15 de junho de 2011

Jesus, Paulo e os mortos do “Horizonte Utópico”

Em minha última postagem (aqui) fui duramente criticado pelos defensores de um certo herege tupiniquim que há muito descambou (se no corpo ou fora do corpo eu não sei) para o liberalismo teológico. Disseram que me faltou amor em lidar com ele (e com quem a ele se alinha), e eu precisei explicar que é justamente por amar – novamente digo: a Deus primeiramente, e consequentemente ao próximo – que eu disse o que disse, e não me arrependo de assim tê-lo feito. Ora, Jesus chamou os fariseus de nada menos do que “raça de víboras”; Paulo chamou os hereges de sua época de “lobos vorazes”; e Pedro os chamou de cães e porcos, somente para citar uns poucos exemplos. Sobre essa questão do amor, recomendo aos leitores o excelente post do Rev. Augustus Nicodemus (aqui). Daqui a pouco volto com uma interessante colocação de Calvino sobre essa questão.

Voltando ao herege, alguns amigos me recomendaram a deixá-lo pra lá; que não vale a pena ficar discutindo sobre ele, pois isso só lhe aumenta a popularidade (é o tal do “falem bem, falem mal, mas falem de mim”). Inclusive um mais chegado me recomendou a deixar os mortos enterrarem seus próprios mortos, conselho que eu vinha seguindo meio que à risca. Só que meus dedos e meu estômago (principalmente este) se inquietaram diante de um vídeo no qual o herege que rima com tupiniquim destila um veneno mais mortal ainda, em sua aberta negação da segunda vinda de Cristo como fato histórico – o que, no fim, das contas, é uma negação da parousia em todos os aspectos. Se alguém duvida, clique aqui. Mas só clique se realmente você tiver estômago para ouvir o que ele diz lá.

Visto que mal de estômago é algo que realmente incomoda aqueles que amam a Verdade (cf. Timóteo, hehe!), vou poupar meus queridos leitores de verem o vídeo na íntegra. Abaixo, transcrevo algumas falas heréticas do nosso herege nacional.

- Eu não creio na volta de Cristo do tipo “eu creio que Jesus vai voltar hoje”; mas eu creio na volta de Cristo como um modelo motivador das ações da igreja para que se cumpra o reino de Deus entre os homens.

Aos 5min e 25ss. Negrito meu.

- O que é a mensagem da volta de Cristo? É tirar a gente desse conforto de que Cristo volta e resolve todos os problemas do mundo e nos jogar na direção da construção do reino de Deus entre os homens.

Nesse momento alguém o interrompe e diz: “em vez de ser um anestésico passa a ser um estimulante?”, ao que ele responde: “Estimulante. Por que Paulo combate isso na igreja dos Tessalonicenses. Ora, se Cristo vai voltar, pra que eu vou trabalhar? Se Cristo vai voltar, pra que que eu tenho que lutar contra a escravatura?” [etc.]…

Dos 8min e 30ss em diante. Negritos meus.

Devo parar por aqui. Se quiserem embrulhar seus estômagos por si mesmos, fiquem à vontade e vejam lá o vídeo. Mas selecionei as falas supracitadas para justificar o título do post, e também para dar uma breve satisfação aos colegas que sugeriram que fizéssemos críticas mais específicas ao herege, pelo que segue uma breve.

O herege lança mão de um expressão usada por Jurgen Möltmann, um teólogo alemão liberal do século XX, para embasar sua interpretação da parousia. A expressão é “horizonte utópico”, que, como o próprio nome sugere, afirma ser mera utopia as promessas de Cristo quanto a uma segunda vinda literal e histórica – algo que lembra e muito a tal “demitologização” proposta por Bultmann (com a diferença de que Bultmann, em minha opinião, sabia ser herege). O “único” problema com essa perspectiva é que ela simplesmente não é bíblica. Não preciso ler a Teologia da Esperança de Möltmann para me certificar de que nada existe de esperançoso em sua proposta, que o nosso herege nacional abraçou. Fico até consternado em ter que provar biblicamente o desvario desse irresponsável teológico, mas aqui seguem alguns textos em que o próprio Jesus afirma sua segunda vinda literal (versão da NVI):

    • Mt 16.27: Pois o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um de acordo com o que tenha feito.
    • Mc 8.38: Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.
    • Lc 21.33-35: O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão. Tenham cuidado, para que os seus corações não fiquem carregados de libertinagem, bebedeira e ansiedades da vida, e aquele dia venha sobre vocês inesperadamente. Porque ele virá sobre todos os que vivem na face de toda a terra.
    • Jo 14.1-3: Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver.
    • Ap 22.12: Eis que venho em breve! A minha recompensa está comigo, e eu retribuirei a cada um de acordo com o que fez.

Ora, se o horizonte que Jesus estabeleceu ao falar da sua segunda vinda é mesmo “utópico”, como querem os hereges alemão e brasileiro (e tantos outros ao redor do mundo), então o próprio Cristo ficará fora do reino que ele mesmo construiu, uma vez que, como ele mesmo afirma, “fora ficam os cães, os que praticam feitiçaria, os que cometem imoralidades sexuais, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira (Ap 22.15). Logo, seja Deus verdadeiro e mentiroso todo homem – especialmente esses hereges (cf. Rm 3.4).

Mas o que mais me espantou de fato foi que o herege não foi apenas herege, mas um baita de um mau leitor (pra não dizer outra coisa!). Ele resolveu apelar para Paulo, como se o apóstolo fosse mesmo trair Seu Mestre em prol de um falso mestre. Ele diz que Paulo tinha em mente o tal “horizonte utópico” quando combateu o ócio dos tessalonicenses (em 2 Ts 3.10), que estavam, segundo o herege, se fiando na expectativa do retorno (literal) de Cristo. Só que o engano dos tessalonicenses não foi o de que Cristo ainda vai voltar, e sim o de que a parousia já havia ocorrido (cf. 2 Ts 2.1-11). Será que seria pedir demais ao herege que ele leia antentamente o contexto mais amplo da passagem, ainda que dele não venha tirar nenhum proveito para suas monstruosidades teológicas? E mais: se Paulo realmente pregou um “horizonte utópico” ele deverá fazer companhia ao “Cristo” mentiroso, que nos deu utopias para crer.

É por essas e outras que repito: não posso amar esses hereges, porque eles insultam violentamente o Deus das Escrituras. Não dá para ter paz com quem promove a confusão dentro da igreja. E aqui termino com o que disse Calvino sobre essa questão do amor, conforme prometido supra. Trata-se de um trecho do seu comentário a Rm 12.18 (“se possível, quanto a depender de vós, tende paz com todos os homens”):

Que não nos esforcemos por conquistar o favor humano de maneira tal que nos esquivemos de incorrer no ódio de alguém por amor a Cristo, como às vezes se faz necessário. [...] É conveniente que toleremos muito, perdoemos as ofensas e voluntariamente suportemos o extremo rigor da lei por amor à paz, contanto que estejamos preparados para lutar corajosamente, como às vezes nos é requerido. Os soldados de Cristo não podem gozar de perene paz com o mundo, porque este é governado por Satanás.

Não somente não quero, como também não posso gozar de perene paz com os hereges, porque estes são governados por Satanás, e não por Cristo. Mas devo me prontificar em suportar, no temor do Senhor e por Sua Graça, a sanha daqueles que vivem a bajular os que propagam a mentira, ainda que se trate de gente morta.

Que Deus nos ajude!

Soli Deo Gloria!

10 comentários:

  1. Leonardo isso não é a unica loucura que ele fala. Veja o video 1.2 dessa palestra a partir do minuto7:00 em diante. Isso foi muito pior, fiquei realmente pasmo quando ouvi. Cheguei a ouvir 4 vezes para garantir que estava ouvindo aquilo.

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  2. Leo,como disse em particular...


    Sendo (imagino) um dos que aconselhou vc a deixa-lo para lá, vou reinterar o conselho, deixe-o para lá (Mt 18;17)! Entretanto, erros grotescos e palavras diabólicas como essas, devem sim ser rechaçados.

    Sendo quem é, não espero nada diferente disso.

    Em Cristo, aquele que virá em majestade e glória dos Céus exatamente como para lá subiu, abraços.

    Esli Soares

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  3. Muito bom, Leonardo.
    Faço coro com suas palavras.
    Em tempo ainda, houve um erro de digitação na frase: "Ele resolveu apelar para Paulo, como se o apóstolo fosse mesmo trair SSSeu Mestre".

    Um abraço!
    Filipe Luiz C. Machado
    www.2timoteo316.blogspot.com

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  4. Filipe,

    obrigado pelo comentário e pela observação em tempo. Já corrigi o erro. =)

    Abraços!

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  5. Leonardo ...
    Ficou muito ...
    Ficou direto,e coloca o indivíduo (para não dizer meliante) no lugar dele ...Limbus..

    Abraços!

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  6. Anderson,

    grato pelas palavras. =)

    Abraços!

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  7. De início, gostaria de deixar claro que não se trata de defender quem está sendo apontado como herege.
    Esclarecido isso, adiante.
    Li "Teologia da Esperança", de Jurgen Möltman, até por indicação de Ricardo Gondim, a quem li também sofregamente durante algum tempo, e daquele livro chamou-me mais a atenção a noção de "já e ainda não".
    Preocupou-me, logo que comecei a militar no meio evangélico, como antes, em outras plagas religiosas, a tendência que temos em reportarmo-nos sempre à parousia, ou mesmo à vida na Glória após a morte, e deixarmos essa vida aqui meio que ao sabor da vontade de Deus. Talvez uma aplicação distorcida do "o futuro a Deus pertence", mas uma visão muito comum entre cristãos e até mesmo entre adeptos de outra religião - o que talvez tenha autorizado Marx a classificar a religião como ópio do povo.
    Essa forma de se portar diante da realidade sempre tem me incomodado e o conceito do "já e ainda não" pareceu-me naquele momento uma saída, sem, por óbvio, a negação da historicidade da parousia.
    Como então evitar essa alegada - mas infelizmente vivida efetivamente por muitos cristãos - opiacidade da religião, e no nosso caso, do Cristianismo, quando vemos isso ser utilizado muito habilmente por líderes religiosos e governantes história do mundo afora?
    Um exemplo prático: a ecologia. Como levar os cristãos a terem preocupações com e atitudes concernentes à ecologia, cujos efeitos em geral são de médio a longo prazo, se a cada culto se está anunciando que Jesus pode voltar ainda durante este culto, ou esta noite, ou já agora? O conceito do "já e ainda não", que conheci com Möltman, não seria útil, e até necessário, nessa hipótese?
    Abração.

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  8. Luciano,
    Entendo sua preocupação, mais pelo que posso chamar de "religiosidade popular" que por razões conceituais.
    Digo isso porque não vejo, por onde passo (e onde posso conversar, devo dizer), a ausência do "já, mas não ainda". A mensagem de que já estamos na eternidade sem ainda termos saído do tempo é constante. Em outras palavras, embora possa concordar com sua preocupação, não é esta visão de curto prazo o que vejo. Ou melhor, não pelo motivo mencionado.
    Por um lado, o que vejo é um apego ao tempo, ao aqui e agora. Não sei se a eternidade está mesmo nos corações de muitos. Por outro lado, o que vejo, para ser bem sincero, é justamente o contrário do que você vê. A mim me parece que há uma total ausência de um sentido de urgência. Ainda que se fale da iminência da volta do Senhor, vive-se como se Ele nunca voltasse.
    Enfim, não sei se estou a discordar de você. Creio mesmo é que tanto o sentido de urgência quanto uma ação que corresponda ao "não ainda" devem ser a vida do cristão. É só que sinto mais falta de ver o primeiro que o segundo.
    NEle,
    Roberto

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  9. Luciano,

    o Roberto sintetizou bem o meu pensamento, pelo que me calo por ora.

    Abraços!

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