30 de novembro de 2009

E Asafe quase caiu – Sl 73

"Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória"

Asafe era diretor de música nos dias de Davi e Salomão. Crente no Senhor, compôs 12 hinos que passaram a fazer parte dos Salmos. Da sua experiência com o Senhor, podia dizer "com efeito, Deus é bom" (v.1). Porém, durante uma fase de sua caminhada com o Senhor, enfrentou uma crise espiritual muito grande, a ponto de declarar "quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos" (v.2). Como Asafe, você pode estar vivendo momentos de dúvidas e quem sabe até tenha pensado em se afastar dos caminhos do Senhor. Vendo o que levou esse levita à beira do precipício e como ele saiu de sua crise espiritual, você descobrirá que mesmo em meio a lutas, vale a pena servir ao Senhor.

Comecemos com os motivos que quase levaram Asafe à descrença.

I. ASAFE OLHOU PARA O HOMEM

O erro de Asafe foi deixar de olhar para o Senhor para analisar o que acontecia com as pessoas à sua volta. Ao fixar os olhos na experiência dos homens, tirou conclusões que o levaram para muito perto da apostasia.

1. Asafe invejou os descrentes, (v.3-12)

O próprio Asafe confessa que "invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos" (v.3). O que ele viu nos seus dias é a mesma coisa que você vê ao reparar no estilo de vida dos descrentes de hoje. Os descrentes viviam sem preocupações com doenças, "o seu corpo é sadio e nédio" (v.4). Além disso, "não são afligidos" (v.5). A conseqüência dessa vida despreocupada é "a soberba que os cinge como um colar, e a violência que os envolve como manto" (v.6). Chegam a blasfemar, "contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra" (v.9). Asafe também notou que os descrentes geralmente são pessoas populares. Quanto mais ímpios forem, mais "o seu povo se volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos" (v.10). Ao invés de serem castigados, os descrentes, estão "sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas" (v.12). Isso deixava Asafe arrasado.

Mas então, ele volta sua atenção para os crentes. E o que ele percebeu, não o fez sentir-se melhor.

2. Asafe lamentou a sorte dos crentes (v.13-14)

Olhando para si mesmo, ele concluiu tristemente que "inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência" (v.13). A sua avaliação era de que a santidade não compensava, pois apesar de manter-se fiel "de contínuo sou afligido e cada manhã, castigado" (v.14). Talvez você tenha chegado à mesma conclusão de Asafe, de que enquanto os descrentes prosperam no mundo, os crentes vivem uma vida de aflição. Quem sabe você concorda que quanto mais se consagra, mais dificuldades enfrenta.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que você e Asafe não estão sozinhos. Cada um em seu tempo, tanto Jó, Davi, Isaías, Jeremias, Habacuque, Paulo como muitos outros observaram que poucos ricos serviam a Deus e no entanto pareciam prosperar cada vez mais. Enquanto que os crentes eram, nas palavras de Paulo, a "escória do mundo". Cada uma dessas pessoas reagiram a seu modo diante disso. A reação de Asafe quase o levou para longe da fé. E a sua? Qual a sua reação diante da prosperidade dos descrentes e do seu sofrimento?

II. ASAFE TORNOU-SE AMARGURADO

A reação de Asafe, como dissemos, quase o levou para fora do arraial da fé. Ele se tornou um crente amargurado com o que via à sua volta e dentro de si.

1. Não conseguia compreender, (v.16)

Primeiro, ele não conseguia compreender como as pessoas descrentes viviam melhores que os crentes. Nas suas palavras, "em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim" (v.16). Quanto mais pensava sobre o assunto, mais angustiado ficava. Como poderia um Deus justo deixar impune o perverso e diariamente submeter os crentes a uma disciplina rígida? Isso não entrava na cabeça de Asafe.

2. Não conseguia falar (v.15)

Como um líder na congregação, Asafe não podia compartilhar suas dúvidas com seus companheiros, pois poderia semear a dúvida em seus corações. Aquilo que esmagava o seu coração não podia ser divido com outros, que poderiam desviar-se. Asafe até pensava em se abrir com alguém, mas então pensava que isso seria trair a fé de seus irmãos. Dizia ele, "se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos" (v.15). É bom destacar que a atitude de Asafe foi louvável, pois visava poupar a fé de irmãos mais fracos. Porém, ao se calar, foi cada vez mais consumido pela dúvida.

3. Não conseguia aceitar (v.21-22)

Asafe não conseguia aceitar em seu coração essa situação. A amargura invadiu a sua alma. Mais tarde ele descreveria a sua situação nas seguintes palavras "quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença" (v.21-22). Você já veio alguma vez ao culto e de tão angustiado não conseguiu sentir a presença de Deus? Ao invés de prestar atenção ao que era ministrado, ficava remoendo sua situação? Então você entende como Asafe se sentia. Ele estava se tornando insensível às coisas de Deus.

Mas então aconteceu algo que o tirou da situação em que se encontrava. Preste atenção, pois é isso que precisa acontecer com você, para que todas as dúvidas se dissipem e você possa se regozijar na presença de Deus.

III. ASAFE ENTROU NA PRESENÇA DE DEUS

Até quando durou a crise espiritual de Asafe? Ele nos responde: "até que entrei no santuário de Deus" (v.17). Como ministro do louvor, é certo que ele estava sempre no templo. Porém, dessa vez, ele realmente se colocou diante de Deus. Ao invés de ficar olhando para o estilo de vida dos ímpios, olhou para o Senhor. Ao invés de procurar uma explicação racional para seu sofrimento dentro de si, voltou sua atenção para o seu Deus, e então as coisas se desanuviaram. Não é comparando a vida do descrente com a vida do crente que você encontrará as explicações que procura, mas colocando-se aos pés do Senhor, para aprender de Suas palavras.

1. Compreendeu o fim dos descrentes, (v.17-20; 27)

Após entrar no santuário, Asafe disse "atinei com o fim deles" (.v17), referindo-se aos descrentes. Até então, Asafe tinha reparado apenas na situação presente dos ímpios, mas agora o Senhor lhe mostrava o fim deles. Aparentemente seguros, na verdade os ímpios viviam sob um perigo mortal, pois "Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição" (v.18). Deus não os deixará impunes em sua iniquidade, mas "ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!" (v.19). Embora a sua prosperidade pareça nunca acabar "como ao sonho, quando se acorda, assim, ó Senhor, ao despertares, desprezarás a imagem deles" (v.20). Deus não esqueceu nem relevou a maldade dos ímpios, mas os está reservando para o dia do juízo, quando então terão a retribuição de sua maldade. Asafe comprendeu então que a longanimidade do Senhor não deve ser confundida com injustiça, pois "os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo" (v.27)

2. Descobriu a segurança dos crentes, (v.23-26; 28)

Porém, a maior descoberta de Asafe não foi saber como os ímpios acabam, mas como os justos permanecem para sempre. Ele lembrou-se de algo que só o crente pode dizer: "todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita" (v.23). Em meio ao sofrimento, o crente não está sozinho nem desamparado. Na estrada íngrime da fé, só o crente pode dizer "Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória" (.24). Ao pensar nessas verdades, Asafe só podia exclamar "quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra" (v.25). Ah! meu irmão, Deus te basta! O Senhor te é suficiente! Se você tem Deus no céu e se deleita dele na terra, então nem a maior prosperidade dos ímpios nem o maior sofrimento irá te tirar a alegria da salvação! O segredo que Asafe descobriu é que "ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (v.26).

O que é melhor, possuir todas as riquezas do mundo ou viver na presença de Deus? Depois de encontrar-se com Deus no santuário, Asafe não teve mais dúvidas: "quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Senhor Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos" (v.28). Você trocaria uma vida na presença de Deus e uma eternidade na glória por prosperidade material na terra e uma eternidade no inferno? Tenho certeza que não, logo, não há motivo para você duvidar da bondade de Deus e menos ainda para invejar a sorte dos que seguem a maldade.

CONCLUSÃO

Agora eu preciso falar de uma coisa muito séria. O que Asafe fez foi muito grave, pois quase o mergulhou na descrença. Mas foi ainda mais grave porque colocou em dúvida a bondade e a justiça de Deus. Se você, como ele, pensa que Deus age de forma errada ao permitir que os ímpios prosperem enquanto os crentes são afligidos, também pecou contra o Pai. Por isso, precisa pedir perdão ao Senhor. Faça isso agora. E na mesma oração, confesse a Deus que Ele é teu socorro no céu e alegria na terra, e que tendo Ele em sua vida, nada lhe fará falta. Oremos a Deus.

Soli Deo Gloria

(Sermão pregado na Igreja O Brasil Para Cristo)

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

27 de novembro de 2009

Sobre o amor de Deus: citando C.S. Lewis

Eu não sou muito ligado em datas ou eventos. Mas o Allen não me deixa esquecer! Ele diz que esta é a Semana C.S. Lewis (semana comemorada de 22 a 29 de novembro de cada ano). Lewis é um de meus autores preferidos. Gosto não só das Crônicas de Nárnia, que já li e reli diversas vezes, mas também de sua trilogia espacial (bem, só não gosto muito do terceiro livro da série) e de várias de suas obras não ficcionais, incluindo sua autobiografia, Surpreendido pela Alegria e outros clássicos seus, tais como Cristianismo puro e simples.

Clive Staples Lewis, também conhecido como simplesmente Jack, foi um escritor irlandês. Cresceu em lar cristão, mas cedo se afastou da fé. Sua história desde a descrença até sua relutante conversão é inspiradora e, após sua redenção, Jack se tornou um grande apologista. São várias as suas obras e, como diz o próprio Allen: “Se você ainda não leu algo de C.S. Lewis, não sabe o que está perdendo…” Lewis nasceu em 29 de novembro de 1898 e faleceu a 22 de novembro de 1963.

Aproveitando a Semana C.S. Lewis (e já que o tempo não me permitirá publicar o que pretendo), vale republicar no 5 Calvinistas uma postagem do meu blog. Não é só que o tema é bom. Não é só que é um belo devocional. É que ao citar Jack, quem sabe o leitor por aqui, que ainda não conheça Lewis, ou que não conheça os livros citados, quem sabe ele não fique estimulado a buscar a leitura dos originais!

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Sobre o amor de Deus: citando C.S. Lewis

Muitos afirmam que o termo religião, vem de religare, religar. De fato, a religião é geralmente a tentativa do homem de um retorno, um reencontro com o divino. É uma busca do homem pela divindade. O Cristianismo inverte essa lógica e apresenta um Deus em busca do homem. E as Escrituras apresentam uma linguagem muitas vezes dramática dessa busca de Deus. Deus é apresentado como em uma paixão incontida, como em um desejo profundo e por vezes desesperado. É claro que essa paixão é difícil de se pensar em um Ser que é Eterno e Imutável. Mas essa linguagem antropomórfica se justifica para que entendamos como o Deus pessoal da Revelação nos ama de forma incondicional.

cs-lewisC.S. Lewis aponta magistralmente para esse amor em seu livro O problema do sofrimento, no capítulo sobre a bondade de Deus. Ele cita certas passagens bíblicas que demonstram essa paixão do Criador. Diz ele: “O Impassível fala como se sentisse paixão, e aquilo que contém em si mesmo a causa de sua própria e de outras bênçãos, fala como se pudesse sentir-se carente e ansioso. ‘Não é Efraim meu precioso filho? filho das minhas delícias? pois tantas vezes quantas falo contra ele, tantas vezes ternamente me lembro dele; comove-se por ele o meu coração’ (Jr 31.20). ‘Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Meu coração está comovido dentro em mim’ (Os 11.8). ‘Oh, Jerusalém, quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!’ (MT 23.37)”. Mas Jack reconhece que “Deus não tem necessidades”. Mesmo assim, “Deus é Bondade”.

Então Lewis, com sua habitual excelência em trabalhar com as palavras, passa a nos mostrar como o amor de Deus é incondicional. Diz ele: “Ele (Deus) pode conceder o bem, mas não pode necessitá-lo ou obtê-lo. Nesse sentido todo o Seu amor é infinitamente desprendido pela sua própria definição; ele tem tudo a dar e nada a receber. Assim sendo, se Deus fala algumas vezes como se o Impassível pudesse sofrer paixão e a Plenitude Eterna pudesse ter qualquer carência, e carência daqueles seres a quem concede tudo desde a sua simples existência, isto só pode significar, caso signifique algo inteligível para nós, que o Deus do milagre tornou-se capaz de sentir tal anseio e criar em Si mesmo aquilo que nós podemos satisfazer. Se Ele nos quer, esse desejo é de sua própria escolha. Se o coração imutável pode ser entristecido pelas marionetes que Ele mesmo fez, foi a Onipotência Divina, e nada mais, que assim se sujeitou, voluntariamente, e com uma humildade que excede todo entendimento”.

Confirmando a inversão cristã Lewis ainda afirma que “o mundo não existe principalmente para que possamos amar a Deus, mas para que Ele possa amar-nos”. “Nossa mais elevada atividade deve ser a resposta, e não a iniciativa. Experimentar o amor de Deus de forma verdadeira e não ilusória, portanto, é experimentá-lo como nossa rendição à Sua exigência, nossa conformidade ao Seu desejo”. “Antes e por trás de todas as relações entre Deus e o homem, como agora aprendemos no Cristianismo, abre-se o abismo do ato divino do puro dar - a eleição do homem, do nada, para ser o amado de Deus”! A eleição do homem para ser o amado de Deus! Deus nos chama para sermos amados por Ele! “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou” (I Jo 4.10a). Eu não tenho palavras para demonstrar aquilo que sinto ao pensar nesta maravilha.

E talvez maravilha seja a palavra certa. Novamente C.S. Lewis me socorre com suas Crônicas de Nárnia. No dia de Aslam, um extasiado calormano chamado Emeth narra aos narnianos seu encontro definitivo com a Presença. Recém redimido e ainda constrangido pela Verdade, ele se confessa a Aslam e ouve como resposta: “‘Amado’, falou o glorioso ser, ‘não fora o teu anseio por mim, não terias aspirado tão intensamente, nem por tanto tempo. Pois todos encontram o que realmente procuram’”. E assim Emeth termina sua narração: “Depois ele soprou sobre mim e fez cessar todo o tremor do meu corpo, firmando-me outra vez sobre os meus pés. Após isso, não disse mais muita coisa, a não ser que voltaríamos a nos encontrar e que eu deveria seguir sempre para frente e sempre para cima. Então voltou-se como uma tempestuosa rajada de ouro e subitamente desapareceu. E desde então, ó reis e damas, ando perambulando à procura dele, e minha felicidade é tão imensa que até me enfraquece como uma ferida. E a maravilha das maravilhas é ter ele me chamado de amado - a mim, que não passo de um cão...”. “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

E a maravilha das maravilhas é ter ele me chamado de amado!

Soli Deo Gloria!

Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

26 de novembro de 2009

Que é o calvinismo? [3]

3. O calvinismo é uma forma de ver Deus

As últimas três proposições poderiam tranqüilamente ser conjugadas em uma frase: “O calvinismo é uma forma de ver Deus, o homem, e o mundo”. Para efeitos de uma análise mais cautelosa, contudo, é razoável tratar os três itens separadamente.

O calvinismo é uma forma de ver Deus. Há uma perspectiva própria a respeito da Divindade entre aqueles que pensam a partir da visão reformada. Os atributos – as qualidades – que a Escritura confere ao Senhor, são profundamente considerados e percebidos em sua extensão e implicações.

O calvinista compreende que não é possível limitar o Criador diante das criaturas, por isso as Suas características sempre determinam o tom da relação entre ambos. Trocando em miúdos: o amor de Deus não depende dos seres amados, a graça Divina não depende dos agraciados, e assim por diante.

Muitas expressões dentro do ramo evangélico buscam reduzir a visão sobre Deus diante da necessidade de valorizar o homem. Há quem fale do amor do Pai pela humanidade com base na “beleza” do ser humano – ou pior: na “inocência”. Há quem decida analisar a justiça de Deus a partir das suas impressões sobre o que é correto.

Essas manifestações resultam em alguma perda no relacionamento com o Senhor. Quando a justiça de Deus é avaliada conforme as impressões humanas, por exemplo, é questionada a idéia de que Deus pode abençoar a alguns e não a outros.

Seguindo esta linha, o Criador tem Seu poder de atuação e Seu caráter “restringido”pelas criaturas. Para o calvinismo, porém, não cabe ao ser criado avaliar o Senhor. A ele, basta reconhecer quem Deus é com base na Escritura. Se a Bíblia afirma a justiça de Deus, e apresenta a verdade de que Ele abençoa a uns e não a outros, o reformado aceita esta apresentação como legítima, e vê nisto mais uma motivação para adorar ao Todo-Poderoso.

Qualidades como a Soberania, a Majestade, a Justiça e o Amor, são melhor compreendidas em um sistema que permita tais atributos “falarem por si". O calvinismo é esta perspectiva.

As implicações disto para a práxis reformada são incontáveis. Se existe uma percepção de um “Deus ilimitado”, então Ele tem a autoridade absoluta sobre o todo da vida humana. Se a soberania de Deus é considerada com verdadeira seriedade, sem restrições, então cabe ao calvinista viver em obediência e submissão ao Deus soberano. Se o controle absoluto do Pai sobre o universo é percebido em sua inteireza, então o reformado confiará na Providência, e reconhecerá que nada acontece fora dos planos Divinos.

Como conseqüência desta perspectiva, existe verdadeiro incentivo à evangelização, à santidade, e à adoração.

O calvinista exalta um Deus verdadeiramente digno de ser exaltado. Ele adora o Senhor de todas as coisas. Prostra-se diante daquele Ser reconhecido pela natureza inanimada (Sl.19).

Existe um Deus com “d” maiúsculo no calvinismo.

Quer ler mais sobre esta proposição?
CALVINO, João. A instituição da religião cristã, tomo 1, livros I e II. São Paulo: Editora UNESP, 2008.
SPROUL, R. C. A invisível mão de Deus: todas as coisas realmente cooperam para o bem? 2. ed. São Paulo: Bompastor, 2006.
HORTON, Michael S. Creio: redescobrindo o alicerce espiritual. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 25-50.
BOICE, James Montgomery. O evangelho da graça: a aventura de restaurar a vitalidade da igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo: cultura cristã, 2003.p.143-162.
MACHEN, J. Grescham. Cristianismo e Liberalismo. São Paulo: Os Puritanos, 2001. p.61-74.
PACKER, J. I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Fiel, 1994. p.39-50.
PIPER, John. Teologia da Alegria: a plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd Publicações, 2001. p.20-39.


Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve às quintas-feiras no 5 calvinistas.

25 de novembro de 2009

Bíblia e Predestinação [2] - O Objetivo da História e da Criação

No post anterior desta série, usamos os atributos de Deus como ponto de partida para o estudo da base bíblica da predestinação. Vimos que Deus é Todo-Poderoso, que Ele governa ativamente a criação e que o centro da Bíblia e da História é a glória d'Ele, e não a felicidade do homem.

Mas, se o objetivo supremo de Deus não é promover a felicidade ou realizar os desejos humanos, uma pergunta precisa ser respondida. Por que Deus criou o mundo? Quais os objetivos de Deus na História?

O objetivo supremo: a glória d'Ele
Sei que esse ponto já foi tratado anteriormente. Mas, exatamente por se tratar do tema central da Bíblia, ele precisa ser repetido várias e várias vezes.

Deus não criou o universo e o ser humano por precisar de nosso amor, afeto ou de alguma coisa para sobreviver. Isso é dito claramente no Salmo 50:
Se eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é meu e quanto nele se contém. Acaso, como eu carne de touros? Ou bebo sangue de cabritos? (Salmo 50:12-13)
Portanto, Deus sobrevive muito bem sem a criação. Contudo, a criação foi feita porque ela maximiza a glória de Deus. O simples fato da existência do Universo já aumenta a glória divina:
Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. (Salmo 19:1)
Fazendo uma analogia, uma mulher bonita é bela por si só. Mas, se ela usa um enfeite no cabelo ou faz uma maquiagem, essa beleza é realçada. Deus é glorioso por Si só. Mas a criação é como um adorno que aumenta ainda mais essa glória.

Cristo: o ápice da glória de Deus
Mas o auge da glória divina não é a criação do mundo, e sim a morte e ressurreição de Jesus Cristo, o verdadeiro ponto máximo da História e da glória divinas. Isso pode ser indicado, por exemplo, na resposta à seguinte pergunta: qual o momento mais importante do tempo?

A tendência popular é considerar a segunda vinda de Jesus. Se pudéssemos representar graficamente, a maioria de nós pensa que o melhor dos tempos era o da criação, seguido por um período de baixa até a crucificação e ressurreição de Cristo, entrando aí em uma curva ascendente até o Apocalipse, quando então voltamos ao melhor dos tempos.

Mas, segundo a Bíblia, o ponto focal do tempo é, exatamente, a primeira vinda de Jesus:
vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. (Gálatas 4:4-5)
Não é na criação, mas sim na morte e na ressurreição, no fato de Cristo salvar o mundo e se tornar o cabeça da Igreja que Jesus atinge toda a plenitude:
Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. (Colossenses 1:15-20)
A plenitude não é completada apenas no fato de Cristo ser o Criador e Sustentador de todas as coisas. Ela só é atingida quando todas as coisas são reconciliadas em Cristo, e isso acontece quando a paz é feita na cruz. Esse é o grande mistério da vontade de Deus e o objetivo último da predestinação:
desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra; nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo... (Efésios 1:9-12)
Ao contrário do que imaginamos, o mistério da vontade de Deus foi desvendado. Segundo a Bíblia:

- A vontade de Deus é de acordo com o beneplácito (consentimento, aprovação) proposto em Cristo;
- Esse beneplácito (logo, essa vontade) é o de que, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas convirjam para Cristo. Essa dispensação começou na primeira vinda de Cristo e terminará na segunda;
- A predestinação é segundo o propósito de Deus, que faz tudo segundo o conselho de Sua vontade;
- O objetivo da predestinação é o de que sejamos para louvor da glória de Deus.

A conclusão lógica da análise é a seguinte: o mistério da vontade de Deus é o de que Ele quer que tudo convirja para Cristo. Esse é o centro da vontade de Deus, a razão pela qual tudo foi criado, o objetivo máximo da História, o alvo final dos decretos divinos.

Tudo o que existe e foi decretado, incluindo-se aí até mesmo o mal e os pecados, existe para maximizar a glória divina. E essa glória só é maximizada com a morte, ressurreição e glorificação de Cristo.

Por esta razão, a queda do homem e dos demônios, a entrada do pecado no mundo, tudo foi decretado por Deus para que esse objetivo fosse atingido. É por essa ótica que toda a História deve ser entendida.

A necessidade dos dois vasos
E agora é preciso recuperar duas idéias que já apresentei aqui. A mais recente é a de que a predestinação faz parte do projeto de Deus para atingir o objetivo máximo de fazer com que tudo convirja para Cristo. Isso pode ser visto na releitura de Efésios 1:3-14, com ênfase nos versículos 9 a 12. A outra, apresentada no primeiro post, é a de que Deus não restringe o uso de Seus atributos, mas que Ele os expressa a todos.

Há, portanto, duas necessidades lógicas aqui:

- A predestinação é necessária para a glorificação máxima de Deus;
- A exibição de todos os atributos é necessária para a glorificação máxima de Deus.

E Deus é amor, mas também é justiça. Nas palavras de Paulo, bondade e severidade:
Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado. (Romanos 11:21)
Alguns passos que precisamos dar:

1) Deus considerou que reconciliar todas as coisas traria mais glória a Ele do que criar algo que nunca precisasse de reconciliação;
2) Por isso, determinou que o alvo máximo da História, o mistério da vontade de Deus era o de que tudo convergiria para Cristo e que em Cristo todas as coisas seriam reconciliadas;
3) Todos os atributos de Deus devem ser exibidos, e Deus é bom e justo;
4) Se todos forem salvos, a bondade e o amor de Deus são mostrados, mas não a Sua justiça e ira;
5) Se todos forem condenados, a ira e justiça divinas são mostradas, mas não o Seu amor e bondade.

A solução: Cristo não poderia salvar a todos. Alguns homens seriam salvos e outros, condenados. Deus precisava criar dois tipos de homens: os eleitos para a salvação e os eleitos para a perdição. Os vasos de ira e os de misericórdia:
Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? (Romanos 9:22-24)
Repare que aqui Paulo dá as razões pelas quais uns são "vasos de misericórdia" e outros "vasos de ira":

1) Deus queria mostrar a Sua ira;
2) Deus queria mostrar o Seu poder;
3) Deus queria mostrar as riquezas de Sua glória em vasos de misericórdia.

Para atingir esses objetivos, é preciso que haja tanto salvos como condenados. Logo, não é possível afirmar que a predestinação é somente dos salvos, e que os eleitos são simplesmente preteridos ou deixados de lado.Veja também que cada vaso é preparado por Deus. Mais do que isso, esse preparo tem finalidades específicas: os de misericórdia são preparados de antemão para a glória e os de ira são preparados especialmente para a perdição. Em relação a este ultimo ponto, diz Salomão:
O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso para o dia da calamidade. (Provérbios 16:4)
E Pedro concorda:
Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes,
A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular
e:
Pedra de tropeço e rocha de ofensa.
São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos. (1 Pedro 2:7-8)
Desta maneira, o ensino bíblico claro é o de que há predestinação, tanto para a salvação como para a condenação.

Quando foi feita a predestinação?
Todos os passos dados neste post: a decisão de atingir a glória máxima, de que isso aconteceria com a glorificação de Cristo, a necessidade de fazer dois tipos de pessoa e de predestinar, todas essas decisões foram tomadas por Deus antes do início do tempo. De fato, Cristo foi morto antes da fundação do mundo:
mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós... (1 Pedro 1:19-20)

e adorá-lo-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. (Apocalipse 13:8)
Da mesma forma, a predestinação também foi feita antes da criação:
assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado... (Efésios 1:4-6)
Assim, antes da fundação do mundo, os salvos já foram escolhidos e predestinados para serem adotados como filhos de Deus por meio de Jesus Cristo.

E a conseqüência é óbvia. Toda a História da Salvação, desde a queda de Adão até o meio pelo qual os homens seriam salvos, incluindo-se aí a condenação e a vida eternas e as pessoas que seriam salvas ou não, tudo já estava definido antes do mundo começar. O tempo apenas concretiza o que já foi planejado e predeterminado por Deus nos mínimos detalhes, para que Ele possa atingir os Seus objetivos e propósitos.

Essa determinação não é cronológica, é lógica. Cristo não morre por causa da Queda, a predestinação não é decretada por causa da Queda, como normalmente pensamos. Ao contrário, a Queda acontece porque a predestinação é necessária, e a predestinação acontece para que Cristo seja glorificado.

Essa posição é conhecida como supralapsarianismo. Por ela, a ordem lógica dos decretos de Deus é a seguinte:

1) Glorificar a Deus por meio da exaltação de Cristo (objetivo supremo);
2) Eleger alguns para receberem a graça e outros para serem reprovados (eleição);
3) Criar o mundo e os seres humanos;
4) O homem cairia e pecaria;
5) Cristo viria para sofrer no lugar de Seus eleitos;
6) Os salvos seriam chamados à salvação.

Na posição conhecida como infralapsarianismo, a ordem seria cronológica:

1) Glorificar a Deus por meio da exaltação de Cristo (objetivo supremo);
2) Criar o mundo e os seres humanos;
3) O homem cairia e pecaria;
4) Eleger alguns para receberem a graça e outros para serem reprovados (eleição);
5) Cristo viria para sofrer no lugar de Seus eleitos;
6) Os salvos seriam chamados à salvação.

Já dei acima toda a minha fundamentação bíblica para defender o supralapsarianismo. Gostaria de encerrar o post fazendo uma citação de um ótimo artigo sobre o assunto escrito por Rafael Gabas, a quem muito agradeço e a quem devo muito de minha argumentação:
Essa ordem, à primeira vista, pode parecer ilógica, pois coloca o decreto da queda vindo antes do decreto da criação. Contudo, partindo do primeiro ponto, fica fácil enxergar que os outros são conseqüências do propósito original de Deus, para exibir Seu amor libertador e Sua ira vindicativa em (e através de) Cristo, como o Salvador ressuscitado. Porém, não havia mundo para Ele se encarnar, e nenhum indivíduo que pudesse ser amado ou odiado, razão pela qual Deus imaginou a humanidade que formaria e selecionou alguns de seus membros para serem atingidos pela obra de Cristo, destinando o restante à destruição; isso deixa claro que a eleição e a reprovação foram incondicionais, sem observar nenhuma condição preenchida pelos homens, pois nenhuma pessoa possuía qualquer característica, boa ou má, nem Adão havia quebrado a aliança, nem o Universo havia sido criado; ao contrário: tudo isso foi projetado para cumprir a eleição e a reprovação. A Bíblia ensina que a criação e a queda foram decretadas para que Deus enviasse Seu Filho como Salvador do mundo, demonstrando Seu amor eterno (que não começou com a queda) sobre os eleitos, e demonstrar o poder de Sua ira sobre os reprovados. Após eleger Seus filhos e odiar os outros, Deus deveria torná-los, todos, em seres culpáveis, dignos da condenação eterna, a fim de que houvesse um estado de miséria do qual os eleitos fossem removidos, e os reprovados fossem castigados. (Rafael Gabas, em "A Ordem dos Decretos Divinos")
A História está dentro do controle divino e segue um padrão preestabelecido para satisfazer, da melhor maneira possível, a glória de Deus. E a predestinação faz parte deste plano.

A série continua. Mas, por enquanto encerro louvando ao Deus Supremo, Senhor da História, que tem todo o poder para cumprir Seus propósitos na terra! A Ele, pois, toda a glória, e honra, e louvor! Amém!

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no  5 Calvinistas.

24 de novembro de 2009

Sobre os supostos textos “arminianos” da Bíblia[2] – Análise de 2 Pedro 3.9

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento (Almeida Revista e Atualizada).

[Introdução]

O texto supracitado é largamente usado pelos arminianos como uma prova irrefutável de que Cristo morreu por toda a humanidade. O raciocínio é mais ou menos o que segue: “Como é que Jesus veio morrer por alguns, se o próprio Deus deseja que todos se salvem”? É interessante o fato de que até mesmo um grande teólogo reformado como John Murray endosse exatamente o parecer arminiano. Veja o que ele diz sobre esse mesmo texto:

Deus não deseja que nenhum homem pereça. Seu desejo, antes, é que todos entrem para a vida eterna chegando ao arrependimento. A linguagem nessa parte do versículo é tão absoluta que é altamente anormal encarar Pedro como querendo dizer meramente que Deus não deseja que nenhum crente pereça… A linguagem das cláusulas, então, mais do que naturalmente refere-se à humanidade como um todo… Ela não tem em vista os homens como eleitos ou como réprobos[1].

Sinceramente, não sei porque cargas d’água um teólogo do calibre do John Murray, autor de obras tão consagradas no meio reformado, como o Comentário de Romanos e Redenção – Consumada e Aplicada, tenha errado tão crassamente como ele o fez aqui. Mas isso não me interessa. O que interessa, de fato, é analisar se tanto ele quanto os arminianos estão certos em suas interpretações.

[Análise]

Se o contexto da referida passagem for cuidadosamente observado, a interpretação arminiana não tem como se manter de pé. Para não sermos desnecessariamente longos em nossa exposição, vamos nos deter apenas do versículo 8 em diante, em busca de algumas provas contra a interpretação que os arminianos conferem ao Texto Sagrado.

A primeira prova contra a interpretação arminiana é que Pedro está se dirigindo aos crentes (os “amados”). Senão, vejamos:

    • 2Pe 2.8: “Há, todavia, amados, uma coisa que não deveis esquecer: que para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia”.

Haveria uma chance de escape para a interpretação arminiana se Pedro tivesse como objetivo, aqui, corrigir os falsos mestres, dirigindo-se especialmente aos tais. Mas não é isso que a carta como um todo revela. Pedro está escrevendo à igreja, preocupando-se em trazer à lembrança desta as “palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos” (2Pe 3.2 – cf. 1.12-14). Seu objetivo é alertá-la contra o ensino dos falsos mestres, que negavam a promessa de Cristo quanto ao seu retorno triunfal (também conhecido como “parousia”). Compreender isto, que é aos crentes que Pedro se dirige, é fundamental para a interpretação da passagem em questão.

Isto posto, chegamos à nossa segunda prova de que a interpretação arminiana está equivocada. Pedro começa o versículo 9 dizendo que “alguns” julgavam que a parousia era uma farsa, haja vista que a promessa de Cristo quanto a ela estava “demorando” para ser cumprida. Pedro, então, explica aos crentes o porquê de Cristo ainda não ter voltado: “ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. Não há dificuldade alguma no texto. Ele é mais do que claro. As palavras que sublinhei só podem se referir aos crentes. Deus é longânimo somente para aqueles a quem Ele não fará perecer. E quem é o único povo que não perecerá? Resposta: a Igreja. Essa verdade é reforçada pelo uso que Pedro faz da palavra grega boulomenos (do verbo boulomai – lit. “ter vontade”, “intentar”) para o “querer” de Deus (“não querendo que nenhum pereça”). Geralmente, essa palavra é usada para designar uma “determinação incontestável” e deliberada da parte de Deus[2].

Mas, suponhamos que os arminianos estejam certos, e que o “todos” a quem Pedro se refere seja mesmo a humanidade inteira. A que conclusões chegaríamos?

  1. Se o retorno tão esperado de Cristo depende mesmo do arrependimento de toda a humanidade, então os falsos mestres contemporâneos de Pedro estão cobertos de razão, pois Jesus, nesse caso, jamais voltará;
  2. Se não é bem esse o caso, então os propósitos de Deus foram frustrados (contrariando Jó 42.2), visto que nem toda a humanidade se arrependerá;
  3. Se também não é esse o caso, então das duas uma: ou os hereges estão certos (o que faria de Jesus um mentiroso, de fato), ou Deus falhou na sua empreitada redentiva. ABRE PARÊNTESE. Este terceiro ponto era para soar redundante, mesmo. FECHA PARÊNTESE.

Como podemos perceber, as próprias premissas do pensamento arminiano para o caso que estamos tratando, se levadas às suas últimas implicações, excluem-se mutuamente. E as conclusões que delas podemos tirar são absurdas!

Somos levados, então, à terceira prova do erro arminiano. Se o versículo 9 ainda está obscuro no que diz respeito a que tipo de pessoa é alvo da longanimidade de Deus para fins salvíficos, então vejamos o que o próprio Pedro diz no versículo 15:

    • 2Pe 3.15: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada”.

Mais uma vez, haveria outra chance remota de escape para os arminianos se esse versículo não estivesse onde está. Mas ele está aí – resoluto, firme, inconteste! E ele está dizendo que nossa salvação só é possível porque Deus é longânimo. E para agravar ainda mais a situação (dos arminianos, é lógico), Pedro resolve fazer referências a Paulo. O texto paulino mais provável que Pedro tem em mente é o de Romanos 2.4. Vejamos o que diz:

    • Rm 2.4: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento”?

Vejam só! Paulo está dizendo que somos conduzidos ao arrependimento por causa da bondade de Deus. Isso é maravilhoso! E Pedro não está fazendo aqui uma citação despropositada, como se ele estivesse apenas querendo conferir autoridade ao seu parecer apelando para Paulo. Nada disso. Pedro está simplesmente corroborando uma verdade já anunciada anteriormente pelo apóstolo aos gentios, a saber, que somente chegarão ao arrependimento aqueles a quem Deus dispensar a sua longanimidade.

Pode ser que aqui os arminianos se levantem e vociferem: “se for assim, então há controvérsias”! Eles poderão alegar um outro possível texto paulino, na mesma carta, que também fala da longanimidade de Deus. Vejamos qual:

    • Rm 9.22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”.

Bem. Não consigo imaginar qual seria exatamente o argumento dos arminianos. Se eles apelarem para o fato de que Deus suporta com muita longanimidade “os vasos de ira”, ou seja, os incrédulos, então eles também terão que admitir que os tais foram “preparados para a perdição” (réprobos), enquanto que outros foram preparados para a glória (os eleitos – Rm 9.23). Sinceramente, se eu fosse arminiano, jamais apelaria para um texto desses. A não ser que eu estivesse disposto a admitir que realmente “o Senhor fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade” (Pv 16.4). Mas isso seria demais para quem não aceita a absoluta e irrestrita Soberania de Deus. Tudo isso mostra que não há escapatória para quem deseja contestar a Verdade. Ela “encurrala”, mesmo.

[Conclusão]

Diante de tudo o que vimos, não me resta outra alternativa, senão a de concluir “doxologicamente” (valeu por esse insight, Roberto Vargas!):

“Obrigado, Senhor, pela tua imensa paciência dispensada a nós, pobres e miseráveis pecadores. Sem ela não nos restaria tempo para nos arrependermos de ter ofendido o teu Santo Nome. Dessa forma, podemos dizer, com absoluta certeza, que fomos salvos pela Tua longanimidade. Aleluia”!

Soli Deo Gloria!

Leonardo Galdino é blogueiro do Optica Reformata e escreve às terças-feiras no 5 Calvinistas.


[1] The Free Offer of the Gospel, Murray and Stonehouse ,no city, no publisher, no date, 26, 27. Citado no site Monergismo (clique aqui).

[2] Verbete “vontade”, do Novo Dicionário Internacional de Teologia do NT (Ed. Vida Nova, pág. 2677).

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Análise de 2 Pe 3.9.mp3

 

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