9 de fevereiro de 2010

"NÃO VÁ LÁ"!

Caros amigos,
Para não ficar mais uma terça sem postar, lá vai mais uma postagem antiga do Optica Reformata (levem em consideração a época em que escrevi - agosto/09 - para uma melhor compreensão do texto). Estou mesmo sem tempo de acesso à internet. Isso explica a minha ausência da blogosfera. Mas, espero estar de volta logo, em breve.


O Monte Mulanje foi a última parada que o economista brasileiro Gabriel Buchmann resolveu fazer após ter percorrido vinte e seis países em apenas um ano, com o objetivo de colher o máximo de informações e experiências possíveis para o seu doutorado em políticas públicas que iniciaria em setembro, nos Estados Unidos. Por ter 64% de sua população analfabeta e por elencar o rol dos vinte países mais pobres do mundo, Malauí, país do sudoeste africano, era o cenário ideal para o tipo de dados que Gabriel almejava coletar, especificamente a vila Mulanje, ao pé da montanha homônima. Ela era “um retrato da pobreza que Gabriel procurava”[1]. Acompanhado de um guia local, o brasileiro, que já havia escalado o Everest e o Kilimanjaro, decidiu subir até ao cume do monte, a três mil metros de altitude, pretendendo voltar no mesmo dia. O guia local, apesar de ter achado a empreitada uma tarefa bastante difícil, acatou a ideia. Num dado momento da subida, Gabriel abriu mão do guia, alegando que este estava indo “devagar demais”, e decidiu ir sozinho ao topo do Mulanje. O guia disse a Gabriel que era forte o suficiente para suportar a dificuldade da escalada, mas o brasileiro, após ter dito ao guia que ia por conta própria, dispensou-o, pois tinha pressa. Após ter pernoitado no Abrigo Chisepo, a mil metros abaixo do pico, Gabriel saiu cedo, de bermuda e blusa de mangas curtas, rumo ao alto da montanha. Seriam sete horas intensas de caminhada numa subida bastante íngreme. Era uma sexta-feira, 17 de julho, e o destino final seria o Pico Saptiwa, nome que significa “não vá lá”, em Chichewa, língua falada pelos nativos. O próprio nome do pico parecia ser um presságio, um aviso. Gabriel conseguiu chegar ao topo. Porém, quando ele descia o pico, teve uma surpresa nada agradável. Uma densa neblina tomou conta do alto da montanha. Gabriel se perdeu no caminho de volta, pois a neblina limitava sua visão a apenas dez metros à frente. Depois de alguns dias, foi dado como desaparecido. Uma experiente equipe de resgate, formada por seis canadenses e um argentino, comandou as operações de busca ao economista brasileiro. Cerca de sessenta pessoas vasculharam o Monte Mulanje por mais de duas semanas, sem encontrar nenhum vestígio do economista. Foi então que, no dia 1 de agosto, num despretensioso sábado, dois nativos que estavam na montanha colhendo folhas e madeira para construir casas encontraram o corpo do brasileiro. Gabriel Buchmann, de apenas vinte e oito anos, foi encontrado sem vida, debaixo de um ninho que ele mesmo construíra por entre a grama alta da montanha para se proteger de um frio que se aproximava do zero grau. Mesmo levando consigo agasalhos de lã, calças, gorro, cachecol e demais artefatos para o frio e conhecendo as técnicas de montanhismo, o corpo do brasileiro não resistiu à hipotermia. Pela posição em que Gabriel foi encontrado presume-se que ele morreu dormindo, sem sentir dor, apenas frio, muito frio. Há quem diga que, se Gabriel tivesse atentado para as recomendações do guia e para o significado nome do pico Saptiwa - “NÃO VÁ LÁ”, talvez ainda estivesse vivo para contar histórias e concluir o seu doutorado.

Não pretendo, aqui, entrar no mérito desta última questão. Particularmente, creio irrestritamente na soberania de Deus e que tudo, absolutamente tudo o que acontece, passa pelo planejamento e pelo crivo da Divina Providência, de modo que Deus não apenas é Sabedor (Onisciente) de todas as coisas, mas também o Ordenador (Senhor) de todas elas. Mas, como disse há pouco, não é sobre isso que eu quero dissertar (fica para uma próxima). Tampouco pretendo endossar alguma superstição pelo significado do nome do pico. Certamente, muitos já foram lá e não morreram. Quero apenas aproveitar o que aconteceu com Gabriel para ilustrar o perigo que um cristão professo corre ao não dar ouvidos ao seu “guia espiritual” (cf. Hb 13.7), quando este solenemente o alerta: “Não vá lá”!

Muitos são os casos de pessoas que estão dentro das igrejas e que se enfiam em apuros espirituais por não ouvirem seus pastores. Correm atrás das “novidades teológicas”, muitas das quais não passam de ventos de doutrinas, que as agitam de um lado para o outro. Ignoram o alerta dos seus guias de que naquela trilha que estão seguindo há uma densa neblina que obstruirá suas visões e lhes congelarão a alma. “Saptiwa, Saptiwa”, mas eles preferem ir. Por exemplo, conheço pessoas que de tanto flertarem com as falácias do Liberalismo Teológico, hoje não conseguem mais se livrar delas. O flerte virou namoro, evoluiu para noivado e acabou culminando em um casamento indissolúvel. Seus corações estão frios e vazios. Não há mais nenhum vestígio de fé. Muitos que antes eram conservadores hoje negam doutrinas fundamentais do Cristianismo, como a encarnação, a divindade e a historicidade de Cristo e a infalibilidade e inerrância das Escrituras. Muitos fazem declarações ousadas e firmes de sua própria incredulidade, revezando-se entre os púlpitos de suas congregações e as salas de aula dos seminários nos quais lecionam. No afã de alcançarem os mais altos “picos teológicos”, ultrapassaram a sã doutrina e racionalizaram a fé. Atentaram demais para a letra e se esqueceram da piedade, da devoção. Como diria Jorge Camargo, na sua belíssima música Letra Morta, “está no livro, está no templo, mas não está no coração; está no grego, está no hebraico, mas não se fez encarnação”. Por outro lado, há o tipo “liberal pós-moderno” (neoliberal), que é aquele que acredita em tudo e ao mesmo tempo em nada. Ele é inclusivo, absorve tudo o que puder, mesmo que sejam conceitos totalmente antagônicos. É defensor de uma fé líquida, e não sólida; instável, e não estável. Não traça limites entre a ortodoxia e a heresia. Para os tais defender a verdade é arrogância, e crer na exclusividade do Cristianismo é intransigência fundamentalista. Sua descrença se esconde sob a capa da piedade. Em minha opinião, esse é o tipo mais perigoso, pois arrebanha outros atrás de si com seus discursos “piedosos”. Fala em comunhão com Deus, em nome da “espiritualidade”. Busca uma transcendência sem Bíblia, e uma relevância sem doutrina. Dissemina seus ensinos por meio de livros, internet e todo tipo de mídia disponível, tendo como principais focos de ataque a natureza da igreja e a natureza de Deus, mudando a verdade de Deus em mentira (Rm 1.25), tudo sob a tutela do relativismo, pluralismo e inclusivismo pós-modernos. E o mais lamentável é que para tudo isso há um público bastante amplo, que muitas das vezes está dentro das igrejas questionando aquele “pobre e ignorante” pastor que ainda teima em crer na exclusividade do Evangelho como sendo “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Essa pessoas estão deixando o Senhor, o “manancial de águas vivas”, e cavando “cisternas rotas, que não retem as águas” (Jr 2.13); estão trocando o Soberano Deus, Criador dos céus e da terra, por uma divindade pocket, que caiba nos seus bolsos. Enveredaram-se por caminhos de morte, ao desdenharem dos constantes avisos para não irem lá.

Sei que em parte isso se explica pela decadência dos púlpitos. Muitos pastores estão tão preocupados em reforçar as cercas que acabam se esquecendo de melhorar o pasto. Há uma frenética “caça às bruxas”, enquanto que a pregação expositiva tem sido relegada a segundo plano. Esperam firmeza de suas ovelhas sem lhes dar alimento sólido. Sendo assim, o “Saptiwa” de nada servirá se o rebanho não for suprido com pastos verdejantes, nos quais as ovelhas devem encontrar prazer e descanso para suas almas. É preciso atentar para a segurança do rebanho sem, contudo, esquecer-se de alimentá-lo.

O escritor aos Hebreus nos adverte: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (Hb 13.7). Essa advertência não está aí à toa. O guia é alguém que nos orienta sobre o caminho mais seguro, e suas vidas devem nos servir de referência. Com humildade e obediência devemos nos submeter àqueles que foram ordenados por Deus para serem nossos guias espirituais. E que nossos ouvidos estejam sempre atentos quando eles insistentemente nos alertarem: “Saptiwa, Saptiwa, Saptiwa”...


Soli Deo Gloria!

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[1] Site do Fantástico.

6 de fevereiro de 2010

é impossível esquecer que sou um dos 5Calvinistas [5C]

4 de fevereiro de 2010

A leitura da Bíblia na atualidade

Originalmente publicado aqui.


A Bíblia é muito divulgada e pouco lida. Quem deseja parecer mais "crente", levanta o grande volume da capa preta e proclama em alta voz os benefícios da leitura, ou, menos, apenas adverte severamente os que não a lêem, pronunciando imprecações sobre os biblicamente iletrados.

Ao mesmo tempo, tais advertências em muitas ocasiões não passam de retórica vazia e desequilibrada. (1) Vazia porque às vezes o próprio sujeito não tem contato com a Palavra de Deus. Lembro com um sorriso no rosto do adolescente que me ouviu pregar e depois da mensagem veio com a maior cara de curioso, analisou a Bíblia que eu tinha em mãos, e soltou a pergunta fatal: "Você já leu isso tudo?". Era espantoso para ele que alguém já tivesse lido toda a Escritura.

(2) Desequilibrada porque o infeliz não está preocupado com a leitura da Bíblia enquanto relacionamento com Deus, vida com o Pai, plenitude do Espírito nos lembrando das palavras do Filho. Nada disso. O seu argumento é puramente pragmático e moralista. Reclama com quem não lê a Bíblia porque simplesmente acha que as coisas devem ser do seu jeito, e porque é assim que funciona para o carinha obter o que deseja.

A Bíblia, então, deixou de ser um fim - a Palavra de Deus - para ser um meio: um talismã, um atrativo de bênçãos, um livro de receitas sobre a prosperidade, etc., etc.

Ler a Bíblia na atualidade é encarar as percepções culturais comuns sobre a realidade, confrontando-as com o ensinamento da Palavra de Deus, e aplicando a mensagem eterna ao nosso tempo. Isto desperta e mantém o processo de formação de uma visão de mundo bíblica, que é fundamental para todo cristão.

Elementos como a pré-compreensão, a análise textual, e a aplicação devem ser cuidadosamente observados.

* * *

Em Fevereiro os 5 calvinistas pretendem levantar a discussão a respeito da Escritura. Junte-se a nós na reflexão bíblica sobre a Bíblia (o vício de linguagem é proposital).

* * *

Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve no 5 calvinistas às quintas-feiras.

3 de fevereiro de 2010

Porque Ele é quem é, eu o adoro!

SENHOR, tu me sondas e me conheces.
Sabes quando me assento e quando me levanto;
De longe penetras os meus pensamentos.
Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar
E conheces todos os meus caminhos.
Ainda a palavra me não chegou à língua,
e tu, SENHOR, já a conheces toda.
Tu me cercas por trás e por diante
E sobre mim pões a mão.
Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim:
É sobremodo elevado, não o posso atingir.

Para onde me ausentarei do teu Espírito?
Para onde fugirei da tua face?
Se subo aos céus, lá estás;
Se faço a minha cama no mais profundo abismo,
Lá estás também;
Se tomo as asas da alvorada
E me detenho nos confins dos mares,
Ainda lá me haverá de guiar a tua mão,
E a tua destra me susterá.
Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão,
E a luz ao redor de mim se fará noite,
Até as próprias trevas não te serão escuras:
As trevas e a luz são a mesma coisa.

Pois tu formaste o meu interior
Tu me teceste no seio de minha mãe.
Graças te du, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste;
As tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem;
Os meus ossos não te foram encobertos,
Quando no oculto fui formado e entretecido
Como nas profundezas da terra.
Os teus olhos me viram a substância ainda informe,
E no teu livro foram escritos todos os meus dias,
Cada um deles escrito e determinado,
Quando nem um deles havia ainda.
Que precisoso para mim, ó Deus, são os teus pensamentos!
E como é grande a soma deles!
Se os contasse, excedem os grãos de areia;
Contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim.

Tomara, ó Deus, desses cabo do perverso;
aparati-vos, pois, de mim, homens de sangue.
Eles se rebelam insidiosamente contra ti
E como teus inimigos falam malícia.
Não aborreço eu, SENHOR, os que te aborrecem?
E não abomino os que contra ti se levantam?
Aborreço-os com ódio consumado;
Para mim são inimigos de fato.
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração,
Prova-me e conhece os meus pensamentos;
Vê se há em mim algum caminho mau
E guia-me pelo caminho eterno. (Salmo 139:1-24)
Em quem eu posso realmente confiar? Talvez essa seja uma das perguntas que mais afligem os brasileiros no século XXI. Muitos não sabem se têm mais medo dos bandidos ou dos policiais. Os políticos, que deveriam ser um exemplo para a sociedade, estão no fundo do poço da credibilidade. Empresários não são confiáveis por serem ricos, mas não se confia também em muitos movimentos chamados "sociais", que dizem defender os mais pobres. Liga-se a televisão, mas não se acredita no que dizem os telejornais. Até o amor virou dúvida. Como consagrou Vinicius de Moraes, "que seja infinito enquanto dure".

Mas essa dúvida sobre em quem confiar é antiga. E uma rápida análise da vida do rei Davi mostra isso. De herói por ter derrubado o gigante, Davi foi transformado em bandido, por representar uma ameaça ao rei Saul. Quando ele foi pedir ajuda aos sacerdotes do templo, o fato foi delatado ao rei, e oitenta e cinco pessoas morreram por tê-lo auxiliado. Ele livra a cidade de Queila das mãos dos filisteus, mas os habitantes que foram salvos por ele não hesitariam em entregá-lo nas mãos de inimigos. Se fosse olhar para o próprio passado, Davi aprenderia a desconfiar de quase todas as pessoas.

No entanto, havia uma pessoa em quem Davi confiava acima de todos os outros. Ele confiava plenamente em Deus. Era o Senhor quem deveria sondá-lo, conhecê-lo e guiá-lo. Somente Ele poderia cuidar dos caminhos de Davi.

O Onisciente me conhece
E por que Davi entregava o seu destino nas mãos do Senhor? A primeira resposta é que somente Deus conhecia profundamente o coração dele.

Davi abre o salmo reconhecendo que Deus o sonda e o conhece. Constantemente Deus olha para a vida do rei e o acompanha em todas as suas ações, quer ele esteja ativo ou passivo, andando ou deitado. Mais do que isso: até mesmo os pensamentos e as palavras de Davi são transparentes para Deus, que conhece todos os caminhos de seu servo, embora ele mesmo não soubesse de todos eles, a ponto de pedir que Deus visse se ele estava ou não em algum caminho mau.

O que Davi está reconhecendo aqui é que o Senhor conhece todas as coisas, o que é chamado de onisciência. Hoje, muitas pessoas não refletem mais nesse atributo e talvez até considerem essa meditação um exercício fútil e árido de alguns teólogos. Já há pastores e teólogos que vão mais longe e negam que o Senhor conheça o futuro. Ensinam um Deus que não é mais onisciente.

Mas, se é assim, como confiar que Deus sabe o melhor para nós? Como pedir que Ele nos mostre o mau caminho de nossa vida se Ele não sabe de tudo? Talvez Ele se engane em alguma coisa...

Contudo, não era assim que Davi pensava. Ele cria que Deus sabia de tudo, que Ele conhecia a Davi melhor do que ele mesmo. Por isso, Davi adorava ao Senhor.

O Onipresente está onde eu estou
Mas o Senhor não era apenas aquele que conhecia a Davi. Ele também o acompanhava, mesmo quando a última companhia desejada por Davi era a do Deus Vivo.

Não há como escapar do Senhor. A face de Deus e a presença do Espírito Santo estão em todos os lugares. Podemos subir ao céu ou descer aos abismos, ir até o Sol ou fugir para o meio dos oceanos, buscá-Lo na luz ou refugiar-se nas trevas. Deus continua a cercar-nos por trás e por diante, a mão d'Ele está posta sobre os Seus escolhidos, a quem Ele guia e sustenta o tempo todo, quer percebamos, quer não.

Na sociedade do século XXI, onde temos várias formas de nos comunicarmos com outras pessoas, a solidão e o isolamento continuam a afligir milhões. De fato, muitos se sentem jogados no mais fundo abismo, mesmo morando em um prédio de 20 andares e mais de 100 apartamentos ocupados. Para estes, Davi diz que o Senhor está perto, sendo a nossa companhia o tempo todo.

Por outro lado, muitos se levantam contra Deus e querem fugir dele. Correm de igrejas, rasgam Bíblias e evitam qualquer religioso que possa mencionar o nome de Deus. Para estes, Davi diz que é impossível fugir do Senhor e que nem mesmo o pecado pode mantê-Lo longe de seus escolhidos.

Porque o Senhor está em todo lugar, Ele está sempre comigo, me guiando e sustentando. Essa é a música do rei salmista. E, por isso, Davi adora ao Senhor.

O Onipotente dirige os meus passos
Deus conhece o coração dos homens e está sempre do lado deles. Mas, mais do que isso: Deus escreve, soberanamente, o destino das pessoas e intervêm em suas vidas. E, por isso, Davi o adora.

Ao contrário do homem contemporâneo, que se pretende senhor de seu destino e ignora a Deus em suas decisões, Davi reconhece, desde o início, que sua origem é divina. Foi o Senhor quem o formou, quem fez da substância informe um ser humano completo. Mais: antes do nascimento de Davi, Deus já havia escrito e determinado todos os seus dias. O Senhor, com as suas mãos, fez a Davi e escreveu o seu destino.

Porém, os seres humanos não reconhecem mais o trabalho de Deus na vida dos seres humanos. Mães abortam, imaginando que o fruto de seu ventre não é vida, que os embriões crescem apenas sugando a força do corpo materno e ignorando o trabalho de Deus. Os homens rejeitam a ideia de que Deus tenha escrito como deve ser as suas vidas, e num ato de "independência" se proclamam senhores de seus próprios destinos. E assim, se transformam nos homens perversos e rebeldes que Davi odeia. Tornam-se inimigos de Deus e inimigos de Seus filhos.

Davi, porém, cria no Deus Soberano e O servia. Ao proclamar como ele dependia de Deus e reconhecer o Seu poder de determinar o curso de sua existência, Davi proclamava servir a um Deus Onipotente, que pode todas as coisas, o Todo-Poderoso. E, por isso, ele pedia não só que o Senhor o conhecesse e provasse, mas também que o guiasse pelo caminho eterno. Suplicava que Deus interviesse em Sua vida para guiá-Lo pelo bom caminho.

Conclusão
Reconhecer que Deus é o Onisiciente, o Onipresente e o Onipotente não é um capricho de teólogos, um exercício mental vazio e estéril, sem relevância para o homem comum. Na verdade, meditar nessas verdades é reconhecer que precisamos de Deus, é enxergar que Ele é digno de nossa confiança, é perceber que nossa vida deve ser depositada em Suas mãos santas, pois somos incapazes de cuidar bem dela com nossas mãos frágeis e impuras.

Os verdadeiros cristãos adoram a Deus não apenas porque Ele nos faz o bem, mas acima de tudo porque olhamos para quem Ele é. E ao olharmos para a essência de Deus, aí sim começamos a entender as Suas obras e percebemos que n'Ele podemos confiar.

Soli Deo Gloria!

P.S: Peço perdão pelo "furo" das últimas quartas. É que alguns dos 5 Calvinistas estão correndo bastante nesse início de ano. E peço, desde já, orações pelas nossas vidas e por esses projetos. Obrigado!

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no 5 Calvinistas.

29 de janeiro de 2010

De “mistérios” e mistérios!

Mais uma viagem a trabalho. Mais uma postagem da série “era uma vez no meu blog”…

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Entre nós, reformados, há aqueles que, diante de alguns paradoxos do cristianismo, cedem imediatamente ao mistério. Não que não pensem nestes mistérios, pois certamente se maravilham com eles. Nem que o ceder seja exatamente um erro. Porém, aqueles que se colocaram na estrada em que a razão redimida é guiada pelo Senhor, mesmo que se sintam satisfeitos com a distância percorrida, perdem a melhor parte se ficam pelo caminho.

É o que ocorre, por exemplo, quando se debate a questão soberania de Deus versus livre-arbítrio humano. Muitos (e eu diria que é uma maioria significativa) vêem o mistério desde a simples menção do debate, afirmando que são verdades bíblicas a soberania divina e a liberdade humana. Outros se arriscam a tentar desvendar o mistério e começam a questionar sobre ele. Faço parte deste último grupo e, embora algo do mistério permaneça, ele é bem menos misterioso para mim! Pelo menos no sentido em que é comumente apresentado.

Para tentar demonstrar isso, isto é, que o mistério não é assim tão grande para mim, retomo e amplio uma reflexão já feita na série em que tratei a questão soberania de Deus versus livre-arbítrio humano (Soberania, liberdade e responsabilidade, Soberania, liberdade e responsabilidade: esclarecimentos e A responsabilidade), situando-a na discussão entre calvinismo e arminianismo, pois isso me ajudará a definir minha posição.

A posição arminiana afirma que só há responsabilidade se houver liberdade. E que só há liberdade se Deus limitar Sua soberania. Esta liberdade significa, portanto, uma autonomia, uma vontade livre ou, ainda mais propriamente, uma vontade autônoma. É importante fazer este desmembramento, pois, sobre o que foi discutido anteriormente, quero incluir a vontade. Assim, ficamos com os termos: Soberania (S), autonomia ou liberdade (A), vontade (V) e responsabilidade (R).

Continuando na posição arminiana, é claro que eles afirmam que para que haja autonomia, é necessário que haja vontade. Porém, não há identidade entre elas, isto é, embora a autonomia implique em vontade, a vontade não implica em autonomia. Além do foco, do ponto de partida, esta é a confusão que subjaz a todo pensamento que exige livre-arbítrio. Assim, partindo do homem, para que ele seja responsável, exige-se uma vontade livre e ao se exigir autonomia, exige-se limitação da soberania, ou seja, uma não soberania. Ele, o arminiano afirma: A^V^R^¬S.

Seu pensamento está coerente? Sim, está! Pelo menos até aqui. Pois, nesta discussão, apenas até este ponto, seu problema não é tanto lógico. É axiomático. Seu pressuposto fundamental é a liberdade humana e, para preservá-la, limita seu deus. Interessante notar que, quanto ao homem, apenas um ser absoluto poderia ser absolutamente livre. Não sendo o homem absoluto, uma liberdade sua que o seja é absurda! E quanto ao deus de seus pensamentos, este não é o Deus das Escrituras, pois este Se apresenta absolutamente soberano. Mas não é apenas quanto à soberania que este deus é menor que Deus. Pois, para que se limite, é necessário que mude. Exceto na Pessoa de Jesus, enquanto homem, não em Sua divindade, Deus é imutável! Não sendo imutável, em que atributo Seu Ele se manteria Absoluto? Não, este não é Deus, pois Deus é absolutamente Absoluto! Creio que explico melhor isto pelo que disse em outro lugar (De um deus menor que Deus):

Não entendo Deus como limitando a Si mesmo em qualquer de Seus atributos. Porém Ele limita-se em Si mesmo, isto é, Ele não contraria Sua própria natureza. E Sua natureza é ser necessário, eterno, infinito, ilimitado e absoluto. Sem esquecer que Ele é o Logos, a Origem e o Fim de tudo que é criado. É assim que Ele Se revela, e é assim que a razão pode pensá-lO.

Por exemplo, é da natureza de Deus ser justo. Assim, Ele, por Sua natureza, não pode ser injusto. Seu atributo de justiça, entretanto, é necessariamente eterno, infinito, ilimitado e absoluto como o é o próprio Deus. Deus é amoroso, e é impossível a Ele não ser amoroso. E Seu amor é necessariamente eterno, infinito, ilimitado e absoluto como Ele mesmo o é. Assim segue com cada e todo atributo divino!

Fico ainda a pensar em Anselmo e seu argumento ontológico. Se Deus é aquele de quem não se pode pensar algo maior, o deus arminiano nunca poderia ser o Deus do argumento. Pois um Deus que fosse absolutamente soberano é certamente maior que um deus que é limitado neste atributo de Seu Ser. Ora, mas é ele mesmo quem se limita em sua soberania, protestaria o arminiano. E acrescentaria: Ele é soberanamente não soberano! À parte da contradição, mesmo que um deus auto limitado seja potencialmente absoluto, este é menor que o Deus Absoluto em ato. Assim, Anselmo ficaria, muito provavelmente, escandalizado! De todo modo, as Escrituras, e não Anselmo, é que bastam para dizer quem Deus é. Pois elas são a Revelação que o Eterno faz de Si mesmo! E nelas Ele se apresenta como absolutamente soberano!

O calvinista, portanto, parte do pressuposto das Escrituras, do Deus Absoluto em todos os Seus atributos. Para ele, Deus não é limitado em nada em Sua soberania. Mas o que pensa ele da liberdade humana? Se cede simplesmente ao mistério, a liberdade, embora circunscrita ao desígnio divino, não-autônoma, é algo verdadeira. Ao pensar sobre o assunto, adentrando no mistério, irá adotar um conceito de liberdade numa gradação desde essa mesmo que o mistério apresenta, que já é algo limitada, até não aceitar liberdade alguma. A seguir eu apresento como minha mente trilha este caminho...

Não há dúvida que a soberania divina implica em uma vontade humana não-livre, não-autônoma. Mas não implica em uma não-vontade. Ademais, as Escrituras apresentam o homem como um ser volitivo. Assim, podemos de imediato afirmar: S^V^¬A. Aquela distinção de Calvino entre necessidade e constrangimento mencionada no segundo dos artigos anteriores é novamente útil para entender isso. Neste sentido, eu prefiro falar em termos de um agir necessário (¬A) e voluntário (V, que é o “não-constrangimento” de Calvino).

Mas e a responsabilidade? Ora, novamente de acordo com as Escrituras, somos responsáveis pelo que somos, refletindo naquilo que pensamos e fazemos. A alguns isto basta, e a responsabilidade é posta diretamente sobre o desígnio divino, sobre a soberania. Eu posso aceitar este argumento. Porém, ainda creio haver um papel importante da vontade. Este agir não constrangido, voluntário, bem pode colocar os homens racionalmente nus, indesculpáveis diante de Deus:

Tudo o que o homem caído é e quer e faz vai contra este propósito [doxológico], pela simples razão de ele ser o que é. Negar sua responsabilidade dizendo que não é, não quer e não faz não poderá lhe ajudar em nada. Ele nem mesmo poderá dizer isso de si mesmo sem que sua consciência o acuse! (de: A responsabilidade)

De todo modo, a vontade é determinada pela natureza e esta é determinada por Deus, soberanamente (o óbvio aspecto necessário da vontade). Assim, em última instância, e de acordo com as afirmações bíblicas, de onde tiramos nossos pressupostos, temos a soberania a determinar vontade e responsabilidade, sendo contraditória apenas em relação à liberdade: S^V^R^¬A.

Bem, isto tudo, para mim, faz do mistério algo bem menor do que parecia a princípio. Mas isso significa que não há mistério algum? Longe disso! Por um lado, as relações entre soberania, vontade, responsabilidade e liberdade estão equacionadas em minha mente de uma forma que considero satisfatória. Por outro lado, porém, a vontade sozinha me leva a um mistério que em nada minha mente soluciona: como nossa vontade pode ser absolutamente controlada e ainda ser nossa?

Não se deixe enganar. A questão é formulada de modo semelhante, mas não é igual à inicial, pois, como vimos, temos as relações estabelecidas. A questão aqui é aquela proposta pela dama verde de Lewis em Perelandra:

Pensava - disse ela, que era transportada pela vontade daquele que amo, mas agora vejo que caminho com ela. Pensava que as coisas boas que Ele me enviou me arrastavam para dentro delas como as ondas levantam as ilhas; mas agora vejo que sou eu quem nelas mergulha, pelas minhas próprias pernas e braços, como quando vou nadar. Sinto como se estivesse a viver nesse teu mundo sem teto por cima, onde os homens caminham indefesos sob o céu nu. E o encanto com terror também. O nosso próprio ser a caminhar de um bem para outro, andando ao lado d'Ele como Ele Próprio andaria, sem mesmo dar as mãos. Como é que Ele me fez tão apartada d'Ele? Como é que entrou no Seu espírito conceber tal coisa? O mundo é tão mais vasto do que eu pensava. Pensava que nós seguíamos caminhos já feitos, mas parece que não os há. O nosso ir faz o caminho. (LEWIS, C.S. Perelandra. Mem Martins: Publicações Europa-América)

Embora alguns possam ver uma contradição compatibilista em minha citação de Lewis (e eu assentiria, em parte), prefiro me concentrar no essencial: somos absolutamente dependentes ao mesmo tempo em que somos totalmente distintos dEle! Isto sim é um mistério a me maravilhar, em encanto com terror!

SOLI DEO GLORIA!

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PS: Devo esta postagem em muito a uma conversa que tive com meu irmão, amigo e confrade do 5 Calvinistas Helder Nozima. Alguns comentários feitos e trocados alhures também me ajudaram em alguns pontos.

Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve, sempre que consegue, às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

 

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