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26 de maio de 2010

O Estado também peca

Talvez uma das lições bíblicas aprendidas mais tardiamente pelos cristãos seja a da separação entre a Igreja e o Estado. Se no Antigo Testamento, o sustento do culto era uma responsabilidade real, a ponto de reis terem fechado o templo de Jerusalém movidos por seus caprichos idólatras, no Novo, em momento algum, Jesus promete a instalação de um reino temporal cristão. Ao contrário, Ele ensina que, agora, o seu reino não é deste mundo:
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
O Senhor nunca exigiu que o Império Romano protegesse ou divulgasse a fé cristã ou que os cristãos devessem organizar um levante popular para derrubar o imperador. Desta maneira, a separação institucional entre Igreja e Estado pode sim ser considerada uma doutrina bíblica.

No entanto, separação não significa, em absoluto, que o Estado não tenha responsabilidades diante de Deus. Os diferentes governos não são entidades autônomas, fora da lei de Deus e de seu domínio, entes que seguem uma moralidade à parte daquela estabelecida na Bíblia. Dito de modo mais claro, os Estados podem pecar, apesar da separação entre eles e a Igreja.

Ministros de Deus
Isso acontece porque Deus é o Senhor de todas as coisas, de tudo o que diz respeito à existência humana, inclusive da política. Como dizia o teólogo holandês Abraham Kuyper:
não há um milímetro cúbico em todas as áreas da existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano acima de todos, não possa dizer "É meu!"
Por isso, a Bíblia apresenta os agentes estatais como sendo ministros de Deus, pessoas que receberam autoridade divina e possuem certos direitos...e deveres no exercício do poder:
Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:1-7)
Aqui, aprendemos:

1) Que a verdadeira fonte primária do poder estatal é Deus, e não o povo (democracias) ou as armas (ditaduras);
2) Que as autoridades são ministros de Deus;
3) Que o dever básico do Estado é premiar quem faz o bem (faze o bem e terás louvor dela) e punir quem faz o mal (ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal);
4) Que o Estado tem o direito de receber tributos, submissão de seus cidadãos, respeito e honra.

Quando um cristão se recusa a pagar impostos ou desobedece às leis do Estado, ele peca, por não cumprir com suas obrigações diante de uma autoridade divina. Por outro lado, quando o Estado não cumpre com o seu papel de premiar quem faz o bem e punir quem faz o mal, ele também peca, por desobedecer ao papel que lhe foi dado por Deus. E, se há pecado, também há castigo.

A condenação bíblica dos governos
Uma forma de quebrar o mandamento divino é usar a máquina estatal para pelejar contra Deus. Em Apocalipse 17, esse caso é retratado de modo dramático e em cores escatológicas, quando se fala da condenação dos reis que seguem a besta (de certa forma, um símbolo de Satanás):
Os dez chifres que viste são dez reis, os quais ainda não receberam reino, mas recebem autoridade como reis, com a besta, durante uma hora. Têm estes um só pensamento e oferecem à besta o poder e a autoridade que possuem. Pelejarão eles contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão também os chamados, eleitos e fiéis que se acham com ele. (Apocalipse 17:12-14)
Nos últimos dias, todos os governos da Terra usarão sua estrutura, inclusive a militar, para guerrear contra Cristo e sua Igreja. Contudo, essa guerra já começou. Todas as vezes que um governo restringe a liberdade dos cristãos e os persegue, ele faz guerra contra o Cordeiro. Quando um governo adota padrões contrários aos adotados por Cristo, defende uma moralidade diferente da preconizada por Deus ou obriga seus cidadãos a pecarem, eles estão pelejando contra Cristo e atraindo sobre si a pena de destruição. Lutar contra a Igreja é lutar contra os que fazem o bem.

O Antigo Testamento traz ainda mais condenações. Quando são decretadas leis injustas, que aviltam a verdadeira justiça e aumentam a opressão na sociedade, os governos também são condenados e o juízo divino está às portas:
Quando as leis existem, mas a corrupção grassa no governo, o Estado também peca:
Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel e por quatro, não sustarei o castigo, porque os juízes vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias. (Amós 2:6)
E o que os cristãos devem fazer quando o Estado incorre nestes pecados?

O dever dos cristãos

A segunda coisa é interceder. Uma vida tranqüila e um governo piedoso dependem das orações dos cristãos:
Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. (1 Timóteo 2:1-2)
A terceira coisa é atuar dentro das regras políticas para fazer com que o Estado cumpra o seu papel. José no Egito, Ester e Mordecai na Pérsia e Daniel, na Babilônia e na Pérsia, são exemplos de como isso pode ser feito por cristãos que são chamados para serem ministros, juízes ou outras funções públicas.

Por fim, a Igreja pode exercer o seu papel profético e denunciar os abusos e erros das autoridades e as deformidades do Estado. Os textos proféticos citados aqui são uma pequena amostra da ampla base bíblica existente para que cristãos denunciem esses pecados, preguem e protestem, até mesmo usando palavras fortes.

Quando vivemos em um país chamar de amigas nações que perseguem o Evangelho, onde deputados são condenados por crimes que já prescreveram, onde medidas protelatórias podem fazer julgamentos acontecerem 20 anos depois da ocorrência dos crimes, onde movimentos criminosos como o MST são reconhecidos como legítimos pelo Governo Federal e a corrupção desvia recursos que deveriam ser empregados para a promoção do bem-estar dos bons...a apatia dos cristãos diante de tudo isso é escandalosa.

Não é papel do Estado evangelizar, subvencionar cultos, promover a disciplina eclesiástica ou doar terrenos e conceder isenções às igrejas, assim como não cabe a estas últimas a tarefa de legislar ou de usar a máquina estatal para divulgar o cristianismo. Todavia, a separação entre Igreja e Estado não é desculpa para nos calarmos diante dos pecados do Estado. Que os cristãos ergam a sua voz!

Não usei neste texto uma definição extremamente exata ou rigorosa dos termos Estado e Governo.

Helder Nozima é pastor presbiteriano e blogueiro do Reforma e Carisma.

19 de maio de 2010

Culpados!

Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem, porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:21-26)
Qualquer pessoa que acompanhe minimamente o noticiário se sentirá indignada ao menos uma vez todos os dias. O espancamento de um militar que reclamou de barulho às 3 da manhã e foi agredido covardemente por seis homens; os ataques feitos por homens armados com facas em escolas chinesas ou os freqüentes casos de corrupção despertam o nosso senso de justiça. Quando estes crimes ficam impunes, a sociedade se sente frustrada e cresce a sensação de que as pessoas boas só se dão mal.

E nem sempre é preciso que algo grave aconteça para que clamemos por justiça. Uma fechada no trânsito, alguém que grita conosco ou até mesmo o vizinho querendo pregar um quadro na hora do nosso estudo já nos fazem despejar palavrões, maldições e exigirmos que algo horrível aconteça como retribuição àquele absurdo.

Engraçado...temos um senso de justiça tão apurado...mas ele parece desaparecer quando o assunto é pecado. Quando pregamos que toda a humanidade é culpada diante de Deus e que Ele se ira com nossas culpas, tapamos os ouvidos. Nós temos o direito da indignação, Deus só tem o direito de ficar calado e não perturbar o livre exercício de nossa liberdade.

Contudo, Deus não se sujeita aos limites impostos pela humanidade. Se nós queremos justiça, Deus a quer em um grau infinitamente superior. A diferença é que, enquanto muitas vezes nós somos impotentes para punir o erro, Deus com certeza irá punir todo mal cometido no mundo, inclusive aquele cometido por mim e por você.

A justiça de Deus existe
A imagem popular de Deus no Brasil é a de um velhinho bondoso, sentado em um trono muito distante e que perdoa todas as ofensas cometidas contra Ele. A figura do Juiz de vivos e mortos causa repulsa e é automaticamente associada ao fundamentalismo ou a uma visão má de Deus.

Mas, desde quando justiça é maldade? Mal é deixar impunes os erros cometidos. E a Bíblia é clara: Deus é justo. Aquele que peca se torna carente da glória de Deus (Romanos 3:23). Mas, sem a glória divina, também não é possível desfrutar adequadamente do favor de Deus, também conhecido como graça. Na verdade, o pecado quebra a comunhão entre Deus e os seres humanos:
Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. (Isaías 59:2)
Todas as nossas ações têm conseqüências, mesmo as menores. E isso vale para os nossos pecados. Não importa se foi uma mentira (Provérbios 19:9), uma olhada para a mulher do próximo (Mateus 5:28) ou uma ansiedade em relação ao futuro (Mateus 6:25). Essas ações são suficientes para nos separar de Deus.

E, se não houver arrependimento, essa separação será uma realidade eterna:
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade. (Mateus 7:21-23)
Mas há uma forma de escapar dessa condenação sem ferir a justiça de Deus.

A redenção que há em Cristo Jesus
Em Romanos 3:25, lemos que o sangue de Cristo foi proposto por Deus como propiciação. Essa palavra significa um sacrifício que afasta a ira, o castigo devido por algum pecado. Em outras palavras, Jesus Cristo se ofereceu para morrer no lugar dos pecadores:
Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nos, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados. (1 Pedro 2:21-24)
Nenhum pecado fica impune. A diferença é que uns pagarão integralmente a justa pena por seus pecados, enquanto outros terão sua dívida paga por Jesus. E quem são estes privilegiados? A resposta é: todos os que crêem (Romanos 3:22). Deus é o justificador daquele que tem fé em Jesus (Romanos 3:26).

O que significa exatamente ter fé em Jesus? Em primeiro lugar é reconhecer que Jesus é o Senhor, ou seja, que Ele é Senhor de nossas vidas, o nosso verdadeiro Dono, a quem devemos obediência. Em segundo lugar, é acreditar na verdade da morte e da ressurreição de Cristo Jesus:
Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. (Romanos 10:9)
E essa é uma verdade que vale para todos. Todos, sem exceção, somos culpados aos olhos de Deus. Todos os nossos pecados, sem exceção, são ofensas que ferem o direito de Deus diretamente. Ele é justo em nos condenar.

Mas a boa notícia (esse é o significado de Evangelho) é que nós podemos escapar dessa condenação, se crermos em Jesus Cristo. Por isso, arrependa-se de seus pecados! Deixe Jesus ser o Senhor de sua vida! Creia n'Ele! Esse é o caminho que o levará, no fim dos tempos, ao reino dos céus.

14 de abril de 2010

Eu acredito em zumbis!

Eles estão em todos os lugares: nos filmes, nos livros, nas histórias em quadrinhos e até mesmo em joguinhos de computador. Uma vez por ano, eles até fazem uma caminhada para se mostrarem a todos, dando mais uma prova cabal de sua existência. Não há como negar: zumbis existem!


O que você talvez não saiba é que estamos cercados de zumbis por todos os lados. Eles podem ser seus vizinhos, seus parentes, seus amigos ou colegas de trabalho. Talvez você mesmo seja um deles e não o saiba! Sim, zumbis não apenas existem, eles são muitos e estão em todo o lugar! Na verdade, é quase impossível que você não se encontre com um deles todos os dias.

Diz a cultura popular que zumbis são pessoas mortas que foram reanimadas. Embora mortos, eles andam, falam e, claro, amam as trevas e aborrecem a luz. São criaturas malignas e, normalmente, usadas por alguém.

Essa definição não é distante da realidade. Afinal, ela descreve exatamente como são as pessoas que não se submeteram à vontade de Deus.

Sem Deus, estamos mortos
Os seres humanos acham que a morte é um evento único, que só enfrentaremos quando a nossa existência física terminar. Na verdade, a morte é algo que todos nós enfrentamos enquanto estamos distantes de Deus. É o que diz o apóstolo Paulo:
Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados (Efésios 2:1)
Você pecou? Já olhou alguma mulher que não fosse a sua e cobiçou-a? Teve inveja de alguma amiga por causa do marido dela? Mentiu para não apanhar em casa? Xingou alguém ou falou mal dos outros sem razão? Então, para Deus, você morreu.

O pecado não é um capricho divino ou algo sem importância, que não machuca ninguém. Ele prejudica os outros, traumatiza vidas, ofende a Deus...e mata aquele que o comete:
porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
E este problema é universal:
pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. (Romanos 3:23)
Segundo a Bíblia, o pecado é a raiz de todos os males que acometem a criação. É graças a ele que adoecemos, envelhecemos e morremos. É por causa dele que produzimos comida suficiente para todos e milhões morrem de fome; que governantes enganam a sociedade ao invés de servi-la e maníacos sexuais matam e estupram adolescentes. O pecado transformou a humanidade em zumbis.

Zumbis são maus e odeiam a luz
Mas o mundo não é habitado por zumbis simpáticos, que só ficam gemendo e vagando por aí sem fazer mal a ninguém. Os homens são maus. E o que é pior: odeiam a luz.
O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras. (João 3:19-20)
A grande verdade é que ninguém suporta a verdade. Ou você conhece alguém que sente prazer quando os seus defeitos são expostos, que ama receber uma bronca quando erra? Não: escondemos a nossa maldade, os nossos erros, as nossas imperfeições. Queremos que todos nos considerem bons e, se possível, perfeitos.

E é por isso que os homens amam mais as trevas do que a luz. As trevas escondem, a luz revela. Ela mostra quem somos de verdade: pecadores miseráveis, mortos espirituais, zumbis horríveis, e não seres humanos em sua plenitude. Depois que a luz nos ilumina uma única vez, jamais seremos os mesmos: ou somos transformados ou mergulhamos de vez nas trevas, tentando esquecer quem somos de verdade.

Deixando de ser zumbi
Contudo, é possível que um zumbi se torne, enfim, um ser humano completo. Trata-se de um processo longo, que leva uma vida inteira e que só será concluído no fim dos tempos. E é muito simples: venha para a luz.

Mas que luz é essa: a do Sol, a elétrica...? Não, eu falo da verdadeira luz: Jesus Cristo.
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz, a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. (João 1:3-9)
Encontrar-se de verdade com Jesus não é uma experiência agradável no início. Ao irmos na direção daquele que é realmente Santo, tomamos consciência do quanto somos imperfeitos. Cristo nos confronta acerca do nosso pecado, questiona as nossas obras e mostra a nossa maldade, mesmo quando não fala nada. Não é à toa que, quando Pedro entendeu quem era Jesus, atirou-se aos pés do Mestre dizendo: "Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador" (Lucas 5:8).

Ainda bem que Jesus não ouviu a Pedro. A luz resplandece nas trevas, por isso o Senhor lhe disse: "Não temas; doravante serás pescador de homens". (Lucas 5:10). Jesus veio ao mundo para salvar os zumbis, desde que eles creiam n'Ele:
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. (João 3:16-17)
Jesus salvou o mundo quando sofreu o castigo do pecado no lugar daqueles que creem n'Ele:
Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. (Romanos 5:8)
Por causa do pecado, somos mortos-vivos. Andamos, respiramos, comemos, até nos reproduzimos...mas estamos mortos para Deus e sujeitos ao poder da morte. Jesus veio ao mundo, não para fazer curas e milagres ou belos discursos; Ele veio morrer, sofrer em nosso lugar o justo castigo pelos nossos pecados.

Mas Jesus morreu...e ressuscitou! E nós também vamos ressuscitar, não mais para sermos como zumbis. Seremos homens de verdade.
Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. (1 Coríntios 15:21-22)
Contudo, nem todos querem experimentar essa realidade. Nem todos creem em Cristo e acreditam que Ele é o Senhor de todos, o Filho de Deus que morreu pela humanidade. Preferem permanecer zumbis. E aí, fica a advertência divina:
Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus. (João 3:36)
Luz ou escuridão: qual caminho você irá seguir?

3 de março de 2010

A divindade de Cristo e a inerrância bíblica

Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. (João 5:39)
A sociedade contemporânea possui visões bem diferentes sobre Jesus e a Bíblia. Normalmente, a maioria das pessoas tem uma visão positiva sobre Jesus. Embora a divindade dele não seja reconhecida por todos, pelo menos o reconhecem como um grande mestre. Agora, em relação à Bíblia...o cenário é bem diferente. Um livro retrógrado, machista, manipulado e ultrapassado...acreditar na Bíblia é sinônimo de ignorância nos círculos acadêmicos e na classe média brasileira.

Essa discrepância também se reflete na teologia, especialmente nas áreas influenciadas pela neo-ortodoxia, como é o caso da igreja emergente. Para esses grupos, o encontrar-se com Jesus, o sentir a Jesus é muito importante, mas defender a inerrância e a infalibilidade da Bíblia é um fundamentalismo que só atrapalha o crescimento da Igreja.

Contudo, desprezar a Bíblia é menosprezar a maior e mais confiável fonte que temos sobre a vida e o ensino de Jesus. Mais do que isso: se a Bíblia é falha e contém erros, então não podemos afirmar que Jesus Cristo é Deus.

Jesus acreditava no testemunho da Escritura
Em João 5, após curar um paralítico, Jesus faz um sermão a respeito de Sua divindade. Que testemunhas poderiam falar que Jesus Cristi era, de fato, Deus, o Filho do Pai? A primeira testemunha era o próprio Cristo (Jo 5:31). A segunda era João Batista (Jo 5:32-35). A terceira eram as obras que Ele fazia (Jo 5:36). A quarta era o próprio Pai, que falava, vejam só, por meio da Escritura!
O Pai que me enviou, esse mesmo é que te dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma. Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque não credes naquele a quem ele enviou. Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. (João 5:37-39)
Como o Pai pode testificar a divindade do Filho, se o mundo não ouviu a voz d'Ele nem viu a Sua forma? Por meio da Palavra, ou mais precisamente, das Escrituras, da Bíblia.

Aqui, Jesus reconheceu que a Bíblia é a Palavra de Deus. Legitimou-a como sendo a forma pela qual o Pai dá testemunho d'Ele ao mundo. Se a Bíblia tem erros, então cremos em um Deus que também erra. Mas, se Ele erra, não pode ser "Deus", que é prefeito por definição. E aí, Jesus também não poderia sê-Lo, por nos apontar um testemunho falho e imperfeito.

Jesus acreditava no cumprimento perfeito da Escritura
Que valor devemos dar ao Antigo Testamento? Em que medida a Bíblia é confiável e perene? Para Jesus, a Bíblia é mais confiável e segura do que os céus e a terra:
Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. (Mateus 5:17-18)
O mundo passará, mas não a Palavra, este é o ensino de Jesus. Mais do que isso: Jesus viveria não para combater ou revogar a Escritura, mas sim para cumpri-la. Na verdade, o ensino do Cristo afirma que a grandeza de um homem se mede pela sua submissão à Bíblia:
Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. (Mateus 5:19)
Quem não crê na inerrância bíblica e passa esse ensino adiante, é considerado alguém mínimo por Jesus. Se a Bíblia possui falhas, então Jesus está profundamente enganado sobre como devemos medir a estatura espiritual de um ser humano.

Jesus acreditava nas histórias "absurdas" da Bíblia
Mas o que mais me chama atenção é que Jesus usou algumas das passagens mais fantásticas da Bíblia em seu ensino. A existência de Adão e Eva, o dilúvio e até mesmo o peixe engolindo o profeta Jonas...todos estes fatos que para o "cristão" pós-moderno não são nada...são preciosas bases em torno das quais Jesus ensina verdades importantíssimas.

A indissolubilidade do casamento e o amor monogâmico, por exemplo, podem ser vistos na criação de Adão e Eva:
Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. (Mateus 19:4-6)
Os homens devem se precaver para o dia do Juízo, porque será da mesma forma como foi o dilúvio:
Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim srá também a vinda do Filho do Homem. (Mateus 24:37-39)
A pregação de Jonas em Nínive e o fato do peixe tê-lo engolido por três dias são sinais para que creiamos na ressurreição de Jesus e nos arrependamos, em fé, de nossos pecados:
Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande pexe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra. Ninivitas se levantarão, no Juízo, com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui quem é maior do que Jonas. (Mateus 12:40-41)
Se achamos que o livro do profeta Jonas é uma novela, uma ficção (como alguns teólogos liberais pensam), então a fala de Jesus de que os ninivitas condenarão os incrédulos é uma grande ilusão, uma prova da simplicidade de um homem que acreditava em lendas como sendo verdade. Será que tal homem pode ser o Filho de Deus?

Conclusão
Estes fatos são suficientes para atestar uma ligação óbvia: a divindade de Jesus depende da inerrância bíblica. Não é possível chamar de Deus alguém que acredita que a Bíblia é a Palavra do Pai, que a considera a medida da estatuta espiritual das pessoas e baseia ensinos tão importantes em passagens que são consideradas uma fantasia pelo homem pós-moderno. Forçosamente, todo aquele que confessa a Jesus como Filho de Deus precisará reconhecer a Bíblia como um livro sem falhas. Ou então, terá que assumir a conseqüência lógica de rejeitar a divindade do Cristo.

Quanto a mim, mesmo que seja tachado de "pré-moderno" ou antiquado, prefiro crer como Jesus, até mesmo nas histórias mais fantásticas da Bíblia.

3 de fevereiro de 2010

Porque Ele é quem é, eu o adoro!

SENHOR, tu me sondas e me conheces.
Sabes quando me assento e quando me levanto;
De longe penetras os meus pensamentos.
Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar
E conheces todos os meus caminhos.
Ainda a palavra me não chegou à língua,
e tu, SENHOR, já a conheces toda.
Tu me cercas por trás e por diante
E sobre mim pões a mão.
Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim:
É sobremodo elevado, não o posso atingir.

Para onde me ausentarei do teu Espírito?
Para onde fugirei da tua face?
Se subo aos céus, lá estás;
Se faço a minha cama no mais profundo abismo,
Lá estás também;
Se tomo as asas da alvorada
E me detenho nos confins dos mares,
Ainda lá me haverá de guiar a tua mão,
E a tua destra me susterá.
Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão,
E a luz ao redor de mim se fará noite,
Até as próprias trevas não te serão escuras:
As trevas e a luz são a mesma coisa.

Pois tu formaste o meu interior
Tu me teceste no seio de minha mãe.
Graças te du, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste;
As tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem;
Os meus ossos não te foram encobertos,
Quando no oculto fui formado e entretecido
Como nas profundezas da terra.
Os teus olhos me viram a substância ainda informe,
E no teu livro foram escritos todos os meus dias,
Cada um deles escrito e determinado,
Quando nem um deles havia ainda.
Que precisoso para mim, ó Deus, são os teus pensamentos!
E como é grande a soma deles!
Se os contasse, excedem os grãos de areia;
Contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim.

Tomara, ó Deus, desses cabo do perverso;
aparati-vos, pois, de mim, homens de sangue.
Eles se rebelam insidiosamente contra ti
E como teus inimigos falam malícia.
Não aborreço eu, SENHOR, os que te aborrecem?
E não abomino os que contra ti se levantam?
Aborreço-os com ódio consumado;
Para mim são inimigos de fato.
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração,
Prova-me e conhece os meus pensamentos;
Vê se há em mim algum caminho mau
E guia-me pelo caminho eterno. (Salmo 139:1-24)
Em quem eu posso realmente confiar? Talvez essa seja uma das perguntas que mais afligem os brasileiros no século XXI. Muitos não sabem se têm mais medo dos bandidos ou dos policiais. Os políticos, que deveriam ser um exemplo para a sociedade, estão no fundo do poço da credibilidade. Empresários não são confiáveis por serem ricos, mas não se confia também em muitos movimentos chamados "sociais", que dizem defender os mais pobres. Liga-se a televisão, mas não se acredita no que dizem os telejornais. Até o amor virou dúvida. Como consagrou Vinicius de Moraes, "que seja infinito enquanto dure".

Mas essa dúvida sobre em quem confiar é antiga. E uma rápida análise da vida do rei Davi mostra isso. De herói por ter derrubado o gigante, Davi foi transformado em bandido, por representar uma ameaça ao rei Saul. Quando ele foi pedir ajuda aos sacerdotes do templo, o fato foi delatado ao rei, e oitenta e cinco pessoas morreram por tê-lo auxiliado. Ele livra a cidade de Queila das mãos dos filisteus, mas os habitantes que foram salvos por ele não hesitariam em entregá-lo nas mãos de inimigos. Se fosse olhar para o próprio passado, Davi aprenderia a desconfiar de quase todas as pessoas.

No entanto, havia uma pessoa em quem Davi confiava acima de todos os outros. Ele confiava plenamente em Deus. Era o Senhor quem deveria sondá-lo, conhecê-lo e guiá-lo. Somente Ele poderia cuidar dos caminhos de Davi.

O Onisciente me conhece
E por que Davi entregava o seu destino nas mãos do Senhor? A primeira resposta é que somente Deus conhecia profundamente o coração dele.

Davi abre o salmo reconhecendo que Deus o sonda e o conhece. Constantemente Deus olha para a vida do rei e o acompanha em todas as suas ações, quer ele esteja ativo ou passivo, andando ou deitado. Mais do que isso: até mesmo os pensamentos e as palavras de Davi são transparentes para Deus, que conhece todos os caminhos de seu servo, embora ele mesmo não soubesse de todos eles, a ponto de pedir que Deus visse se ele estava ou não em algum caminho mau.

O que Davi está reconhecendo aqui é que o Senhor conhece todas as coisas, o que é chamado de onisciência. Hoje, muitas pessoas não refletem mais nesse atributo e talvez até considerem essa meditação um exercício fútil e árido de alguns teólogos. Já há pastores e teólogos que vão mais longe e negam que o Senhor conheça o futuro. Ensinam um Deus que não é mais onisciente.

Mas, se é assim, como confiar que Deus sabe o melhor para nós? Como pedir que Ele nos mostre o mau caminho de nossa vida se Ele não sabe de tudo? Talvez Ele se engane em alguma coisa...

Contudo, não era assim que Davi pensava. Ele cria que Deus sabia de tudo, que Ele conhecia a Davi melhor do que ele mesmo. Por isso, Davi adorava ao Senhor.

O Onipresente está onde eu estou
Mas o Senhor não era apenas aquele que conhecia a Davi. Ele também o acompanhava, mesmo quando a última companhia desejada por Davi era a do Deus Vivo.

Não há como escapar do Senhor. A face de Deus e a presença do Espírito Santo estão em todos os lugares. Podemos subir ao céu ou descer aos abismos, ir até o Sol ou fugir para o meio dos oceanos, buscá-Lo na luz ou refugiar-se nas trevas. Deus continua a cercar-nos por trás e por diante, a mão d'Ele está posta sobre os Seus escolhidos, a quem Ele guia e sustenta o tempo todo, quer percebamos, quer não.

Na sociedade do século XXI, onde temos várias formas de nos comunicarmos com outras pessoas, a solidão e o isolamento continuam a afligir milhões. De fato, muitos se sentem jogados no mais fundo abismo, mesmo morando em um prédio de 20 andares e mais de 100 apartamentos ocupados. Para estes, Davi diz que o Senhor está perto, sendo a nossa companhia o tempo todo.

Por outro lado, muitos se levantam contra Deus e querem fugir dele. Correm de igrejas, rasgam Bíblias e evitam qualquer religioso que possa mencionar o nome de Deus. Para estes, Davi diz que é impossível fugir do Senhor e que nem mesmo o pecado pode mantê-Lo longe de seus escolhidos.

Porque o Senhor está em todo lugar, Ele está sempre comigo, me guiando e sustentando. Essa é a música do rei salmista. E, por isso, Davi adora ao Senhor.

O Onipotente dirige os meus passos
Deus conhece o coração dos homens e está sempre do lado deles. Mas, mais do que isso: Deus escreve, soberanamente, o destino das pessoas e intervêm em suas vidas. E, por isso, Davi o adora.

Ao contrário do homem contemporâneo, que se pretende senhor de seu destino e ignora a Deus em suas decisões, Davi reconhece, desde o início, que sua origem é divina. Foi o Senhor quem o formou, quem fez da substância informe um ser humano completo. Mais: antes do nascimento de Davi, Deus já havia escrito e determinado todos os seus dias. O Senhor, com as suas mãos, fez a Davi e escreveu o seu destino.

Porém, os seres humanos não reconhecem mais o trabalho de Deus na vida dos seres humanos. Mães abortam, imaginando que o fruto de seu ventre não é vida, que os embriões crescem apenas sugando a força do corpo materno e ignorando o trabalho de Deus. Os homens rejeitam a ideia de que Deus tenha escrito como deve ser as suas vidas, e num ato de "independência" se proclamam senhores de seus próprios destinos. E assim, se transformam nos homens perversos e rebeldes que Davi odeia. Tornam-se inimigos de Deus e inimigos de Seus filhos.

Davi, porém, cria no Deus Soberano e O servia. Ao proclamar como ele dependia de Deus e reconhecer o Seu poder de determinar o curso de sua existência, Davi proclamava servir a um Deus Onipotente, que pode todas as coisas, o Todo-Poderoso. E, por isso, ele pedia não só que o Senhor o conhecesse e provasse, mas também que o guiasse pelo caminho eterno. Suplicava que Deus interviesse em Sua vida para guiá-Lo pelo bom caminho.

Conclusão
Reconhecer que Deus é o Onisiciente, o Onipresente e o Onipotente não é um capricho de teólogos, um exercício mental vazio e estéril, sem relevância para o homem comum. Na verdade, meditar nessas verdades é reconhecer que precisamos de Deus, é enxergar que Ele é digno de nossa confiança, é perceber que nossa vida deve ser depositada em Suas mãos santas, pois somos incapazes de cuidar bem dela com nossas mãos frágeis e impuras.

Os verdadeiros cristãos adoram a Deus não apenas porque Ele nos faz o bem, mas acima de tudo porque olhamos para quem Ele é. E ao olharmos para a essência de Deus, aí sim começamos a entender as Suas obras e percebemos que n'Ele podemos confiar.

Soli Deo Gloria!

P.S: Peço perdão pelo "furo" das últimas quartas. É que alguns dos 5 Calvinistas estão correndo bastante nesse início de ano. E peço, desde já, orações pelas nossas vidas e por esses projetos. Obrigado!

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no 5 Calvinistas.

13 de janeiro de 2010

Onde está Deus quando a terra treme?

Peço perdão pelo tamanho do texto. Mas, quando lidamos com as catástrofes, é preciso pensar e refletir sobre muitas coisas. Por isso, peço a paciência dos leitores. A série "Bíblia e Predestinação" volta na semana que vem (ou no sábado). Hoje é preciso meditar sobre um outro assunto.
Onde estavas tu,
quando eu lançava os fundamentos da terra?
Dize-mo, se tens entendimento.
Quem lhe pôs as medidas,
se é que o sabes?
Ou quem estendeu sobre ela o cordel?
Sobre que estão fundadas as suas bases
Ou quem lhe assentou a pedra angular.
quando as estrelas da alva, juntas,
alegremente cantavam,
e rejubilavam todos os filhos de Deus? (Jó 38:4-8)

O dia hoje começou com o anúncio de mais uma tragédia. Um terremoto de 7 graus na escala Richter assolou o Haiti. Até o momento a estimativa é que mais de 100 mil pessoas tenham morrido, incluindo ao menos doze brasileiros, dentre eles uma das fundadoras da Pastoral da Criança, Zilda Arns. A tragédia se mostra ainda mais sinistra quando lembramos que o Haiti é um dos países mais pobres do mundo.

Esse tipo de desastre leva a uma pergunta: onde está Deus? Por que isso acontece?

Provavelmente um ateu encontraria aí a prova da não-existência de Deus. Para outros, o terremoto mostra um Deus impotente para evitar os desastres e socorrer a humanidade. Uma outra resposta seria a de que Deus é mau, por isso não impediu o desastre, mesmo tendo o poder para fazê-lo. Há ainda quem prefira deixar Deus fora dessa e culpar a Satanás pelo incidente.

No entanto, não é no intelecto humano que devemos buscar essa resposta, e sim na Bíblia.

Deus controla os fenômenos naturais
A primeira coisa que devemos entender é que o Senhor controla e governa todas as coisas, inclusive os fenômenos naturais do planeta Terra. A natureza não é uma força independente de Deus, cujo poder é tão grande a ponto de impedir ou desafiar os planos do Senhor. Secas e enchentes, terremotos ou maremotos, furacões e tempestades, tudo é controlado pelo poder divino.

Essa ideia é o centro da resposta que Deus dá quando Jó questiona a Sua justiça. O ser humano não conhece plenamente o universo criado por Deus e nem sabe explicar todas as leis que regulam o funcionamento da criação...como poderia então entender a forma como Deus dirige a vida das pessoas? Deus, no entanto, não apenas conhece, como Ele mesmo estabeleceu a Terra e tudo o que existe, fixando as leis que regem o mundo material. O Senhor é soberano sobre a terra, mas também sobre o mar (Jó 38:12-16), a morte (Jó 38:17), a luz e as trevas (Jó 38:19-20), os fenômenos climáticos (Jó 38:22-30), as estrelas e os céus (Jó 38:31-38) e os animais (Jó 38:39-39:30).

O terremoto no Haiti, assim como os deslizamentos de terra acontecidos no Ano Novo em Angra dos Reis e outros desastres naturais, todos eles estão debaixo do controle divino. Mais do que isso: eles foram decretados por Deus. Como disse Jesus:
Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais. (Mateus 10:29-31)
Um pardal só pode morrer se o Pai consentir. E é certo que um ser humano vale mais do que um bando inteiro de pássaros. Seria possível então que mais de cem mil pessoas morressem sem que houvesse nisso o consentimento do Pai?

Na verdade, a Bíblia vai além. Não apenas o terremoto, mas tudo o que acontece é fruto de um decreto ou determinação divina (já tratei mais dessa questão em outro post):
Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Salmo 139:16)

Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Daniel 4:35)

nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade... (Efésios 1:11)
Não é preciso dizer que Satanás causou esse ou qualquer outro desastre. Ainda que o diabo tenha sido o autor imediato, Deus é Aquele que controla todas as coisas, incluindo as ações de homens, anjos e até mesmo de seres inanimados, como a terra ou a água.

Deus tem direito de vida ou morte sobre os seres humanos
Se Deus tinha poder para impedir esse desastre, por que então Ele não o fez? Será que Deus foi mau por ter decretado que a terra tremeria no Haiti na noite do dia 12 de janeiro?

Certamente Deus não é mau. Ele tem um propósito em cada ato bom ou ruim que acontece no mundo. Não somos governados por um Ser arbitrário ou caprichoso, que mata ou salva pessoas injustamente. A razão pela qual Deus determina que esse tipo de desgraça aflija a humanidade é o pecado.

Doenças, envelhecimento, acidentes violentos, desastres naturais, a morte enfim...tudo isso é o justo castigo que Deus inflige aos seres humanos por causa dos nossos pecados. Como diz a Bíblia:
porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
Todos os seres humanos, sem exceção, incluindo loucos ou bebês de colo, são dignos de morte porque todos pecamos e nossa natureza já é marcada pelo erro desde que nascemos:
pois todos pecaram e carecem da glória de Deus...(Romanos 3:23)

como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. (Romanos 3:10-12)

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (Romanos 5:12)

Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe. (Salmo 51:5)
Na verdade, o salário do pecado não é a morte física, mas sim a morte espiritual, aquilo que a Bíblia chama de lago de fogo:
Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo. (Apocalipse 20:12-15)
Sei que essa ideia não é agradável. Para muitos, Deus poderia ser mais brando e dar um castigo menor aos seres humanos por causa do pecado. Uma eternidade de tormentos é um cenário muito mais assustador do que os tremores no Haiti ou até mesmo campos de concentração nazistas.

Contudo, o pecado é uma ofensa dirigida ao nosso Criador, a um Ser Perfeito, que criou um mundo perfeito. Mais do que isso, é uma ingratidão contra Aquele que sustenta todas as coisas. Se vivemos, respiramos, se fazemos qualquer coisa, é porque o Senhor nos dá condições. Em todas as coisas, inclusive nas mais básicas, a humanidade depende de Deus:
O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais...(Atos 17:24-25)

Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, (Hebreus 1:3)
Se um crime contra um desconhecido já é alvo de punição por parte de homens, imagine um crime cometido contra o Todo-Poderoso, de quem dependemos para absolutamente tudo?

Se esse argumento ainda não basta, precisamos sempre nos lembrar que Deus tem sobre nós o direito que um Criador tem sobre sua criação:
Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? (Romanos 9:20-21)

Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça. (Isaías 45:9)
O Senhor pode fazer com os seres humanos o que bem entender, assim como podemos fazer o mesmo com as coisas que nós inventamos. Mais do que isso: se o ser humano cria algo que se revela nocivo a ele, por acaso não destruímos essa invenção? Se um animal de estimação nos ataca, a maioria de nós não se livraria dele?

Deus, no entanto, é misericordioso. Embora Ele julgue, com justiça, os erros dos seres humanos, enquanto nós vivemos neste mundo ainda desfrutamos de uma condenação parcial por nossos erros. A fome, a depressão, a solidão...tudo isso ainda é mais leve do que a justa pena por nossos erros. Por isso o rei Davi podia dizer:
Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades...(Salmo 103:10)
Mas, uma hora todo ser humano se defronta com o juízo divino. E, como todos nós somos pecadores, qualquer um de nós pode perecer com uma enfermidade ou em um acidente ou catástrofe. Por isso, o Senhor pode dizer:
Vede agora que Eu Sou, Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão... (Deuteronômio 32:39)
Quando os desastres acontecem, o Senhor está apenas sendo justo. É preciso que nós entendamos que o Juiz é Deus, e os réus somos nós, e não Ele.

Deus chama os seres humanos ao arrependimento
Contudo, a justiça não é o único propósito de Deus em desastres assim. Para os vivos, essas catástrofes são um chamado de Deus ao arrependimento. Isso foi o que Jesus Cristo ensinou quando Pilatos assassinou a galileus no templo e dezoito pessoas morreram em um acidente:
Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam. Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. (Lucas 13:1-5)
A mensagem de Jesus é clara: se não nos arrependermos, então morreremos, cedo ou tarde, como os vitimados em desastres. Da morte física não podemos escapar, mas da condenação eterna sim, desde que haja arrependimento. Mas, o que é se arrepender?

Na Bíblia, arrependimento é mais do que a tristeza pelo erro cometido: é mudar de direção. A ideia é de alguém que para, dá meia volta e faz o inverso do que fazia antes. Mais do que isso: uma das palavras usadas é o grego metanoia, que significa "mudança de mente".

Na verdade é preciso mais que mudar a mente, é preciso mudar quem nós somos. Por isso, Jesus fala do novo nascimento:
Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. (João 3:5-6)
Na verdade, o arrependimento genuíno é uma graça dada pelo próprio Deus:
Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? (Romanos 2:4)
Como saber se essa bondade chegou até você? Simples.

Certamente você já pôde refletir aqui sobre como o pecado prejudicou a humanidade e como ele é algo sério e abominável aos olhos de Deus. Se você sente tristeza por causa disso, reconhece que é culpado diante do Senhor e deseja viver uma nova vida, escapando assim da ira do Senhor, então Jesus o está levando a arrepender-se.

Apesar de tantas catástrofes, lembre-se de que a maior de todas elas foi sofrida por Jesus Cristo. Em vida, Ele viveu como pobre, provavelmente perdeu cedo a José e foi perseguido pelos religiosos de sua época. Ele não pecou, mas foi espancado, torturado, humilhado e abandonado por seus discípulos. Ele morreu na cruz, com pregos nas mãos e nos pés, onde ficou pendurado por seis horas.

Mas tudo isso tinha um propósito: salvar pessoas. Cristo sofre, no lugar dos filhos de Deus, a pena que nós merecemos pelo pecado:
Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados por seu sangue, seremos por ele salvos da ira. (Romanos 5:6-8)
Há saída para a morte. Há livramento para o pecado. Mas isso é algo que somente Deus pode fazer. Somente Cristo pode sofrer o nosso castigo e somente Deus pode mudar a nossa mente. E a forma pela qual Deus faz isso é pela fé:
Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor, e em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para a justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. (Romanos 10:9-13)

Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)
Quando a terra treme, o morro desce ou o mar invade a terra, Jesus chama a humanidade para Si. Ele nos diz que algo ainda pior pode nos acontecer. Mas, em amor, Ele nos dá a saída. Nos mostra um caminho melhor. O caminho da cruz.

Deus chama a igreja a ajudar aos que sofrem
Andar com Jesus é viver uma nova vida, é mudar de mente, nascer de novo. E isso implica em uma nova atitude: a de amar o nosso próximo. Mesmo que o terremoto seja fruto da justiça de Deus, Ele espera que Seus filhos mostrem também a misericórdia do Senhor: ajudando a achar os desaparecidos, consolando os vivos, levando comida e remédios aos desabrigados, reconstruindo as casas destruídas, pregando o Evangelho. Como ordenou o Senhor:
Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas. (Mateus 7:12)
E, se a tragédia tiver levado filhos de Deus, que nos lembremos de que o Senhor age pelo sofrimento para nos aperfeiçoar:
E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. (Romanos 5:3-4)

Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. (2 Coríntios 12:9)
E, por mais que seja duro de acreditar, mas creiamos que, mesmo em meio ao mal, Deus age a nosso favor:
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Romanos 8:28)
Que possamos então, chorar com os que choram...no Haiti, em Angra dos Reis, no Rio Grande do Sul, em nossa rua. Orar por eles. Ajudarmos com o que pudermos, inclusive abrindo a casa ou dando dinheiro. E mostrando aos que sofrem que há um Deus que pode nos livrar da morte.

Louvado seja o nosso Deus...que está sempre presente...mesmo quando a terra treme.

Helder Nozima é pastor presbiteriano, blogueiro do Reforma e Carisma e escreve às quartas-feiras no 5 Calvinistas.