos e perversos diante de tais pessoas e de quem as ouve.

Nesta caricaturização há os que deliberadamente falsificam o conteúdo do calvinismo para se fazerem de bonzinhos. Estes não estão preocupados com a verdade, mas em ganharem o debate, por isto farão o que for necessário. Existem os que simplesmente desconhecem o assunto, e assim repetem o que ouviram de alguém, como papagaios treinados.

Item a ser acrescentado é a restrição do calvinismo à doutrina da predestinação. A predestinação faz parte do calvinismo, mas ela é um pequeno elemento do sistema maior, ou cosmovisão, como chamam alguns. Limitar o calvinismo à predestinação é colocar uma mordaça sobre ele, para que sua mensagem seja limitada ao lugar comum.

Ninguém precisa de estratégias malvadas para combater uma idéia (os comunistas e arminianos deviam se esforçar pra me ajudar neste ponto). Se se está defendendo a verdade, por que não apresentá-la com vigor, a fim de destruir a mentira? Se os calvinistas estão errados, por que não simplesmente conversar sobre o assunto apresentando a perspectiva oposta de maneira que destrua os seus argumentos?

Enquanto isso, os teólogos-currupiras, os unicórnios da fé permanecem por aí, nas florestas das igrejas, capturando as mentes das pessoas e lavando os seus cérebros.

Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve no 5 calvinistas às quintas-feiras.

6 de janeiro de 2010

1 Timóteo 4:10 derruba a expiação limitada?

Amados,

Hoje o Pr. Ciro Sanches Zibordi publicou mais um post defendendo uma expiação universal e usando o texto de 1 Timóteo 4:10 em sua argumentação:
Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis. (1 Timóteo 4:10)
De fato, é difícil rebater 1 Timóteo 4:10 e isso exige conhecimentos tanto do idioma grego como da cultura e do vocabulário teológicos neotestamentários. Por isso, posto aqui três links do Monergismo com comentários reformados que mostram como devemos interpretar o versículo. Você pode escolher entre William Hendriksen, John Gill e Gordon Haddon Clark.

Uma ótima leitura e louvo ao Senhor pela vida do Felipe Sabino e pelos comentários colocados no Monergismo.

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no  5 Calvinistas. 

Bíblia e Predestinação [7] - A missão de Jesus é a expiação limitada

Leia o post anterior da série clicando aqui.
Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Marcos 10:45)
O versículo acima é considerado chave na interpretação do Evangelho de Marcos. Ali, Jesus define qual a Sua missão: dar a vida em resgate por muitas pessoas. Para os não-reformados, "todos" significa, tranqüilamente, muitas pessoas. Todavia, o bom intérprete da Bíblia precisa se perguntar por que Jesus disse "muitos" e não "todos". Para os reformados, portanto, é revelador o fato de que Jesus não diz "em resgate por todos", mas prefere um termo mais restrito.

Qual das duas interpretações devemos seguir? Uma olhada em outros textos pode ser esclarecedora.

A profecia de Isaías
Isaías é apontado por muitos como o profeta messiânico, aquele que mais falou a respeito de Jesus. Talvez a profecia mais clara sobre o ministério do Cristo esteja em Isaías 53, quando o profeta descreve o Messias como um Servo Sofredor, que entrega a Sua alma pelo pecado:
Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu. (Isaías 53:10-12)
E aqui, mais uma vez o "muitos" aparece. Repare que parece haver uma insistência do profeta em mostrar que o trabalho do Servo Sofredor alcança a muitos, há uma relutância em dizer "todos". E, de fato, aqui os termos não podem ser apontados como sinônimos. Por quê?

1) Quando Jesus oferece a Sua alma, o que Ele enxerga é a Sua posteridade, ou seja, os Seus descendentes (Is 53:10). Aqui, fala-se, efetivamente, de pessoas salvas, os condenados não podem ser considerados como a posteridade de Cristo. Assim, o que Cristo tem em mente são apenas as pessoas que, realmente, são beneficiadas por Sua oferta;

2) A morte de Cristo é apontada como a prosperidade da vontade do SENHOR (Is 53:10). Em outras palavras, ela é o cumprimento perfeito do desejo de Deus, de outra forma, não faria sentido vê-la como prosperidade. Mais do que isso, o Servo Sofredor vê o fruto penoso de seu trabalho e fica satisfeito (Is 53:11);

3) Qual o trabalho do Servo que O satisfez e cumpre a vontade de Deus? Justificar a muitos. Veja bem, até os arminianos concordam que Cristo não justifica a todos, porque, se assim fosse, todos seriam salvos. Logo, fica claro que a vontade de Deus nunca foi a de que todos fossem salvos, mas sim muitos;

4) E como os "muitos" são justificados? A resposta do versículo 11 é "porque as iniqüidades deles levará sobre si". Segundo Isaías, o Messias leva as iniqüidades apenas dos muitos que são justificados.;

5) Os "muitos" são a parte que Deus dá ao Servo Sofredor (Is 53:12) e o Servo leva sobre Si o pecado de "muitos" (Is 53:12). É claríssimo no versículo 12 que, em toda a visão, que começa em Isaías 52:13 e termina em 53:12, o "muitos" não inclui toda a humanidade, e sim, apenas os que são justificados, tornados justos, salvos enfim.

Assim, uma leitura atenta da visão de Isaías mostra que todos os benefícios trazidos pelo sofrimento do Messias se aplicam apenas aos salvos, e não a todos os homens. Todas as vezes que Isaías diz "nós" ou "nossas", é a salvos que ele se refere, e não a todos. Desta maneira, podemos dizer que Jesus:

- Toma sobre si as enfermidades e dores dos salvos apenas (Is 53:4);
- É traspassado pelas transgressões e iniqüidades de salvos apenas (Is 53:5);
- Seu castigo traz paz apenas aos salvos, e não a todos (Is 53:5);
- Suas pisaduras saram os salvos somente (Is 53:5)
- Deus fez cair sobre Ele a iniqüidade dos salvos apenas (Is 53:6). O "todos" aí refere-se a "salvos", não a "todos os homens".
- Foi ferido por causa da transgressão do "meu povo" (Is 53:8), não de "todos os povos".

Talvez um não-calvinista se agarre ao "nós todos" de Isaías 53:6 para tentar provar que o texto se refere a todos os homens. Mas, não é possível. A profecia mostra que nós fomos sarados por suas pisaduras e que o castigo de Jesus nos dá a paz. Pergunto: para quem não crê em Cristo, as pisaduras de Jesus o salvam? O condenado ao inferno tem paz? Isaías seria confuso ou esquizofrênico se, no mesmo texto, uma hora ele falasse de salvos apenas e, em outra hora, de todos os homens, e depois voltasse a tratar exclusivamente de salvos.

Assim, quando olhamos para a profecia, fica claro que o "muitos" de Marcos 10:45 não pode, de modo algum, referir-se a "todos", senão Jesus estaria contradizendo o que o Espírito Santo disse por intermédio de Isaías.

A oração sacerdotal
Em Isaías 53:12, também é dito que Jesus intercedeu pelos transgressores. Inicialmente, pode-se até ter a ideia de que, ao menos orar, Jesus orou por todos os pecadores. Mas, quando se vê o cumprimento da profecia em João 17, vemos que nem intercessão Jesus faz pelos não-salvos:
É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus... (João 17:7)
Os não-reformados tentam provar que Jesus morreu por todos usando textos como João 3:16, onde se diz que "Deus amou o mundo". Mas aqui, lemos que Jesus não roga pelo "mundo", mas apenas "por aqueles que me deste". Fica claro, portanto, que não se pode ler a palavra "mundo" sempre da mesma maneira. Em João 3:16, podemos ler "mundo" como "criação" ou mesmo "humanidade", daí Jesus vem para salvar parte da humanidade. Porque Deus ama o mundo, não o destruirá por inteiro, parte dele será salvo. Mas, em João 17:9, "mundo" são todas aquelas pessoas que o Pai não deu a Jesus, ou seja, os não-salvos. Estes não recebem sequer a oração do Messias.

Isso fica claro ao lermos outros textos da oração sacerdotal:
Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. Agora, eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. (João 17:6-8)

Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós. Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. (João 17:11-12)

E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade. Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra... (João 17:19-20)

Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. (João 17:22-23)

Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo. (João 17:24)

Pai justo, o mundo não te conheceu; eu, porém, te conheci, e também estes compreenderam que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja. (João 17:25-26)
Pode parecer chocante para muitos, mas a oração é autoexplicativa. Jesus faz diferença entre o mundo e os que o Pai deu a Ele (salvos) em termos de oração, manifestação do nome de Cristo, transmissão da Palavra, guarda, proteção, santificação, companhia de Jesus e até mesmo amor.

Destaco ainda que, de modo explícito, Jesus diz no versículo 19 que se santifica a favor daqueles que recebeu do Pai. Jesus não se santifica pelo mundo.

Desta maneira, João 17 permanece como um baluarte suficiente e inquestionável da expiação limitada. O fato de ser uma oração de Jesus ao Pai e a abundância de distinções feitas por Ele na intercessão deveriam ser suficientes para que todo versículo que sugira uma expiação universal fosse reinterpretado para não conflitar com o próprio Cristo. Aliado a Isaías 53, tem-se duas amplas e significativas porções bíblicas (clássicas até) cujo ensino não pode ser reinterpretado em favor de 2 ou 3 versículos que, supostamente, ensinam que Jesus morreu por todos. O mais provável é que os não-reformados compreendam errado esses versículos do que os reformados errarem na interpretação de duas passagens tão claras, importantes e grandes (são textos, não versículos).

1 João 2:1-2
E isso é particularmente verdadeiro na interpretação de 1 João 2:1-2, um dos textos-prova mais fortes a favor de uma expiação universal:
Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. (1 João 2:1-2)
Aparentemente, João ensina que o sacrifício de Jesus foi feito em favor de todos os homens. Não podemos, porém, esquecer aqui que estamos falando do mesmo apóstolo que escreveu a oração de Jesus em João 17. João contradiz a João?

É certo que não. A minha interpretação é a de que João aqui diz o seguinte: "Jesus é a propiciação pelo pecado de todos os que estão lendo essa carta, e não só dos nossos, mas o de todos os salvos espalhados pelo mundo inteiro".

É preciso considerar que a palavra "mundo" tem várias conotações nos escritos joaninos. Se em 1 João 2, se diz que Jesus é a propiciação pelos pecados do "mundo inteiro", no mesmo capítulo o apóstolo diz:
Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente. (1 João 2:15-17)
Popularmente, se entende que "mundo" aqui é apenas um sistema político-econômico-ideológico que se opõe a Deus. Mas, no versículo 17, João estabelece um contraste que só faz sentido se incluir também pessoas:
O mundo passa vs. aquele que faz a vontade de Deus permanece eternamente.
O mundo aqui inclui os não-salvos, no mesmo capítulo. Como é possível que Jesus seja a propiciação pelos pecados do mundo inteiro...e o mundo significar também uma humanidade condenada? A resposta é: o mundo em 1 Jo 2:1-2 é diferente do mundo de 1 Jo 2:15-17 e não inclui os condenados. Isso fica mais claro se você considerar que na perícope seguinte (1 Jo 2:18-26), o apóstolo trata dos anticristos.

Um outro contraste entre a igreja e o mundo quando fala de falsos profetas:
Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é o que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por esta razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro. (1 João 4:4-6)

João volta a estabelecer um contraste entre o mundo e os filhos de Deus no capítulo 5:
Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno. (1 João 5:18-19)
E aqui fica claro: há os que nasceram de Deus (salvos) e o mundo (condenados). Tanto aqui como no capítulo 4, o mundo é identificado com Satanás e os que pertencem a Deus estão se opondo ao mundo.

Temos, portanto, pelo menos quatro passagens em 1 João onde "mundo" refere-se a pessoas:

1 Jo 2:1-2 = contexto positivo, Jesus é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro.
1 Jo 2:15-17 = contexto negativo, o mundo passa, os que fazem a vontade de Deus permanecem eternamente. Distinção e contraste entre igreja e mundo. Mundo é humanidade condenada.
1 Jo 4:4-6 = contexto negativo, o mundo ouve os falsos profetas e é influenciado pelo diabo, a igreja vence os falsos profetas e ouve os apóstolos. Distinção e contraste entre igreja e mundo. Mundo é humanidade condenada.
1 Jo 5:18-19 = contexto negativo, o mundo é do Maligno, os que são de Deus não são tocados pelo diabo. Distinção e contraste entre igreja e mundo. Mundo é humanidade condenada.

Considerando os contrastes repetidos que João faz entre os salvos e os condenados, é impossível que "mundo" em 1 João 2:1-2 se refira a todas as pessoas. Logo, a melhor saída é a minha interpretação, de que João se referia a salvos em todo o mundo (planeta Terra), por se harmonizar tanto com o restante da carta como com João 17 e Isaías 53.

Leia o próximo post da série clicando aqui.

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no  5 Calvinistas.

5 de janeiro de 2010

"Lutas por fora, temores por dentro" - Uma relação de dor, cansaço e graça na vida do apóstolo Paulo

Mais uma postagem antiga, do Optica Reformata (clique aqui). Em breve, estarei de volta à ativa (se Deus quiser, o mais rápido possível!).


A imagem que muitas vezes nutrimos de um Paulo robusto, inabalável e totalmente destituído de conflitos emocionais cai por terra diante da sua Segunda Carta aos Coríntios. Em nenhuma das suas treze cartas as fraquezas do grande apóstolo são tão evidenciadas (e confessadas) quanto nessa. E ele sintetiza muito bem isso ao dizer que suas atribulações se traduziam em “lutas por fora” e “temores por dentro” (2Co 7.5).

No início da carta o apóstolo nos dá pistas de alguns dos graves perigos aos quais ele havia sido submetido – as “lutas por fora”. Somos informados que, na sua viagem de volta para a Ásia, Paulo e seus companheiros foram tomados por uma tribulação sobre-humana e desesperadora.
“Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos da própria vida” (2Co 1.8 – itálico meu).
A ideia no original grego para “acima das nossas forças” é a de alguém que está sendo pressionado acima da medida; além de sua capacidade. Comentando essa passagem, Calvino observa que “esta metáfora é tomada de uma pessoa que sucumbe sob a pressão de um fardo pesado ou de navios que afundam em razão de sua sobrecarga”[1] – uma metáfora bastante apropriada, diga-se de passagem, tendo em vista que Corinto era uma cidade portuária. Não sabemos ao certo a qual(is) evento(s) específico(s) Paulo está se referindo, mas é bastante provável que ele esteja aludindo à sua estadia em Éfeso, que foi bastante conturbada (At 19.23ss), apesar de Lucas não nos deixar essa impressão. No entanto, em passagens paralelas, Paulo nos informa, por exemplo, que lutou com “feras” em Éfeso[2] (1Co 15.32) e que “muitos adversários” se insurgiram para lhe fechar a “porta grande e oportuna” que Deus lhe havia aberto para a evangelização (1Co 16.9). Há fortes indícios de que esses “adversários” aos quais Paulo se refere tenham sido seus patrícios judeus. Relembrando aos presbíteros de Éfeso como havia sido a sua conduta e estadia naquela cidade, Paulo lhes lembra das provações que, “pelas ciladas dos judeus”, lhes sobrevieram (At 20.19). É provável que os judeus tenham sido os algozes de algumas das possíveis prisões que Paulo enfrentou durante seu trabalho em Éfeso, uma vez que ele inclui na sua lista de aflições as “muitas prisões” que havia enfrentado no seu ministério até àquele momento (2Co 11.23) [3]. Mas não foram somente essas as “lutas por fora” que o apóstolo aos gentios enfrentou. Respondendo àqueles que questionavam sua autoridade apostólica, Paulo apresenta-lhes suas credenciais, incluindo entre elas seus sofrimentos por amor ao evangelho:
“[...] em trabalhos muito mais; muito mais e prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigo entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.23-27).
A tudo isso Paulo denomina de “coisas exteriores” (2Co 11.28). Paulo é tão enfático nessa questão que ele mesmo encarou todas aquelas tribulações como uma verdadeira “sentença de morte”, e brinda seu livramento delas como se fosse a sua própria ressurreição dentre os mortos, operada pelo Deus ressuscitador (2Co 1.9, 10). Calvino observa que, quando Paulo afirma que havia se desesperado da própria vida, ele “não está levando em conta o auxílio divino, e sim está nos dizendo que avaliava suas próprias condições, e não há dúvida de que toda força humana vacila ante o temor da morte”[4]. Paulo reconheceu a sua total incapacidade para superar toda aquela situação, e nada lhe restou senão a certeza de que iria sucumbir se Deus não lhe estendesse a mão. Ele chega à conclusão de que o propósito de tudo isso era para que ele não confiasse em si mesmo, e sim, em Deus (2Co 2.9), porque é na nossa fraqueza que o poder de Cristo é aperfeiçoado (cf. 2Co 12.9).

Essas “lutas por fora” eram acompanhadas de violentos “temores [phobias] por dentro”, que consumiam o sossego do apóstolo. Tudo indica que na sua viagem de volta para a província da Ásia, Paulo foi tomado de uma profunda depressão, e era exatamente a igreja corintiana que estava no cerne dela. A relação do apóstolo com essa igreja sempre foi muito difícil, porque ela era uma igreja muito problemática. Paulo havia enviado uma carta, “no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração..., com muitas lágrimas” (2Co 2.4), por meio de Tito, seu colaborador. Essa carta está situada entre 1 e 2 Coríntios, e não foi preservada (não a temos). O objetivo de Paulo com essa carta “severa”, como muitos a chamam, era simplesmente para que os coríntios “conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida” (2 Co 2.4). Paulo esperava ansiosamente o relatório de Tito para saber que efeito a carta havia produzido sobre os coríntios, mas parece que Tito havia perdido o último barco rumo à Macedônia, sendo forçado a viajar por terra, desencontrando-se do apóstolo (cf. 2Co 2.12-13 e At 20.1-2). Isso serviu para aumentar ainda mais a apreensão de Paulo. “As coisas em Corinto iam tão mal, que Paulo estava ansioso com seus resultados, mais do que costumeiramente”[5]. O apóstolo mesmo nos diz que sua ansiedade era tanta que ele sequer conseguiu aproveitar a “porta” que o Senhor lhe tinha aberto para pregar o evangelho em Trôade (“não tive, contudo, tranqüilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito”- 2Co 2.12, 13). Paulo nos fala que essa ansiedade foi causada pela sua extrema “preocupação com todas as igrejas”, que diariamente pesava sobre ele, “além das coisas exteriores” (2Co 11.28). Contudo, nada estava perdido. Da mesma forma como o “Deus que ressuscita os mortos” livrou o apóstolo das “sentenças de morte” (2Co 1.9 – as “lutas por fora”), esse mesmo Deus estava prestes a aliviar os “temores por dentro” do apóstolo que Ele mesmo comissionara, enviando-lhes Tito. A chegada de Tito foi tão confortadora para Paulo que ele chega a dizer que isso foi mais uma intervenção do “Deus que conforta os abatidos” (2Co 7.6). As notícias trazidas por Tito de Corinto reanimaram o apóstolo e fez com que ele recobrasse o seu ânimo ministerial. A mensagem contida na “carta severa” tinha surtido efeito na igreja corintiana. Paulo alegrou-se porque a carta havia entristecido os coríntios, mas não com uma “tristeza segundo o mundo”, que “produz morte”, e sim, com uma “tristeza segundo Deus”, que “produz arrependimento para a salvação” (2Co 7.10). A igreja de Corinto (ou pelo menos boa parte dela) havia, finalmente, aceitado a Paulo como um verdadeiro apóstolo de Cristo, ao contrário de muitos outros “falsos apóstolos” que se insurgiram contra ele e que estavam persuadindo a igreja corintiana a seguir suas práticas (2Co 11). Tito relatou a Paulo do “pranto”, da “saudade” e do “zelo” que os coríntios ainda nutriam por Paulo (2Co 7.7), e isso foi o suficiente para que grande parte dos “temores” do apóstolo se dissipasse.

O exemplo de Paulo é encorajador para o povo de Deus de todas as épocas. O mesmo Deus que assistiu o apóstolo nas suas fraquezas ainda é o mesmo, “ontem, hoje e eternamente” (cf. Hb 13.8). Infelizmente, às vezes encaramos os relatos bíblicos como abismos intransponíveis, com mais de dois mil anos de diâmetro, como se Deus não mais socorresse aqueles que Lhe pertencem. “Temores por fora e lutas por dentro” é a causa do desânimo de muitos pastores hoje em dia, desembocando por vezes até em desistência do ministério. Isso é agravado ainda mais quando os “oportunistas da fé”, muitos dos quais se autodenominam “apóstolos” e “profetas” hoje em dia, angariam sucesso, glória pessoal e prosperidade à custa de suas ovelhas, fazendo com que os números dos templos cheios (mesmo que para isso os bolsos das ovelhas se esvaziem) apontem o fracasso daqueles que teimam em permanecer fieis à Palavra e resistentes à sedução das estratégias de marketing como meio de alavancar seus ministérios. Para Paulo, tais pessoas não passam de “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos”, que se transformam em ministros de Cristo, mas que não passam de verdadeiros emissários de Satanás (2Co 11.13-15). Urge que pastores íntegros e dedicados à Palavra levantem suas vozes do púlpito contra essas coisas, protegendo suas ovelhas dos lobos, ainda que para isso eles tenham que se utilizar de “palavras severas”. Certamente, isso trará consigo “lutas por fora e temores por dentro”. Entretanto, é preciso crer que a graça de Cristo triunfará sobre a dor que os “espinhos” da vida (e do ministério) causam aos servos bons e fieis (2Co 12.7-10).


Soli Deo Gloria!

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[1] Calvino, João. 2 Coríntios. Editora Fiel, 2008. Pág. 33.
[2] Não devemos entender “feras” no seu sentido literal, uma vez que a expressão que a antecede, “como homem”, significa “falar figuradamente”.
[3] Para mais detalhes, ver Bruce, F. F. Paulo, o apóstolo da graça – sua vida, cartas e teologia. Shedd Publicações, 2003. Pág. 289.
[4] Op. cit. Pág. 34.
[5] Calvino, João. Op. cit. Pág. 72.

4 de janeiro de 2010

A expiação universal torna Deus injusto

"Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira." Rm 5:6-9

O título não é apelativo, pois creio firmemente que ele expressa uma verdade demonstrável, como se verá a seguir. Para isso precisamos definir os termos utilizados no título. Como este artigo é mais uma resposta à série de três artigos do pastor Ciro Sanches Zibordi, das Assembléias de Deus,  peço vênia para recorrer preferencialmente a autores assembleianos e a obras publicadas pela CPAD.

Compreendendo o termo expiação

Claudionor de Andrade define expiação como sendo o cancelamento pleno do pecado com base na justiça de Cristo" (Dicionário Teológico). Outro autor respeitado no meio assembleiano e admirado por mim diz que  "expiar o pecado é ocultar o pecado da vista de Deus de modo que o pecador perca seu poder de provocar a ira divina" (Myer Pearman, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia). A outrora principal Bíblia da editora  (hoje desbancada pela Bíblia de Estudo Dake) ensina que “a palavra ‘expiação’ (hb. kippurim, derivado de kaphar, que significa ‘cobrir’) comunica a idéia de cobrir o pecado mediante um ‘resgate’, de modo que haja uma reparação ou restituição adequada pelo delito cometido (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD).

Os subsídios das Lições Bíblicas também trazem importante contribuição para compreensão do termo. Nos subsídios da Lição 4 do quarto trimestre de 2008, lemos que "pela morte de Cristo, a culpa é cancelada, ou expiada. Na redenção, há sempre a idéia de libertação pelo pagamento de um preço; na expiação tem-se o resgate com o cancelamento do pecado, e da pena dele decorrente". Sobre a diferença do conceito de expiação no antigo e no novo pacto, os mesmos subsídios dizem que "a expiação, no Antigo Testamento, não tinha o alcance da expiação no Novo Testamento. No primeiro, vê-se o pecado sendo “coberto”. No segundo, vê-se o pecado sendo “tirado”. Essa é uma diferença teológica e bíblica fundamental" e acrescenta que "no Antigo Pacto, o sangue cobria o pecado (cf. Sl 51.9; Is 38.17; Mq 7.19), em o Novo Testamento, através de Cristo, o pecado é quitado". Nos subsídios de outra lição é destacada a expiação substutiva, nos seguintes termos: "o que a pouco foi dito é o que se chama de doutrina da expiação substitutiva (...)  Nosso pecado foi transferido para Ele; sua vida, ou justiça, nos é dada (cf. Rm 8.3; 2 Co 5.21; Gl 3.13). Este entendimento da morte de Cristo vigorava nos dias da igreja primitiva" (Lição 4, primeiro trimestre 2006).

Fica claro pelas citações acima, e outras tantas que poderiam ser apresentadas, que pela expiação a culpa pelo pecado de alguém foi transferida para a pessoa de Jesus, que ao morrer na cruz sofreu o castigo devido, satisfazendo a justiça de Deus e livrando esse alguém da culpa e da pena pelo pecado.

O que significa universal

Tendo definido o significado e a implicação da expiação, vejamos o que seja universal. Aqui não precismos nos estender, pois o Glossário da Lição 4, do primeiro trimestre de 2006 diz que significa, simplesmente, "comum a todos os homens, ou que é aplicável a todos". De fato, a mesma lição diz que "Cristo foi morto como o substituto por todos os homens e mulheres". Nada mais precisa ser dito aqui.

E o que vem a ser justiça e injustiça

Finalmente, precisamos nos voltar agora para o termo justiça, antes de amarrar tudo numa conclusão. Na falta de referências assembleianas para o termo, cito Norman Geisler, que tem duas obras publicadas pela CPAD e diz que "a justiça significa dar aos outros o que lhes pertence" (Norman Geisler, Ética Cristã). Expandindo um pouco sua definição, diria que justiça é dar a cada um o que lhe é de direito e não exigir de alguém o que não é devido por ele. Trazendo para o direito penal, é injustiça punir aquele que não tem dívidas para com a Lei.

Uma forma de injustiça que quero destacar aqui é o chamado bis in idem, que consiste em aplicar duas punições pelo mesmo crime. Ilustrando, há um filme que mostra bem isso, chamado Risco Duplo. Nele, um homem simula ter sido assassinado por sua esposa, que cumpre pena pelo crime. Saindo da prisão,  ela descobre que o marido está vivo e resolve se vingar. É orientada que caso  venha a matá-lo, mesmo diante de testemunhas, não iria presa nem seria julgada, pois não poderia, à luz do direito, ser condenada duas vezes pelo mesmo crime.

Juntando tudo

Feito todos esses esclarecimentos, vamos entender porque a expiação universal torna Deus injusto. Vimos que o conceito de expiação penal e substutiva significa que Jesus pagou completamente a culpa pelo  pecado daqueles por quem morreu. Nas Palavras de Mathew Henry, publicado pela CPAD, "Ele pagou nossa dívida pelo mérito de sua morte. Sim, mais que isso, Ele tem ressuscitado. Esta é a prova convincente de que a justiça divina foi satisfeita" (Comentário Bíblico Mathew Henry). Ou nas de outro teólogo assembleiano, "pelo seu sangue, nossa expiação foi feita. A justiça divina não foi adiada, mas cumprida integralmente" (Elienai Cabral, Comentário de Efésios).

Ora, se Jesus morreu penal e substutivamente por todos os homens sem exceção, então os pecado de todos os homens e mulheres sem exceção foram expiados (pagos, cancelados) e a justiça de Deus satisfeita. Jesus pagou na cruz o preço requerido por Deus por todos os pecados de todos os homens. No entanto, cremos que existe um inferno e que muitas pessoas vão para lá. Ora, se Jesus já pagou a dívida deles e Deus cobra o que eles não mais devem, torna-se injusto, por incorrer em bis in idem, punir duas vezes o mesmo delito, cobrar duas vezes a mesma dívida.

A única maneira de defender a expiação universal sem implicar que Deus é injusto  ao condenar aquele por quem Cristo morreu é negar a expiação penal e substitutiva. Pois expiação vicária universal e justiça retributiva aos perdidos são coisas auto-excludentes. Melhor e mais bíblico é crer que Jesus morreu especificamente pelos eleitos.

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.