10 de novembro de 2009

A Bíblia e a Predestinação [0]: A importância da discussão

Qual a diferença entre acreditar na predestinação ou no livre-arbítrio? Muitas pessoas acreditam que não há diferença prática e que debater o assunto é uma especulação intelectual estéril, fútil e que desvia os cristãos de seus deveres de fé. Eu mesmo ouvi isso de professores de Teologia e colegas de seminário.

Nada poderia estar mais distante da verdade. Quer nos posicionemos de modo consciente ou não, acreditar na predestinação dos salvos ou na salvação pelo livre-arbítrio influencia a nossa evangelização, a nossa maneira de encarar as dificuldades da vida, de orar e até mesmo nossa concepção sobre Deus e o homem.

Se os assuntos mais importantes da Teologia Cristã, aqueles que definem se uma igreja é ou não ortodoxa, são a teologia própria (estudo de Deus e Seus atributos) e a soteriologia (doutrinas da salvação), então a predestinação se reveste de uma importância enorme.

Sim, porque a predestinação é domínio da teologia propriamente dita, em seu sentido mais estrito. Se Deus predestina ou não pessoas à salvação ou ao inferno, isso afeta a forma como vemos o amor e a justiça divina. Mais importante: afeta como enxergamos a soberania de Deus e o uso de Sua onipotência. Deus exerce todo o Seu poder sobre a vontade dos homens (calvinismo) ou restringe essa ação para resguardar a liberdade humana (arminianismo)?

Por outro lado, se a predestinação existe, a soteriologia também se defronta com questões difíceis. Cristo morreu apenas pelos seus escolhidos (calvinismo) ou por todos os homens em geral (arminianismo)? A salvação individual é decidida antes dos tempos (calvinismo) ou no momento em que o ser humano se defronta com Deus (teísmo aberto, uma espécie de hiperarminianismo)? Se a predestinação existe, o predestinado não perde a salvação (calvinismo) ou pode perdê-la (arminianismo)?

Todas essas questões influenciam profundamente o dia-a-dia. Devido às fortes convicções na predestinação, homens como Jonathan Edwards e Charles Spurgeon não se preocuparam muito em agradar a ouvintes e concentraram seus ministérios na pregação da Palavra. Por outro lado, hoje em dia, igrejas que acreditam no livre-arbítrio têm se concentrado em pregar de modo agradável aos ouvintes, apostando em mensagens motivacionais, ambientes agradáveis e sermões que não espantem as pessoas.

Quando um filho deixa a igreja, a mãe precisará buscar consolo, ou na idéia de que Deus é Senhor de todas as coisas ou na de que a liberdade humana poderá trazer de volta o rejeitado. O adolescente vai entrar na faculdade crendo no Deus que escreveu todos os seus dias antes que existissem ou acreditando que sua vida é um livro aberto, de final indefinido, aguardando que ele decida como a história vai terminar.

Espero que os exemplos acima mostrem a importância da discussão. Queria deixar aqui duas definições minhas para começar o debate:
Livre-arbítrio é a crença de que o homem é livre para se submeter ou rejeitar a Deus, sem qualquer tipo de ação divina sobre Sua vontade. Se ele será salvo ou não, a decisão final pertence a ele, que escolherá entre servir a Deus ou rejeitá-Lo. É o ponto de vista defendido no arminianismo.

Predestinação é a doutrina de que Deus escolheu, antes do início dos tempos, aqueles que seriam salvos. Deus age diretamente sobre a vontade de Seus escolhidos para levá-los a salvação. A decisão final sobre a redenção humana é de Deus, que decide quem Ele vai ou não salvar. É o ponto de vista defendido no calvinismo.
Qual o critério que pretendo usar? A Bíblia. E aqui, quero fazer um apelo. O critério último pelo qual devemos escolher a predestinação ou o livre-arbítrio não deve ser:

- A fé de quem nos levou a Cristo;
- A confissão de fé de nossa igreja ou a opinião de teólogos;
- Os conceitos de bem e mal definidos na sociedade secular;
- Aquilo que nossa razão considera bom ou mau.

Apenas a Palavra de Deus deve prevalecer. É Deus quem diz o que é bom ou mau, não nós. Se nos atermos a isso, então será possível entender o que a Bíblia fala sobre o assunto.

Afinal, se as grandes correntes da cristandade chegaram a um acordo sobre a doutrina da Trindade, que é muito mais difícil e complexa, creio que é sim possível descobrir se a Bíblia é favorável ou não à predestinação. E este deve ser o assunto de meus próximos posts no 5 Calvinistas. A série começa aqui.

9 comentários:

  1. Pr. Helder,

    Parabéns pelo artigo, bastante esclarecer quanto as questões em debate, além de destacar a importância do mesmo. Gostei sobremaneira das definições, que quase sempre são omitidas, especialmente a definição de livre-arbítrio por parte dos seus defensores.

    Para contribuir com o tema, nos próximos dias publicarei aqui um artigo de 2007: "Breve comparação entre arminianismo e calvinismo".

    Em Cristo,

    Clóvis

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  2. Infelizmente, a grande praga do arminianismo grassa o evangelicalismo contemporâneo, reduzindo quase que ao "remanescente" àqueles que professam a verdadeira fé, asquela "que de uma vez por todas foi entregue aos santos".

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  3. Clóvis,

    Definir é sempre importante, para evitar confusões, não é mesmo? Aguardo aqui a republicação de seu texto.

    Reformado,

    De fato, o arminanismo é predominante. Mas é debatendo que vamos mostrando qual a verdadeira fé entregue aos santos.

    Abraço.

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  4. Graça e paz!
    “Andando” por aí cheguei até o seu Blog e quero te parabenizar pela bênção que pude ver aqui.
    Já estou te seguindo e aos poucos venho conhecer mais os seus textos.
    Será uma honra te receber no pastoragente.blogspot.com, e se quiser segui-lo vai ser uma alegria pra mim.
    No blog conto da forma mais realista e divertida possível as realidades, dúvidas e experiências de uma simples pastora como eu.
    Fique na paz. Um abraço.

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  5. Helder,

    Parabéns por ter acertado em cheio, tanto na escolha do tema, quanto na singular propriedade com que você abordou as questões introdutórias. Você foi sucinto, mas extremamente exato em suas palavras. Aguardo ansioso (nesse caso acho que ansiedade não é pecado - rsrs!) pelas próximas postagens.

    Abraços!

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  6. Olá, minha opinião a respeito deste assunto é: Quem somos nós, criaturas, tão mínimas perante um Deus tão soberano, que tudo vem dele, até mesmo principados e potestades, quem somos pra ter capacidade de escolher ou não Deus? Se tudo vem dele, até mesmo nossa fé vem dele, não por obras, nem por méritos, mas pela sua infinita graça e misericórdia por nós. Acredito na pré-destinação, não creio que somos capazes para escolher crer ou não. Até mesmo porque largas são as portas para o inferno, e a maioria crê como os arminianos. Parabéns pelo seu artigo... Graça e paz

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  7. Pastoragente,

    Obrigado pela visita. :-)

    Leonardo,

    Espero que a introdução não seja o ponto alto, rs. Mas creio que será fácil enxergar a base bíblica da predestinação.

    Anônimo,

    Grato pelo comentário, mas, da próxima vez, identifique-se, ok?

    Abs a todos.

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  8. meu nome é clodoaldo. sou presbiteriano, a pergunta é: Todo aquele que NELe crê não será confundido, crê no Senhor e serás SALVO tu e tua casa. Todos os que crêem foram eleito? Basta crêr para ser eleito? Como fica uma pessoa que cre em Cristo e não é eleito. Gostaria de uma explicação sucinta. Por oportuno. abraço o calvinismo, mas tenho algumas dúvidas. Na graça e paz do Senhor, aguardo uma possível informação. clodoaldo

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  9. Clodoaldo,

    1) Todos os que creem realmente e perseveram até o fim são, de fato, eleitos.

    2) Não há possibilidade de alguém crer, verdadeiramente, em Cristo e não ser eleito. Se "creu" e não é eleita, é porque nunca creu de verdade.

    3) Basta crer para ser eleito não é uma pergunta adequada. Quem é eleito já foi escolhido por Deus antes da fundação do mundo, e não pode fazer nada para mudar essa escolha divina. No tempo predeterminado por Deus, Ele dá a fé ao eleito e ele crê.

    Pretendo explorar melhor estes assuntos nos próximos posts da série. Mas, se você é presbiteriano, creio que seu pastor poderá lhe explicar melhor. Uma outra opção é ler, com atenção, a Confissão de Fé de Westminster e os catecismos da igreja.

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