25 de dezembro de 2014

Os Pais da Igreja e a Expiação

Na tentativa de evitar a doutrina reformada da expiação limitada, ou da redenção eficaz, sem parecer que estão negando o ensino histórico da igreja, os arminianos recorrem aos chamados Pais da Igreja, aqueles que lideraram a igreja nos primeiros séculos depois dos apóstolos. É um recurso válido recorrer aos antigos, mas nem sempre é seguro e nunca é decisivo. Quero apresentar três razões para isso, aplicando ao caso da doutrina da expiação realizada por Cristo.

A primeira delas é que antiguidade não significa necessariamente ortodoxia. Provam isso heresias como gnosticismo que acometeu a igreja ainda na sua infância e que deixou sequelas que duram até hoje. Quando lemos o Novo Testamento e em seguida os escritos dos chamados pais apostólicos é impossível não perceber as diferenças. Embora citem Paulo e os demais apóstolos em profusão, percebemos que pelo menos a ênfase fui mudada. E práticas simples foram corrompidas por superstições no mínimo bizarras, como os rituais de exorcismo antes do batismo. Por isso, nem tudo que os Pais da Igreja fizeram e ensinaram deve ser aceito sob a premissa de que eles as receberam diretamente dos apóstolos e as conservaram inalteradas.

Os Pais da Igreja não desenvolveram uma doutrina ou teoria da expiação e o fato é que a posição de muitos deles permanece indeterminada. Até os dias de Anselmo, os pais da igreja não se preocuparam em apresentar um entendimento sistematizado da expiação . Suas referências à morte de Cristo se dão num contexto devocional, usando a linguagem da escritura, sem se preocupar em comentar e menos ainda oferecer uma explicação para os textos citados.

Quando os Pais Apologistas mencionavam a morte de Cristo, sua ênfase era apresentá-la como cumprimento das profecias do Antigos Testamento. Já o interesse de Clemente de Roma era ético e prático. Pela Sua morte, Cristo nos deu um grande exemplo a ser seguido de humildade e deve nos constranger à gratidão a Deus, ao amor ao próximo e ao auto sacrifício. A apresentação de aspectos doutrinários da morte de Jesus era feito de forma débil e não era livre de distorções. A questão da extensão da expiação jamais foi levantada por eles. Afirmar que defenderam a expiação universal é impor a eles uma conclusão a que não chegaram, simplesmente por não refletirem sobre.

Os Pais da Igreja criam numa teoria fantasiosa da expiação. Mesmo não tendo elaborado um entendimento estruturado sobre a doutrina da expiação, e talvez por causa disso, os Pais da Igreja adotaram uma teoria muito estranha sobre a morte de Cristo. Esta teoria assume que por causa do pecado de Adão Satanás tinha o direito e a posse sobre os homens e que para libertá-los Deus deveria pagar uma indenização ao Diabo.

Uma variação dessa teoria dizia que Deus enganou o Diabo, pois sua humanidade era uma isca e sua divindade um anzol. A implicação clara de Deus usar de um engodo foi justificada pelos pais com a explicação de que Satanás merecia ser enganado. Esta visão da expiação, em suas variações e nuanças, perdurou na igreja até os dias de Anselmo.

Como podemos ver, apelar aos antigos Pais para decidir a respeito de questões teológicas que foram desenvolvidas posteriormente pode não ser a melhor saída. Nenhum deles elaborou um sistema completo. Não se trata de desprezar seus ensinos ou ignorar seus exemplos de fé, e sim de compreendermos o contexto em que viveram e não esperar mais de suas obras do que eles pretendiam com elas.

Soli Deo Glória

10 de dezembro de 2014

Quem é atraído pela cruz de Cristo?


A extensão da expiação é um dos temas mais debatidos pelos interessados em teologia. Duas posições são defendidas fervorosamente, uma delas afirmando que Jesus morreu para tornar possível a salvação do mundo inteiro e outra que Jesus morreu para tornar certa a salvação dos eleitos somente. O texto acima geralmente é apresentado contra esta última posição, com a suposição de que todos significa "todas as pessoas do mundo, sem exceção".

Consideremos, primeiro, quem está falando. O início do verso 30, "Então, explicou Jesus", deixa claro que o "eu" e "a mim mesmo" do versículo se referem a Jesus. Os pronomes eu e mim são enfáticos, uma vez que a forma verbal indica o sujeito e torna dispensável o uso de pronomes. Certamente a intenção de Jesus é fazer um forte contraste entre a Sua pessoa e o "príncipe deste mundo" mencionado no verso anterior, e que seria expulso pela Sua morte.

Para saber com quem Jesus estava falando, precisamos recorrer ao contexto. Voltando para o versículo 20 lemos que “entre os que subiram para adorar durante a festa, havia alguns gregos; estes, pois, se dirigiram a Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e lhe rogaram: Senhor, queremos ver Jesus” (Jo 12.20–21, RA). É importante destacar que esses gregos eram gentios e não judeus helenistas, nascidos na Diáspora. E foi no momento que estes estrangeiros foram apresentados a Jesus por André e Filipe que Jesus se referiu à Sua morte e aos resultados dela. É fundamental ter em mente que o discurso de Jesus foi provocado pela presença dos gregos e dirigido a um auditório misto, composto por judeus e gentios.

Estando claro quem diz e para quem o faz, podemos nos concentrar no que é dito. Jesus faz duas afirmações envolvendo Sua pessoa e vamos considera-las separadamente. Primeiramente Ele diz “e Eu, quando for levantado da terra”. Ser “levantado” é uma referência à sua morte, como o narrador interpreta as palavras de Jesus: “Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12.33, RA). A mesma linguagem é utilizada em Jo 3:14. É interessante que a voz do verbo levantar é passiva, o que indica que neste caso Jesus não realiza, mas sofre a ação descrita. Convém observar, também, que a palavra “quando” é um advérbio condicional, que indica que a ação seguinte depende do evento ou ação descritos, e por isso o sentido é de “e se, no caso de”.

A declaração de Jesus que está no centro da controvérsia é “atrairei todos a mim mesmo”. O verbo atrair está na voz ativa, significando que é Jesus quem toma a iniciativa e realiza a ação e no modo indicativo, que é utilizado quando quem fala descreve uma ação como sendo real, em oposição a algo que é apenas possível, contingente ou intencional. Compare com a declaração do verso anterior, em que Jesus diz “...agora o seu príncipe será expulso” (João 12.31, RA). O mesmo modo verbal é utilizado, logo dizer que Jesus apenas tentará atrair as pessoas para Si, sem a certeza de que isto ocorrerá de fato, implica reconhecer que Ele apenas tentará expulsar a Satanás, uma vez que as duas coisas, a expulsão de um e a atração de outros são expressas da mesma maneira, e como resultados da mesma ação: a morte de Jesus.

Além disso, quando considerado teologicamente, o termo atrair implica mais que meramente exercer influência moral. Não é como se o Senhor se tornasse atraente na cruz, o pecador olhando-O ali fosse até Ele. Jesus já havia dito que “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.44, RA), e a palavra traduzida por trazer e atrair é a mesma nos dois casos. O termo aponta tanto para o fato de que é Deus quem atrai como para a realidade de que o homem por si mesmo não pode ir a Cristo. Mais, indica que o homem resiste a esta atração divina, contudo o Senhor vence esta resistência em seus escolhidos. Em vários lugares encontramos indicações de que esta atração não é passiva, pelo contrário, é ativa e poderosa. Os autores bíblicos utilizam-se dela para descrever o puxar redes cheia de grandes peixes (João 21:6,11), o arrastar pessoas ao tribunal (Atos 16:19; Tg 2:6) e o sacar uma espada da bainha (João 18:10).

Mas se considerarmos que essa atração é tanto iniciativa de Deus quanto invencível, como evitar a conclusão de que todas as pessoas serão salvas, uma vez que Jesus diz que atrairá a todos? Chegamos ao cerne do problema. A saída fácil é ignorar o que foi dito até agora e fazer do Crucificado apenas atraente e não Aquele que por Sua morte efetivamente atrai aqueles por quem deu a vida e salva de fato. Nem sempre o caminho fácil e agradável é o correto a seguir.

Examinemos com atenção a expressão todos. Notemos, inicialmente, que “pessoas” ou “homens” não constam do original, como aparece em algumas traduções, e inclusive há quem sugira que o termo se refira a todas as coisas, tudo. Portanto, se a palavra todos for tomada em sentido absoluto, forçosamente teremos que incluir os anjos caídos e os seres inferiores como objetos da atração de Cristo. Ou seja, algum tipo de limitação não expressa é admitida mesmo por universalistas.

O Novo Testamento apresenta diversos lugares em que a palavra todos não pode significar todos os indivíduos sem exceção.  Por exemplo, quando se diz que “ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão” (Mt 3:5, RA) e “toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus” (Mt 8:34, RA), obviamente as cidades citadas não ficaram abandonadas enquanto cada homem, mulher e criança iam ver João Batista e Jesus. O mesmo quando lemos que “toda a cidade se ajuntou à porta” (Mc 1:33, RA). E quando Jesus diz que “todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores" (Jo 10:8, RA) não pode significar, por exemplo, que Abraão, Jó e Daniel eram assaltantes. Por falar em Abraão, quando seu servo partiu “levando consigo de todos os bens dele” (Gn 24:10, RA), é claro que não deixou Abraão na miséria e a promessa de Joel, “derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (Jl 2:28, RA), não implica que cada indivíduo sobre a terra é batizado com o Espírito. Quando lemos que Jesus percorria a Judéia “curando todas as enfermidades” (Mt 4:23, RA) devemos lembrar que houve lugar em que “não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” (Mateus 13.58, RA). Assim também, quando lemos que os discípulos “tendo partido, pregaram em toda parte” (Mc 16:20, RA), não devemos pensar que pregaram em todos os lugares do mundo, mas em toda parte a que foram. Em cada caso, o contexto nos esclarece quando todos significa todos sem exceção, a maior parte, todos os tipos e classes, etc.

Agora podemos voltar a falar do contexto em que a declaração de Jesus está inserida. Lembramos que o Seu discurso foi feito na presença e motivado pelos não judeus que queriam vê-lo. Portanto, o todos significa que não apenas judeus, mas também gentios seriam atraídos, ou seja, todos sem distinção e não todos sem exceção. Vemos isso de forma recorrente no quarto evangelho. A salvação não depende de laços familiares ou de raça (1:13; 8:31-59), Jesus é o Salvador não apenas dos judeus, mas também dos samaritanos e em consequência, do mundo (4:42), Ele tem outras ovelhas que não são do redil dos judeus, mas do mundo gentio (10:16), morrerá não só pela nação, mas para reunir num só os filhos de Deus que estão dispersos (11:51). Entendemos, então, que por todos o Senhor estava dizendo “não apenas os judeus, mas também os gentios”.

É o que também entende a maioria dos comentaristas e eruditos. Robertson diz que todos “não significa cada homem individual, pois alguns, como Simeão disse (Lc 2:34) são repelidos por Cristo”. Bartley diz que a expressão é uma “referência ao alcance universal do evangelho, que inclui os gentios”. Wiersbie afirma que "Cristo menciona os gentios quando fala em ser "levantado" na cruz. Em Mateus 10:5 e 15:24, Cristo ensinou seus discípulos a evitarem os gentios; todavia, agora ele diz que os gentios também serão salvos pela cruz. (...) Cristo tinha que ser levantado para que 'todos' (v. 32, judeus e gentios) fossem atraídos a Ele. Isso não significa todas as pessoas, sem exceção, mas todas as pessoas, independente da raça". Para Hernandez, todos significa “tanto gregos (ali presentes, v. 20) como judeus, como pessoas de todo povo e nação. Isto enfatiza a composição multinacional e racial do povo de Deus”. Lembrando que “um momento antes os gregos pediram para ver Jesus”, Hendriksen, diz que “Jesus promete atrair a todos os homens a si mesmo. Este todos os homens, neste contexto que coloca gregos junto aos judeus, deve significa homens de toda nação”, acrescentando que “estes gregos representam as nações – os eleitos de todas as nações – que chegariam a aceitar a Cristo com fé viva, através da graça soberana de Deus”.

Matthew Henry também diz que “o grande desígnio do Senhor Jesus é atrair a si todos os homens, não só os judeus, mas também os gentios de toda raça, língua, nação e povo”. Luiz Palau também entende que “a cruz é como um ímã ao qual tanto judeus como gentios são atraídos”. Walvoord, interpretando o ser atraído como ser salvo, afirma que “aqueles que serão salvos não virão apenas dos judeus, mas também de toda tribo, língua, linhagem e nação (Ap 5:9)”. Cabal é firme ao declarar que “isto não é universalismo (salvar a todos), mas o evangelho é oferecido a todos sem distinção – atraindo pessoas de todos os tipos para Si mesmo”. Finalmente, para Dockery, todos significa “todas as pessoas sem distinção de sexo, raça, posição social ou nacionalidade”.

Concluindo, a interpretação de que Cristo atrai redentivamente todos os homens a si mesmo, a menos que se advogue o universalismo, impõe que a atração referida por Cristo seja meramente potencial, e não real. Longe de glorificar a Deus e exaltar a obra de Seu Filho na cruz, tal tentativa acaba por anular a eficácia intrínseca de Seu sacrifício, fazendo-a depender, ao final, da vontade do homem e não da intenção divina.

 Soli Deo Gloria

2 de setembro de 2014

De lembranças infantis

Não havia nada especialmente diferente naquele dia.

Eu tinha cerca de dez anos. Acho que ainda menos. Estava frio. Tão frio quanto é possível naquela parte do planeta. Eu morava no Espírito Santo, mas ainda não O conhecia, embora eu esteja certo de que Ele tem tudo a ver com isso.

Porque estava frio, eu peguei da gaveta um moletom que minha mãe me dera uns dias antes. Era de um azul escuro com detalhes num verde também escuro. A combinação de cores me trouxe um estranho êxtase. Eu a vi singularmente bela.

Com um enorme prazer vesti o moletom e saí de casa, após o desjejum. Aquele vento frio me acariciava o rosto e eu era tomado por uma sensação agradabilíssima, por certo inexplicável, pois em nada diferente daquele maral que sempre soprava, exceto, talvez, pela temperatura mais baixa que a ordinária.

Saí de casa com uma bola de futebol sob o braço. Fui para um canto externo de casa onde havia um gramado e um único pedaço de muro, pois o restante da casa era cercada por cerca-viva. Havia um campinho, um saudoso campinho de futebol logo em frente da casa. Mas, sozinho, eu precisava de um muro a me devolver a bola.

Após algumas ruidosas rebatidas do muro, veio a mim um menino um pouco mais velho que eu, um mineiro que passava férias na casa de um vizinho. Eu não me lembro de seu nome nem lembro quantas vezes brincamos juntos. Mas suas feições se tornaram o arquétipo das feições de todo mineiro que conheci depois.

Agora eu tinha companhia, mas, por alguma razão, ainda preferimos o muro por gol ao invés do campinho do outro lado da rua. Brincamos por sei lá quanto tempo com a alegria que as crianças têm.

Voltei para casa com uma felicidade inexprimível. Não havia nada especialmente diferente naquele dia. Mas ele ficou indelevelmente marcado no meu coração como a própria expressão da Beleza.

Muito mais tarde eu falava em Poesia. E li um genial autor falar de uma fugaz Alegria. E eu entendi perfeitamente que falávamos da mesma coisa e ansiávamos por algo para o que Poesia e Alegria apontam. E um outro gênio dizia que toda a imensidão do universo clama: "eu não sou seu Deus, mas fui criada por Ele".

Sim, o Espírito Santo tem tudo a ver com isso! SDG!

 

30 de junho de 2014

Conselhos a quem busca conselhos

Infelizmente este blog está parado há tempos. Às vezes uma ou outra postagem acaba saindo, mas nada que nos anime ver os “bons tempos”. Hoje, na verdade, penso que os bons tempos envolviam muita imaturidade minha e de muitos amigos. Mesmo assim foram tempos realmente bons para amadurecermos.

Mas aí está o blog e, vez por outra, algum comentário aparece. Nem sempre os publicamos, por uma razão ou outra. Uma destas razões é o comentário ser alguma solicitação de auxílio. Já tive experiências boas com isto, mas, no mundo virtual, as experiências negativas são sempre maioria. Pois bem, como sempre, cada qual fala por si, mas, por isso, darei aqui as minhas sugestões a quem realmente quer auxílio.

  1. Apresente-se claramente. Mostre-se. Você pode nos conhecer, mesmo que virtualmente pelo que falamos aqui, mas nós não temos ideia de  quem você é. Neste processo de amadurecimento, ao menos do meu, uma das coisas que cansei de ver é gente fingindo ser quem não é. Se for para auxiliar alguém, quero auxiliar alguém de verdade. Mostre-se. Caso contrário, melhor nem começar.
  2. Não afete respeito, respeite. Nem se vitimize. As respostas que você recebe certamente serão de acordo com sua postura.
  3. Apresente sua dúvida de forma clara, ponto por ponto e uma de cada vez. É muito prazeroso conversar sobre o Reino, mas quando a apresentação do tema é confusa, mal escrita e/ou cheia de erros, nem será questão de má vontade, mas simplesmente não dá nem para iniciar a conversa.
  4. Procure entender as categorias envolvidas. É muito (tristemente) comum que quem faz uma pergunta acredite que suas categorias são definitivas e infalíveis. Se assim é para você, então você não tem dúvida alguma. Porém, se percebeu que há contraste entre o que dizemos e o que você disse, ou leu, ou entendeu de outrem, esclareça primeiro o que as coisas realmente significam. Assim a conversa flui. Do contrário, não há conversa possível.
  5. Se você não tem raciocínio lógico apurado, não finja ter. Não é demérito a ninguém um raciocínio lento. Mas arrogar para si uma qualidade inexistente é perda de tempo e um forma eficiente de fazer acabar a paciência de quem quer te ajudar.
  6. Novamente quanto ao processo de amadurecimento, aprendemos que argumentos não servem de nada. Tem gente que acredita piamente que pode vencer um debate com base em argumentos (e estes são os mais chatos). Mas argumentos só convencem quem está predisposto a ser convencido. É nas crenças fundamentais, nos pressupostos que reside a verdadeira batalha. E não entre os debatedores, mas diante da Verdade. Portanto, analise seu coração e verifique se você tem disposição para revelar a si mesmo quais são estes seus pressupostos.
  7. Uma vez percebidas estas crenças fundamentais, seja honesto também com a pessoa a quem pediu auxílio. No fim das contas, vocês não precisam pensar igualzinho. Duas mentes nunca pensam. Mas se estas crenças forem muito diferentes, vocês nunca vão se entender. Lembre-se, você pediu por auxílio, não por um debate.
  8. Mais importante que tudo isso, a Bíblia é nosso padrão. Se você não está disposto a ler e ouvir dela, nem pense em pedir auxílio por aqui.

 

 

 

 

 

 

 

A Deus seja a glória!

5 de janeiro de 2014

Homilia 4

A última mensagem publicada aqui foi ministrada em 06/01/2013, na Igreja Presbiteriana de Canela. Foi a primeira, mas não foi a única. Entretanto, um ano depois, resolvo publicar nova mensagem, ministrada em 05/01/2014.

Possa ela aquecer corações como o meu foi aquecido!

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JESUS, DEUS E SALVADOR

Texto base: Marcos 10.17-27

17 E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 18 Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. 19 Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. 20 Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. 21 E Jesus, fitando-o, o amou (agapao) e disse: tSó uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. 22 Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.

23 Então, Jesus, olhando ao redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! 24 Os discípulos estranharam estas palavras; mas Jesus insistiu em dizer-lhes: Filhos, quão difícil é [para os que confiam nas riquezas] entrar no reino de Deus! 25 É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. 26 Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo? 27 Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível

Introdução

  • Uma mensagem ministrada sobre esta passagem não faz muito tempo enfatizou alguns aspectos, mas um em especial ficou na minha cabeça por um bom tempo. O de que este jovem rico via Jesus como um simples mestre.
  • O termo grego é didaskalos: professor.
  • Jesus é sim um mestre, um professor. Mas ele não é apenas isso. Nesta passagem Ele, como Bom Mestre, nos ensina quem Ele é: Deus e Salvador.
  • Nosso objetivo esta noite é ver como.

1. Mc 10.17-18:

  • O jovem vê Jesus como um mestre. Esta é a visão de muitos: o Cristianismo é apenas um ensino moral e Jesus é um bom mestre.
  • Há aqueles que dizem que o Cristianismo é mau, ou que toda religião é má porque todo moralismo é opressor. O erro destes não é, na verdade, muito diferente, mas não é sobre esta distorção moral e intelectual que vamos falar.
  • Falaremos de quem ainda quer manter um senso moral, ainda que distorcido, não importa. As pessoas querem ser consideradas boas. Então as regras morais do Cristianismo são um bom padrão. Mas elas não estão dispostas a aceitar que Jesus é Deus. Ele é só um bom mestre.
  • Ou Deus ou um homem mau.
  • Mas percebam: apenas um bom mestre é tudo o que Jesus não pode ser.
  • Um bom mestre apontaria o caminho. Ou, no máximo, diria como Paulo: “sejam meus imitadores, como eu sou de Cristo” (I Co 11.1). Mas o Cristo diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Jesus reivindica para si o ser Deus.
  • Ora, Jesus poderia estar enganado. Ele poderia ser um bom mestre honestamente enganado. Mas me digam: pode alguém tão equivocado ensinar? Poderia ser um bom mestre?
  • Ou então Jesus poderia ser um louco. Não um Napoleão de hospício, mas um deus de hospício. Um louco poderia ser um bom mestre?
  • Ou ainda os discípulos é que poderiam ter entendido errado a mensagem de Jesus. É improvável que judeus entendessem mal a alegação de divindade de Jesus. Aliás, foi por isso mesmo que Ele foi levado à cruz. Mas se aceitarmos que houve má comunicação de Jesus a seus discípulos, como alguém que confunde seus alunos poderia ser um bom mestre?
  • Mas há ainda uma outra situação pior. Jesus poderia enganar voluntariamente seus alunos. Ele é um mentiroso dizendo que é Deus, sabendo que não é. Que bom mestre faria isso?
  • O que resta é que Jesus é o que alega ser: Deus. Ou ele não é um bom homem coisa nenhuma!
  • É justamente este o ensino desta passagem. O jovem vê Jesus apenas como um mestre. Jesus aponta para sua deidade.
  • Ele não diz que não é bom. Ele diz que só há um bom, que é Deus. Ele diz que Ele é o Bom Deus!

2. Mc 10.19-22:

  • Então, na seqüência, Jesus parece deixar isto de lado e traz um outro ensino ao jovem.
  • Este acredita na possibilidade de salvação pelas obras da Lei e se esforça para cumpri-la.
  • O texto diz que Jesus pergunta a ele: (verso 19) “Conhece os mandamentos: Não mate, não adultere, não furte, não testemunhe falsamente, não defraude ninguém, honre pai e mãe." E o jovem, com toda confiança responde: (verso 20) “Fácil! Tenho feito isso a vida inteira.”
  • Conhecem gente assim? “Eu sou tão bom. Nunca matei, nunca roubei.” Eu conheço. Eu mesmo já fui assim. No meu caso, precisou um evento que me quebrasse e eu quebrasse meu código moral para eu perceber que não sou tão bom. Na verdade, nem é que não sou tão bom, eu sou mau. Tão mau quanto todo homem é após a queda.
  • Ao jovem, porém, foi proposto um desafio: (verso 21) “Quer ser perfeito diante de Deus? Vende tudo e distribua aos pobres. Depois me siga e confie somente em mim”.
  • Jesus propõe um desafio quanto a em que, em última instância, está a confiança do jovem: na Providência divina ou no dinheiro que ele tem?
  • Mas o jovem confia sua vida em suas posses. Esquece de confiar a vida em Deus e retribuir o amor (de Deus por Suas dádivas) em amor (a Deus e ao próximo).
  • O que Jesus ensina aqui é o que Ele repete exaustivamente aos fariseus: “Vocês estão certos em seguir a Lei, mas falta entender que não adianta cumprir regras exteriores se seu coração não estiver nisto."
  • Jesus mostra que a Lei é um todo inteiro, letra e espírito, e quebrar um mandamento é estar fora da Lei.
  • Jesus mostra que é impossível ser salvo por si. Todo esforço que fizermos será inútil se nosso coração não depender exclusivamente de Deus. Devemos sim nos esforçar, mas nunca confiar nos esforços que fazemos, mas em Deus.

3. Mc 10.23-27:

  • O jovem rico vai embora e Jesus olha para seus discípulos (verso 23). Eu fico a pensar que os discípulos viram tudo aquilo e não entenderam, a princípio, o que realmente estava em jogo.
  • Então Jesus enfatiza este ensino aos discípulos: (versos 23 a 25) "A salvação é impossível ao homem e este jovem rico está em maus lençóis."
  • Os discípulos mostram surpresa: (verso 26) “Quem então se salvará?”
  • Talvez eles tenham então percebido. O jovem rico cumpre a letra da Lei, mas esquece seu espírito. Quem dentre os discípulos é tão fiel quanto o jovem? Quem dentre os homens cumpre fielmente a Lei, sem esquecer de seus mínimos detalhes, sendo perfeito como perfeito é o Pai?
  • Que esperança pode haver aos homens?
  • Mas notem: Marcos diz que Jesus amou o jovem. O termo é agapao. É aquele amor divino. Aquele com qual Deus de tal maneira nos amou, que enviou Seu Filho a nós para que tenhamos vida eterna! (Jo 3.16)
  • Não sei. Não posso ser categórico. O texto diz que o jovem rico foi embora triste. E diz que Jesus o amou. Talvez o texto se refira a uma compaixão por sua condição, sem maiores conseqüências. Mas eu tendo a acreditar que não.
  • Pois Jesus ainda diz: (verso 27) “Ao homem é impossível; a Deus tudo é possível”.
  • A salvação do homem não depende dele mesmo, mas de Deus o trazer para Si. O jovem pode ter sido salvo. Talvez não naquele momento, mas Jesus amou o jovem. Quem sabe ele foi salvo, não pelo que fez o deixou de fazer, mas porque Deus o amou. No tempo, pode ser que o jovem ainda precisasse crescer para a redenção. Mas pode ser que na eternidade Ele tenha sido eleito e, novamente no tempo, oportunamente ele tenha se rendido ao Deus que o amou e chamou.
  • Novamente, eu não quero ser categórico. O que não está claramente revelado pertence só a Deus. O que é claro aqui não é que o jovem rico foi salvo. Mas que não depende dele, não depende de seus esforços e de seu querer. Mas de Deus o amar e chamar.
  • Isto me conforta sobremaneira. Pois se dependesse de mim eu já estaria perdido. Não, eu não estou isento de me esforçar. Tudo que eu puder fazer eu devo fazer. Mas eu posso descansar em Deus sabendo que minha imperfeição e meus erros estão todos cobertos pela perfeição e retidão do Cristo.
  • Este, meus irmãos, é o conforto das Doutrinas da Graça. Confortem-se.

Conclusão

  • Todo este texto é uma ilustração divina tanto do amor quanto da soberania de Deus, além da própria deidade do Cristo.
  • Eu iniciei dizendo que Jesus se apresenta neste texto como Deus e Salvador.
  • Primeiro Jesus aponta para Sua deidade. Ele é efetivamente o Bom Mestre. É o único Bom, que é Deus.
  • Depois mostra que a salvação é impossível ao homem pela Lei, que exige a perfeição perdida na queda.
  • E por fim declara a quem puder ouvir que Ele fará do impossível possível a quem Ele amar.
  • Eis que Jesus é o Deus que nos salva de nós mesmos! Deus! Salvador!

SDG!