15 de março de 2010

Deus é injusto

"Há injustiça da parte de Deus?" Rm 9:14

Muitos tem dificuldades em aceitar algumas afirmações da Bíblia, pois entendem que se forem tomadas em seu sentido natural fazem de Deus injusto. As que tratam da eleição soberana são as que mais trazem dificuldades aos cristãos sinceros, preocupados em resguardar o Senhor da acusação de ser injusto.

A pergunta acima bem poderia ter sido feita por um desses crentes. Paulo citou as palavras de Deus: "Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" (Rm 9:13). O senso comum é que Deus ama a todos os homens de igual maneira, portanto Ele afirmar que amava uma pessoa e se aborrecia de outra deporia contra a retidão de Seu caráter.

Quem conhece a história dos dois personagens sabe que, pela régua humana, se Jacó não fosse muito pior que Esaú, com certeza não seria o melhor dos dois. Desde o seu nascimento, passando pelo episódio da venda da primogenitura e chegando ao roubo da bênção paterna, Jacó era o típico aproveitador desonesto. Como poderia Deus amá-lo enquanto preteria seu irmão Esaú? Para piorar, há o momento em que essa escolha se deu. Paulo diz que "ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal" (Rm 9:11) e Deus já manifestara à mãe dos garotos que "o mais velho será servo do mais moço" (Rm 9:12). Portanto, Paulo sabia que ouviria a acusação de injustiça contra Deus. Mas sua resposta é um enfático "de modo nenhum!" (Rm 9:14).

Como pode ser isso, se Deus amou a Jacó e odiou (este é o sentido exato da palavra no original) Esaú? A palavra chave para resolver o problema é misericórdia, que garantiu que "o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama" (Rm 9:11). Deus diz "terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão" (Rm 9:15).

Para dissipar qualquer nuvem que paire sobre o caráter de Deus, é preciso entender o que é justiça e o que é misericórdia. Justiça é dar a cada um o que é devido e como ninguém merecia a salvação, se Deus condenasse a todos, não seria nem um pouco injusto. Por outro lado, graça e misericórdia é dar a alguém aquilo que ele não merece. Como ninguém tem direito à misericórdia, não pode acusar Deus de injustiça. Por ser a eleição graciosa, os eleitos não tem do que se vangloriar, pois não mereceram a graça, nem os que foram preteridos podem reclamar, pois não tiveram direitos violados.

Portanto, Deus é misericordioso com muitos sendo justo com todos.

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

11 de março de 2010

Conexões da criação com o resto da vida

A mentalidade departamentalizada é uma peste. Sutilmente invade o corpo de pensamentos de alguém, e passa a romper os vínculos entre as idéias. Quando menos espera, o indivíduo já capitulou diante da noção fragmentada de mundo, nada restando senão idéias desconexas em sua forma de interagir com a realidade.

O que sobra a partir daí são mini-discursos, completamente descomprometidos, sobre as partículas da realidade. Digo mini-discursos porque, na visão departamentalizada, é impossível pensar profundamente sobre as coisas. As implicações de uma idéia ou discurso só serão consideradas naquele nicho do qual se fala. E assim se ignora o valor de um pensamento para o todo da vida.

Alguns cristãos foram contaminados por isso. Ao lidarem com a Escritura, trabalham as doutrinas cristãs em uma categoria bastante restrita e limitada de "ensinamentos religiosos", separando-as do seu dia-a-dia.

Além disso, há os que fragmentam a relação existente entre as doutrinas em si, observando de maneira desassociada a eleição da justificação, a santificação da expiação, e assim por diante.

Quando o assunto é a criação, a coisa não é diferente. Para alguns, falar da criação é apenas afirmar que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Esta declaração resume a sua perspectiva do ensino contido nos primeiros capítulos do Gênesis. Mais do que isso: há quem comece a sua noção religiosa a partir de Gênesis 3, abandonando deliberadamente, ou desprezando inconscientemente, as implicações da criação para o resto da Escritura, bem como para a vida humana.

Quais seriam, então tais conexões entre a Criação e o resto da vida? Em que aspectos considerar o fato de que Deus criou o universo se torna importante? Vejamos:

1. Uma visão das origens é elemento determinante de uma cosmovisão

Devo este ponto a Nancy Pearcey, que deve a Francis Schaeffer, que foi influenciado em sua análise dos motivos básicos religiosos por Hans Rookmaaker, que, recebeu tal perspectiva de Herman Dooyeweerd.

Pearcey descreve, em sua obra "Verdade absoluta", como a base de uma cosmovisão está em sua compreensão das origens. Ela testa tal perspectiva, aplicando em visões como o marxismo, a perspectiva de Rousseau, a visão sexua de Margaret Sanger, e o budismo.

Todas estas visões demonstram uma noção do surgimento das coisas, que fundamenta o cerne de sua abordagem. Para que Margaret Sanger defenda a revolução sexual, por exemplo, é necessário que a sua visão da origem exclua um legislador inicial, ou algum padrão pessoal de moralidade. Ela rejeitou o criacionismo, e foi para o evolucionismo.e

E assim começamos a derrubar a noção de que a criação está desligada do resto de nossa forma de pensar e interagir com o mundo. Na verdade, e maneira como vemos a origem das coisas é fundamental para a forma como vamos encará-las.

2. A Criação ensina a origem pessoal do Universo

Esse ponto eu devo ao Schaeffer.

Um dos problemas que leva muitos ao desespero, está na observação de um universo impessoal e despropositado. Quando tudo o que se tem é um mundo sem objetivo e origem definida, o significado das coisas é inexistente. Eis o porquê de o existencialismo falar sobre a necessidade de legitimarmos a nossa existência através de nossas escolhas. Quando não há um significado real para tudo, precisamos fingir que ele existe, ou cedemos ao desespero.

O impacto disto é bem mais amplo. A origem pessoal do universo confere significado não apenas à natureza, mas à nossa própria existência. Confere valor e dignidade às coisas e pessoas, e pavimenta o caminho para uma forma saudável de nos relacionarmos com tudo o que existe.

3. A Criação revela a Deus

O ensinamento sobre a origem criacionista não apenas fala sobre um universo criado, mas sobre um universo criado por um Deus pessoal e infinito.

Isso abre as portas para o conhecimento do Criador. Considerar a doutrina da criação é atentar para o caráter criativo da Divindade, bem como Seus atributos de soberania, onipotência, independência e amor.

Na criação o Deus exaltado se torna conhecido. Aquele que habitava a eternidade cria um universo e pessoas com as quais Se relacionará.

Muitos outros pontos podem ser percebidos a partir destas considerações. A conexão da realidade criacional com o resto da vida é bastante intensa. Cada ponto acima descrito produz impacto sobre o modo como vivemos.

Cabe a nós sermos coerentes com a nossa criação à imagem e semelhança do Criador, e vivermos em um relacionamento não fragmentado com a realidade.

Soli Deo Gloria.

Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve às quintas no 5Calvinistas.

10 de março de 2010

Um eufemismo para Deus

Eufemismo é uma figura de linguagem que usamos quando queremos amenizar as coisas. Por exemplo, quando se quer dizer que fulano de tal morreu, diz-se que ele “passou desta para melhor” (mesmo que o fulano não tenha crido em Cristo para a remissão dos seus pecados). Quando um jogador de futebol é afastado do grupo por andar mal das pernas, geralmente o técnico justifica sua decisão com a “insuficiência técnica” do atleta (o que, traduzindo, quer dizer: “ou melhora ou vai ficar aí esquentando banco”). Quando o patrão quer dizer ao funcionário que este errou feio, para não endossar mais ainda aquela imagem de que todo patrão é carrasco, ele diz que o funcionário “deixou muito a desejar” (essa tática já tá tão desgastada que os empregados já encaram isso como um eufemismo para o temido aviso prévio). Um caso curioso é o da minha mãe. Ela não gosta de pronunciar a palavra “câncer”, pois, segundo ela, uma doença tão ruim como esta não é bom que a pronunciemos. Em vez disso, ela diz simplesmente que a pessoa está com aquela “doença ruim”, que às vezes ela acaba abreviando para “CA” (morro de rir com a minha mãe!).

A moda da linguagem eufêmica pegou entre as pessoas  que costumam conversar sobre Deus (que não são necessariamente teólogos, clérigos, filósofos e afins), inclusive entre muitos cristãos professos, que adoram fazer uso desse artifício nos debates mais acalorados. Quando isso acontece, eles geralmente fogem para bem longe do Deus revelado nas Escrituras, e procuram uma outra forma de descrevê-lO e encará-lO, o que geralmente fazem diminuindo-O (quando não esvaziando-O) de seus atributos. Isso equivale a dizer, sem eufemismos, que um outro deus totalmente diferente do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é apresentado; “um deus menor que Deus”, como diria meu amigo Roberto Vargas Jr.

Uma das situações mais propícias para se eufemizar a Deus é quando algo de muito ruim acontece. Por exemplo, diante das tragédias que tem devastado vários países ao redor do mundo, muitos cristãos logo se apressam em isentar Deus da culpa, procurando de todas as formas uma linguagem que torne Deus mais palatável ao homem pós-moderno. Essa seria uma atitude bastante louvável se tivesse como referencial o próprio Deus, mas, como tem se tornado evidente, não é isso que acontece. Parece que muitos que dizem crer nas Escrituras como sendo a Palavra infalível de um Deus infalível se envergonham diante da possibilidade de alguém atribuir crueldade a um Deus que sempre foi tido como sendo o Todo-Amoroso. Para os tais, seria trágico demais furtar das pessoas toda aquela noção que elas herdaram de Deus como um pai sempre disposto a perdoar, de braços abertos. Isso naturalmente estimula os pseudo-apologistas (ainda que sinceros, não passam de falsos)  a fazerem as suas pseudo-apologias da fé (fé?) cristã (cristã?), utilizando-se do recurso leve e agradável da linguagem branda, aquela que não repele nem assusta, e que visa a trazer Deus para mais perto, bem para perto, quase que mortalizando-O (esse “quase” foi eufêmico demais).

O que é pior nisso tudo, e o que as pessoas mais custam a aceitar, é que a eufemização de Deus acaba por negá-lO. Na realidade, ela acaba se transformando no próprio capuz da descrença, uma forma disfarçada de dizer que o Deus dos antigos não é mais bem-vindo. Certas designações bíblicas para Deus, como Todo-Poderoso, Soberano, Altíssimo e etc., não se encaixam mais nos parâmetros de degustabilidade adotados pela cristandade light contemporânea. Negando o Deus “tradicional” dos pobres e antiquados ortodoxos, os neo-teístas se tornam os novos herois da nova “fé”, exatamente porque enchem de riso a boca daqueles que esperam pelas “novas boas-novas” (aquele outro evangelho ao qual Paulo se referiu em Gálatas 1.9). 

Um grupo que bem representa o perfil que acabo de descrever é o pessoal que propaga o Teísmo Aberto. Em minha opinião, eles são os maiores especialistas na arte de se esconder debaixo da carapuça eufêmica da incredulidade (tipo A Cabana, sabe?). Ao atribuirem as catástrofes à mera casualidade, por exemplo, eles estão simplesmente negando a Deus como o Supremo Criador, Provedor e Senhor Absoluto de todas as coisas. Em outras palavras, eles estão negando o Deus que as Escrituras apresentam. Sua influência tem sido tão forte no linguajar gospel contemporâneo que dificilmente as pessoas conseguem pensar em Deus de outra forma, ou seja, da forma bíblica. Infelizmente, muitos são aqueles que estão dando as boas-vindas a esse tipo de ensino, considerando-o como digno de ser tolerado dentro dos limites da diversidade cristã. Até mesmo alguns cristãos conservadores tem procurado evitar o assunto, relegando-o à esfera das “questões indiferentes”, justamente para não serem tachados de fundamentalistas no meio do arraial.

Sem eufemismos agora (mas com algumas ironias aqui e acolá), gostaria de dizer que o evangelho não precisa ser eufemizado para se tornar mais eficaz, e nem Deus precisa ter seus atributos mais abrandados para que afirmemos o seu amor incondicional por nós, pecadores. Não é uma linguagem melíflua que tornará Deus mais bonzinho. Os atributos de Deus continuam intocáveis, mesmo com todo o malabarismo teológico empreendido por certas pessoas. A pena que estas sofrerão, e disso tenho certeza, não será nada eufêmica. Mas se eu fosse dar um eufemismo para Deus, bem… Prefiro deixar como está.

Soli Deo Gloria!!!

8 de março de 2010

O poder de Deus para salvação

"Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego" Rm 1:16

Hoje em dia é comum a expressão "deixei de ser evangélico". Levando-se em conta os escândalos em que se envolvem políticos evangélicos, a exploração religiosa de muito tele-evangelistas e do mau testemunho de pessoas que se dizem evangélicas, a reação é compreensível. Porém, considerando que o termo evangélico tem sua origem na palavra evangelho, o repúdio me soa como contrário à Paulo dizendo "não me envergonho do evangelho". E, parece-me que tentar "descolar" nossa pessoa daqueles que envergonham o evangelho, não é bem o exemplo bíblico a ser seguido, mas isto é uma outra questão, para uma outra hora. Interessa-nos, de momento, meditar na passagem acima.

O evangelho

Evangelho significa literalmente boas novas ou boas notícias. São, portanto, boas notícias de Deus para os pecadores. Esta é a quarta vez, em cinco, que Paulo faz referência a evangelho na introdução (1:1-17) de sua carta aos crentes de Roma. Isto demonstra a importância que ele dá à mensagem à qual foi incumbido pregar. Ao dizer que não se envergonhava do evangelho, não apenas referia-se à dignidade do mesmo, mas evidenciava a sua confiança de que o evangelho era a única solução para o problema da raça caída. O evangelho é a única coisa que os pecadores realmente precisam ouvir.

Precisamos fazer referência ao conteúdo do evangelho. Pois em meio a tantos evangelhos, corre-se o risco de se falar de uma coisa e ser entendida outra. O evangelho de que Paulo tinha em mente era a mensagem de que o Filho de Deus encarnarnou neste mundo e aqui viveu uma vida perfeita em nosso favor, que morreu em nosso lugar na cruz, expiando nossos pecados, que ressuscitou ao terceiro dia e subiu ao céu e que prometeu voltar para Seu povo. Cristo é a tanto a origem como o conteúdo do evangelho.

O poder do evangelho

É essa mensagem que Paulo diz ser o poder de Deus para a salvação. Ao referir-se ao evangelho como poder de Deus, fica implícito que para que o homem seja salvo, é necessária a ação de uma força, o realizar de uma obra. Esta necessidade é justificada quando vemos que Paulo representa o pecado em Romanos como sendo uma força que domina e escraviza o homem e a criação, sendo que ninguém é capaz de se livrar por si mesmo. Assim, é necessário poder da parte de Deus para que o poder do pecado seja vencido, e este poder é o evangelho de Cristo pregado por Paulo.

Nos púlpitos de hoje, o poder do evangelho é pouco enfatizado. Isso decorre do fato de que o poder do pecado é substimado. O homem é apresentado como capaz de, por si mesmo, fazer boas escolhas e aceitar a salvação de Deus, sem que se opere nele uma força maior e contrária à sua inclinação ao pecado. Entretanto, quando a absoluta incapacidade e a completa escravidão do homem são admitidas, a necessidade e a realidade do poder do evangelho são reconhecidas e experimentadas. Mas onde o homem precisa ser apenas informado e não transformado, evangelhos água-com-açúcar tomam o lugar da mensagem poderosa de Deus, mas então a salvação não é realizada.

A finalidade do evangelho é operar a salvação nos seus ouvintes. Estando todas as faculdades do homem afetadas, na verdade dominadas pelo pecado, para que o mesmo seja salvo é necessário uma transformação tão profunda que é chamada de regeneração, novo nascimento, vivificação. Esta renovação poderosa é operada pelo Espírito Santo através da pregação do evangelho e precede qualquer resposta do homem, mesmo a fé. Aliás, a fé é parte integrante do evangelho, como veremos a seguir.

A fé

A fé é tanto crença como confiança. Crer é aceitar a mensagem que está sendo pregada como verdadeira, mas também é confiar na pessoa de Cristo e em Sua obra em seu favor, abandonando qualquer tentativa de nos justificar diante de Deus por outros meios que não aqueles contidos na mensagem do evangelho.

Há uma idéia popular, porém errada, de que a fé é uma qualificação que alguns homens já possuem em si mesmo, antes que o evangelho chegue a eles. Porém, a verdade bíblica é de que fé não existe independente do evangelho, pelo contrário, a fé é gerada pela pregação. A fé só começa a existir como resposta ao evangelho, não antes dele. Pensar na fé como inerente à natureza humana ou mesmo pré-existente em alguns homens e que torna a mensagem do evangelho eficaz é atribuir, em última análise, a salvação à fé e não ao evangelho. Mas o poder está no evangelho.

A fé não é, enquanto resposta do homem ao evangelho, contribuição da parte dele, como se estivesse preenchendo uma condição estabelecida por Deus que capacita o evangelho para ser salvador. Fé é uma resposta, uma abertura ao evangelho, criada pelo próprio Deus. Ele não só dirige à mensagem ao ouvinte, mas também abre o coração dele à mensagem. A fé flui da obra de Cristo no Calvário e chega a nós pela mensagem do evangelho.

Para todo aquele que crê

Um questionamento pode surgir neste ponto. Se o que distingue os homens quanto à salvação é a fé e se esta é dada por Deus, então somente aqueles a quem Ele enviar a fé serão salvos. Não contradiz este fato o propósito universal da salvação, explicitado na frase "para todo aquele que crê"? É uma pergunta justa.

Creio que devemos considerar, primeiro, que embora a salvação seja sem distinção ("em primeiro lugar do judeu, mas também do grego"), não é, contudo, sem exceção. A própria cláusula "para todo aquele que crê" estabelece uma qualificação. Não são todos sem exceção, mas todos os que respondem com fé. Embora a proclamação do evangelho seja dirigida a todos, a operação do evangelho é apenas e para todos os que crêem. E crêem aqueles a quem Deus dá a fé.

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras

3 de março de 2010

A divindade de Cristo e a inerrância bíblica

Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. (João 5:39)
A sociedade contemporânea possui visões bem diferentes sobre Jesus e a Bíblia. Normalmente, a maioria das pessoas tem uma visão positiva sobre Jesus. Embora a divindade dele não seja reconhecida por todos, pelo menos o reconhecem como um grande mestre. Agora, em relação à Bíblia...o cenário é bem diferente. Um livro retrógrado, machista, manipulado e ultrapassado...acreditar na Bíblia é sinônimo de ignorância nos círculos acadêmicos e na classe média brasileira.

Essa discrepância também se reflete na teologia, especialmente nas áreas influenciadas pela neo-ortodoxia, como é o caso da igreja emergente. Para esses grupos, o encontrar-se com Jesus, o sentir a Jesus é muito importante, mas defender a inerrância e a infalibilidade da Bíblia é um fundamentalismo que só atrapalha o crescimento da Igreja.

Contudo, desprezar a Bíblia é menosprezar a maior e mais confiável fonte que temos sobre a vida e o ensino de Jesus. Mais do que isso: se a Bíblia é falha e contém erros, então não podemos afirmar que Jesus Cristo é Deus.

Jesus acreditava no testemunho da Escritura
Em João 5, após curar um paralítico, Jesus faz um sermão a respeito de Sua divindade. Que testemunhas poderiam falar que Jesus Cristi era, de fato, Deus, o Filho do Pai? A primeira testemunha era o próprio Cristo (Jo 5:31). A segunda era João Batista (Jo 5:32-35). A terceira eram as obras que Ele fazia (Jo 5:36). A quarta era o próprio Pai, que falava, vejam só, por meio da Escritura!
O Pai que me enviou, esse mesmo é que te dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma. Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque não credes naquele a quem ele enviou. Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. (João 5:37-39)
Como o Pai pode testificar a divindade do Filho, se o mundo não ouviu a voz d'Ele nem viu a Sua forma? Por meio da Palavra, ou mais precisamente, das Escrituras, da Bíblia.

Aqui, Jesus reconheceu que a Bíblia é a Palavra de Deus. Legitimou-a como sendo a forma pela qual o Pai dá testemunho d'Ele ao mundo. Se a Bíblia tem erros, então cremos em um Deus que também erra. Mas, se Ele erra, não pode ser "Deus", que é prefeito por definição. E aí, Jesus também não poderia sê-Lo, por nos apontar um testemunho falho e imperfeito.

Jesus acreditava no cumprimento perfeito da Escritura
Que valor devemos dar ao Antigo Testamento? Em que medida a Bíblia é confiável e perene? Para Jesus, a Bíblia é mais confiável e segura do que os céus e a terra:
Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Mateus 5:17-18)
O mundo passará, mas não a Palavra, este é o ensino de Jesus. Mais do que isso: Jesus viveria não para combater ou revogar a Escritura, mas sim para cumpri-la. Na verdade, o ensino do Cristo afirma que a grandeza de um homem se mede pela sua submissão à Bíblia:
Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. (Mateus 5:19)
Quem não crê na inerrância bíblica e passa esse ensino adiante, é considerado alguém mínimo por Jesus. Se a Bíblia possui falhas, então Jesus está profundamente enganado sobre como devemos medir a estatura espiritual de um ser humano.

Jesus acreditava nas histórias "absurdas" da Bíblia
Mas o que mais me chama atenção é que Jesus usou algumas das passagens mais fantásticas da Bíblia em seu ensino. A existência de Adão e Eva, o dilúvio e até mesmo o peixe engolindo o profeta Jonas...todos estes fatos que para o "cristão" pós-moderno não são nada...são preciosas bases em torno das quais Jesus ensina verdades importantíssimas.

A indissolubilidade do casamento e o amor monogâmico, por exemplo, podem ser vistos na criação de Adão e Eva:
Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. (Mateus 19:4-6)
Os homens devem se precaver para o dia do Juízo, porque será da mesma forma como foi o dilúvio:
Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim srá também a vinda do Filho do Homem. (Mateus 24:37-39)
A pregação de Jonas em Nínive e o fato do peixe tê-lo engolido por três dias são sinais para que creiamos na ressurreição de Jesus e nos arrependamos, em fé, de nossos pecados:
Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande pexe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra. Ninivitas se levantarão, no Juízo, com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui quem é maior do que Jonas. (Mateus 12:40-41)
Se achamos que o livro do profeta Jonas é uma novela, uma ficção (como alguns teólogos liberais pensam), então a fala de Jesus de que os ninivitas condenarão os incrédulos é uma grande ilusão, uma prova da simplicidade de um homem que acreditava em lendas como sendo verdade. Será que tal homem pode ser o Filho de Deus?

Conclusão
Estes fatos são suficientes para atestar uma ligação óbvia: a divindade de Jesus depende da inerrância bíblica. Não é possível chamar de Deus alguém que acredita que a Bíblia é a Palavra do Pai, que a considera a medida da estatuta espiritual das pessoas e baseia ensinos tão importantes em passagens que são consideradas uma fantasia pelo homem pós-moderno. Forçosamente, todo aquele que confessa a Jesus como Filho de Deus precisará reconhecer a Bíblia como um livro sem falhas. Ou então, terá que assumir a conseqüência lógica de rejeitar a divindade do Cristo.

Quanto a mim, mesmo que seja tachado de "pré-moderno" ou antiquado, prefiro crer como Jesus, até mesmo nas histórias mais fantásticas da Bíblia.