5 de janeiro de 2014

Homilia 4

A última mensagem publicada aqui foi ministrada em 06/01/2013, na Igreja Presbiteriana de Canela. Foi a primeira, mas não foi a única. Entretanto, um ano depois, resolvo publicar nova mensagem, ministrada em 05/01/2014.

Possa ela aquecer corações como o meu foi aquecido!

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JESUS, DEUS E SALVADOR

Texto base: Marcos 10.17-27

17 E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 18 Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. 19 Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. 20 Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. 21 E Jesus, fitando-o, o amou (agapao) e disse: tSó uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. 22 Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.

23 Então, Jesus, olhando ao redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! 24 Os discípulos estranharam estas palavras; mas Jesus insistiu em dizer-lhes: Filhos, quão difícil é [para os que confiam nas riquezas] entrar no reino de Deus! 25 É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. 26 Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo? 27 Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível

Introdução

  • Uma mensagem ministrada sobre esta passagem não faz muito tempo enfatizou alguns aspectos, mas um em especial ficou na minha cabeça por um bom tempo. O de que este jovem rico via Jesus como um simples mestre.
  • O termo grego é didaskalos: professor.
  • Jesus é sim um mestre, um professor. Mas ele não é apenas isso. Nesta passagem Ele, como Bom Mestre, nos ensina quem Ele é: Deus e Salvador.
  • Nosso objetivo esta noite é ver como.

1. Mc 10.17-18:

  • O jovem vê Jesus como um mestre. Esta é a visão de muitos: o Cristianismo é apenas um ensino moral e Jesus é um bom mestre.
  • Há aqueles que dizem que o Cristianismo é mau, ou que toda religião é má porque todo moralismo é opressor. O erro destes não é, na verdade, muito diferente, mas não é sobre esta distorção moral e intelectual que vamos falar.
  • Falaremos de quem ainda quer manter um senso moral, ainda que distorcido, não importa. As pessoas querem ser consideradas boas. Então as regras morais do Cristianismo são um bom padrão. Mas elas não estão dispostas a aceitar que Jesus é Deus. Ele é só um bom mestre.
  • Ou Deus ou um homem mau.
  • Mas percebam: apenas um bom mestre é tudo o que Jesus não pode ser.
  • Um bom mestre apontaria o caminho. Ou, no máximo, diria como Paulo: “sejam meus imitadores, como eu sou de Cristo” (I Co 11.1). Mas o Cristo diz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Jesus reivindica para si o ser Deus.
  • Ora, Jesus poderia estar enganado. Ele poderia ser um bom mestre honestamente enganado. Mas me digam: pode alguém tão equivocado ensinar? Poderia ser um bom mestre?
  • Ou então Jesus poderia ser um louco. Não um Napoleão de hospício, mas um deus de hospício. Um louco poderia ser um bom mestre?
  • Ou ainda os discípulos é que poderiam ter entendido errado a mensagem de Jesus. É improvável que judeus entendessem mal a alegação de divindade de Jesus. Aliás, foi por isso mesmo que Ele foi levado à cruz. Mas se aceitarmos que houve má comunicação de Jesus a seus discípulos, como alguém que confunde seus alunos poderia ser um bom mestre?
  • Mas há ainda uma outra situação pior. Jesus poderia enganar voluntariamente seus alunos. Ele é um mentiroso dizendo que é Deus, sabendo que não é. Que bom mestre faria isso?
  • O que resta é que Jesus é o que alega ser: Deus. Ou ele não é um bom homem coisa nenhuma!
  • É justamente este o ensino desta passagem. O jovem vê Jesus apenas como um mestre. Jesus aponta para sua deidade.
  • Ele não diz que não é bom. Ele diz que só há um bom, que é Deus. Ele diz que Ele é o Bom Deus!

2. Mc 10.19-22:

  • Então, na seqüência, Jesus parece deixar isto de lado e traz um outro ensino ao jovem.
  • Este acredita na possibilidade de salvação pelas obras da Lei e se esforça para cumpri-la.
  • O texto diz que Jesus pergunta a ele: (verso 19) “Conhece os mandamentos: Não mate, não adultere, não furte, não testemunhe falsamente, não defraude ninguém, honre pai e mãe." E o jovem, com toda confiança responde: (verso 20) “Fácil! Tenho feito isso a vida inteira.”
  • Conhecem gente assim? “Eu sou tão bom. Nunca matei, nunca roubei.” Eu conheço. Eu mesmo já fui assim. No meu caso, precisou um evento que me quebrasse e eu quebrasse meu código moral para eu perceber que não sou tão bom. Na verdade, nem é que não sou tão bom, eu sou mau. Tão mau quanto todo homem é após a queda.
  • Ao jovem, porém, foi proposto um desafio: (verso 21) “Quer ser perfeito diante de Deus? Vende tudo e distribua aos pobres. Depois me siga e confie somente em mim”.
  • Jesus propõe um desafio quanto a em que, em última instância, está a confiança do jovem: na Providência divina ou no dinheiro que ele tem?
  • Mas o jovem confia sua vida em suas posses. Esquece de confiar a vida em Deus e retribuir o amor (de Deus por Suas dádivas) em amor (a Deus e ao próximo).
  • O que Jesus ensina aqui é o que Ele repete exaustivamente aos fariseus: “Vocês estão certos em seguir a Lei, mas falta entender que não adianta cumprir regras exteriores se seu coração não estiver nisto."
  • Jesus mostra que a Lei é um todo inteiro, letra e espírito, e quebrar um mandamento é estar fora da Lei.
  • Jesus mostra que é impossível ser salvo por si. Todo esforço que fizermos será inútil se nosso coração não depender exclusivamente de Deus. Devemos sim nos esforçar, mas nunca confiar nos esforços que fazemos, mas em Deus.

3. Mc 10.23-27:

  • O jovem rico vai embora e Jesus olha para seus discípulos (verso 23). Eu fico a pensar que os discípulos viram tudo aquilo e não entenderam, a princípio, o que realmente estava em jogo.
  • Então Jesus enfatiza este ensino aos discípulos: (versos 23 a 25) "A salvação é impossível ao homem e este jovem rico está em maus lençóis."
  • Os discípulos mostram surpresa: (verso 26) “Quem então se salvará?”
  • Talvez eles tenham então percebido. O jovem rico cumpre a letra da Lei, mas esquece seu espírito. Quem dentre os discípulos é tão fiel quanto o jovem? Quem dentre os homens cumpre fielmente a Lei, sem esquecer de seus mínimos detalhes, sendo perfeito como perfeito é o Pai?
  • Que esperança pode haver aos homens?
  • Mas notem: Marcos diz que Jesus amou o jovem. O termo é agapao. É aquele amor divino. Aquele com qual Deus de tal maneira nos amou, que enviou Seu Filho a nós para que tenhamos vida eterna! (Jo 3.16)
  • Não sei. Não posso ser categórico. O texto diz que o jovem rico foi embora triste. E diz que Jesus o amou. Talvez o texto se refira a uma compaixão por sua condição, sem maiores conseqüências. Mas eu tendo a acreditar que não.
  • Pois Jesus ainda diz: (verso 27) “Ao homem é impossível; a Deus tudo é possível”.
  • A salvação do homem não depende dele mesmo, mas de Deus o trazer para Si. O jovem pode ter sido salvo. Talvez não naquele momento, mas Jesus amou o jovem. Quem sabe ele foi salvo, não pelo que fez o deixou de fazer, mas porque Deus o amou. No tempo, pode ser que o jovem ainda precisasse crescer para a redenção. Mas pode ser que na eternidade Ele tenha sido eleito e, novamente no tempo, oportunamente ele tenha se rendido ao Deus que o amou e chamou.
  • Novamente, eu não quero ser categórico. O que não está claramente revelado pertence só a Deus. O que é claro aqui não é que o jovem rico foi salvo. Mas que não depende dele, não depende de seus esforços e de seu querer. Mas de Deus o amar e chamar.
  • Isto me conforta sobremaneira. Pois se dependesse de mim eu já estaria perdido. Não, eu não estou isento de me esforçar. Tudo que eu puder fazer eu devo fazer. Mas eu posso descansar em Deus sabendo que minha imperfeição e meus erros estão todos cobertos pela perfeição e retidão do Cristo.
  • Este, meus irmãos, é o conforto das Doutrinas da Graça. Confortem-se.

Conclusão

  • Todo este texto é uma ilustração divina tanto do amor quanto da soberania de Deus, além da própria deidade do Cristo.
  • Eu iniciei dizendo que Jesus se apresenta neste texto como Deus e Salvador.
  • Primeiro Jesus aponta para Sua deidade. Ele é efetivamente o Bom Mestre. É o único Bom, que é Deus.
  • Depois mostra que a salvação é impossível ao homem pela Lei, que exige a perfeição perdida na queda.
  • E por fim declara a quem puder ouvir que Ele fará do impossível possível a quem Ele amar.
  • Eis que Jesus é o Deus que nos salva de nós mesmos! Deus! Salvador!

SDG!

6 de janeiro de 2013

Homilia 3

Não é bem um esboço, mas uma "transcrição" (um texto corrido que eu usei de base para um esboço). E é bom retomar a série depois de tanto tempo com uma mensagem que foi dada hoje, também depois de muito tempo sem ministrar (sei lá, acho que faz mais de dez anos). Quem me acompanha no blog e e outros lugares reconhecerá temas que me são caros e soibre os quais Deus tem enchido meu coração, assim como trechos de postagens. É uma pregação temática, obviamente, já que não sou um "pregador regular". E o texto base pode aparecer apenas como um "pretexto". Mas não o conteúdo.

A mensagem foi ministrada em 06/01/2013 na Igreja Presbiteriana de Canela. Espero que seja apenas a primeira...

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VIDA ABUNDANTE

Texto base: João 10.10 

O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

Tema: vida em abundância. Abundância é, em grego, perissos, que pode ser traduzido também por excelente, ou mais excelente. É sobre viver esta vida em excelência, uma vida abundante, que quero meditar com vocês esta noite.

Contexto: Jesus é o Bom Pastor. Ele é quem dá a vida por suas ovelhas, para que estas tenham vida. Não uma vida qualquer, uma vida comum, mas uma vida que um pastor deseja às suas ovelhas. Dito de outra forma, uma vida que um Deus, e não um deus qualquer, mas o Deus Vivo, o Todo Poderoso que, entre outras coisas, é Todo Amor e cuida dos Seus conforme Seu Amor.

1. Felicidade

Um primeiro aspecto de uma vida abundante é a felicidade.

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" (Mt 5.4).

O cristianismo é cheio de paradoxos. Este é apenas um deles: felizes os que se entristecem. A felicidade não existe sem choro. E como é isto?

À noite todos os gatos são pardos. É um dito popular. Já ouviram? Pois é, de fato, vivemos todos em trevas. E na escuridão em que vivemos, olhamos aos nossos semelhantes e os consideramos todos iguais. E nós os vemos pardos. Por isso nos consideramos melhores que eles. Enquanto eles fazem isso ou aquilo, e quase tudo errado, nós fazemos assim e assado, quase tudo certo. Somos bons e, embora esteja escuro e não possamos nos ver claramente, sabemos de alguma forma que não somos pardos.

Mas então, um dia, uma Luz se aproximou de nós. Primeiro fugimos dela, porque ofuscava sobremaneira nossos olhos. Mas a Luz se nos apresentou de tal maneira, que se tornou irresistível para nós. Começamos a ver esta Luz e por Ela. Pois ela iluminava tudo ao redor e então pudemos olhar aos nossos semelhantes como eles são. E eles de fato são pardos. Mas não porque esta é sua cor natural, mas que eles estão sujos de lama. Não até o pescoço, mas tão cheios de lama por todo o corpo que até o branco dos olhos parece encardido. Mas a Luz ilumina a nós mesmos, e de um modo que voltamos o olhar mais a nós que a eles. E vemos que nós somos tão sujos e tão pardos, ou mais, que  os outros gatos. Vemos que esta sujeira está impregnada em nós de tal forma que não podemos nos livrar dela.

E choramos. Choramos copiosamente. Choramos com uma dor que é impossível expressar a quem nunca a sentiu. 

Mas a Luz que nos ilumina é o mesmo Bom Pastor que ama e cuida das ovelhas e quer o melhor para elas. E Ele as limpa. Ele faz dos gatos pardos gatos brancos como a neve. Purificados de toda impureza.

A tristeza que nos dói tanto é a mesma que nos dá uma alegria indizível!

Assim é quando da conversão, mas assim é também para a santificação. A vida que vivemos tem seus altos e baixos. E a cada pecado cometido há a tristeza do arrependimento e a alegria do perdão. Por isso, se você peca e não se entristece, cuidado. Pode bem ser que você viva uma outra religião e não a do Cristo.

Eu falei em paradoxos. E o paradoxo de uma vida abundante em felicidade é este: que felicidade não implica em ausência de tristeza. Ao contrário, felizes são os que choram, pois eles conhecem a consolação de seu Deus.

O primeiro aspecto de uma vida abundante: felicidade.

2. Gratidão

Um segundo aspecto da vida abundante é a gratidão. E eu quero mencionar esta gratidão de forma qualitativa e de uma forma quantitativa.

Qualitativa. 

Se vimos que nossa felicidade vem de uma tristeza profunda, uma tristeza por nós e uma felicidade por Deus, então percebemos que nossa felicidade não depende de circunstâncias. Seja o que for que nos sobrevenha, sabemos que tudo coopera para nosso bem (Rm 8.28). Então podemos ser gratos por qualquer coisa que recebamos, boa ou ruim.

Quando a calamidade veio a Jó, e ele perdeu tudo, bens e filhos, ele ainda orou em gratidão a Deus dizendo que nú veio ao mundo e nú voltará à terra. Em outro trecho, quando sua esposa sugere que ele amaldiçoe Deus e morra, ele responde que ela falava como uma doida. Diz ele: Se recebemos com gratidão o bem de Deus não saberemos também receber o mal? (Jó 1.21 e 2.10)

Não importa se bem ou mal, somos gratos pelo que Deus nos dá. E, se mal, ora, não deixamos de ficar tristes. Lamentamos sim. Mas lamentamos em tristeza que não abala nossa felicidade e gratidão.

Habacuque sabia da angústia que viria e não deixou de se entristecer por isso. Mas é assim que ele sofre: "Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente (Hc 3.17-19)."

Não importa o que temos, somos gratos a Deus pelo que nos deu.

Quantitativa.

Há quem não creia em milagres. Ao cristão não é necessário argumentar para provar que milagres acontecem. Mas temos ouvido muito que precisamos disso e daquilo, sempre com ares grandiosos. Por que?

Como classificar o tamanho ou a grandiosidade de um milagre? Que é mais difícil? Um paralítico andar ou perdoar pecados? (Mt 9.1-8) Ou é mais difícil que o mar se abra do que as coisas simplesmente existam?

Eu não sei. Acho estúpido que se questione tal coisa. Mas se é para eleger um milagre que seja o maior de todos, talvez pudéssemos falar da própria criação, talvez da encarnação. O eterno no tempo, mais um paradoxo e algo acima do nosso entendimento. Mas eu elegeria a minha salvação. Pois eu sei do meu pecado e da total impossibilidade da minha imundície ser conciliada com a pureza do Santo. Mas Ele não só Se reconciliou comigo como ainda me chamou a viver em comunhão com Ele eternamente.

Esta é a maior dádiva que alguém pode receber. E, tendo recebido esta, qualquer coisa que venha depois, quer seja mesmo um milagre, quer seja algo absolutamente comum, será com gratidão recebida.

Pois nem tudo é milagre, mas tudo é espiritual. Entender isso é a chave para ser grato e repetir com Paulo: "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1.21).

Não importa quanto temos, somos gratos pelo que recebemos.

O segundo aspecto de uma vida abundante é a gratidão.

3. Prazer 

Se somos felizes acima do que nos acontece, e se somos gratos sem importar o que ou quanto nos sobrevenha, então podemos ter prazer em tudo o que vivemos.

A primeira pergunta do Catecismo de Westminster é: "Qual é o fim supremo e principal do homem?" A resposta é mais eloquente do que tudo que eu disse até aqui: "O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lO para sempre".

Tudo é espiritual e se entendemos isso, tudo o que fizermos, desde as menores até as maiores coisas serão feitas pensando na glória de Deus. E glorificar a Deus, não importa o que façamos, é um prazer indescritível, pois é para a eternidade.

Um escarnecedor certa vez tentou me ridicularizar quando eu afirmei que tudo o que ocorre e tudo o que faço é para a glória de Deus. Ele usou termos piores, mas em essência ele me perguntou se ir ao banheiro fazer necessidades daria alguma glória a Deus. E como a sexualidade humana é uma área de intensos conflitos morais, ele me desafiou: quando você faz sexo, você está mesmo preocupado com a glória de Deus?

Para a primeira questão eu afirmo que todo uso correto do meu corpo glorifica seu Criador. Toda a atividade de manutenção deste templo do Espírito Santo é digna e O dignifica.

Para a segunda, ah, eu tenho prazer até mesmo em responder. Pois fazer amor com minha esposa é culto! É um prazer em nossos corpos sim, mas é também um prazer para nossa alma. É um prazer nos unirmos como é um prazer sermos um em Cristo.

E embora minha esposa fique ali toda vermelhinha, é mesmo bom ter este exemplo por ilustração. Porque somos um casal, unidos por Deus e estamos sob Sua benção.

Tudo o que fazemos é para Sua glória, mas só o glorificaremos se estivermos de acordo com Sua vontade. O sexo é uma dádiva de Deus, mas não se for de qualquer jeito e a qualquer custo. E isto, obviamente, vale não apenas para a atividade sexual, mas para toda a atividade humana.

Deus é muitas vezes pintado como um "grande estraga prazes cósmico". O cristianismo é muitas vezes pintado, até por alguns que se dizem seus membros, como um "não pode". Um cristão não pode isso, um cristão não pode aquilo. Mas o cristianismo é uma religião de alegria, de gratidão, e de gozo.

Tudo nos é lícito. Mas nem tudo convém. (I Co 10.23) É ao conhecer a Deus e nos conformar ao Seu Espírito que abandonamos aquilo que não nos convém com a mesma alegria, gratidão e prazer com que fazemos o que é lícito.

O terceiro aspecto de uma vida abundante é o prazer.

Conclusão

Conhecem a expressão carpe diem? Significa: aproveite o dia. É uma expressão muitas vezes usada por aí com um sentido bem antropocêntrico e bem hedonista (com vistas ao próprio prazer). Não queremos isso.

Mas o cristão é sim chamado a aproveitar o dia. Seja lá qual for a atividade que você tenha, um trabalho, uma viagem, um programa em família, namorar, malhar, jantar, cuidar do cachorro, sei lá... Não importa o que você esteja a fazer...

Aproveite o dia feliz!

Aproveite o dia grato!

Aproveite o dia com prazer!

Para a glória do seu Deus. 

8 de novembro de 2012

Sobre o mesmo chão

Os primeiros álbuns do Palavrantiga foram tão bons que a expectativa criada para “Sobre o mesmo chão” era altíssima. Comprei as músicas e aguardei ansioso o download, não sem um certo receio de me decepcionar, mesmo com alguns amigos já falando tão bem do novo trabalho.

Começo a ouvir e me enchem os ouvidos aquela mesma qualidade sonora aliada às letras que fogem do lugar comum e mediocridade do “faz chover”, mesmo quando mencionam a chuva que cai. Ah, expectativa mais que bem atendida! Gosto demais desta banda.

E por que gosto tanto de Palavrantiga?

Porque “agora tanto faz o que é sagrado. Nada importa se isso tudo não for antes santificado” (Sagrado). Afinal, que é o profano em oposição ao sagrado? Já não sou mais o mesmo, estou “distante daquilo que eu era, sem força, nem fé ou poesia” (De manhã). 

Conheci a Beleza quando ouvi a Voz que dizia “Segura tua alma, menina. Me espera, menina. Olha pra Mim, Te trouxe o bem. É a Boa Nova” (Minha menina). Então, diz minha alma, “é por isso que eu vou neste rio que corre sem pressa. Navegante que sou, sei que tudo é um presente pra ela” (Rio torto). E, enquanto navego, “vou subvertendo o mundo, amando a esperança que salta os muros e brinca arteira com tua criança” (Sobre o mesmo chão). 

Mas, também, eu não me engano. “De tudo quanto eu tenho pra dizer, eu digo muito pouco com as palavras. Eu presto atenção em Ti” (Boa Nova). Se falho, no entanto, meu espírito sabe: “antes, pede perdão“ (Antes do final).

E quando enfim ouvir chamar: “Vai, é a hora de ir. Tua fé abriu um caminho bom. Siga agora o teu sonho, vai” (Partiu), sei que “meu lar não está tão longe. Caminho certo que vou encontrar meu doce lugar na eternidade” (Meu lar).

Eu canto Palavrantiga, você canta o que?

Soli Deo Gloria!

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Notas:
1. Sei que meu texto não faz jus às letras, mas fica aqui minha reverência à banda como ação de graças ao Senhor pelas vidas destes caras.
2. Compre as músicas. Dê suporte aos músicos por seu trabalho. 

23 de julho de 2012

Bicicletas e eleição

Será que Deus escolheu seu filho para dar uma bicicleta? Caso a resposta seja afirmativa, como saber que sim? Afinal, todo mundo pode estar sinceramente enganado. E caso Deus tenha escolhido o seu filho, e tenha deixado o meu de fora? O seu filho é menos trapo do que o meu? Essa doutrina é muito difícil de aceitar... Será que vou pro inferno por causa disso? 

É assim que alguém, em anonimato, vem questionar a validade da doutrina da eleição (ou da predestinação, se levarmos em conta o contexto). O anonimato mereceria toda a reprovação que convém, mas também convém responder, pois o discurso é típico. Então eis-me aqui dando-me ao trabalho de comentar...

"Será que Deus escolheu seu filho para dar uma bicicleta?", pergunta-me. E respondo eu: meu Lucas tem uma bicicleta. Certamente o pai assim o quis. O Pai também. Meu Mateus ainda não. O pai já escolheu, mas o Pai ainda vai revelar. Se tal ocorrer, no entanto, é porque Ele realmente assim o escolheu. A vontade do pai, ainda que sua própria, não é livre da escolha do Pai.

"Como saber que sim?", insiste. E insiste mais: "Afinal, todo mundo pode estar sinceramente enganado". Ora, pergunto eu, como saber qualquer coisa? Se a resposta fosse negativa a pergunta seria ainda a mesma. Mas não precisamos de qualquer desespero cético: temos o Absoluto Deus. E, ainda mais, neste caso temos abundantes referências bíblicas que nos garantem que nada acontece sem o decreto divino. Mas deixarei epistemologia e teologia de lado. Pois é depois daqui que a coisa se torna mesmo interessante e típica.

Será o filho de outrem, sem a bicicleta, mais trapo que o meu Lucas? E será meu Mateus mais trapo que meu Lucas? Bem se vê que tais perguntas refletem o âmago mesmo da questão. E ela não tem a ver com predestinação e eleição, como bem já notava quem antes falou sobre isso. O problema é antroplógico. Mas é mais que assim tão teórico. O orgulho totalmente depravado tem seus efeitos, para nossa tristeza, mesmo entre nós.

Entretanto, a verdade é que meu Lucas é trapo, assim como meu Mateus. Eu os amo muito e ambos terão uma bicicleta, se assim o Pai permitir. Também, assim ambos são trapo como aquele outro que não tem a bicicleta. E, finalmente, para sair da ilustração e ir ao ponto, não é por ser mais ou menos trapo que meus filhos serão eleitos, mas pela Graça somente. Também não é por ser mais trapo que o outro será condenado, se o for, mas todos nós somos dignos dos tormentos eternos.

Pela Graça somente! E é somente pela Graça que podemos reconhecer que somos este trapo. Que somos todos igualmente trapo. Um trapo cuja imundície não pode ser limpa senão por Deus.

Certamente não é necessário conhecer a doutrina para ser salvo. Mas reconhecer-se trapo e ser limpo por Deus somente é necessário. Isto é aceitar a doutrina mesmo que sem conhecê-la. Porém, não aceitá-la, conhecendo ou não, é não reconhecer-se trapo imundo. Isto logo levará a pouca necessidade de limpeza... 

Ora, quem se pensa são irá ao médico? É bom pensar melhor, pois a estes o que há é mesmo o inferno!

SDG!

6 de março de 2012

Que será dos que nunca ouviram? Uma breve confissão

Esse é um assunto que sempre me incomodou bastante, a saber, o destino eterno daqueles que nunca ouviram falar de Cristo. Deixando de lado se os tais ainda existem hoje (particularmente, penso que haja) e outras questões parecidas, bem como as várias perspectivas sobre o assunto, vou logo resumir a minha posição: todos os eleitos, fatalmente, ouvirão acerca de Cristo por meio da pregação da Sua Palavra. Nem todos os que ouvem são eleitos, obviamente, mas todos os eleitos ouvirão. Ainda que digamos que cabe somente a Deus julgar tais pessoas, não somos autorizados, pelas Escrituras, a pensar que poderá ser salvo quem nunca ouviu de acerca de Cristo, uma vez que "a fé vem pelo ouvir" (Rm 10.17), sendo esta mesma fé um dom de Deus exclusivamente para os Seus eleitos (cf. Tt 1.1). Estes, por sua vez, vem a Cristo pela pregação (cf. 2 Ts 2.13, 14).


Há de se questionar em que consiste essa "pregação". De pronto, rejeito a perspectiva segundo a qual a revelação geral (criação, cultura, moralidade, etc.) é suficiente para a salvação, pois, se assim fosse, a fé em Cristo seria necessária apenas para alguns (sinceramente, não creio na revelação geral nem como meio salvífico extraordinário). Nesse quesito, penso em Cornélio, centurião romano sobre o qual se diz ter sido "piedoso e temente a Deus" (At 10.2), mas que precisou ouvir explicitamente acerca de Cristo por intermédio do apóstolo Pedro para ser salvo (ver todo o capítulo 10 de Atos). Rejeito, também, a noção segundo a qual a pregação pode ser entendida como o exemplo de vida dos cristãos ("conversão pelo exemplo", tão propagada pelos pietistas e místicos medievais), pois nossas vidas não podem ser melhores do que a pregação viva da Palavra de Deus.


Há, ainda, um equívoco a ser corrigido, e este tem a ver com a relação entre Decreto e Providência. Novamente citando o caso de Cornélio (somente para não citar todos os eleitos), não podemos dizer que ele já era salvo antes de ouvir a Palavra. Pelo decreto, sim, ele já constava entre os eleitos, mas não pela Providência, haja visto não ter chegado ainda o tempo da concretização do decreto. E o que é a Providência, senão os meios que Deus usa para alcançar aquilo que Ele decretou? Nesse caso, Cornélio precisou, na História, ouvir a Palavra, sendo regenerado pelo Espírito para que pudesse, então, crer e ser salvo.


Assim sendo, creio ser a pregação o meio providencial responsável por infundir fé no coração do eleito. Só a pregação? Bem, como já falei acima, se há exceções elas não são especificadas pelas Escrituras, pelo que me reservo ao direito de me ater apenas àquilo que nos é afirmado pela Revelação como regra, em vez de especular sobre a exceção. E me valho, aqui, do pertinente comentário de Calvino a Romanos 10.14 (..."e como ouvirão, se não há quem pregue?"). Ele diz que "o que Paulo está descrevendo aqui é somente a palavra pregada, pois este e o modo normal que o Senhor designou para comunicar sua Palavra. E se se argumenta, à luz desse fato, que Deus não pode dar-se a conhecer entre os homens só por meio da pregação, então negaremos que isto era o que o apóstolo pretendia transmitir. Ele estava transferindo somente a ordinária dispensação divina, e não pretendia escrever uma lei à sua graça" (ênfase minha). E me é muito claro, ainda na Escritura, que Deus sempre envia Seus arautos para os lugares em que há eleitos Seus para serem alcançados (cf. At 18.10; 13.48; Jonas e os ninivitas, etc.). Novamente citando o reformador francês (agora em seu comentário a Romanos 10.15 - "e como pregarão se não forem enviados"), "quando alguma nação é agraciada com a pregação do evangelho, tal fato é uma garantia do amor divino".


Por último, não penso que este seja o típico assunto que deva ser relegado apressadamente ao "mistério", como se as provas bíblicas acerca dele fossem insuficientes ou inexistentes. O máximo que posso dizer quanto aos que nunca ouviram é que cada um será julgado de acordo com a resposta que deu à luz que teve, mas não para uma possível absolvição. Para o quê, então? Bem, embora eu tenda a crer aqui em possíveis níveis de sofrimento no inferno (cf. passagens como Mt 11.22, 24; Lc 12.47, 48; 20.17), prefiro não arriscar ir além daquilo sobre o que a Escritura não lança senão faíscas.


Soli Deo Gloria!